{"id":291,"date":"2019-09-24T11:07:41","date_gmt":"2019-09-24T14:07:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/?page_id=291"},"modified":"2019-10-17T15:34:19","modified_gmt":"2019-10-17T18:34:19","slug":"eixo-5","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/eixo-5\/","title":{"rendered":"Eixo 5"},"content":{"rendered":"\n<h2>MINORIAS, DI\u00c1SPORAS,\nFRONTEIRAS E TRADU\u00c7\u00c3O CULTURAL<\/h2>\n\n\n\n<p><em>Gerson Neumann, Liliam Ramos, Rafael Guimar\u00e3es e Rita Schmidt<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A identidade nacional, uma das quest\u00f5es mais\ndiscutidas no contexto ocidental nos s\u00e9culos XIX e XX, sofreu, nas \u00faltimas\nd\u00e9cadas, um significativo redimensionamento e uma ampla problematiza\u00e7\u00e3o de suas\npremissas, na esteira do processo de globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cultural. Os\nelementos balizadores da ideia de Estado-na\u00e7\u00e3o \u2013 o uso de uma mesma l\u00edngua, a\ndemarca\u00e7\u00e3o precisa do espa\u00e7o territorial e o compartilhamento de uma cultura\nhomog\u00eanea \u2013 h\u00e1 muito n\u00e3o configuram mais \u201cportos seguros\u201d onde se possa atracar\na nau identit\u00e1ria. Em seu lugar, o multilinguismo e as quest\u00f5es de tradu\u00e7\u00e3o\n(cultural), a concep\u00e7\u00e3o de fronteira como um locus m\u00f3vel e poroso, bem como o\ncar\u00e1ter h\u00edbrido e plural que marca as pr\u00e1ticas culturais contempor\u00e2neas\nassumiram o protagonismo, esfacelando a arcaica concep\u00e7\u00e3o de pertencimento\nnacional como algo \u201cnatural\u201d. Para muito al\u00e9m da j\u00e1 remota fissura instaurada\npor Benedict Anderson (2008) e seu entendimento da na\u00e7\u00e3o como uma comunidade\nimaginada, a nossa rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o geogr\u00e1fico, pol\u00edtico e simb\u00f3lico\nconstitui uma narrativa em constante processo de (re)escrita. Nesse sentido,\ndistintas perspectivas te\u00f3ricas t\u00eam apontado para dire\u00e7\u00f5es nem sempre\nconvergentes, mas que, a despeito disso, parecem estabelecer um di\u00e1logo entre\nsi, na medida em que todas interrogam o car\u00e1ter uno e sem fissuras da voz e do\ncorpo que materializa a identidade nacional. Exemplos dessa mirada cr\u00edtica\nacerca do nacional, bem como da rela\u00e7\u00e3o deste com o global s\u00e3o as reflex\u00f5es de\nStuart Hall (2009) sobre os movimentos de di\u00e1spora, de Homi K. Bhabha (1998,\n2011) sobre a diferen\u00e7a e a tradu\u00e7\u00e3o cultural, de Walter Mignolo (2000) sobre a\nideia de gnose liminar, de An\u00edbal Quijano (2000) sobre a colonialidade do saber\ne o bilinguajamento e de Edward Said (2007) sobre o orientalismo.\nParalelamente, nomes como os de Simone de Beauvoir (2009), Elaine Showalter\n(1977), Luce Irigaray (2017) e Judith Butler (2015), que discutem as quest\u00f5es\nde g\u00eanero e as rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o e viol\u00eancia do sistema patriarcal e\nheteronormativo, bem como o pensamento de Frantz Fanon (2008), Angela Davis\n(2016), Djamila Ribeiro (2017) e Achille Mbembe (2018) sobre a negritude, al\u00e9m\nda aposta de Silvia Cusicanqui (2018) no termo <em>ch\u2019ixi<\/em> ao refletir sobre os processos culturais que atingem os\npovos origin\u00e1rios latino-americanos, contribuem, juntamente com outras pensadoras\ne outros pensadores, no esfor\u00e7o de compreens\u00e3o do papel que essas vozes e\nsujeitos postos \u00e0 margem desempenham no processo de constru\u00e7\u00e3o de uma\nidentidade coletiva n\u00e3o homogeneizada e n\u00e3o excludente. No bojo dessa reflex\u00e3o,\neste eixo tem\u00e1tico est\u00e1 aberto a trabalhos que versem sobre as rela\u00e7\u00f5es que a\nliteratura e as demais manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas estabelecem com o processo de\ninternacionaliza\u00e7\u00e3o, com \u00eanfase nas quest\u00f5es de fronteira e interc\u00e2mbios\nculturais, de di\u00e1spora e migra\u00e7\u00f5es, de minorias e sujeitos postos \u00e0 margem, bem\ncomo aspectos referentes \u00e0 constru\u00e7\u00e3o e problematiza\u00e7\u00e3o de identidades\nculturais, \u00e9tnicas e de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ANDERSON, B. Comunidades imaginadas: reflex\u00f5es sobre a origem e a difus\u00e3o do nacionalismo. Tradu\u00e7\u00e3o de Denise Bottmann. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2008.<\/li><li>BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.<\/li><li>BHABHA, Homi. O bazar global e o clube dos cavalheiros ingleses. Organiza\u00e7\u00e3o de Eduardo Coutinho; introdu\u00e7\u00e3o de Rita Terezinha Schmidt; tradu\u00e7\u00e3o de Teresa Dias Carneiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. <\/li><li>BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradu\u00e7\u00e3o de Myriam \u00c1vila; Eliana Louren\u00e7o de Lima Reis; Gl\u00e1ucia Renate Gon\u00e7alves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.<\/li><li>BUTLER, Judith. Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. 8. ed. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar. Rio de Janeiro : Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2015.<\/li><li>CUSICANQUI, Silvia R. Un mundo ch&#8217;ixi es posible. Ensayos desde un presente en crisis. Argentina: Tinta Lim\u00f3n, 2018.<\/li><li>DAVIS, Angela. Mulheres. Ra\u00e7a e Classe. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2016.<\/li><li>FANON, Frantz. Pele negra, m\u00e1scaras brancas. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.<\/li><li>HALL, S. Da di\u00e1spora. Identidades e media\u00e7\u00f5es culturais. Liv Sovik (Org.). Tradu\u00e7\u00e3o de Adelaine La Guardia. Belo Horizonte: UFMG, 2009.<\/li><li>IRIGARAY, Luce. Este sexo que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um sexo: sexualidade e status social da mulher. Tradu\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia Prada. S\u00e3o Paulo: Senac S\u00e3o Paulo, 2017.<\/li><li>MBEMBE, Achille. Cr\u00edtica da raz\u00e3o negra. Tradu\u00e7\u00e3o de Sebasti\u00e3o Nascimento. S\u00e3o Paulo : n-1 Edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/li><li>MIGNOLO, Walter. Local histories \/ Global designs: coloniality, subaltern knowledges, and border thinking. New Jersey: Princeton University, 2000.<\/li><li>QUIJANO, An\u00edbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y Am\u00e9rica Latina. In: LANDER, Edgardo (org.) La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000.<\/li><li>RIBEIRO, Djamila. O que \u00e9 lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.<\/li><li>SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.<\/li><li>SHOWALTER, Elaine. A literature of their own: British women novelists from Bronte to Lessing. Princeton, N.J. : Princeton University Press, 1977.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<h2>EIXO 5 \u2014 DATA E ORDEM DAS COMUNICA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n\n\n\n<h3><strong>23 de outubro (quarta), sess\u00e3o A<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 701.    <\/p>\n\n\n\n<p>1<strong> As Am\u00e9ricas imaginadas em&nbsp;<\/strong><em><strong>The underground railroad<\/strong><\/em><strong>, de Colson Whitehead<\/strong>: discutindo a tradi\u00e7\u00e3o das narrativas de escravos afro-americanos no exerc\u00edcio pol\u00edtico das vozes \u201cex-c\u00eantricas\u201d, Isabel Speggiorin Devincenzi<\/p>\n\n\n\n<p>2 <strong>A prostituta sob o signo da forma-mercadoria no teatro de Artur Azevedo<\/strong>, Rodrigo C\u00e9zar Dias<\/p>\n\n\n\n<p>3 <strong>O custo para ser reconhecido como sujeito em <\/strong><em><strong>O Fim de Eddy<\/strong><\/em><strong>, de \u00c9douard Louis<\/strong>, Lucas Demingos de Oliveira<\/p>\n\n\n\n<p>4 <strong>Tem coisas que n\u00e3o se dizem! A tradi\u00e7\u00e3o oral antilhana e seus n\u00e3o-ditos<\/strong>: an\u00e1lise do conto Julina, transcrito e traduzido por Ina C\u00e9saire, J\u00e9ssica de Souza Pozzi<\/p>\n\n\n\n<p>5 <strong>A problematiza\u00e7\u00e3o da maternidade como constitui\u00e7\u00e3o da identidade feminina em Buchi Emecheta e Lya Luft<\/strong>, Rosiana Kist<\/p>\n\n\n\n<p>6 <strong>Rompendo o sil\u00eancio<\/strong>: poesia e (r)exist\u00eancia em <em>\u00c1guas da Caba\u00e7a<\/em>, de Elizandra Souza, Francine Vargas dos Santos Damasceno<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>23 de outubro (quarta), sess\u00e3o B<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 404.<\/p>\n\n\n\n<p>7 <strong>O deslocamento como um met\u00e1fora da cisnormatividade<\/strong>: Reflex\u00f5es sobre as personagens travestis em tr\u00eas narrativas brasileiras contempor\u00e2neas, Virg\u00ednea Novack Santos da Rocha<\/p>\n\n\n\n<p>8 <strong>Express\u00f5es em l\u00ednguas tradicionais na tradu\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias africanas de l\u00edngua inglesa<\/strong>: pensando escolhas e estrat\u00e9gias tradut\u00f3rias, Carolina Kuhn Facchin<\/p>\n\n\n\n<p>9 <strong>Pode o subalterno se autobiografar?<\/strong>, Adriana Kerchner da Silva<\/p>\n\n\n\n<p>10 <strong>O eu, o outro e a orelha na garrafa com \u00e1lcool<\/strong>, Pietro Gabriel dos Santos Pacheco<\/p>\n\n\n\n<p>11 <strong>Travessias do Atl\u00e2ntico Negro<\/strong>: navegando com Fradique Mendes, Dilma Beatriz Rocha Juliano<\/p>\n\n\n\n<p>12&nbsp;<strong>Ayaan Hirsi Ali&nbsp;<\/strong>\u2014 existir pela palavra, Patr\u00edcia Ribeiro Brasil<\/p>\n\n\n\n<p>13 <strong>Pelos vales desencantados da dor<\/strong>: a viol\u00eancia contra as mulheres em&nbsp;<em>Insubmissas l\u00e1grimas de mulheres<\/em>, Luciane de Lima Paim, Patrini Viero Ferreira<\/p>\n\n\n\n<p>14 <strong>A fragilidade dos la\u00e7os familiares elucidada no retorno ao lar<\/strong>: um estudo do romance&nbsp;<em>The Green Road,&nbsp;<\/em>de Anne Enright, Carla Luciane Klos Sch\u00f6ninger<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>24 de outubro (quinta)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 404. <\/p>\n\n\n\n<p>15 <strong>A minha casa \u00e9 onde estou?<\/strong>, Daniela Severo de Souza Scheifler<\/p>\n\n\n\n<p>16 <strong>Deslocamento, abandono e (n\u00e3o) pertencimento no romance <\/strong><em><strong>Com armas sonolentas: um romance de forma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em>, de Carola Saavedra, Cristiane da Silva Alves <\/p>\n\n\n\n<p>17 <strong>Uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de culturas perif\u00e9ricas<\/strong>: o caso da martinicana Fran\u00e7oise Ega e da brasileira Carolina Maria de Jesus, Samanta Vit\u00f3ria Siqueira<\/p>\n\n\n\n<p>18 <strong>A escrita desfronteirizante de Najat El Hachmi<\/strong>, Luciane da Silva Alves<\/p>\n\n\n\n<p>19 <strong>\u201cIsso tamb\u00e9m \u00e9 obeah\u201d<\/strong>: <em>creolit\u00e9<\/em> e dom\u00ednio cultural em <em>Vasto Mar de Sarga\u00e7os<\/em>, Vanessa Gomes Alves de Oliveira<\/p>\n\n\n\n<p>20 <strong>TEN (Teatro Experimental do Negro) um \u201centre-lugar\u201d na cena teatral brasileira do s\u00e9culo XX<\/strong>: pensando o teatro de Abdias do Nascimento a partir de uma perspectiva decolonial, Acevesmoreno Flores Piegaz<\/p>\n\n\n\n<p>21 <strong>Unindo na\u00e7\u00f5es, desfazendo fronteiras<\/strong>: migra\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e pertencimento em A imensid\u00e3o \u00edntima dos Carneiros, de Marcelo Maluf, Mirvana Luz Teixeira<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>25 de outubro (sexta)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 701.    <\/p>\n\n\n\n<p>22 <strong>No escuro do por\u00e3o<\/strong>: o conflito identit\u00e1rio em <em>The Opposite House<\/em>, de Helen Oyeyemi, Diego Bonatti e Ana L\u00facia Tettamanzy<\/p>\n\n\n\n<p>23 <strong>Alteridade em Adriana Lisboa<\/strong>: o conto \u201cFeelings\u201d, Felipe Maropo e Rauer Rodrigues<\/p>\n\n\n\n<p>24 <strong>\u201cE as ervas de Ossanha no chimarr\u00e3o\u201d<\/strong>: rumo a um negro imagin\u00e1rio rural dos Pampas, Ryan Benjamin Morrison<\/p>\n\n\n\n<p>25 <strong>Juana Manso<\/strong>: uma autora latino-americana, Adriele Albuquerque de Souza<\/p>\n\n\n\n<p>26 <strong>A voz da mulher-m\u00e3e na escrita de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo<\/strong>, Elen Karla Sousa da Silva, Daniel Conte<\/p>\n\n\n\n<p>27 <strong>Letra, voz e imagem femininas retomando o sagrado<\/strong>: o artivismo ind\u00edgena de Eliane Potiguara, Katu Mirim e Moara Brasil, Paloma de Melo Henrique<\/p>\n\n\n\n<p>28 <strong>O corpo-guerrilheiro no corpo-na\u00e7\u00e3o<\/strong>: contamina\u00e7\u00e3o, abje\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o no corpo-romance de Herbert Daniel, Anselmo Peres Al\u00f3s<\/p>\n\n\n\n<p>29 <strong>Em busca de uma literatura yanomami<\/strong>, Pedro Mandagar\u00e1<\/p>\n\n\n\n<h2>EIXO\n5 \u2014 RESUMOS DAS COMUNICA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n\n\n\n<h4>1 As Am\u00e9ricas imaginadas em&nbsp;<em>The underground\nrailroad<\/em>, de Colson Whitehead: discutindo a tradi\u00e7\u00e3o das narrativas de\nescravos afro-americanos no exerc\u00edcio pol\u00edtico das vozes \u201cex-c\u00eantricas\u201d<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Isabel Speggiorin Devincenzi<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O presente trabalho apresenta uma leitura do romance norte-americano&nbsp;<em>The underground railroad<\/em> (2017), do escritor Colson Whitehead, com \u00eanfase nos temas: \u201cmetafic\u00e7\u00e3o\u201d, \u201chist\u00f3ria\u201d e \u201cpol\u00edtica\u201d, na discuss\u00e3o p\u00f3s-moderna. \u00c9 apresentada uma revis\u00e3o biogr\u00e1fica e da fortuna cr\u00edtica do autor Colson Whitehead, suas motiva\u00e7\u00f5es na escrita, bem como, suas percep\u00e7\u00f5es sobre o romance analisado, tendo como base sua fala em entrevista (National Public Radio, 2016), no intuito de relacionar as subjetividades da escrita do texto com o exerc\u00edcio pol\u00edtico dos sujeitos afro-americanos. A tradi\u00e7\u00e3o das narrativas de escravos afro-americanos \u00e9 retomada, de acordo com os estudos de Bernard Bell (1987), Asharaf Rushdy (1999) e Timothy Spaulding (2005), a fim de refletir e teorizar sobre os tipos de narrativas observadas por esses te\u00f3ricos: as&nbsp;<em>slave narratives<\/em>, as&nbsp;<em>neoslave<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>neo-slave narratives,<\/em>&nbsp;e as&nbsp;<em>postmodern slave narratives<\/em>. Conjugada aos estudos sobre as narrativas de escravos, do ponto de vista da tradi\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica liter\u00e1ria, a articula\u00e7\u00e3o dos conceitos de \u201ccomunidade imaginada\u201d, \u201centre-lugar\u201d e \u201cpresente\/passado\u201d \u00e9 proposta, em uma discuss\u00e3o orientada pelas leituras de Anderson (2008), Bhabha (2013) e Hutcheon (1991). Prop\u00f5e-se a retomada de pressupostos te\u00f3ricos e discuss\u00f5es do p\u00f3s-moderno, a fim de situar o leitor sobre, especialmente, o conceito de \u201cmetafic\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica\u201d, e apontar elementos observados por Linda Hutcheon (1989; 1991; 2000) na est\u00e9tica dos romances p\u00f3s-modernos, tais como a ironia, par\u00f3dia e interdiscursividade, na an\u00e1lise do romance de Whitehead. Com base nos estudos de Hutcheon (1991), \u00e9 observado como a figura do \u201cex-c\u00eantrico\u201d incide no p\u00f3s-moderno, especialmente, na metafic\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica, forma de express\u00e3o m\u00e1xima desse movimento, segundo esta pesquisadora, atrav\u00e9s da revisita\u00e7\u00e3o dos conceitos de \u201ccentro\/margem\u201d e de \u201chist\u00f3ria\u201d como um texto j\u00e1 textualizado por escritas pr\u00e9vias. O enfoque sobre a escrita do romance afro-americano como uma possibilidade de afirma\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica dos sujeitos afro-descendentes no contempor\u00e2neo \u00e9 concatenado \u00e0 discuss\u00e3o, com base na tese de Gilroy (2012). \u00c9 poss\u00edvel concluir que o romance&nbsp;<em>The underground railroad<\/em>&nbsp;promove uma f\u00e9rtil revis\u00e3o hist\u00f3rica da escravid\u00e3o no continente norte-americano ao mesclar fato e fic\u00e7\u00e3o e fazer uso de artif\u00edcios, na ordem da forma e do conte\u00fado da narrativa, como a par\u00f3dia, a ironia, a interdiscursividade e a intertextualidade com as narrativas de escravos afro-americanas originais e as p\u00f3s-modernas, como a de Toni Morrison,&nbsp;<em>Amada<\/em>&nbsp;(1987). Ademais, \u00e9 observado que as&nbsp;<em>slaves narratives<\/em>, no \u00e2mbito liter\u00e1rio, s\u00e3o ainda pouco estudadas no Brasil, bem como, s\u00e3o pouqu\u00edssimos os resultados de produ\u00e7\u00f5es encontradas sobre o autor Colson Whitehead e o romance analisado, em l\u00edngua portuguesa. Portanto, este estudo revela-se como uma possibilidade prof\u00edcua de inserir o autor na nossa cr\u00edtica contempor\u00e2nea estrangeira e observar rela\u00e7\u00f5es entre Brasil e Estados Unidos em sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ficcional e acad\u00eamica sobre as narrativas de escravos originais e as p\u00f3s-modernas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflex\u00f5es sobre a origem e a difus\u00e3o do nacionalismo. Trad. Denise. Bottman. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2008.<\/li><li>BELL, Bernard W. The Afro-American novel and its tradition. Amherst: University of Massachusetts Press, 1987.<\/li><li>BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam \u00c1vila [et al]. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2013.<\/li><li>GILROY, Paul. O Atl\u00e2ntico negro: modernidade e dupla consci\u00eancia. Trad. Cid Knipel. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2012.<\/li><li>GROSS, Terry. \u201cColson Whitehead&#8217;s &#8216;Underground railroad&#8217; is a literal train to freedom\u201d. Washington, D.C.: National Public Radio. 18 nov. 2016. Arquivo de \u00e1udio e transcri\u00e7\u00e3o dispon\u00edveis em: &lt;https:\/\/www.npr.org\/2016\/11\/18\/502558001\/colson-whiteheads-underground-railroad-is-a-literal-train-to-freedom&gt;. Acessado em: 12 jun. 2018.<\/li><li>HUTCHEON, Linda. Uma teoria da par\u00f3dia: ensinamentos da forma da arte do s\u00e9culo XX. Trad. Teresa Louro P\u00e9rez. Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1989.<\/li><li>____. Po\u00e9tica do p\u00f3s-modernismo: hist\u00f3ria, teoria e fic\u00e7\u00e3o. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.<\/li><li>____. Teoria e pol\u00edtica da ironia. Trad. Julio Jeha. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2000.<\/li><li>MORRISON, Toni. Amada. Trad. Jos\u00e9 Rubens Siqueira. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.<\/li><li>RUSHDY, Asharaf H. A. Neo-slave narratives: studies in the social logic of a literary form. Nova Iorque: Oxford University Press, 1999.<\/li><li>SPAULDING, A. Timothy. Re-forming the past: history, the fantastic, and the postmodern slave narrative.Columbus: Ohio State University Press, 2005.<\/li><li>WHITEHEAD, Colson. The underground railroad: os caminhos para a liberdade. Trad. Caroline Chang. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.<\/li><li>____. The underground railroad. Nova Iorque: Doubleday, 2016.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: underground railroad; literatura afro-americana; narrativa de escravos; metafic\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica; p\u00f3s-modernismo.<\/p>\n\n\n\n<h4>2 A prostituta sob o signo da forma-mercadoria\nno teatro de Artur Azevedo<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Rodrigo C\u00e9zar Dias <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em seus estudos acerca da poesia de Baudelaire, Walter Benjamin atribui\n\u00e0 mercadoria a posi\u00e7\u00e3o de mediadora da alegoria moderna, posi\u00e7\u00e3o encarnada\nradicalmente pela figura da prostituta, herdeira de \u201ctodos os plenos poderes da\nalegoria barroca\u201d (BENJAMIN, 2015, p. 173). Pensando na Paris plasmada pela\npoesia de Baudelaire, a prostituta, \u201cque em hipost\u00e1tica uni\u00e3o, \u00e9 vendedora e\nmercadoria\u201d (BENJAMIN, 1991, p. 40, grifo do autor), condensaria, pois, o princ\u00edpio\ndo capitalismo de que tudo pode ser metamorfoseado em mercadoria e reduzido a\nvalor monet\u00e1rio. Posto isso, proponho um deslocamento do gesto cr\u00edtico\nempreendido por Benjamin para defender a hip\u00f3tese de que seria poss\u00edvel\nvislumbrar nas personagens prostitutas do teatro de Artur Azevedo \u00edndices da\nformaliza\u00e7\u00e3o do entrecruzamento de tens\u00f5es sociais constitutivo da articula\u00e7\u00e3o\nentre substrato patriarcal-escravagista e ideologia liberal-burguesa no Brasil\ndos arredores da Rep\u00fablica. Nesse sentido, as figura\u00e7\u00f5es da prostituta na obra\ndo autor iluminariam a condi\u00e7\u00e3o do sujeito radicado no sistema capitalista,\nconstitu\u00eddo na ambiguidade entre pessoa e mercadoria, situa\u00e7\u00e3o configurada pela\ninterse\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero, ra\u00e7a, classe e outras vari\u00e1veis identit\u00e1rias (cf.\nDavis, 2016 e Butler, 2017). Para ilustrar essa din\u00e2mica, esbo\u00e7o um panorama\ndas personagens prostitutas presentes na obra de Artur Azevedo seguido de uma\nbreve an\u00e1lise de <em>A Capital Federal<\/em>\nbalizada pelas trajet\u00f3rias das personagens Lola e Benvinda. Apesar de pouco\ninteragirem entre si, ambas possuem uma rela\u00e7\u00e3o significativa com o fazendeiro\nEus\u00e9bio: a primeira, cocote j\u00e1 estabelecida, caracterizada como \u201cilhoa\ndisfar\u00e7ada de espanhola\u201d, tenta seduzi-lo para \u201caliviar suas algibeiras\u201d; a\nsegunda, caracterizada como \u201cmulata\u201d e \u201ccria\u201d da fazenda de Eus\u00e9bio, foge da\nfam\u00edlia do fazendeiro para tentar melhor sorte como prostituta na Capital\nFederal. Ao final da pe\u00e7a, ambas amargam o fracasso: Lola n\u00e3o consegue depenar\nEus\u00e9bio e \u00e9 roubada por Louren\u00e7o, seu amante e c\u00famplice, cuja captura fica em\nsuspenso, enquanto Benvinda falha em seu processo de forma\u00e7\u00e3o como cocote e\nbusca o perd\u00e3o da fam\u00edlia do fazendeiro. Enformadas a partir do lugar social do\ncomedi\u00f3grafo \u2013 um homem branco que integrava a elite intelectual \u2013, essas\npersonagens apresentam-se, entretanto, como pontos de resist\u00eancia e tens\u00e3o: ao\nserem retratadas, as prostitutas devolvem o olhar, desnudando a perspectiva que\nas representa de sua suposta universalidade ao possibilitar um delineamento das\nvari\u00e1veis identit\u00e1rias que a comp\u00f5em.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BENJAMIN, Walter. Paris, capital do s\u00e9culo XIX. In: ______.&nbsp;Walter Benjamin: sociologia. Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio R. Kothe. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1991.<\/li><li>______.&nbsp;Baudelaire e a modernidade. Edi\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Barrento. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2015.<\/li><li>BUTLER, Judith.&nbsp;Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. 15. ed. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2017.<\/li><li>DAVIS, Angela.&nbsp;Mulheres, ra\u00e7a e classe. Tradu\u00e7\u00e3o de Heci Regina Candiani. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Artur Azevedo; <em>A Capital Federal<\/em>; prostituta; forma-mercadoria; intersecionalidade.<\/p>\n\n\n\n<h4>3 O custo para ser reconhecido como sujeito em <em>O Fim de Eddy<\/em>, de \u00c9douard Louis<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Lucas Demingos de\nOliveira <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos temas que\natravessa <em>A vida ps\u00edquica do poder<\/em>,\nde Judith Butler (2018), s\u00e3o os processos de sujei\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, os processos a\nque somos submetidos, atrav\u00e9s de rela\u00e7\u00f5es de poder, para nos tornarmos\nsujeitos. Em seus trabalhos subsequentes, como <em>Precarious Life<\/em> (2006) e Quadros de Guerra (2015), a fil\u00f3sofa\nbuscou investigar, detalhar e complexificar as rela\u00e7\u00f5es ambivalentes entre\nsujei\u00e7\u00e3o e reconhecimento. Butler (2015) aponta que os \u201cenquadramentos\nepistemol\u00f3gicos\u201d que reconhecem uma pessoa como sujeito, ou mesmo como vida\nvivida, implicam uma viol\u00eancia contra esse sujeito, pois, de uma maneira ou de\noutra, eles exigem um certo encaixe em modelos de vida pr\u00e9-estabelecidos.\nEntretanto, ao apontar a viol\u00eancia implicada por tais esquemas, tamb\u00e9m se assume\nque uma vida n\u00e3o reconhecida est\u00e1 em risco. A partir disso, questiono o custo\npago por certas vidas para serem reconhecidas como sujeito. Para refletir sobre\nessa quest\u00e3o, proponho como corpus de an\u00e1lise o romance autobiogr\u00e1fico <em>O Fim de Eddy<\/em>, de \u00c9douard Louis (2018).\nO romance narra a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia de Eddy Bellegueule num vilarejo de\nHallencourt, no norte da Fran\u00e7a, em um contexto permeado por pobreza, insultos\ne humilha\u00e7\u00e3o. Grande parte das viol\u00eancias sofridas por Eddy na narrativa se d\u00e3o\nem torno dos modos e trejeitos afeminados do personagem em um espa\u00e7o machista e\nexplicitamente homof\u00f3bico. A narrativa encerra com um ep\u00edlogo, no qual Eddy\nrelata suas primeiras impress\u00f5es do internato em que foi recentemente aceito,\nem outra cidade. Com base nos apontamentos de Judith Butler e na narrativa em\nquest\u00e3o, argumento que o custo exigido para Eddy poder ser reconhecido como um\nsujeito e homossexual \u00e9 alto demais: \u00e9 n\u00e3o guardar da inf\u00e2ncia \u201cnenhuma\nlembran\u00e7a feliz\u201d (p. 13), \u00e9 precisar sair (ou ser expulso) da cidade e\nabandonar a pr\u00f3pria fam\u00edlia; \u00e9, por fim, renunciar quem \u00e9 e passar a se chamar\n\u00c9douard Louis.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BUTLER, Judith. Precarious Life: the powers of morning and violence. London: Verso, 2006.<\/li><li>BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida \u00e9 pass\u00edvel de luto? Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2015.<\/li><li>BUTLER, Judith. A vida ps\u00edquica do poder: teorias da sujei\u00e7\u00e3o. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2018.<\/li><li>LOUIS, \u00c9douard. O Fim de Eddy. S\u00e3o Paulo: Planeta do Brasil, 2018.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: <em>O Fim de Eddy<\/em>; Judith Butler; Sujeito; Reconhecimento; Literatura<\/p>\n\n\n\n<h4>4 Tem coisas que n\u00e3o se dizem! A tradi\u00e7\u00e3o oral antilhana e seus\nn\u00e3o-ditos: an\u00e1lise do conto Julina, transcrito e traduzido por Ina C\u00e9saire<\/h4>\n\n\n\n<p><em>J\u00e9ssica de Souza Pozzi <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este trabalho apresenta\numa an\u00e1lise do conto Julina, transcrito do crioulo martinicano e traduzido para\no franc\u00eas por Ina C\u00e9saire, etn\u00f3loga e escritora, filha de Aim\u00e9 C\u00e9saire, que faz\nparte da obra <em>Contes de Nuits et de Jours\naux Antilles<\/em>, publicada em 1989 em edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue crioulo-franc\u00eas pela\neditora \u00c9ditions Carib\u00e9ennes. A obra faz parte de uma trilogia (juntamente com <em>Contes de Mort et Vie aux Antilles<\/em>, de\n1976, e <em>Contes de Soleil et Pluie aux\nAntilles<\/em>, de 1988), que resultaram de um trabalho de recolhimento e\nregistro do patrim\u00f4nio oral e memorial\u00edstico antilhano pela organizadora das\nobras juntamente de sua colega e amiga Jo\u00eblle Laurent, tamb\u00e9m etn\u00f3loga. A\nan\u00e1lise do conto escolhido dentre os 14 reunidos no livro parte dos conceitos\nde cultura e imperialismo e p\u00f3s-colonialismo de Edward Said e Frantz Fanon para\nexplicitar o contexto pol\u00edtico e social atual da Martinica, bem como dos demais\nDepartamentos, Territ\u00f3rios e Regi\u00f5es Ultramarinas francesas, com os quais a\nFran\u00e7a que mant\u00e9m ainda forte rela\u00e7\u00e3o de poder e\/ou comercial. Al\u00e9m disso,\napresenta-se alguns conceitos importantes para a compreens\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o oral\nnas culturas diasp\u00f3ricas atrav\u00e9s da revis\u00e3o de sua hist\u00f3ria liter\u00e1ria e\nensa\u00edstica a partir da obra de Eur\u00eddice Figueiredo, <em>Constru\u00e7\u00e3o de identidades p\u00f3s-coloniais na literatura antilhana <\/em>(1998)\n&#8211; destacando o trabalho de Aim\u00e9 C\u00e9saire (2013) frente ao movimento da Negritude\ne de Edouard Glissant (1997) a partir do conceito de antilhanidade -, e de sua\nrela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria da oralidade africana, apresentada atrav\u00e9s da obra de\nHampat\u00e9 B\u00e2, <em>Hist\u00f3ria da \u00c1frica,\nMetodologia e pr\u00e9-hist\u00f3ria da \u00c1frica<\/em> (1982). Por fim, baseando-se na\ntradu\u00e7\u00e3o do conto para o portugu\u00eas, feita pela autora deste trabalho,\napresenta-se a an\u00e1lise de Julina baseada na reflex\u00e3o sobre a cultura oral e o\nimagin\u00e1rio crioulo nas Antilhas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>C\u00c9SAIRE, Aim\u00e9. Discours sur le colonialisme suivi de Discours sur la N\u00e9gritude. Paris: Pr\u00e9sence Africaine, 2013.<\/li><li>C\u00c9SAIRE, Ina. Contes de jours et de nuits aux Antilles. Paris: \u00c9ditions Carib\u00e9ennes, 1989.<\/li><li>FANON, Frantz. Peau noire, masques blancs. Paris : \u00c9ditions Points, 2015.<\/li><li>______. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2010<\/li><li>FIGUEIREDO, Eur\u00eddice. Constru\u00e7\u00e3o de identidades p\u00f3s-coloniais na literatura antilhana. Rio de Janeiro: Eduff, 1998.<\/li><li>GLISSANT, \u00c9douard. Le discours antillais. Paris: Gallimard, 1997.<\/li><li>SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017.<\/li><li>HAMPAT\u00c9 B\u00c2, A. A tradi\u00e7\u00e3o viva. In: KI-ZERBO, J (Org): Hist\u00f3ria da \u00c1frica, Metodologia e pr\u00e9-hist\u00f3ria da \u00c1frica. S\u00e3o Paulo, Editora \u00c1tica\/Paris: UNESCO, 1982, Vol. 1.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<h4>5 A problematiza\u00e7\u00e3o da maternidade como constitui\u00e7\u00e3o da identidade\nfeminina em Buchi Emecheta e Lya Luft<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Rosiana Kist <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O presente estudo est\u00e1\ncentrado na discuss\u00e3o e an\u00e1lise das formas pelas quais os romances <em>As alegrias da maternidade<\/em> (1979), da\nnigeriana Buchi Emecheta, e <em>As parceiras<\/em>\n(1980), da brasileira Lya Luft, reconfiguram as no\u00e7\u00f5es tradicionais de\nmaternidade, tecendo aproxima\u00e7\u00f5es entre as narrativas e as tend\u00eancias cr\u00edticas\ncontempor\u00e2neas do pensamento feminista. Ao colocar em pauta algo pouco\nproblematizado nesse campo que \u00e9 a maternidade, a pesquisa identifica as marcas\nde g\u00eanero e suas especificidades na escrita de autoria feminina, para, em\nseguida, problematizar a concep\u00e7\u00e3o de maternidade como destino e como\ncaracter\u00edstica intr\u00ednseca \u00e0 natureza e \u00e0 ess\u00eancia feminina. As contribui\u00e7\u00f5es\nte\u00f3ricas adv\u00e9m de pensadoras como Simone de Beauvoir (2016), Judith Butler (2003),\nH\u00e9l\u00e8ne Cixous (1976), Elaine Showalter (1994) Luce Irigaray (2017), Heloisa\nBuarque de Hollanda (2018) e Rita Terezinha Schmidt (2017), assim como das\nintelectuais Elisabeth Badinter (1985), Gayatri Spivak (2010), Angela Davis\n(2016), bell hooks (2018) e Djamila Ribeiro (2017). Ao analisar a constitui\u00e7\u00e3o\ndas protagonistas dos romances, Nnu Ego e Anelise, procuramos identificar como\na no\u00e7\u00e3o de maternidade \u00e9 reconfigurada por elas nas narrativas, para,\nfinalmente, investigar de que maneira as particularidades culturais e de\nescrita contribuem para a problematiza\u00e7\u00e3o da ideia que as mulheres estabelecem\npara a maternidade dentro das obras estudadas. A utiliza\u00e7\u00e3o do estudo comparado\ncomo procedimento de pesquisa justifica a escolha do corpus: uma obra de uma\nescritora brasileira e uma obra de uma escritora nigeriana, reconhecidas pelo\nc\u00e2none tradicional e contempor\u00e2neas da d\u00e9cada de 80. Ao estudarmos dois\nromances que abordam a mesma tem\u00e1tica, por\u00e9m em contextos distintos &#8211; Nig\u00e9ria e\nBrasil -, o problema de pesquisa espec\u00edfico com o qual nos deparamos exp\u00f5e a\nfragilidade desse estere\u00f3tipo. Identificamos que a ideia universal de\nmaternidade vai ser reconfigurada e particularizada em cada uma das culturas e\nna materializa\u00e7\u00e3o da escrita (na forma), al\u00e9m de marcada pela condi\u00e7\u00e3o do\ng\u00eanero, pois enquanto a personagem nigeriana valoriza a maternidade como \u00fanica\nop\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, a personagem brasileira questiona sua impossibilidade de\nconceber filhos, gerando nela conflito e sofrimento; sendo ou n\u00e3o m\u00e3es, as\nmulheres desses romances n\u00e3o se sentem completas. Os resultados apontam ainda\npara diferentes significados atribu\u00eddos \u00e0 experi\u00eancia de ser m\u00e3e nas sociedades\nem que vivemos hoje e que tornam incertas e transit\u00f3rias as identidades\nsociais.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. 9. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.<\/li><li>BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.<\/li><li>BUTLER, Judith. Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003.<\/li><li>CIXOUS, H\u00e9l\u00e8ne. The Laugh of the Medusa. Translated by Keith Cohen and Paula Cohen. The University of Chicago Press: Chicago Journals. Signs, Vol. 1, No. 4, 1976. p. 875-893.<\/li><li>DAVIS, Angela Y. Mulheres, ra\u00e7a e classe. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016. 244 p. <\/li><li>EMECHETA, Buchi. As alegrias da maternidade. Trad Heloisa Jahn. 2. ed. Porto Alegre: Dublinense, 2018.<\/li><li>HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Explos\u00e3o feminista: Arte, cultura, pol\u00edtica e universidade. Companhia das Letras, 2018. Edi\u00e7\u00e3o Kindle.<\/li><li>hooks, bell. O feminismo \u00e9 para todo mundo: pol\u00edticas arrebatadoras. Trad Ana Luiza Lib\u00e2nio. 2\u00aa ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.<\/li><li>IRIGARAY, Luce. Este sexo que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um sexo. Trad Cec\u00edlia Prada. S\u00e3o Paulo: Editora Senac, 2017.<\/li><li>LUFT, Lya. As parceiras. 30. ed. Rio de Janeiro: Record, 2015.<\/li><li>RIBEIRO, Djamila. O que \u00e9 lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017. 112 p. (Feminismos plurais).<\/li><li>SCHMIDT, Rita Terezinha. Descentramentos\/Converg\u00eancias: ensaios de cr\u00edtica feminista. 1. ed. Porto Alegre: UFRGS Ed., 2017.<\/li><li>SHOWALTER, Elaine. A cr\u00edtica feminista no territ\u00f3rio selvagem. In: HOLLANDA, Helo\u00edsa Buarque de (Org.) Tend\u00eancias e Impasses. O feminismo como cr\u00edtica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.<\/li><li>SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradu\u00e7\u00e3o de Sandra R. G. Almeida, Marcos P. Feitosa, Andr\u00e9 P. Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Cr\u00edtica Feminista; Identidade feminina; Maternidade; Buchi Emecheta; Lya Luft.<\/p>\n\n\n\n<h4>6 Rompendo o sil\u00eancio: poesia e (r)exist\u00eancia em <em>\u00c1guas da Caba\u00e7a<\/em>, de Elizandra Souza<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Francine Vargas dos\nSantos Damasceno <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, a\nliteratura contempor\u00e2nea testemunhou o surgimento de produ\u00e7\u00f5es elaboradas por\nvozes postas \u00e0 margem de um projeto hegem\u00f4nico de na\u00e7\u00e3o, de literatura e de\nhist\u00f3ria da literatura. Essas narrativas, presentes na literatura\nmarginal-perif\u00e9rica, ressignificam o imagin\u00e1rio nacional e, conforme afirma Homi\nBhabha (1998), apresentam um discurso perform\u00e1tico, pois desestabilizam o\nsignificado de povo como homog\u00eaneo, trazendo a mem\u00f3ria esquecida e apontando\npara diferen\u00e7a cultural. Ademais, elas geram o deslocamento da perspectiva\ncentralizadora, pois rasuram o discurso dominante e impulsionam esses\nindiv\u00edduos a ocuparem o seu lugar de fala. Desta forma, eles tornam-se agentes\nativos de sua tradi\u00e7\u00e3o, das suas experi\u00eancias hist\u00f3ricas e do seu discurso.\nContudo, apesar de propor a emancipa\u00e7\u00e3o dessas vozes marginalizadas, a\nliteratura marginal-perif\u00e9rica apresenta um protagonismo exclusivamente\nmasculino. As mulheres, mesmo participando de saraus e da agenda cultural, n\u00e3o\npublicam seus textos com a mesma frequ\u00eancia que os homens e poucas fazem parte\nda organiza\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a desse movimento liter\u00e1rio. Essa falta de equidade\nfez com que as escritoras se rearticulassem para combater o sexismo na\nliteratura produzida dentro e fora da periferia. Segundo Luc\u00eda Tennina (2014;\n2017), \u00e9 a partir de esse ponto de tens\u00e3o, dessa posi\u00e7\u00e3o de subalterna do\nsubalterno, que essas escritoras, majoritariamente negras, elaboram os seus\ndiscursos. Nesse contexto, Elizandra Souza se destaca, pois, ao ocupar uma\nposi\u00e7\u00e3o de <em>outsider within<\/em> (COLLINS,\n2016), organizou novas formas de sociabilidade e interven\u00e7\u00e3o para que ela e\noutras mulheres negras pudessem transcender as fronteiras impostas por uma\nsociedade machista e racista. Atrav\u00e9s do selo Mjiba, a escritora se\nautopublicou e lan\u00e7ou mais tr\u00eas obras que trouxeram outras mulheres negras e\nperif\u00e9ricas para o protagonismo da cena liter\u00e1ria. Assim, a literatura\ntransformou-se em uma ferramenta de (r)exist\u00eancia e em um elemento capaz de\nromper com a colonialidade do ser e do saber (ACHINTE, 2009; QUIJANO, 2000).\nNessas produ\u00e7\u00f5es, a poesia p\u00f5e em evid\u00eancia a pluralidade presente no cen\u00e1rio\ncontempor\u00e2neo e atua como um mecanismo de autorepresenta\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o.\nDesta forma, os estere\u00f3tipos enraizados na sociedade come\u00e7am a ser\ndescontru\u00eddos e a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica ganha contornos diferentes do projeto\nmoderno euroc\u00eantrico que coloca o \u201coutro\u201d em uma posi\u00e7\u00e3o exotizada (ACHINTE,\n2009). Portanto, a presente proposta busca analisar cinco poemas &#8211;\n\u201cFertilidade\u201d, \u201cPoema Novo\u201d, \u201cEstribeiras do Mundo\u201d, \u201c\u00c0 Nossa Maneira\u201d e \u201cCalar\no Grito\/Gritar o Sil\u00eancio\u201d &#8211; contidos no livro <em>\u00c1guas da Caba\u00e7a<\/em> (2012) nos quais o fazer art\u00edstico constituiu-se\ncomo uma pedagogia decolonial (ACHINTE, 2009) ao fortalecer identidades e\nvisibilizar a produ\u00e7\u00e3o de sujeitos historicamente exclu\u00eddos. Al\u00e9m disso,\nElizandra Souza confronta o discurso dominante ao problematizar quest\u00f5es\nrelacionadas \u00e0 identidade da mulher negra. Portanto, ser\u00e3o utilizados os\nestudos de Angela Davis (2016) e bell hooks (2014) referentes aos problemas\nhistoricamente enfrentados pelas mulheres negras e sobre os desdobramentos da\nuni\u00e3o entre racismo e machismo. Por conseguinte, as pesquisas da fil\u00f3sofa\nDjamila Ribeiro (2017; 2018) acerca do feminismo negro e do lugar de fala\ntamb\u00e9m embasar\u00e3o a an\u00e1lise, assim como a obra de Judith Butler (2015) sobre a quest\u00e3o\nde g\u00eanero e do feminismo interseccional.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ACHINTE, Adolfo Alban. Artistas ind\u00edgenas y afrocolombianos: entre las memorias y las cosmovisiones. Est\u00e9ticas de la re-existencia. In: MIGNOLO, W.; PALERMO, Z. (Org.) Arte y est\u00e9tica en la encrucijada descolonial. Buenos Aires: Ediciones del Signo, p. 83-112, 2009.<\/li><li>BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.<\/li><li>BUTLER, Judith. Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. 8. ed. Trad. Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2015.<\/li><li>COLLINS, Patricia Hill. Aprendendo com a outsider within: a significa\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica do pensamento feminista negro. Trad. Juliana de Castro Galv\u00e3o. Revista Sociedade e Estado. v.31. n.1. jan-abr, 2016. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/se\/v31n1\/0102-6992-se-31-01-00099.pdf&gt; Acesso em: 13 mar. 2019<\/li><li>DAVIS, Angela. Mulheres, Ra\u00e7a e Classe. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2016.<\/li><li>HOOKS, Bell. N\u00e3o sou eu uma mulher: Mulheres negras e feminismo. Rio de Janeiro: Plataforma Gueto, 2014.<\/li><li>QUIJANO, An\u00edbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y Am\u00e9rica Latina. In: LANDER, Edgardo (org.) La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000.<\/li><li>RIBEIRO, Djamila. O que \u00e9 lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.<\/li><li>________. Quem tem medo do feminismo negro? S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2018.<\/li><li>SOUZA, Elizandra. \u00c1guas da Caba\u00e7a. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00e3o Independente, 2012.<\/li><li>TENNINA, Luc\u00eda. Cuidado com os poetas: literatura e periferia na cidade de S\u00e3o Paulo. Zouk, 2017.<\/li><li>_________. La mujer negra perif\u00e9rica en la literatura brasile\u00f1a contempor\u00e1nea. Revista Internacional de Culturas y Literaturas. n. 15, Universidad de Sevilla, 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/idus.us.es\/xmlui\/handle\/11441\/61798&gt; Acesso em: 10 mar. 2019.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: palavra literatura marginal-perif\u00e9rica; Elizandra Souza; poesia; identidade; feminismo negro.<\/p>\n\n\n\n<h4>7 O deslocamento como um met\u00e1fora da cisnormatividade: Reflex\u00f5es sobre as personagens travestis em tr\u00eas narrativas brasileiras contempor\u00e2neas<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Virg\u00ednea Novack Santos da Rocha<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O deslocamento, que pode ser representado geograficamente, parece ser uma das principais caracter\u00edsticas da contemporaneidade. Sendo assim, \u00e9 imposs\u00edvel falar do sujeito sem que se pressuponham as constru\u00e7\u00f5es, desconstru\u00e7\u00f5es e reconstru\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias, o que, consequentemente, nos leva tamb\u00e9m a n\u00e3o pensar nas personagens para al\u00e9m desse paradigma. No entanto, essa perspectiva parece estar de acordo apenas com a cisnormatividade, uma vez que, ao analisarmos a representa\u00e7\u00e3o de personagens trans* por uma perspectiva transfeminista, a met\u00e1fora do deslocamento na constru\u00e7\u00e3o de personagens transg\u00eaneras e travestis, funciona como um refor\u00e7o, n\u00e3o de identidades em movimento, mas sim, de identidades n\u00e3o verdadeiras, ou seja, nao-identidades, uma vez que o deslocamento ocorre devido a necessidade de manuten\u00e7\u00e3o da sociedade cisnormativa, pois como afirma Judith Butler em&nbsp;<em>Problemas de g\u00eanero<\/em>: \u201cA matriz cultural por meio da qual a identidade de g\u00eanero se torna intelig\u00edvel exige que em certos tipos de \u2018identidade\u2019 n\u00e3o possam \u2018existir\u2019 \u2013 isto \u00e9, aqueles em que o g\u00eanero n\u00e3o decorre do sexo e aqueles em que a pr\u00e1tica do desejo n\u00e3o \u2018decorrem\u2019 nem do \u2018sexo\u2019 nem do \u2018g\u00eanero\u2019.\u201d (BUTLER, 2016 [1990] p.44), sendo que as pessoas que n\u00e3o condizem com o sistema resta a exclus\u00e3o ou at\u00e9 mesmo a morte. Esse foi o resultado a que se chegou a partir da an\u00e1lise de tr\u00eas narrativas brasileiras contempor\u00e2neas escritas e publicadas nos \u00faltimos anos:&nbsp;<em>Do fundo do po\u00e7o se v\u00ea a lua<\/em>&nbsp;(2010), de Joca Reiners Terron,&nbsp;<em>S\u00e9rgio Y vai \u00e0 Am\u00e9rica<\/em>&nbsp;(2012), de Alexandre Vidal Porto e&nbsp;<em>As fantasias eletivas<\/em>&nbsp;(2014), de Carlos Henrique Schoeder, nas quais, tanto Cleo quanto Sandra e Copi, personagens dos respectivos romances, deslocam-se geograficamente no exato momento em que assumem a identidade n\u00e3o cisnormativa, sendo que, seu deslocamento n\u00e3o parte de uma necessidade existencial, mas sim de uma exclus\u00e3o g\u00eanero-geogr\u00e1fica. Assim, o deslocamento, Brasil-Egito, Brasil-EUA e Argentina-Brasil ocorre com a finalidade de constru\u00edrem-se identidades que rompam com o passado, iniciando-se de uma esp\u00e9cie de ponto zero (do g\u00eanero) como uma identidade completamente nova em sintonia com esse novo espa\u00e7o, ou seja, como um renascimento espa\u00e7o-corpo. Assim, ao mesmo tempo em que a personagem travesti pode ser vista n\u00e3o como uma identidade em deslocamento, mas sim uma identidade em ex\u00edlio, pois como Edward Said (2003) afirma \u201c\u00e0s vezes, o ex\u00edlio \u00e9 melhor do que ficar para tr\u00e1s [\u2026]\u201d (SAID, 2003, p.51), ela parece tamb\u00e9m estar para al\u00e9m do ex\u00edlio, uma vez que o passado precisa ser completamente apagado, ou seja, as tr\u00eas personagens n\u00e3o s\u00e3o apresentadas como sujeitos em constru\u00e7\u00e3o, mas sim como identidades que ficcionalizam seu passado e, por consequ\u00eancia, suas pr\u00f3prias identidades e, sendo assim, o contato com esse passado, seja geogr\u00e1fico seja simb\u00f3lico, leva, nas tr\u00eas narrativas, a um final un\u00e2nime: a morte, ou seja, o reencontro com uma identidade pregressa mostra-se imposs\u00edvel, uma vez que, tal encontro \u00e9 o encontro com a cisnormatividade.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BUTLER, Judith. Problemas de g\u00eanero: Feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Trad: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2016.<\/li><li>PORTO, Alexandre Vidal. Sergio Y vai \u00e0 Am\u00e9rica. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2012.<\/li><li>SAID, Edward. Reflex\u00f5es sobre o ex\u00edlio. In: SAID, Edward. Reflex\u00f5es sobre o ex\u00edlio e outros ensaios. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.46-60.<\/li><li>SCHOEDER, Carlos Henrique. As fantasias eletivas. Rio de Janeiro: Record, 2014.<\/li><li>TERRON, Joca Reiners. Do fundo do po\u00e7o se v\u00ea a lua. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2010.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: deslocamento; problemas de g\u00eanero; cisnormatividade; identidade; travesti.<\/p>\n\n\n\n<h4>8 Express\u00f5es em l\u00ednguas tradicionais na tradu\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias africanas de l\u00edngua inglesa: pensando escolhas e estrat\u00e9gias tradut\u00f3rias<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Carolina Kuhn Facchin<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esta pesquisa de mestrado, ainda em seus primeiros passos, pretende investigar as estrat\u00e9gias utilizadas por tradutores para lidar com a presen\u00e7a de palavras ou express\u00f5es em l\u00ednguas tradicionais \u2013 como o Shona, do Zimb\u00e1bue, e o Gikuyu, do Qu\u00eania \u2013 em textos liter\u00e1rios origin\u00e1rios de ex-col\u00f4nias inglesas e escritos majoritariamente na l\u00edngua do colonizador \u2013 o ingl\u00eas. A pesquisa se guia por duas perguntas fundamentais, quais sejam: A manuten\u00e7\u00e3o das express\u00f5es em l\u00edngua tradicionais afasta ou aproxima os leitores da obra? Essa manuten\u00e7\u00e3o apresenta uma nova l\u00edngua e uma nova cultura aos leitores da tradu\u00e7\u00e3o ou apenas exotiza o texto e o trata como algo alheio, Outro? O estudo se prop\u00f5e a analisar e comentar tradu\u00e7\u00f5es publicadas realizadas pela pr\u00f3pria pesquisadora, tradutora de obras africanas de l\u00ednguas inglesa, al\u00e9m de levar em considera\u00e7\u00e3o outros textos liter\u00e1rios traduzidos, ainda a serem selecionados. A pesquisa parte de um questionamento da teoria de Lawrence Venuti (1995, 2009) sobre&nbsp;<em>domestica\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>estrangeiriza\u00e7\u00e3o<\/em>, indagando se esses conceitos seriam adequados aos processos tradut\u00f3rios utilizados na tradu\u00e7\u00e3o daqueles textos que se originam fora do que seria considerado o \u201cc\u00e2none\u201d para l\u00ednguas e culturas que tamb\u00e9m est\u00e3o fora desta curva. A tradu\u00e7\u00e3o de obras de pa\u00edses africanos para o portugu\u00eas do Brasil serve de exemplo, fornecendo material para a an\u00e1lise. Para pensar esse questionamento e responder \u00e0s perguntas propostas, a pesquisa, de car\u00e1ter bibliogr\u00e1fico, vai se fundamentar em textos dos estudos de tradu\u00e7\u00e3o, especialmente os estudos de tradu\u00e7\u00e3o cultural conduzidos por Susan Bassnett (1998), Andr\u00e9 Lefevere (2017) e outros, passando tamb\u00e9m por estudos p\u00f3s-coloniais, como os de Gayatri Chakravorty Spivak (1994), al\u00e9m de focar em teorias, filosofias e modos de pensamento de estudiosos de origem africana, como Kwame Anthony Appiah (1997) e Francisco Noa (2015), acerca de seu entendimento do uso dessas l\u00ednguas tradicionais e de sua import\u00e2ncia. A pesquisa foi iniciada em mar\u00e7o de 2019. Atualmente, ainda est\u00e1 na fase de defini\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o do corpus de an\u00e1lise e de determina\u00e7\u00e3o do referencial te\u00f3rico. Prev\u00ea-se que o estudo seja conclu\u00eddo nos primeiros meses de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>APPIAH, Anthony Kwame. Na casa de meu pai: A \u00c1frica na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.<\/li><li>BASSNETT, Susan; LEFEVERE, Andr\u00e9. Constructing cultures: Essays on Literary Translation. Clevedon: Multilingual Matters Ltd., 1998.<\/li><li>LEFEVERE, Andr\u00e9. Translation, rewriting, and the manipulation of literary fame. Londres; Nova York: 2017.<\/li><li>NOA, Francisco. Perto do fragmento, a totalidade: olhares sobre a literatura e o mundo. S\u00e3o Paulo: Editora Kapulana, 2015.<\/li><li>SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Can the Subaltern Speak? In: WILLIAMS, Patrick; CHRISMAN, Laura. (Ed.). Colonial Discourse and Post-colonial Theory. Nova York: Columbia University Press, 1994.<\/li><li>VENUTI, Lawrence. The Translator\u2019s Invisibility. Londres; Nova York: Routledge, 1995.<\/li><li>VENUTI, Lawrence. Translation as cultural politics: r\u00e9gimes of domestication in English. In: BAKER, Mona. (Ed.) Critical readings in Translation Studies. Londres; Nova York: Routledge, 2009. p. 65-79.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: literatura africana de l\u00edngua inglesa; tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria; estudos p\u00f3s-coloniais; l\u00ednguas tradicionais africanas; tradu\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n\n\n\n<h4>9 Pode o subalterno se autobiografar?<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Adriana Kerchner da Silva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Molloy (1994) define os relatos biogr\u00e1ficos de pessoas escravizadas no s\u00e9culo XIX como escritas que necessariamente passaram pela media\u00e7\u00e3o de pessoas brancas, que detinham o capital para tal, nos termos de Bourdieu (2001; 2004). No caso espec\u00edfico de Juan Francisco Manzano, cuja autobiografia \u00e9 o cerne desta comunica\u00e7\u00e3o, a media\u00e7\u00e3o requerida foi n\u00e3o para escrever seu texto, j\u00e1 que ele era (precariamente) alfabetizado, mas para que sua obra pudesse ser publicada e lida por um p\u00fablico branco, que conformava a esmagadora maioria das pessoas alfabetizadas no s\u00e9culo XIX.&nbsp;<em>A autobiografia do poeta-escravo<\/em>&nbsp;(2015 [1836]), t\u00edtulo que recebeu o livro de Manzano no Brasil, \u00e9 a \u00fanica obra conhecida escrita por uma pessoa escravizada na Am\u00e9rica Latina. Elaborada pelo autor entre 1835\/1836, a obra foi feita a partir de uma encomenda de um grupo de literatos cubanos, liderados por Domingo del Monte, cujo objetivo era mandar o relato para um abolicionista brit\u00e2nico, Richard Madden, que iria apresent\u00e1-lo em congressos antiescravid\u00e3o em seu pa\u00eds. Madden traduziu o livro em 1840, realizando sua primeira publica\u00e7\u00e3o. A obra somente foi publicada em Cuba, terra natal de Manzano, em 1937, cem anos ap\u00f3s sua escritura. A autobiografia de Manzano sofreu diversas altera\u00e7\u00f5es ao longo de sua hist\u00f3ria, desde a corre\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica antes do manuscrito ser enviado a Madden, passando pela tradu\u00e7\u00e3o realizada pelo brit\u00e2nico, que efetuou diversas modifica\u00e7\u00f5es no texto, at\u00e9 chegar nas diversas edi\u00e7\u00f5es publicadas, sempre organizadas por intelectuais brancos. Nesse sentido, h\u00e1 muita discuss\u00e3o ao redor de poder ou n\u00e3o se considerar o texto de Manzano uma autobiografia \u201cpura\u201d, tendo em vista que em todo o processo editorial ela sofreu interven\u00e7\u00f5es de terceiros, muitas delas bastante invasivas, como mencionado anteriormente. \u00c9 nessa esteira que surge a pergunta que d\u00e1 t\u00edtulo a esta comunica\u00e7\u00e3o, evidentemente uma par\u00e1frase do c\u00e9lebre ensaio de Spivak (2010): poderia Manzano realmente falar? Qual o n\u00edvel de negocia\u00e7\u00e3o que ele teve de fazer entre o que queria relatar e o que o grupo de literatos cubanos e o pr\u00f3prio Madden esperavam que ele dissesse? E ser\u00e1 que todos esses homens brancos estavam preparados para escutar o que ele tinha para dizer, parafraseando, dessa vez, Kilomba (2017)? Al\u00e9m das te\u00f3ricas j\u00e1 mencionadas, o referencial te\u00f3rico deste trabalho passa tamb\u00e9m por Said (2005), para analisar as posturas tomadas pelos intelectuais, e por Ribeiro (2017), com a importante discuss\u00e3o sobre lugar de fala. Quanto \u00e0s conclus\u00f5es poss\u00edveis para responder quest\u00f5es t\u00e3o complexas, algumas considera\u00e7\u00f5es podem ser tecidas. Ao mesmo tempo em que \u00e9 importante notar a media\u00e7\u00e3o na escrita de Manzano, n\u00e3o se pode descart\u00e1-lo como um escritor aut\u00eantico, como j\u00e1 tentaram fazer em alguns momentos (FIORANI, 2010), porque, de fato, ele mesmo escreveu o texto, at\u00e9 onde se sabe. Acredito que o que cabe criticar \u00e9 a postura colonizadora dos intelectuais, que n\u00e3o deram, efetivamente, liberdade para Manzano, exigindo que ele seguisse determinados caminhos para que sua obra fosse publicada e, posteriormente, lida.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BOURDIEU, Pierre. Espa\u00e7o social e poder simb\u00f3lico. In: BORDIEU, Pierre. Coisas ditas. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2004. p. 149-168. Tradu\u00e7\u00e3o de C\u00e1ssia R. da Silveira e Denise Moreno Pegorim.<\/li><li>BOURDIEU, Pierre. Las formas del capital: Capital econ\u00f3mico, capital cultural y capital social. In: BORDIEU, Pierre. Poder, derecho y clases sociales. Bilbao: Descl\u00e9e de Brouwer, 2001. p. 131-164. Traducci\u00f3n de M\u00aa Jos\u00e9 Bernuz Beneitez.<\/li><li>FIORANI, Flavio. Aprender la historia de Cuba: los recuerdos de un esclavo centenario. Confluenze. Rivista di Studi Iberoamericani, v. 2, n. 2, p. 189-201, dez. 2010. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/confluenze.unibo.it\/article\/view\/2005&gt;. Acesso em: 27 mar. 2019.<\/li><li>KILOMBA, Grada. A M\u00e1scara. Cadernos de Literatura em Tradu\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, n. 16, p.171-180, maio 2016. Tradu\u00e7\u00e3o de Jessica Oliveira de Jesus. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.revistas.usp.br\/clt\/article\/view\/115286&gt;. Acesso em: 16 set. 2018.<\/li><li>MADDEN, Richard. Poems by a slave in the island of Cuba, recently liberated. London: Thomas Ward And Co., 1840. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/archive.org\/details\/poemsbyslaveinis00manz&gt;. Acesso em: 29 out. 2018.<\/li><li>MANZANO, Juan Francisco. A Autobiografia do poeta-escravo. S\u00e3o Paulo: Hedra, 2015. Tradu\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o de Alex Castro.<\/li><li>MOLLOY, Silvia. De la sujeci\u00f3n al sujeto: La \u201cAutobiograf\u00eda\u201d de Juan Francisco Manzano. In: MOLLOY, Silvia. Acto de presencia: La escritura autobiogr\u00e1fica en Hispanoam\u00e9rica. Ciudad de M\u00e9xico: El Col\u00e9gio de M\u00e9xico, 1996. p. 52-77. Traducci\u00f3n de Jos\u00e9 Esteban Calder\u00f3n.<\/li><li>RIBEIRO, Djamila. O que \u00e9 lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.<\/li><li>SAID, Edward. Representa\u00e7\u00f5es do intelectual: As Confer\u00eancias Reith de 1993. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2005. Tradu\u00e7\u00e3o de Milton Hatoum.<\/li><li>SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010. Tradu\u00e7\u00e3o de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa, Andr\u00e9 Pereira Feitosa.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: literatura negra hispano-americana; autobiografia; Juan Francisco Manzano; postura dos intelectuais; possibilidade de fala do subalterno.<\/p>\n\n\n\n<h4>10 O eu, o outro e a orelha na garrafa com \u00e1lcool<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Pietro Gabriel dos Santos Pacheco<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O ser humano, enquanto indiv\u00edduo, n\u00e3o pode existir sem o contato com sua comunidade, seja ela familiar, religiosa, pol\u00edtica ou social. \u00c9 algo que se constr\u00f3i durante a sua jornada, ao longo do contato com o outro. Essa heran\u00e7a adotada abre espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o da identidade male\u00e1vel do indiv\u00edduo contempor\u00e2neo. A no\u00e7\u00e3o de \u00c1frica enquanto continente homog\u00eaneo limitou por muito tempo qualquer considera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e intelectual, baseando-se tanto pela exist\u00eancia de semelhan\u00e7a \u00e9tnico-racial, quanto por sua condi\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio explor\u00e1vel economicamente pelo Europeu civilizado (C\u00c9SAIRE, 2010; BIRMINGHAN in CHABAL, 2002). Ant\u00f3nio Lobo Antunes, escritor portugu\u00eas contempor\u00e2neo e ex-combatente em Angola, ap\u00f3s largar as armas, passa a escrever com tinta sobre os fantasmas coloniais que assombram aqueles que voltaram de \u00c1frica. A guerra colonial \u00e9 um tema recorrente e a consequ\u00eancia do p\u00f3s-guerra, a partir da mem\u00f3ria, sobretudo, \u00e9 a base para as constru\u00e7\u00f5es de personagens em constante conflito. Em&nbsp;<em>At\u00e9 que as pedras se tornem mais leves que a \u00e1gua<\/em>&nbsp;(2017), seu pen\u00faltimo romance, temos a hist\u00f3ria sob duas perspectivas: a do pai branco, ex-alferez e a do filho preto, objeto de nosso estudo, que \u00e9 retirado de sua terra natal ap\u00f3s a morte brutal de seus pais e o inc\u00eandio de sua aldeia. Ao ser levado para Portugal, passa a viver e se adaptar a uma nova forma\u00e7\u00e3o social e cultural, saindo de Angola, adentram no mundo da antiga Metr\u00f3pole. O indiv\u00edduo, frente \u00e0 nova cultura percebe-se como o diferente, o outro (BHABHA, 2013) e \u00e9 a partir da\u00ed que a tem\u00e1tica da identidade ganha for\u00e7a. Para Isabel Castro Henriques (2003): \u201cO problema central reside na maneira como o Mesmo se consolida a si pr\u00f3prio e simultaneamente repele o Outro\u201d (p. 123-124). Estar em Portugal \u00e9 ser obrigado a civilizar-se, adquirir pr\u00e1ticas e discursos que n\u00e3o s\u00e3o pr\u00f3prios de si. Moldar-se para n\u00e3o sucumbir; embranquecer. Esta ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas socioculturais se d\u00e1 pelo car\u00e1ter male\u00e1vel da identidade que, segundo Stuart Hall, em&nbsp;<em>A identidade cultural na p\u00f3s-modernidade<\/em>, encontra-se sujeita a modifica\u00e7\u00f5es, altera\u00e7\u00f5es e novos comportamentos. Entretanto, at\u00e9 que ponto eles est\u00e3o sobrepostos \u00e0 identidade prim\u00e1ria? A mem\u00f3ria \u00e9 uma forma de n\u00e3o perder sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria (POLLAK, 1989; HALBWACKS, 1990), e um dos processos de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria. Para Frantz Fanon (2017): \u201cfalar aqui, al\u00e9m de estar em condi\u00e7\u00f5es de empregar certa sintaxe, ou possuir a morfologia de tal ou qual l\u00edngua, \u00e9, sobretudo, assumir uma cultura, suportar o peso de uma civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (p. 14) voltar ao passado e enxergar-se como parte de algo maior.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ANTUNES, Lobo. At\u00e9 que as pedras se tornem mais leves que a \u00e1gua. Lisboa: Dom Quixote, 2017.<\/li><li>BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradu\u00e7\u00e3o de Myriam \u00c1vila, Eliana Louren\u00e7o de Lima Reis, Gl\u00e1ucia Renate Gon\u00e7alves. \u2013 2. ed. \u2013 Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.<\/li><li>BIRMINGHAN, David. The End of Empire. In CHABAL, Patrick. A History of Postcolonial Lusophone Africa. Indiana: Indiana University Press, 2002.<\/li><li>C\u00c9SAIRE, Aim\u00e9. Discurso sobre o colonialismo. Rio de Janeiro: Letras Contempor\u00e2neas, 2010.<\/li><li>FANON, Frantz. Peles negras, m\u00e1scaras brancas. Bahia: Edufba, 2008.<\/li><li>HALBAWACKS, Maurice. A mem\u00f3ria coletiva. S\u00e3o Paulo: V\u00e9rtice, 1990.<\/li><li>HENRIQUES, Isabel Castro. Classificar o Outro: historiza\u00e7\u00e3o e flutua\u00e7\u00e3o dos conceitos. In RIBEIRO, Ant\u00f3nio Sousa; RIBEIRO, Maria Calafate. Geometrias da mem\u00f3ria: configura\u00e7\u00f5es p\u00f3s-coloniais. Porto: Afrontamento, 2016.<\/li><li>POLLAK, Michael. Mem\u00f3ria, Esquecimento, Sil\u00eancio. Dispon\u00edvel em: http:\/\/encurtador.com.br\/efLO2 . Acesso em 20\/06\/2019.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: identidade; mem\u00f3ria; hist\u00f3ria; Lobo Antunes.<\/p>\n\n\n\n<h4>11 Travessias do Atl\u00e2ntico Negro: navegando com Fradique Mendes<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Dilma Beatriz da Rocha Juliano<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa em curso, trabalhando com as fic\u00e7\u00f5es nas travessias do Atl\u00e2ntico, no tri\u00e2ngulo Brasil \u2013 \u00c1frica Meridional \u2013 Portugal, encontra com&nbsp;<em>Na\u00e7\u00e3o Crioula<\/em>&nbsp;(2011), livro escrito por Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, publicado em 1997. Na tradi\u00e7\u00e3o epistolar, o autor rep\u00f5e na cena liter\u00e1ria a figura de Carlos Fradique Mendes que, na virada do s\u00e9culo XIX para o XX, serviu de cr\u00edtico dos costumes e da literatura europeia moderna para as investidas de E\u00e7a de Queiroz e seus \u201ccamaradas do Cen\u00e1culo\u201d. Nos dois volumes de E\u00e7a de Queiroz,&nbsp;<em>A correspond\u00eancia de Fradique Mendes<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Cartas in\u00e9ditas de Fradique Mendes e mais p\u00e1ginas esquecidas<\/em>, o personagem se constitui em uma dessas presen\u00e7as que impossibilita separar a literatura da vida em carne e osso. Ele aparece no mundo das palavras de E\u00e7a de Queiroz em 1867, num encontro ao acaso como tantos s\u00e3o os nossos com a palavra ficcional. Diz E\u00e7a de Queiroz: \u201cA minha intimidade com Fradique Mendes come\u00e7ou em 1880, em Paris, pela P\u00e1scoa, \u2014 justamente na semana em que ele regressara da sua viagem \u00e0 \u00c1frica Austral. O meu conhecimento por\u00e9m com esse homem admir\u00e1vel datava de Lisboa do ano remoto de 1867.\u201d (s\/d). Fradique Mendes em seu retorno da \u00c1frica Austral parece ser a pista para Agualusa que, em sentido inverso ao de E\u00e7a, inicia as cartas desde a chegada a Luanda, passando por Benguela, viajando a Paris e Lisboa, conhecendo o Rio de Janeiro, ainda no Brasil, compra terras e se instala em Olinda. Ao inv\u00e9s de tomar dist\u00e2ncia, e desde a Europa avaliar a hist\u00f3ria de coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, Fradique, em&nbsp;<em>Na\u00e7\u00e3o Crioula<\/em>&nbsp;(2011), relata suas impress\u00f5es e pesa os efeitos da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em terras africanas e brasileiras a partir do que experi\u00eancia, do estar l\u00e1, do contato com a terra e com as gentes. Ele sente odores, se espanta com os h\u00e1bitos, compara as culturas, adoece, se apaixona e a partir dessas experi\u00eancias se permite repensar a racializa\u00e7\u00e3o dos negros, colocados a servi\u00e7o do enriquecimento europeu. Neste sentido, esta comunica\u00e7\u00e3o pretende examinar a posi\u00e7\u00e3o (des)colonizadora do portugu\u00eas, Fradique, buscando sustentar a hip\u00f3tese de que Agualusa n\u00e3o s\u00f3 retoma E\u00e7a Queiroz, um portugu\u00eas do s\u00e9culo XIX anterior \u00e0s independ\u00eancias pol\u00edticas em \u00c1frica, mas reinventa Fradique Mendes numa esp\u00e9cie de revisionismo dos gestos colonizadores, de uma hist\u00f3ria racista, refazendo o desenho das viol\u00eancias que inventaram a ra\u00e7a como raz\u00e3o explorat\u00f3ria, no tri\u00e2ngulo Atl\u00e2ntico. Para enfoque conceitual ser\u00e3o acionadas no\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de Franz Fanon (2008) e Achile Mbembe (2017 e2018); e para a cr\u00edtica hist\u00f3rica o apoio vir\u00e1 de Lilia Schwarcz e Fl\u00e1vio Gomes (2018) e de C\u00e9lia Azevedo (2004), pretendendo tensionar, principalmente, as concep\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a, racismo, naquilo que, via literatura, auxiliam o pensar em pol\u00edticas de alteridade entre sujeitos que partilham uma mesma hist\u00f3ria de tr\u00e2nsitos culturais. A pesquisa tem apontado para um Fradique Mendes que, desde o t\u00edtulo, reconhece a mesti\u00e7agem nas travessias e permite redimensionar a no\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00e3o, tecendo fios de reciprocidade desde a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AGUALUSA, Jos\u00e9 Eduardo. Na\u00e7\u00e3o crioula. A correspond\u00eancia secreta de Fradique Mendes. Rio de Janeiro: L\u00edngua Geral, 2011.<\/li><li>AZEVEDO, C\u00e9lia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco. O negro no imagin\u00e1rio das elites s\u00e9culo XIX. S\u00e3o Paulo: Annablume, 2004.<\/li><li>QUEIROZ, E\u00e7a de. A correspond\u00eancia de Fradique Mendes. (Mem\u00f3rias e notas). Porto: Lello &amp; Irm\u00e3os, s\/d.<\/li><li>QUEIROZ, E\u00e7a de. Cartas in\u00e9ditas de Fradique Mendes e mais p\u00e1ginas esquecidas. Porto: Lello &amp; Irm\u00e3os, s\/d. e liberdade<\/li><li>SCHWARCZ, Lilia M. e GOMES, Fl\u00e1vio. Dicion\u00e1rio da escravid\u00e3o e liberdade. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2018.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Ra\u00e7a e Racismo; Na\u00e7\u00e3o Crioula; Jos\u00e9 Eduardo Agualusa; Cartas in\u00e9ditas de Fradique Mendes; E\u00e7a de Queiroz.<\/p>\n\n\n\n<h4>12 Ayaan Hirsi Ali \u2013 existir pela palavra<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Patr\u00edcia Ribeiro Brasil<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os estudos te\u00f3ricos p\u00f3s-coloniais permitem uma possibilidade outra de narrativa \u00e0s hist\u00f3rias \u00fanicas, viabilizando uma releitura dos processos de coloniza\u00e7\u00e3o euroc\u00eantricos como modelo de civiliza\u00e7\u00e3o universal. A presente comunica\u00e7\u00e3o diz respeito a uma an\u00e1lise da autobiografia de Ayaan Hirsi Ali,&nbsp;<em>Infiel<\/em>&nbsp;(2007). A escritora somali, em situa\u00e7\u00e3o diasp\u00f3rica, escreve esse livro da Holanda onde viveu at\u00e9 o ano de 2006. Atualmente, vive sob prote\u00e7\u00e3o do governo estadunidense. A pol\u00edtica holandesa de origem somali relata suas experi\u00eancias, por meio do g\u00eanero autobiogr\u00e1fico, retomando quest\u00f5es culturais de uma \u00c1frica mu\u00e7ulmana ignorada para muitos. O subt\u00edtulo da sua obra,&nbsp;<em>A mulher que desafiou o Isl\u00e3<\/em>, nos introduz a uma narrativa que questiona o islamismo em muitos dos seus dispositivos de domina\u00e7\u00e3o: a educa\u00e7\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es sociais com as mulheres, as rela\u00e7\u00f5es familiares, as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas, o casamento, a religi\u00e3o. Juntamente a isso, ela relata tamb\u00e9m todo o seu processo de fuga e de refugiada na Holanda. A materialidade de seu discurso em sua obra traz, de modo pungente, a religi\u00e3o em sua cultura \u2013 islamismo \u2013 e que produz um silenciamento opressivo e violento, um apagamento do eu e que s\u00f3 a escritura diasp\u00f3rica da palavra pode libertar e fazer existir. Ser refugiada em um pa\u00eds europeu com ideais de liberdade distintos do que ela viveu, provocar\u00e1 reflex\u00f5es contundentes sobre a vida, sobre o ser humano, sobre a individualidade, sobre identidade. Associa-se a essa narrativa, a escritura feminista que extrapola a bipolaridade patriarcalismo\/feminismo da condi\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-colonialidade; a constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria dessa mulher marginalizada, que desmascara o imperialismo cultural e que chega ao centro com o poder enunciativo da palavra, \u00e9 reverberante no campo simb\u00f3lico do imagin\u00e1rio colonial. H\u00e1 algo a ser dito, a ser recontado, a ser traduzido desde outro locus, desse outro ponto de vista. Isso vem desde uma outra voz que \u00e9 leg\u00edtima e legitimadora. Desde um lugar de enuncia\u00e7\u00e3o de mulher, negra, colonizada e \u00e0 margem das centralidades de poder. A literatura \u00e9 um desses lugares de fala e assumir esse lugar \u00e9, como disse a fil\u00f3sofa brasileira Djamila Ribeiro (2019), poder existir, pois se pensa esse lugar de fala como uma forma de refutar a historiografia tradicional e universalizante que hierarquiza saberes e seres. A obra que comp\u00f5e o corpus desta comunica\u00e7\u00e3o recoloca sua enunciadora em um processo, de fato, comunicativo; em uma funcionalidade em que falar \u00e9 existir plenamente para o outro, como assevera Fanon (2008).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ALI, Ayaan Hirsi. Infiel: a mulher que desafiou o Isl\u00e3. Tradu\u00e7\u00e3o de Luiz A. de Ara\u00fajo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.<\/li><li>FANON, Franz. O negro e a linguagem. In: Pele negra, m\u00e1scaras brancas. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato da Silveira, Salvador, EDUFBA, 2008, p.33-51.<\/li><li>RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. S\u00e3o Paulo, P\u00f3len, 2019.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chav<\/strong>e: Ayaan Hirsi Ali; lugar de fala; p\u00f3s-colonialismo; identidade; islamismo.<\/p>\n\n\n\n<h4>13 Pelos vales desencantados da dor: a viol\u00eancia contra as mulheres em&nbsp;<em>Insubmissas l\u00e1grimas de mulheres<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Luciane de Lima Paim, Patrini Viero Ferreira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O debate sobre a viol\u00eancia contra as mulheres torna-se, a cada dia, uma maneira necess\u00e1ria de denunciar atos t\u00e3o cru\u00e9is e marcantes na vida das v\u00edtimas. Segundo as fontes midi\u00e1ticas atuais, como jornais e redes sociais, ao tr\u00eas dias do m\u00eas de fevereiro de 2019, j\u00e1 haviam sido contabilizados 109 casos de feminic\u00eddios no Brasil. Nesse sentido, se as mazelas do patriarcado ainda eram motivo de discuss\u00f5es e d\u00favidas para a sociedade, com tais situa\u00e7\u00f5es fica evidente que n\u00f3s mulheres ainda somos ref\u00e9ns de um grupo que v\u00ea e materializa a mulher como um objeto, jamais como um sujeito. Para tanto, relacionar esse tema com a literatura brasileira torna-se uma ferramenta de resist\u00eancia. Ferramenta essa que \u00e9 capaz de levar para todos os espa\u00e7os e para todos os grupos sociais a voz e as hist\u00f3rias de mulheres que tiveram a vida marcada por dor, viol\u00eancia e sofrimento. Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, em grande parte do seu acervo liter\u00e1rio, faz quest\u00e3o de representar, atrav\u00e9s de suas personagens, as hist\u00f3rias dessas mulheres. Assim, o objetivo desse estudo \u00e9 identificar por quais tipos de viol\u00eancia f\u00edsica passam as personagens apresentadas em&nbsp;<em>Insubmissas L\u00e1grimas de Mulheres<\/em>&nbsp;(2011). Metodologicamente, foram analisados excertos da narrativa que refor\u00e7am o que j\u00e1 foi mencionado por Beauvoir, Butler, Spivak, Bourdie, Scott, Tiburi, entre outros, sobre viol\u00eancia contra mulher, desigualdade de g\u00eanero, discrimina\u00e7\u00f5es raciais, e patriarcalismo, visto que n\u00e3o h\u00e1 como desvincular tais tem\u00e1ticas do tema central. Por fim, conclui-se que como nessa pesquisa a mulher \u00e9 vista como v\u00edtima, afirma-se que das personagens apresentadas pela autora e selecionadas para o estudo, todas sofrem algum tipo de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experi\u00eancia vivida. v. 2. Traduzido por S\u00e9rgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.<\/li><li>BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. v. 1. Traduzido por S\u00e9rgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.<\/li><li>BOURDIEU, P. A domina\u00e7\u00e3o masculina. 13. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.<\/li><li>BUTLER, J. \u201cSujeitos do sexo\/g\u00eanero\/desejo\u201d. In: Problemas de g\u00eanero: Feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003. Dispon\u00edvel em: http:\/\/minhateca.com.br\/Angela.Rojo\/Galeria\/ARTES\/BUTLER*2c+Judith.+Problemas+de+Genero+1-2,15243929.pdf&gt;. Acesso em 24 abr. 2019.<\/li><li>EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. Insubmissas l\u00e1grimas de mulheres. Belo Horizonte: Nandyala, 2011.<\/li><li>SCOTT, J. \u201cGender: A Useful Category of Historical Analysis\u201d. In: Gender and the Politics of History. New York, Columbia University Press, 1988, tradu\u00e7\u00e3o de Bete Suh.<\/li><li>SPIVAK, G. C. Can the subaltern speak? In: NELSON, Cary; GROSSBERG, Lawrence (eds.). Marxism and the interpretation of culture. Chicago: Chicago Press, 1988.<\/li><li>TIBURI, M. Feminismo em comum: para todas, todes e todos. 4. ed., Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Viol\u00eancia contra a mulher. Insubmissas l\u00e1grimas de mulheres. Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Contos brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<h4>14 A fragilidade dos la\u00e7os familiares elucidada no retorno ao lar: um estudo do romance&nbsp;<em>The Green Road<\/em>, de Anne Enright<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Carla Luciane Klos Sch\u00f6ninger<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este estudo objetiva analisar o romance&nbsp;<em>The Green Road<\/em>, romance da escritora irlandesa Anne Enright (2015), considerando os deslocamentos dos personagens a fim de lidar com situa\u00e7\u00f5es familiares. O romance&nbsp;<em>The Green Road<\/em>&nbsp;\u00e9 dividido em duas partes: \u201cLeaving\u201d e \u201cComing Home\u201d. A primeira parte divide-se em cinco cap\u00edtulos: Hanna-Ardeevin, Co. Clare \u2013 1980; Dan, New York \u2013 1991; Constance, Co. Limerick-1997; Emmet. S\u00e9gou, Mali-2002; Rosaleen, Ardeevin- 2005. Os cap\u00edtulos se intitulam com os nomes dos quatro filhos, lugares em que vivem e anos correspondentes, o quinto cap\u00edtulo leva o nome da matriarca da fam\u00edlia. A segunda parte \u00e9 dividida em pequenos cap\u00edtulos que tratam de locais e situa\u00e7\u00f5es vivenciadas pela fam\u00edlia. Nessa parte ocorre o retorno dos filhos pela estrada verde, tentativa de resgate das rela\u00e7\u00f5es familiares e um \u00faltimo Natal em que iriam se reunir. O romance trata do deslocamento, da liquidez nas rela\u00e7\u00f5es familiares, bem como sobre o reconhecimento. O contexto em que os personagens vivem, considera as perspectivas de Bauman (2001), Giddens (2002) e Hall (2006) e a vida dos personagens na cidade a partir da perspectiva de Haesbaert (2014), Gomes (2014) e Bolle (1994). Os personagens deslocam-se para, de alguma forma, poder encontrar a si mesmos e\/ reestabelecer rela\u00e7\u00f5es com o Outro. Os deslocamentos se d\u00e3o na cidade, entre cidades, entre pa\u00edses e continentes. Esses deslocamentos ocorrem em&nbsp;<em>The Green Road<\/em>&nbsp;para tratar do resgate de si mesmo nas rela\u00e7\u00f5es familiares. Portanto, os conceitos de Ottmar Ette sobre deslocamento e movimento s\u00e3o perfeitamente evidenciados neste estudo. \u00c9 poss\u00edvel analisar conceitos e estudos condizentes com o cen\u00e1rio atual, retratado pelo soci\u00f3logo Zygmunt Bauman como contexto l\u00edquido. Contexto este em que tudo flui com dinamicidade, exigindo adapta\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo que, tendo uma \u201cvida l\u00edquida\u201d, obriga-se a mudar num curto espa\u00e7o temporal, o que por vezes impossibilita que os h\u00e1bitos e rotinas sejam consolidados e at\u00e9 mesmo as rela\u00e7\u00f5es com a pessoas mais pr\u00f3ximas, mostrando a fragilidade dos la\u00e7os humanos. Ao mesmo tempo, na cidade emerge o medo, a inseguran\u00e7a, o isolamento e as atitudes evidenciam a indiferen\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o ao outro. A investiga\u00e7\u00e3o da obra&nbsp;<em>The Green Road<\/em>&nbsp;permite a an\u00e1lise do cen\u00e1rio atual, um contexto l\u00edquido; em que fatos, circunst\u00e2ncias e a forma como os personagens levam a vida resulta em conflitos pessoais, nas rela\u00e7\u00f5es profissionais e nas rela\u00e7\u00f5es familiares. Ao sair e posteriormente retornar para o lugar familiar, h\u00e1 de alguma forma um reencontro consigo mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Rela\u00e7\u00f5es familiares; deslocamentos; contexto l\u00edquido; reconhecimento; cidades.<\/p>\n\n\n\n<h4>15 A minha casa \u00e9 onde estou?<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Daniela Severo de Souza\nScheifler <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 p\u00f3s-colonial\ne de forte migra\u00e7\u00e3o de africanos para o continente europeu. Tem-se aqui um mar\nmediterr\u00e2neo que se transformou em um cemit\u00e9rio a c\u00e9u aberto, em vista das\nprec\u00e1rias embarca\u00e7\u00f5es que o atravessam, cheias do que se convencionou chamar de\nrefugiados. Nessa paisagem, a escritora Igiaba Scego, atrav\u00e9s da sua\nliteratura, mistura fic\u00e7\u00e3o, autobiografia e milit\u00e2ncia, ao recontar as est\u00f3rias\nda sua inf\u00e2ncia que incluem acontecimentos hist\u00f3ricos marcantes da Som\u00e1lia e da\nIt\u00e1lia. Em seu trabalho, nos apresenta os horrores hist\u00f3ricos do colonialismo\nitaliano que incidiu sobre e explorou a Som\u00e1lia, pa\u00eds dos seus ancestrais.\nDiscute, tamb\u00e9m, as viol\u00eancias contempor\u00e2neas que acontecem na It\u00e1lia, lugar\nonde nasceu, imigrante de segunda gera\u00e7\u00e3o, e no qual tamb\u00e9m sofreu e sofre a\nheran\u00e7a do racismo e, portanto, das muitas colonialidades ainda presentes no\nmundo de hoje. A partir dessas reflex\u00f5es, este artigo tem por objetivo\ntrabalhar a quest\u00e3o das identidades diasp\u00f3ricas, segundo Hall (2003) e o\nracismo que incide violentamente na vida dos africanos que migram para a\nEuropa, frequentemente para o pa\u00eds de seus colonizadores. Visa tamb\u00e9m trabalhar\ncom o entre-lugar de quem ocupa ou uma esp\u00e9cie de lugar entre par\u00eanteses na\nsociedade, um lugar afastado, mas um lugar de cura, para parafrasear Bhabha\n(2011), ao falar das minorias. O foco principal da an\u00e1lise ser\u00e1 o romance\nautobiogr\u00e1fico <em>La mia casa \u00e8 dove sono<\/em>\n(SCEGO, 2010) da escritora \u00edtalo-somaliana Igiaba Scego. O estudo elucida,\natrav\u00e9s da voz de Igiaba, as opress\u00f5es e as in\u00fameras perdas que imp\u00f5em a di\u00e1spora.\nAl\u00e9m disso, analisa tamb\u00e9m a necropol\u00edtica com suas pr\u00e1ticas de exterm\u00ednio,\nconceito de Mbembe (2018), mas tamb\u00e9m os poss\u00edveis caminhos para a\ndescoloniza\u00e7\u00e3o dos saberes e do modo de viver que a reflex\u00e3o e as experi\u00eancias\nda personagem suscitam.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BHABHA, Homi. O Bazar Global e o clube dos cavaleiros ingleses. Rio de Janeiro:Ed Rocco, 2011.<\/li><li>HALL, Stuart. Da Di\u00e1spora: identidades e media\u00e7\u00f5es culturais. Editora UFMG. Belo Horizonte, 2003.<\/li><li>MBEMBE, Achille. Necropol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/li><li>SCEGO, Igiaba. La mia casa \u00e8 dove sono. Torino: Loescher, 2010.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: literatura p\u00f3s-colonial; di\u00e1spora; entre-lugar; racismo; necropol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<h4>16 Deslocamento, abandono e (n\u00e3o) pertencimento no romance&nbsp;<em>Com armas sonolentas: um romance de forma\u00e7\u00e3o<\/em>, de Carola Saavedra<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Cristiane da Silva Alves<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Neste trabalho busca-se refletir sobre o romance&nbsp;<em>Com armas sonolentas: um romance de forma\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;(2018), da escritora Carola Saavedra, chilena de nascimento e radicada no Brasil desde a inf\u00e2ncia. Tem-se por objetivo investigar a import\u00e2ncia dos deslocamentos no desenvolvimento das protagonistas, Anna, Maike e uma terceira n\u00e3o nomeada (a av\u00f3). Intenta-se verificar, principalmente, se e como o percurso geogr\u00e1fico e emocional de cada uma dessas mulheres conduz ao rompimento ou \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o dos valores patriarcais e opressores da sociedade em que vivem(os), \u00e0 medida que as suas identidades v\u00e3o sendo (re)constitu\u00eddas. Da mesma forma, levando-se em conta o subt\u00edtulo escolhido pela autora ao nomear o romance em quest\u00e3o, pretende-se averiguar as caracter\u00edsticas que permitem que o identifiquemos como um romance de forma\u00e7\u00e3o, ou&nbsp;<em>bildungsroman<\/em>. \u00c9 oportuno mencionar, neste caso, que por tratar-se de romance de forma\u00e7\u00e3o feminino e contempor\u00e2neo, apesar de apresentar algumas das caracter\u00edsticas da trajet\u00f3ria de aprendizado e amadurecimento do&nbsp;<em>bildungsroman<\/em>&nbsp;cl\u00e1ssico (de origem alem\u00e3), podem ser observadas algumas diferen\u00e7as naturais (e significativas) que est\u00e3o presentes na narrativa. N\u00e3o ser\u00e1 incomum, assim, deparar-se com certas particularidades que dizem respeito \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero e, igualmente, que se relacionam com as novas realidades sociais, hist\u00f3ricas, pol\u00edticas e culturais que cercam as produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias atuais. De in\u00edcio, em uma mirada superficial, \u00e9 poss\u00edvel constatar que, diferentemente do tradicional modelo masculino, o romance de Saavedra n\u00e3o \u00e9 constru\u00eddo a partir de uma figura central e heroica, mas sim em torno de tr\u00eas mulheres comuns e de suas respectivas trajet\u00f3rias. Em seus deslocamentos, marcados por percal\u00e7os, abandonos, desilus\u00f5es, descobertas e transforma\u00e7\u00f5es, as personagens-protagonistas obt\u00eam, cada uma a sua maneira, variadas experi\u00eancias, o que n\u00e3o significa, necessariamente, que elas consigam triunfar e\/ou alcan\u00e7ar equil\u00edbrio e integra\u00e7\u00e3o no seu meio social. Para apoiar as an\u00e1lises, recorre-se \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es de Stuart Hall, Simone de Beauvoir, Judith Butler, Mikhail Bakhtin e Cristina Ferreira Pinto, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BAKHTIN, Mikhail. O romance de educa\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria do realismo. In: BAKHTIN, Mikhail. Est\u00e9tica da Cria\u00e7\u00e3o Verbal. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Ermantina Galv\u00e3o G. Pereira. 2\u00aa. ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 221-276.<\/li><li>BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Milliet. 3\u00aa ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.<\/li><li>BUTLER, Judith. Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar. Rio de janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003.<\/li><li>HALL, Stuart. Da di\u00e1spora: identidades e media\u00e7\u00f5es culturais. Organiza\u00e7\u00e3o Liv Sovik; Tradu\u00e7\u00e3o de Adelaine La Guardia Resende et al. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.<\/li><li>HALL, Stuart. A identidade cultural na p\u00f3s-modernidade. Tradu\u00e7\u00e3o de Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 11\u00aa. ed. Rio de Janeiro: DP&amp;A, 2006.<\/li><li>PINTO, Cristina Ferreira. O Bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1990.<\/li><li>SAAVEDRA, Carola. Com armas sonolentas: um romance de forma\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2018.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Carola Saavedra; literatura de autoria feminina; deslocamento; identidade; bildungsroman.<\/p>\n\n\n\n<h4>17 Uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de culturas perif\u00e9ricas: o caso da martinicana Fran\u00e7oise Ega e da brasileira Carolina Maria de Jesus<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Samanta Vit\u00f3ria Siqueira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este trabalho apresenta\numa primeira aproxima\u00e7\u00e3o das obras de Carolina Maria de Jesus (1914 \u2013 1977) e\nde Fran\u00e7oise Ega (1920 \u2013 1976), respectivamente <em>Quarto de despejo: di\u00e1rio de uma favelada<\/em> e <em>Lettres \u00e0 une noire<\/em>, e pretende tra\u00e7ar um paralelo entre as autoras\na fim de pensar em uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u201centre-lugares\u201d. Em 1960, com a\npublica\u00e7\u00e3o de <em>Quarto de despejo<\/em>, a\nescritora negra, favelada e catadora de papel Carolina Maria de Jesus\nrevolucionou sua \u00e9poca ao conseguir adentrar a porta excludente da branca e\nelitista literatura brasileira. Alcan\u00e7ando a marca de 100 mil exemplares\nvendidos em poucos meses naquele ano, Carolina tamb\u00e9m foi publicada em 40 pa\u00edses,\ncom tradu\u00e7\u00e3o para 14 l\u00ednguas diferentes. Uma dessas tradu\u00e7\u00f5es, mais\nprecisamente um pequeno resumo de <em>Quarto\nde despejo<\/em> traduzido em franc\u00eas e veiculado na Fran\u00e7a pela revista Paris\nMatch, chega \u00e0s m\u00e3os de Fran\u00e7oise Ega, uma martinicana que emigrou para a\nFran\u00e7a durante a Segunda Guerra Mundial. Mulher negra, m\u00e3e, escritora e\nmilitante dos direitos dos imigrantes caribenhos na Fran\u00e7a, Fran\u00e7oise teve\ncontato com a obra de Carolina a partir desse resumo que lera na revista, que\nparecia ser seu \u00fanico luxo enquanto empregada dom\u00e9stica em Marselha. \u00c9 a partir\ndesse contato que Ega n\u00e3o somente se identifica nas palavras da escritora\nbrasileira, como enxerga tamb\u00e9m o dia a dia de muitas de suas companheiras\nimigrantes antilhanas ali. Dessa maneira, ela decide escrever um livro em\nformato de cartas endere\u00e7adas a Carolina Maria de Jesus para contar a sua\n\u201cirm\u00e3\u201d brasileira como suas hist\u00f3rias se pareciam. E assim nasce <em>Lettres \u00e0 une noire<\/em>, publicado em 1978,\nap\u00f3s a morte de Fran\u00e7oise e tamb\u00e9m de Carolina. No livro Carolina (2018), os\nautores Barbosa e Pinheiro questionam: \u201cQuantos pobres a conhecem, de verdade?\nQuantos negros foram influenciados por sua obra?\u201d (2018, p. 121). Normalmente\nsabemos que sua literatura n\u00e3o influenciou e nem foi lida, por exemplo, pelos\npobres da favela do Canind\u00e9. Ao mesmo tempo, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia Fran\u00e7oise Ega\nter lido Carolina e isso ter suscitado nela a vontade de escrever um livro em\nresposta, um livro que conte, por sua vez, a hist\u00f3ria dos pobres, dos negros e\ndos explorados martinicanos na Fran\u00e7a. Entendendo que Carolina \u00e9 fruto de um\ncontexto pol\u00edtico-social espec\u00edfico e prop\u00edcio para seu surgimento e sucesso, o\ntrabalho estabelecer\u00e1 o contato com a obra da escritora martinicana a fim de\nmostrar que Carolina n\u00e3o \u00e9 um feito singular, mas sim plural. Inscrevendo-se na\ndiscuss\u00e3o de novas identidades que perpassam as fronteiras do nacional,\nparte-se das reflex\u00f5es de Bhabha (1998) sobre categorias como entre-lugar para\nanalisar essas identidades culturais perif\u00e9ricas como conciliadoras, mesmo n\u00e3o\nfazendo parte do mesmo recorte geogr\u00e1fico. O sucesso da obra da brasileira\nserve como pontap\u00e9 inicial para o nascimento de uma ramifica\u00e7\u00e3o, nos termos do\ncr\u00edtico italiano Franco Moretti (2008), bastante espec\u00edfica: de mulheres,\npobres, favelados, explorados; sujeitos perif\u00e9ricos e marginais que finalmente\ntomam a palavra e falam por si.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradu\u00e7\u00e3o de Myriam \u00c1vila; Eliana Louren\u00e7o de Lima Reis; Gl\u00e1ucia Renate Gon\u00e7alves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.<\/li><li>EGA, Fran\u00e7oise. Lettres \u00e0 une noire &#8211; r\u00e9cit antillais. Paris: \u00c9ditions Harmattan, 1978.<\/li><li>JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: di\u00e1rio de uma favelada. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2014. <\/li><li>MORETTI, Franco. A literatura vista de longe. Tradu\u00e7\u00e3o de Anselmo Pessoa Neto. Porto Alegre: Arquip\u00e9lago, 2008.<\/li><li>PINHEIRO, Jo\u00e3o; BARBOSA, Sirlene. Carolina. 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Pesquisa e argumento de Sirlene Barbosa. Roteiros e desenhos de Jo\u00e3o Pinheiro. S\u00e3o Paulo: Veneta, 2018.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: culturas perif\u00e9ricas; entre-lugar; Fran\u00e7oise Ega; Carolina Maria de Jesus; ramifica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<h4>18 A escrita desfronteirizante de Najat El Hachmi<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Luciane da Silva Alves <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A escritora Najat El\nHachmi nasceu na cidade de Nador, no Marrocos, e migrou aos oito anos com a m\u00e3e\npara Vich, interior da comunidade aut\u00f4noma da Catalunha, na Espanha, para onde\nseu pai j\u00e1 havia migrado antes de ela nascer. No primeiro texto publicado pela\nautora, o ensaio <em>Jo tamb\u00e9 soc catalana<\/em>,\nde 2004, El Hachmi parte de aspectos biogr\u00e1ficos para abordar o tema da\nmigra\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o da Catalunha e, principalmente, reivindicar seu espa\u00e7o de\npertencimento e denunciar o lugar de \u201ceterno estrangeiro\u201d delegado aos\nimigrantes. Neste texto j\u00e1 aparecem os temas que posteriormente ser\u00e3o\ndesenvolvidos em suas narrativas ficcionais. Os romances de Najat El Hachmi\ntratam principalmente da situa\u00e7\u00e3o das mulheres de origem marroquina que migram\npara a Espanha. Na condi\u00e7\u00e3o de sujeitos interculturais e h\u00edbridos, as\npersonagens protagonistas de El Hachmi precisam recriar suas identidades a todo\ninstante. Atrav\u00e9s dos elementos de diferentes culturas presentes nas narrativas\ne da linguagem h\u00edbrida em que as narradoras contam suas hist\u00f3rias, \u00e9 poss\u00edvel\nperceber um processo de desfronteiriza\u00e7\u00e3o, como prop\u00f5e Ottmar Ette (2015), onde\nse torna dif\u00edcil definir o que \u00e9 estrangeiro e o que \u00e9 pr\u00f3prio, subvertendo as\ndiferentes fronteiras que se apresentam a estes sujeitos: territ\u00f3rios,\nculturas, g\u00eanero e racismo. Neste trabalho, que integra meu projeto de tese\n\u201cMulheres migrantes na literatura contempor\u00e2nea\u201d, analiso a configura\u00e7\u00e3o de\ng\u00eanero e identidade das personagens mulheres nas obras <em>La filla estrangera<\/em> (20015) e <em>L\u2019ultim\npatriarca<\/em> (2008), com o intuito de mostrar que o deslocamento pode permitir\na exist\u00eancia de espa\u00e7o de fala e de representa\u00e7\u00e3o das mulheres migrantes,\npersonagens e escritoras, que apontam para a reconfigura\u00e7\u00e3o do c\u00e2none\ntradicional e das fronteiras de todo tipo estabelecidas atrav\u00e9s de culturas\nnacionalistas e patriarcais. A partir das ideias de desfronteiriza\u00e7\u00e3o e de\nescrita em movimento, de Ottmar Ette (2015; 2008), \u00e9 poss\u00edvel perceber a\ncomplexidade deste tipo de texto em cen\u00e1rios culturais ainda marcados por\nfronteiras discursivas muito fortes e tamb\u00e9m as contribui\u00e7\u00f5es das escritas\nmigrantes a um processo de rearticula\u00e7\u00e3o dos c\u00e2nones nacionais. A escrita de\nmulheres migrantes, principalmente no caso da autora apresentada, \u00e9 uma escrita\nem movimento e movimentadora, que desloca fronteiras f\u00edsicas e culturais, e\ntamb\u00e9m cruza os limites designados aos pap\u00e9is de g\u00eanero e ao lugar de fala.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>EL HACHMI, Najat. La hija extranjera. Tradu\u00e7\u00e3o: Rosa Mar\u00eda Prats. Barcelona: Planeta, 2015.<\/li><li>EL HACHMI, Najat. El \u00faltimo patriarca. Tradu\u00e7\u00e3o de Rosa Mar\u00eda Prats. Barcelona: Planeta, 2010.<\/li><li>EL HACHMI, Najat. Jo tamb\u00e9 soc catalana. Barcelona: Butxaca, 2010.<\/li><li>ETTE, Ottmar. Saber sobreviver: a (o)miss\u00e3o da filologia. Trad. Paulo Soethe e Rosani Umbach. Rosani. Curitiba: UFPR, 2015.<\/li><li>ETTE, Ottmar. Literatura en movimiento. Trad. (esp.) Rosa Maria S. de Maihold. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Cient\u00edficas, 2008.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Najat El Hachmi; Ottmar Ette; migra\u00e7\u00e3o; g\u00eanero; identidade<\/p>\n\n\n\n<h4>19 \u201cIsso tamb\u00e9m \u00e9 obeah\u201d: <em>creolit\u00e9<\/em> e dom\u00ednio cultural em <em>Vasto Mar de Sarga\u00e7os<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Vanessa Gomes Alves de\nOliveira <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1966, a autora\ncaribenha Jean Rhys publicou um de seus romances mais conhecidos, <em>Vasto Mar de Sarga\u00e7os<\/em>, ap\u00f3s anos\ntentando escrever uma hist\u00f3ria para a infame personagem de Jane Eyre, de\nCharlotte Bront\u00eb, Bertha Mason. A personagem Crioula no romance ingl\u00eas \u00e9\nsilenciada, e ao inv\u00e9s de falar, rosna e grunhe como um animal. \u00c9 vista como\nlouca e selvagem. Para Rhys, a representa\u00e7\u00e3o de uma personagem Crioula como\nincivilizada e louca \u00e9 uma vis\u00e3o inglesa, e, portanto, tendenciosa. <em>Vasto Mar de Sarga\u00e7os<\/em> vem para dar voz a\nessa personagem silenciada, contando, atrav\u00e9s da narrativa, seu caminho at\u00e9 se\ntornar a mulher louca no s\u00f3t\u00e3o em Jane Eyre. O resultado \u00e9 Antoinette Cosway,\numa Crioula branca vivendo em uma casa deplor\u00e1vel com uma fam\u00edlia destru\u00edda.\nEla n\u00e3o pertence a lugar algum; flutua como o Mar de Sarga\u00e7os que nomeia o\nromance. Como herdeira de uma grande fortuna, seu destino \u00e9 se casar com um\nhomem ingl\u00eas a quem n\u00e3o conhece. Dessa forma, o objetivo do presente trabalho \u00e9\nanalisar e explorar o conceito de <em>Creolit\u00e9<\/em>\nde \u00c9douard Glissant, e a forma como este conceito aparece em <em>Vasto Mar de Sarga\u00e7os<\/em> atrav\u00e9s dos personagens\napresentados no romance. Al\u00e9m disso, ser\u00e1 analisado de que formas o dom\u00ednio\ncultural ocorre atrav\u00e9s do casamento e da suposta loucura da personagem\nprincipal, Antoinette, e sua m\u00e3e, Annette. Para realizar as analises, ser\u00e3o\nutilizados como aporte te\u00f3rico de identidade cultural, <em>Creolit\u00e9<\/em>, e a vis\u00e3o imperialista do marido do romance, Stuart Hall,\n\u00c9douard Glissant, e Elaine Showalter. O romance apresenta as diversas formas\nsobre como a personagem Antoinette \u2013 e sua m\u00e3e antes dela \u2013 \u00e9 considerada selvagem\ne ex\u00f3tica pelo olhar euroc\u00eantrico. Por essa raz\u00e3o, deve ser dominada por seu\nmarido ingl\u00eas, perdendo, ao longo do caminho, seu o nome, sua sanidade, e sua\nidentidade cultural.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>GLISSANT, Edouard. Caribbean Discourse: Selected Essays. Translated by: J. Michael Dash. 3rd ed., Virginia: The University Press of Virginia, 1999.<\/li><li>HALL, Stuart. Da Di\u00e1spora: Identidades e Media\u00e7\u00f5es Culturais. Translated by: Adelaine La Guardia Resende, Ana Carolina Escosteguy, Claudia Alvares, Francisco Rudiger, Sayonara Amaral. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003<\/li><li>HALL, Stuart. Essential Essays: Identity and Diaspora. North Carolina: Duke University Press, 2019.<\/li><li>RHYS, Jean. Vasto Mar de Sarga\u00e7os. Translated by: L\u00e9a Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2012.<\/li><li>RHYS, Jean. Wide Sargasso Sea. New York: W.W. Norton, 1999.<\/li><li>SHOWALTER, Elaine. A Literature of Their Own: British Women from Bront\u00eb to Lessing. New Jersey: Princeton University Press, 1977.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Creolit\u00e9; <em>Vasto Mar de Sarga\u00e7os<\/em>; Jean Rhys; literatura caribenha; p\u00f3s-colonialismo.<\/p>\n\n\n\n<h4>20 TEN (Teatro Experimental do Negro) um \u201centre-lugar\u201d na cena teatral brasileira do s\u00e9culo XX: pensando o teatro de Abdias do Nascimento a partir de uma perspectiva decolonial<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Acevesmoreno Flores Piegaz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo tem como\nobjeto de reflex\u00e3o o Teatro Experimental do Negro (TEN) inaugurado por Abdias\ndo Nascimento (2004) e seus pares em 1944, enquanto um <em>locus<\/em> singular tanto no teatro brasileiro, quanto na luta dos\nmovimentos sociais negros no s\u00e9culo XX, atrav\u00e9s de uma perspectiva decolonial.\nTal grupo teatral pensou o negro enquanto enunciado e enunciador da cena\ndram\u00e1tica, assim como cidad\u00e3o e agente de um Teatro Negro, que nesta reflex\u00e3o,\nrefere-se ao conjunto de manifesta\u00e7\u00f5es espetaculares cuja tessitura dram\u00e1tica\nest\u00e1 ancorada em matriciamentos culturais africanos ressignificados nas\nprodu\u00e7\u00f5es c\u00eanicas de grupos e coletivos teatrais cujos promotores s\u00e3o artista\nnegros. O TEN constitui-se na cena teatral brasileira como um coletivo de\nresist\u00eancia cultural enquanto um lugar de fala p\u00f3s-colonial, trouxe luz a um\ndebate sobre o racismo no teatro, da dramaturgia \u00e0 encena\u00e7\u00e3o, com seus clich\u00eas e\npreconceitos no lugar reservado a atores e atrizes brasileiros negros nas\nprodu\u00e7\u00f5es nacionais. Nesse vi\u00e9s, o Teatro Experimental do Negro se imp\u00f4s no\ncen\u00e1rio cultural do Brasil n\u00e3o atrav\u00e9s da concess\u00e3o de espa\u00e7os pelo\nestablishment, mas, ao contr\u00e1rio, pelo corajoso enfrentamento, pois a \u201ccultura\n\u00e9 tornada vis\u00edvel pelo choque cultural\u201d [&#8230;] (WAGNER, 2012, p.54). O TEN, vanguardista\nem sua proposta, \u201cincorporou ao projeto a perspectiva emancipat\u00f3ria do negro\n[&#8230;] uma vez que o sentido de ser negro foi colocado na perspectiva da nega\u00e7\u00e3o\nda suposta inferioridade natural dos negros (ou da superioridade dos\nbrasileiros) \u201d (ROM\u00c3O, 2005, p.119). Este grupo estreou outra \u201cdimens\u00e3o\u201d do\nteatro, da est\u00e9tica e outro olhar do e sobre o mundo plasmado para a cena teatral,\ncomo nos revela Ricardo Gaspar M\u00fcller (1999). Neste contexto, o Teatro Negro\npode ser pensado como um territ\u00f3rio de fronteira, um entre-lugar no cen\u00e1rio\nteatral brasileiro cujo objetivo final n\u00e3o se limitou a colocar o negro no\n\u201cpalco\u201d, diz respeito a um contexto art\u00edstico mais complexo, em que caminham\njuntas a cena e a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do cidad\u00e3o brasileiro negro. Assim, \u201co projeto\ndecolonial reconhece a domina\u00e7\u00e3o colonial nas margens\/fronteiras externas dos\nimp\u00e9rios [&#8230;], bem como reconhece a domina\u00e7\u00e3o colonial nas margens\/fronteiras\ninternas do imp\u00e9rio [&#8230;]\u201d (BERNARDINO-COSTA e GROSFOGUE, 2016, p. 20). O TEN\ncaminhou no sentido periferia\/centro, ou nas margens\/fronteiras internas, seus\nartistas\/cidad\u00e3os negros foram fazendo e pensando o trajeto na a\u00e7\u00e3o. Herdeiros\ndesta tradi\u00e7\u00e3o coletivos, grupos teatrais e <em>performers<\/em>\nnegros emergem no s\u00e9culo XXI com uma dramaturgia negra como resist\u00eancia\ncultural em rea\u00e7\u00e3o ao racismo e as narrativas c\u00eanicas do s\u00e9culo XX, que\nafirmavam uma hegemonia branca atrav\u00e9s da invisibilidade de personagens negros\ne\/ou sua estereotipia \u2013 considerando que o estere\u00f3tipo \u201c[&#8230;] \u00e9 uma forma de\nconhecimento e identifica\u00e7\u00e3o que vacila entre o que est\u00e1 sempre \u2018no lugar\u2019, j\u00e1\nconhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido [\u2026]\u201d (BHABHA, p.105). O\nTeatro Experimental do Negro pode ser pensado como um entre-lugar, uma nova\nepistemologia no teatro e na dramaturgia nacional em que se tem, pela primeira\nvez, a negritude como base do pensamento c\u00eanico, entendendo esta na perspectiva\nde Frantz Fanon (2008), de Carlos Gadea (2013) e de Achille Mbembe (2018).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BERNARDINO-COSTA, J. e GROSFOGUE, R. Revista Sociedade e Estado, v. 31, n. 1, Janeiro\/Abril, 2016. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/se\/v31n1\/0102-6992-se-31-01-00015.pdf. Acesso em: 03 mar. 2019.<\/li><li>BHABHA, K. H. O local da cultura. Trad. Myriam \u00c1vila, Eliana Louren\u00e7o de Lima Reis, Gl\u00e1ucia Renate Gon\u00e7alves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.<\/li><li>FANON, Frantz. Pele negra, m\u00e1scaras brancas. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.<\/li><li>GADEA, C. A. Negritude e p\u00f3s-africanidade: cr\u00edtica das rela\u00e7\u00f5es raciais contempor\u00e2neas. Porto Alegre: Sulina, 2013.<\/li><li>MBEMBE, A. Cr\u00edtica da raz\u00e3o negra. Tradu\u00e7\u00e3o de Sebasti\u00e3o Nascimento. S\u00e3o Paulo : n-1 Edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/li><li>M\u00dcLLER, R. G.&nbsp; Teatro, pol\u00edtica e educa\u00e7\u00e3o: a experi\u00eancia hist\u00f3rica do Teatro Experimental do Negro (TEN) &#8211; 1945-1968. Educa\u00e7\u00e3o Popular Afro Brasileira, Florian\u00f3polis, v. 1, n.5, p.13-31, 1999.<\/li><li>NASCIMENTO, A. Teatro experimental do negro: trajet\u00f3ria e reflex\u00f5es. Estudos Avan\u00e7ados. S\u00e3o Paulo, USP, vol.18, n.50, jan.-br. 2004. pp. 209-224. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40142004000100019 &gt;. Acesso em: 15 jul. 2019.<\/li><li>ROM\u00c3O, J. Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o do Negro e outras hist\u00f3rias. Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Continuada, Alfabetiza\u00e7\u00e3o e Diversidade, 2005. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/etnicoracial.mec.gov.br\/images\/pdf\/publicacoes\/historia_educacao_negro.pdf&gt;. Acesso em: 25 fev. 2019.<\/li><li>WAGNER, R. A inven\u00e7\u00e3o da cultura. S\u00e3o Paulo: Editora Cosac &amp; Naify, 2012.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: teatro experimental do negro; entre-lugar; negritude; perspectiva decolonial; racismo.<\/p>\n\n\n\n<h4>21 Unindo na\u00e7\u00f5es, desfazendo fronteiras: migra\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e pertencimento em A imensid\u00e3o \u00edntima dos Carneiros, de Marcelo Maluf<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Mirvana Luz Teixeira <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Benedict\nAnderson, a ideia de na\u00e7\u00e3o esteve associada, por muito tempo, ao conceito de\nsoberania, fazendo com que os sujeitos pertencentes \u00e0 determinada na\u00e7\u00e3o n\u00e3o\nsomente morressem por ela, mas tamb\u00e9m matassem para manter sua supremacia.\nAinda segundo o autor, esse conceito enraizou-se t\u00e3o fortemente \u00e0 vida humana\nque diversas fatalidades hist\u00f3ricas se tornaram por ele justificado, e, nesse\ncontexto, a hegemonia de um territ\u00f3rio moveu as a\u00e7\u00f5es dos homens ao longo do\ntempo. Hodiernamente, todavia, a \u201ccomunidade imaginada\u201d conceituada por\nAnderson torna-se, indo ao encontro da teoria do autor, cada vez mais ilus\u00f3ria,\nposto que os diversos tr\u00e2nsitos que movimentam os povos &#8211; migra\u00e7\u00f5es, ex\u00edlios,\ndi\u00e1sporas &#8211; est\u00e3o, nos s\u00e9culos XX e XXI, cada vez mais recorrentes. A migra\u00e7\u00e3o\nde uma fam\u00edlia libanesa para o Brasil, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, foi o que deu\nin\u00edcio \u00e0 hist\u00f3ria do romance aqui selecionado. Em <em>A imensid\u00e3o \u00edntima dos carneiros<\/em>, do autor Marcelo Maluf, vemos um\nsujeito exilar-se de sua terra natal em decorr\u00eancia do assassinato dos irm\u00e3os,\nno per\u00edodo da Guerra Civil Libanesa. A persegui\u00e7\u00e3o religiosa que tomou a vida\nde Adib e Rafiq trouxe o personagem Assaad Sim\u00e3o Maluf ao Brasil, e o afastou\nn\u00e3o somente de sua terra, mas tamb\u00e9m de sua origem, de sua l\u00edngua, de sua\nidentifica\u00e7\u00e3o com o L\u00edbano. A constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria do personagem, nesse\n\u00e2mbito, passou pela nega\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o de origem, da exclus\u00e3o de todas as\nrefer\u00eancias do passado, para uma tentativa &#8211; por muitos anos falha &#8211; de\npertencimento em terras brasileiras. Esse pertencimento s\u00f3 ocorreu, no romance,\nquando o personagem, por meio da escrita em um caderno de mem\u00f3rias, elaborou\nseu passado e compreendeu o trauma familiar. Assim, o objetivo desse trabalho,\n\u00e9 perceber como a ideia de na\u00e7\u00e3o, conceituada por Anderson, existe no romance\nselecionado. L\u00edbano e Brasil est\u00e3o em Assaad, por\u00e9m o personagem precisou\npercorrer uma longa trajet\u00f3ria para que ambas na\u00e7\u00f5es coubessem em si e integrassem\nsua identidade. Para depreender esse percurso, utilizarei, em um primeiro\nmomento, o trabalho de Sigmund Freud, com a inten\u00e7\u00e3o de conceituar trauma e\nperceber as implica\u00e7\u00f5es que esse tem na vida de Assaad. A escrita da mem\u00f3ria\nparece ser essencial para que o personagem encontre o elo entre os dois pa\u00edses\nem que viveu e, para estudar essa rela\u00e7\u00e3o, utilizarei os estudos de Aleida\nAssmann, Jan Assmann, Eric Santner e Michel Pollak. Por fim, em vista de\nanalisar os conceitos de migr\u00e2ncia, identidade e pertencimento, Julia Kristeva,\nPierre Ouellet, Walter Mignolo, Stuart Hall e Marcio Seligmann-Silva\ncomplementar\u00e3o a base te\u00f3rica do trabalho aqui proposto.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ANDERSON, B. Comunidades imaginadas: Tradu\u00e7\u00e3o de Denise Bottman. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 26-34.<\/li><li>ASSMANN, Aleida. Espa\u00e7os da recorda\u00e7\u00e3o: formas e transforma\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria cultural. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Soethe. Campinas: Editora da UNICAMP, 2011. <\/li><li>ASSMANN, Jan. Religi\u00f3n y memoria cultural. Diez estudios. Trad. de Marcelo G. Burello e Karen Saban. Buenos Ayres: Lilmod, Libros de la Araucaria, 2008.<\/li><li>FREUD, Sigmund. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. Dispon\u00edvel em: http:\/\/conexoesclinicas.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/freud-sigmund-obras-completas-imago-vol-18-1920-1922.pdf <\/li><li>FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. Dispon\u00edvel em: https:\/\/carlosbarros666.files.wordpress.com\/2010\/10\/lutoemelancolia1.pdf. Acessado em 20 de Setembro de 2018.<\/li><li>HALL, Stuart. Quem precisa da identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu (org. e trad.). Identidade e diferen\u00e7a: a perspectiva dos estudos culturais.. Petr\u00f3polis: Vozes, 2000. p. 103-133.<\/li><li>KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para n\u00f3s mesmos. Trad. Maria Carlota Gomes. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. <\/li><li>MALUF, Marcelo. A imensid\u00e3o \u00cdntima dos Carneiros. S\u00e3o Paulo: Reformat\u00f3rio, 2015. <\/li><li>MIGNOLO, Walter. Uma outra l\u00edngua. Mapas da lingu\u00edstica, geografias liter\u00e1rias, paisagens culturais. Hist\u00f3rias locais. Projetos globais. Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: UFMG, 2003. p. 297-339.<\/li><li>OUELLET, Pierre. Palavras Migrat\u00f3rias. As identidades migrantes: a paix\u00e3o pelo outro. In: <\/li><li>QUEIROZ, Maria Jos\u00e9 de. Os Males da Aus\u00eancia, ou a literatura do Ex\u00edlio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. <\/li><li>POLLAK, Michael. \u201cMem\u00f3ria e identidade social\u201d. In: Estudos Hist\u00f3ricos. vol. 5, no. 10. Rio de Janeiro, 1992, p. 200-212. <\/li><li>SANTNER, Eric. En torno a los l\u00edmites de la representaci\u00f3n. In: FRIEDLANDER, Saul (Org.). En torno a los l\u00edmites de la representaci\u00f3n. Bernal: Universidad Nacional de Quilmes Editorial, 2007.<\/li><li>SELIGMANN-SILVA, M\u00e1rcio. Hist\u00f3ria, Mem\u00f3ria, Literatura: o testemunho na Era das Cat\u00e1strofes. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Escrita; Identidade; Migra\u00e7\u00e3o; Na\u00e7\u00e3o; Pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<h4>22 No escuro do por\u00e3o: o conflito identit\u00e1rio em <em>The Opposite House<\/em>, de Helen Oyeyemi<\/h4>\n\n\n\n<p>Diego Bonatti, Ana L\u00facia Tettamanzy<\/p>\n\n\n\n<p>Este trabalho tem por\nobjetivo investigar o conflito identit\u00e1rio representado na obra <em>The Opposite House<\/em> (2007), da escritora\nHelen Oyeyemi. Nesta obra, \u00e9 narrada a tens\u00e3o vivida por Yemaja Saramagua, uma\njovem negra cubana que migra com a fam\u00edlia para Londres, fato que, somado \u00e0\ndescoberta de uma gravidez, a leva a experienciar uma crise identit\u00e1ria. Na narrativa,\na protagonista n\u00e3o consegue lidar com o embate causado por se sentir dividida\nentre espa\u00e7os, culturas, modos de ser e agir aparentemente antag\u00f4nicos.\nEnquanto sujeito marcado pela heran\u00e7a colonial, Yemaja representa a oposi\u00e7\u00e3o\nexistente entre colonizador e colonizado \u00e0 medida que \u00e9 v\u00edtima do racismo, da\nmesma forma como se percebe deslocada geogr\u00e1fica e culturalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\nEuropa. A crise identit\u00e1ria leva a protagonista a buscar nas mem\u00f3rias de Cuba o\nespa\u00e7o que considera original, o lugar aonde pertence, seu lar. A figura da\ncasa, nessa perspectiva, surge como elemento fundamental para expressar o\ndesejo de pertencer e encontrar uma resposta para seu problema de identidade. A\ntentativa de habitar a casa imagin\u00e1ria faz com que a personagem transite por\nv\u00e1rios c\u00f4modos, mas acabe encontrando no por\u00e3o um lugar que traduz\nmetaforicamente os sentimentos por ela vividos. O por\u00e3o, conforme Bachelard\n(1993), possui uma significa\u00e7\u00e3o amb\u00edgua, por vezes irracional, o que pode ser\naproximado dos diversos momentos cr\u00edticos em que a personagem tem surtos ao\nquestionar sua identidade. A identidade do sujeito p\u00f3s-colonial, para Hall\n(2003), \u00e9 relacionada com a posi\u00e7\u00e3o que o sujeito assume em determinados\ncontextos, nunca essencializada ou original, sendo constru\u00edda e reconstru\u00edda ao\npasso que o sujeito encontra seus \u201coutros\u201d, isto \u00e9, vive o sentimento de\ndiferen\u00e7a. Experienciar outra cultura, ver-se a partir da outridade, ou\ndesprender os la\u00e7os f\u00edsicos com um determinado espa\u00e7o podem ser fatos que\ncausem traumas no indiv\u00edduo. O trauma, conforme Freud (1996), Caruth (2000) e\nSelligman-Silva (2008) \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o de um evento que causou impacto sobre o\nsujeito e que passa a ser repetido inconscientemente na tentativa de super\u00e1-lo.\nSegundo Bhabha (2001), o processo de deslocamento, por conseguinte, coloca o\nsujeito p\u00f3s-colonial numa posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, de orienta\u00e7\u00e3o a partir do\nterceiro espa\u00e7o, o entre-lugar, um local que permite pensar a cultura n\u00e3o a\npartir de binarismos, mas sim enquanto uma nova possibilidade, que considere o\nm\u00faltiplo e o diverso. A indecis\u00e3o entre adotar uma ou outra identidade, ou\nseja, a divis\u00e3o entre o seu lugar, e o lugar ocupado pelo Outro \u00e9, de acordo\ncom Ouellet (2012), uma situa\u00e7\u00e3o comum na p\u00f3s-colonialidade.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.<\/li><li>BACHELARD, Gaston. A po\u00e9tica do espa\u00e7o. 1\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1993.<\/li><li>CARUTH, Cathy. Modalidades do despertar traum\u00e1tico \u2013 Freud, Lacan e a \u00e9tica da mem\u00f3ria. In: SELIGMANN-SILVA, M\u00e1rcio; NESTROVISKI, Nelson. (orgs.). Cat\u00e1strofe e representa\u00e7\u00e3o: ensaios. S\u00e3o Paulo: Escuta, 2000. p.111-136.<\/li><li>FREUD, Sigmund. (1920) Al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer. In: FREUD, Sigmund. Al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 11-75. (Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud, 18).<\/li><li>HALL, Stuart. Da di\u00e1spora: Identidades e media\u00e7\u00f5es culturais. Trad. Adelaine La Guardia Resende et al.Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. 1\u00aa reimpress\u00e3o.<\/li><li>OUELLET, Pierre. As palavras migrat\u00f3rias [L\u2019\u00e9spirit migrateur]. Tradu\u00e7\u00e3o de Luciano P. Moraes. Cadernos PPGL\/Furg, Rio Grande, n. 7, jun. 2012. (S\u00e9rie Tradu\u00e7\u00f5es).<\/li><li>OYEYEMI, Helen. The Opposite House. Bloomsbury: Londres, 2007.<\/li><li>SELIGMANN-SILVA, M\u00e1rcio. Narrar o trauma &#8211; A quest\u00e3o dos testemunhos de cat\u00e1strofes hist\u00f3ricas. Psicologia Cl\u00ednica, Rio de Janeiro, v. 20, n. 1, p. 65-82, 2008. Dispon\u00edvel em:&lt;http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/pc\/v20n1\/05&gt; Acesso em 15 jul. 2019.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Conflito identit\u00e1rio; Deslocamento; Literatura p\u00f3s-colonial; <em>The Opposite House<\/em>; Helen Oyeyemi.<\/p>\n\n\n\n<h4>23 Alteridade em Adriana Lisboa: o conto \u201cFeelings\u201d<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Felipe Maropo, Rauer\nRibeiro Rodrigues<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A presente comunica\u00e7\u00e3o\nse debru\u00e7a sobre o conto \u201cFeelings\u201d, de Adriana Lisboa. Essa escolha se\njustifica na medida em que temos estudado, h\u00e1 um tempo, autores brasileiros que\nt\u00eam produzido literatura ficcional e que tenham sua produ\u00e7\u00e3o enquadrada na\nchamada \u201cliteratura migrante\u201d (PORTO; TORRES, 2010), e mais especificamente na\nchamada \u201cliteratura da di\u00e1spora brasileira\u201d (VIEIRA, 2015). Preocupados com as\nquest\u00f5es relacionadas \u00e0 migr\u00e2ncia, estudamos como ela \u00e9 representada, em\nm\u00faltiplos aspectos (alteridade, saudade, estranhamento, etc.), em textos\nliter\u00e1rios de autores que tenham viv\u00eancia migrante. Este \u00e9 o caso de Adriana\nLisboa, autora brasileira que vem se destacando no cen\u00e1rio nacional e\ninternacional pela sua produ\u00e7\u00e3o, com boa recep\u00e7\u00e3o tanto pelo p\u00fablico leitor\ncomo pela cr\u00edtica especializada, o que tem resultado em pr\u00eamios a seus livros e\nem tradu\u00e7\u00f5es de suas obras. Lisboa, pelo que constatamos em seus textos, trata,\ndireta ou indiretamente, de aspectos relacionados ao ato de migrar. O conceito\nde \u201cliteratura migrante\u201d enfatiza o conceito de \u201ctranscultura\u00e7\u00e3o\u201d, de contato\nentre culturas, especialmente vivenciada pelos autores, que se modificam no\nprocesso e que geram uma produ\u00e7\u00e3o nova, h\u00edbrida. Vieira (2015) adota a mesma\nperspectiva ao compulsar a obra de autores brasileiros que migraram e\nproduziram no exterior. Esses estudiosos partem do pressuposto de que essa\nprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 distinta muito em fun\u00e7\u00e3o das viv\u00eancias e experi\u00eancias migrantes dos\nautores. Utilizamos referencial da Teoria Liter\u00e1ria, mais especificamente das\nTeorias do Conto e das Teorias da Narrativa, para, atrav\u00e9s da an\u00e1lise dos\nelementos constituintes do texto, sugerir uma interpreta\u00e7\u00e3o, sem deixar de\nvincular aos aspectos sociol\u00f3gicos das mobilidades culturais (BERND, 2010). No\nconto sob an\u00e1lise, Adriana Lisboa, al\u00e9m de tratar da migr\u00e2ncia de forma em\ngeral, enfatiza o aspecto da alteridade.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BERND, Zil\u00e1 (org.). Dicion\u00e1rio das mobilidades culturais: percursos americanos. Porto Alegre: Literalis, 2010.<\/li><li>LISBOA, Adriana. Feelings. In: LISBOA, Adriana. O sucesso. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.<\/li><li>PORTO, Maria Bernadette; TORRES, Sonia. Literaturas migrantes. In: FIGUEIREDO, Eur\u00eddice (org.). Conceitos de Literatura e Cultura. 2. ed. Niter\u00f3i, EdUFF; Juiz de Fora: EdUFJF, 2010.<\/li><li>VIEIRA, Else R. P. (org.). Escritores da di\u00e1spora brasileira: a\u00e7\u00f5es editoriais e processos de alteridade. Belo Horizonte: Mazza Edi\u00e7\u00f5es, 2015.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Adriana Lisboa; di\u00e1spora brasileira; literatura migrante; migra\u00e7\u00e3o; mobilidades culturais.<\/p>\n\n\n\n<h4>24 \u201cE as ervas de Ossanha no chimarr\u00e3o\u201d: rumo a um negro imagin\u00e1rio rural dos Pampas<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Ryan Benjamin Morrison <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com a publica\u00e7\u00e3o de <em>Poemas Regionais<\/em> de Oliveira Silveira em\n1968, a negritude se reinsere no imagin\u00e1rio rural dos Pampas\nsul-rio-grandenses, uma zona historicamente tipificada pelo personagem do\nga\u00facho e pela s\u00f3cio-economia pecu\u00e1ria. Os processos de branqueamento e o legado\ndeles no movimento folcl\u00f3rico brasileiro (1947-1964) deslocam temporal e\nespacialmente o corpo negro nesse territ\u00f3rio. A onipresente lenda do Negrinho\ndo Pastoreio vir\u00e1 a ocupar, por parte do Estado, o lugar da negritude nos\nPampas. Significa uma presen\u00e7a espectral e folclorizada que reproduz a\nviol\u00eancia sobre o corpo negro e remete a escravocracia brasileira espalhada,\nat\u00e9 hoje, em iconografia e literatura ao longo do Estado. A no\u00e7\u00e3o do \u201cAfro-ga\u00facho\u201d,\ncontextualizada por Silveira, sincretiza a di\u00e1spora africana com o ser pampeano.\nOs poemas do militante negro encarnam a cosmovis\u00e3o e subjetividade do negro\noriundo dos Pampas subestimada tanto pela hegemonia cultural branca da regi\u00e3o\nquanto, muitas vezes, pelo Movimento Negro de matriz urbana. Este trabalho\nressalta os elementos centrais dessa subjetividade rural e os tra\u00e7am na poesia\nnegra sul-rio-grandense da contemporaneidade. Al\u00e9m de sele\u00e7\u00f5es de <em>Obra Reunida<\/em> (2012) de Silveira, analiso\npoemas de tr\u00eas colet\u00e2neas contempor\u00e2neas: <em>Pretess\u00eancia<\/em>\n(2016) do sarau porto-alegrense Sopapo Po\u00e9tico, e <em>Negras Palavras Ga\u00fachas<\/em> (2013) e <em>Negras Palavras Ga\u00fachas 2 <\/em>(2018) organizadas por Oscar Henrique\nMarques Cardoso. A base te\u00f3rica desta an\u00e1lise parte dos estudos negros ao longo\nda Di\u00e1spora Africana nas Am\u00e9ricas. O trabalho das negras norte-americanas\nCarolyn Finney (2014) e Katherine McKittrick (2006) desconstr\u00f3i a rela\u00e7\u00e3o entre\na negritude e o mato, os espa\u00e7os rurais e outras geografias historicamente\nrepresentadas apenas por brancos. A no\u00e7\u00e3o de Amefricanidade de L\u00e9lia Gonz\u00e1lez\n(1988) exige a subjetividade negra na forma\u00e7\u00e3o do continente americano,\nabordado aqui no microcosmo dos Pampas, enquanto as contribui\u00e7\u00f5es de Djamila\nRibeiro (2018) necessitam uma leitura interseccional das poetisas e os poetas\nanalisados nessa apresenta\u00e7\u00e3o. Esse estudo forma parte de um projeto maior que\nutiliza literatura, iconografia e oralidade em uma releitura racializada dos\npampas fronteiri\u00e7os entre o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina.\nEnquanto a hegemonia cultural da regi\u00e3o \u00e9 afirmada atrav\u00e9s do apagamento do\ncorpo negro, meu trabalho refuta essa afirma\u00e7\u00e3o precisamente ao localizar a\nnegritude em uma regi\u00e3o real e imagin\u00e1ria: o que eu chamo de \u201cAfro-pampas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>FINNEY, Carolyn. Black Faces, White Spaces: Reimagining the Relationship of African Americans to the Great Outdoors. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2014.<\/li><li>GONZ\u00c1LEZ, L\u00e9lia. \u201cA categoria pol\u00edtico-cultural de amefricanidade\u201d. In: Tempo Brasileiro, n\u00fam. 92\/93, 1988, 69-82. <\/li><li>McKITTRICK, Katherine. Demonic Grounds: Black Women and the Cartographies of Struggle. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2006.<\/li><li>Negras Palavras Ga\u00fachas. Org. Oscar Henrique Marques Cardoso. Porto Alegre: Evangraf, 2013. <\/li><li>Negras Palavras Ga\u00fachas 2. Org. Oscar Henrique Marques Cardoso. Porto Alegre: Evangraf, 2018. <\/li><li>RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro? S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2018. <\/li><li>SILVEIRA, Oliveira. Obra reunida. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 2012. <\/li><li>Pretess\u00eancia. Org. Lilian Marques. Porto Alegre: Libretos, 2016.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Afro-pampas, Afro-ga\u00facho, Oliveira Silveira, Sopapo Po\u00e9tico, territ\u00f3rios negros<\/p>\n\n\n\n<h4>25 Juana Manso: uma autora latino-americana <\/h4>\n\n\n\n<p><em>Adriele Albuquerque de\nSouza <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este trabalho tem como\nobjetivo identificar o papel de Juana Manso (Buenos Aires, 1819 \u2013 1875), autora\nargentina, na literatura latino-americana. Justifica-se pela necessidade de dar\nvisibilidade e de aprofundar os estudos cr\u00edticos sobre as obras das romancistas\nlatino-americanas do s\u00e9culo XIX, a fim de contribuir para uma reescrita da\nliteratura latino-americana em que as vozes femininas (passadas e presentes)\ntamb\u00e9m sejam ouvidas. A partir do livro <em>Fic\u00e7\u00f5es\nde Funda\u00e7\u00e3o: os romances nacionais da Am\u00e9rica Latina<\/em> (1991), da cr\u00edtica\nestadunidense Doris Sommer, discuto a rela\u00e7\u00e3o entre a escrita de romances e a\nfunda\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es em nossa Am\u00e9rica, de modo que investigo a produ\u00e7\u00e3o feminina\nem meio a esse processo hist\u00f3rico. Tendo como refer\u00eancia complementar \u00e0 Sommer\na <em>Antolog\u00eda de escritoras\nhispanoamericanas del siglo XIX<\/em> (2012), da professora argentina Susana\nRegazzoni, contextualizo a realidade relacionada \u00e0s romancistas do s\u00e9culo XIX e\nas redes liter\u00e1rias (transacionais) estabelecidas por elas na Am\u00e9rica Latina.\nApresento, ainda, alguns dados biogr\u00e1ficos de Juana Manso, contempor\u00e2nea dos\ngrandes intelectuais do s\u00e9culo XIX, de modo que dou destaque ao <em>Jornal das Senhoras<\/em> (1852), obra que\npublica no Brasil, quando do seu ex\u00edlio, devido \u00e0 ditadura do caudilho Juan\nManuel de Rosas (1793 \u2013 1877) na Argentina. Por fim, analiso seu primeiro\nromance, <em>Misterios del Plata<\/em> (1852),\npublicado n\u2019<em>O Jornal<\/em>\u2026 e <em>La fam\u00edlia del Comendador<\/em> (1854),\nromance publicado em <em>Album de Se\u00f1oritas<\/em>\n(1854), peri\u00f3dico argentino. Como resultados parciais, concluo que o papel de\nJuana Manso na literatura latino-americana se d\u00e1 pelas diversas produ\u00e7\u00f5es\nliter\u00e1rias que publica em alguns pa\u00edses pelos quais passa, quais sejam\nArgentina, Brasil e Uruguai, tendo seus jornais e romances como articuladores\nde uma conex\u00e3o liter\u00e1ria transnacional. Isto \u00e9, entendo que Manso, devido \u00e0\nsitua\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio e migra\u00e7\u00e3o, ainda que talvez n\u00e3o conscientemente, une pa\u00edses\nlatino-americanos, com produ\u00e7\u00f5es em l\u00ednguas diferentes (espanhol e portugu\u00eas),\njustamente a partir de sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, sendo uma figura interessante\npara a reflex\u00e3o sobre os limites do nacional para a literatura. Al\u00e9m disso, a\npartir de <em>Misterios&#8230;<\/em> apresenta\noutro olhar e representa\u00e7\u00e3o sobre a figura do <em>gaucho<\/em> argentino, divergente em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s obras dos can\u00f4nicos\nDomingo Faustino Sarmiento (1848 \u2013 1857), Jos\u00e9 M\u00e1rmol (1817 \u2013 1871) e Jos\u00e9\nHern\u00e1ndez (1834 \u2013 1886), e, atrav\u00e9s de <em>La\nfam\u00edlia&#8230;<\/em>, denuncia a escravid\u00e3o no Brasil, tamb\u00e9m representando a\npopula\u00e7\u00e3o negra brasileira desde a perspectiva de imigrante branca refugiada em\nterras cariocas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>MANSO, Juana. O Jornal das Senhoras: Modas, Litteratura, Bellas-Artes, Theatros e Critica. Rio de Janeiro: Typhografia PARISIENSE, 1852. <\/li><li>MANSO, Juana. La familia del Comendador. Buenos Aires: Colihue: Biblioteca Nacional de la Rep\u00fablica de Argentina, 2006. <\/li><li>REGAZZONI, Susanna. Antolog\u00eda de las escritoras hispanoamericanas. Madrid: C\u00e1tedra, 2012. <\/li><li>SOMMER, Doris. Fic\u00e7\u00f5es de Funda\u00e7\u00e3o: os romances nacionais da Am\u00e9rica Latina. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Juana Manso; Literatura latino-americana; <em>Misterios del Plata<\/em>; Mulheres; <em>gaucho<\/em>\/ga\u00facho; representa\u00e7\u00e3o negra<\/p>\n\n\n\n<h4>26 A voz da mulher-m\u00e3e na escrita de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Elen Karla Sousa da Silva, Daniel Conte<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este trabalho analisa a\nrepresenta\u00e7\u00e3o da mulher-m\u00e3e em narrativas de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. H\u00e1 um novo\nprisma para as rela\u00e7\u00f5es entre a mulher e a maternidade em narrativas\nconstru\u00eddas na literatura contempor\u00e2nea brasileira de autoria feminina. Por\nbastante tempo, o olhar para a maternidade foi constitu\u00eddo por uma cultura\npatriarcal, como algo \u201cdivino, perfeito\u201d, contudo, a partir da atual\nperspectiva da mulher\/m\u00e3e, esta deixa de ser retratada como coadjuvante e passa\na atuar como protagonista da sua hist\u00f3ria. O conceito de maternidade ajustada\naos moldes patriarcais reconhece a \u201cm\u00e3e perfeita\u201d como sendo a que protege,\ncuida, ama e se sacrifica pelos filhos. Entretanto, \u00e9 importante apontarmos\npara o conhecimento de uma vis\u00e3o sobre a mulher-m\u00e3e que busca romper os padr\u00f5es\npatriarcais a partir da literatura e que diariamente \u00e9 fortalecida em nossa\nsociedade. A tem\u00e1tica sobre a maternidade surge na escrita de Concei\u00e7\u00e3o\nEvaristo por influ\u00eancia de sua m\u00e3e: Joana, que apesar de n\u00e3o possuir estudo,\nescrevia poemas e pensamentos em cadernos. A representa\u00e7\u00e3o materna como\ncriadora e a cultura da oralidade exercida dentro de casa fizeram com que\nEvaristo crescesse rodeada por palavras, mesmo que distante dos livros. Entre\nos referenciais te\u00f3ricos e ficcionais temos: hooks (2018), Spivak (2010), Davis\n(2016), Akotirene (2018), Evaristo (2003; 2008; 2011; 2014) entre outros (as).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AKOTIRENE, Carla. O que \u00e9 interseccionalidade? Belo Horizonte &#8211; MG. Letramento: Justificando, 2018.<\/li><li>bell hooks. O feminismo \u00e9 para todo mundo: pol\u00edticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 2018.<\/li><li>DAVIS, Angela. Mulheres, ra\u00e7a e classe. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016.<\/li><li>EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. \u201cEu-mulher\u201d. In.: BERND, Zil\u00e1 (org). Antologia de poesia afro-brasileira: 150 anos de consci\u00eancia negra no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edi\u00e7\u00f5es, 2011.<\/li><li>EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. Insubmissas l\u00e1grimas de mulheres. Belo Horizonte: Nandyala, 2011.<\/li><li>EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. Ponci\u00e1 Vic\u00eancio. Belo Horizonte: Mazza, 2003.<\/li><li>EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. Olhos D\u2019\u00e1gua. 1. Ed. Rio de Janeiro: Pallas: Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, 2014. <\/li><li>EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. Poemas da recorda\u00e7\u00e3o e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008. <\/li><li>EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. Insubmissas l\u00e1grimas de mulheres. Belo Horizonte: Nandyala, 2011. <\/li><li>SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Feminino; Representa\u00e7\u00e3o; Concei\u00e7\u00e3o Evaristo; Maternidade<\/p>\n\n\n\n<h4>27 Letra, voz e imagem femininas retomando o sagrado: o artivismo ind\u00edgena de Eliane Potiguara, Katu Mirim e Moara Brasil<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Paloma de Melo Henrique <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\ninvas\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica ocidental (ESCOBAR, 2016) das terras hoje\nbrasileiras pelos europeus trouxeram consigo a normatividade bin\u00e1ria que conecta\ng\u00eanero e civiliza\u00e7\u00e3o, concentrando-se no apagamento de pr\u00e1ticas comunit\u00e1rias\necol\u00f3gicas, conhecimentos de cultivo, de tecelagem, do cosmos, al\u00e9m da mudan\u00e7a\ne do controle das pr\u00e1ticas reprodutivas e sexuais. Para Lugones (2014), podemos\nobservar, a partir disso, o v\u00ednculo entre a introdu\u00e7\u00e3o colonial do conceito\nmoderno instrumental da natureza como central para o capitalismo e a introdu\u00e7\u00e3o\ncolonial do conceito moderno de g\u00eanero. A dicotomia b\u00e1sica ocidental humano\/n\u00e3o\nhumano \u00e9, ent\u00e3o, condutora de diversas opress\u00f5es relacionadas aos corpos\nind\u00edgenas feminilizados, \u00e0 terra e a outros seres do cosmos. Nesse cen\u00e1rio de\napagamento e viol\u00eancia, as mulheres origin\u00e1rias, no Brasil, t\u00eam se inserido\ncada vez mais em pr\u00e1ticas art\u00edsticas e liter\u00e1rias, o que se relaciona com o\ncrescente protagonismo das mesmas nos movimentos de resist\u00eancia ind\u00edgena. Neste\ntrabalho, apresento as produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de tr\u00eas mulheres ind\u00edgenas como\nparte de um processo de retomada do sagrado e de reexist\u00eancia em um mundo\nglobalizado, urbanizado, que tende \u00e0 homogeneiza\u00e7\u00e3o.&nbsp; Os percursos da escritora Eliane Potiguara,\nda rapper Katu Mirim e da artista visual Moara Brasil evidenciam os\ndeslocamentos de exist\u00eancias, nomeadamente das mulheres ind\u00edgenas em diferentes\ncontextos, silenciadas pelo poder colonial, e denunciam como a colonialidade\n(QUIJANO, 1992) afeta a materialidade dos corpos, provocando conflitos de\nm\u00faltiplas resist\u00eancias. Salientamos aqui, n\u00e3o o car\u00e1ter h\u00edbrido das suas\nprodu\u00e7\u00f5es, mas o car\u00e1ter conflituoso, <em>ch\u2019ixi<\/em>\nnos termos de Cusicanqui (2010), em que as artistas se utilizam de formas\nocidentalizadas para justamente contestar a cultura ocidental. As obras das\nautoras manifestam, assim, um tensionamento do l\u00f3cus fraturado pela evidente\nintensifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas generificadas e racializadas\ncoloniais, em prol de epistemes e ontologias ind\u00edgenas relacionais.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>CUSICANQUI, S. R. Ch\u2019xinakax utxiwa: una reflexi\u00f3n sobre pr\u00e1cticas y discursos descolonizadores. Buenos Aires: Tinta Lim\u00f3n, 2010.<\/li><li>ESCOBAR, Arturo. Sentipensar con la Tierra: Las Luchas Territoriales y la Dimensi\u00f3n Ontol\u00f3gica de las Epistemolog\u00edas del Sur. Revista de Antropologia Iberoamericana, volume 11, n\u00famero 1, jan-abr 2016, p. 11-32.<\/li><li>LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, v. 22, n. 3, p. 935-952, 2015.<\/li><li>QUIJANO, A. Colonialidad y Modernidad\/Racionalidad. In: H. Bonilla (Orgs) Los Conquistados: 1492 y la poblaci\u00f3n ind\u00edgena de las Am\u00e9ricas. FLACSO \/ Ediciones Libri Mundi, Quito, 1992 (p\u00e1gs. 437-449).<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: literatura ind\u00edgena; rap ind\u00edgena; arte ind\u00edgena; mulheres ind\u00edgenas; colonialidade.<\/p>\n\n\n\n<h4>28 O corpo-guerrilheiro no corpo-na\u00e7\u00e3o: contamina\u00e7\u00e3o, abje\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o no corpo-romance de Herbert Daniel<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Anselmo Peres Al\u00f3s<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este trabalho pretende\ndiscutir e analisar o romance brasileiro <em>Meu\ncorpo daria um romance<\/em>, escrito por Herbert Daniel (cuja extensa produ\u00e7\u00e3o\nliter\u00e1ria vem sendo solene e sistematicamente ignorada pelos estudos no campo\nda literatura brasileira) e publicado pela primeira vez em 1984. O foco da\ndiscuss\u00e3o \u00e9 compreender como Daniel promove a articula\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica entre corpo,\ndesejo e revolu\u00e7\u00e3o como conceitos fundamentais para uma vis\u00e3o emancipat\u00f3ria da\nsexualidade (em especial da homossexualidade masculina) no contexto de luta e\nresist\u00eancia \u00e0 ditadura brasileira ao longo do final do s\u00e9culo XX. H\u00e1 uma\nineg\u00e1vel dimens\u00e3o cultural, discursiva, mesmo lingu\u00edstica na composi\u00e7\u00e3o da\nmaterialidade do corpo, e Herbert Daniel n\u00e3o est\u00e1 alheio a esse dado.\nEntretanto, cumpre ressaltar que dizer que a realidade humana s\u00f3 pode ser\ncompreendida pela media\u00e7\u00e3o da linguagem n\u00e3o implica negar, suspender ou n\u00e3o\nreconhecer a materialidade e a concretude do corpo como realidade vivida, como\ncarnalidade. Seguindo aqui os argumentos de Elizabeth Grosz em <em>Volatile bodies<\/em> (1994), podemos pensar\nque, para Herbert Daniel, a compreens\u00e3o do corpo se d\u00e1 como algo\nconcomitantemente imanente e transcendente. As representa\u00e7\u00f5es do corpo atrav\u00e9s\ndo discurso liter\u00e1rio (bem como em outras modalidades art\u00edsticas) podem ser\nvistas como \u00edndice dos processos de transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, na medida em que\ninscrevem de maneira dial\u00e9tica as rela\u00e7\u00f5es de subjetividade\/objetividade e os\nprocessos de opress\u00e3o, subordina\u00e7\u00e3o e subvers\u00e3o cultural. A literatura, particularmente,\nconfigurou-se ao longo da hist\u00f3ria ocidental como campo simb\u00f3lico assombrado\npela presen\u00e7a do corpo, tanto em termos de reitera\u00e7\u00e3o (m\u00edmesis) quanto em\ntermos de subvers\u00e3o (rupturas de vi\u00e9s performativo).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>DANIEL, Herbert. Meu corpo daria um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.<\/li><li>GROSZ, Elizabeth. Volatile bodies: toward a corporeal feminism. Bloomington: Indiana University Press, 1994.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Herbert Daniel; <em>Meu corpo daria um romance<\/em>; corpo; ex\u00edlio; na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4>29 Em busca de uma literatura yanomami<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Pedro Mandagar\u00e1<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9\no presente momento e na maior parte dos estudos, a literatura ind\u00edgena\nproduzida no Brasil vem sendo tratada em bloco, ao menos na \u00e1rea de Letras. As\npoucas exce\u00e7\u00f5es dizem respeito a trabalhos sobre a oralidade de diversos povos,\ntrabalhos que, desde o ponto de vista de diversas disciplinas (estudos\nliter\u00e1rios, lingu\u00edstica, antropologia, musicologia) v\u00eam se debru\u00e7ando sobre\npo\u00e9ticas orais pr\u00f3prias e espec\u00edficas dos povos, incluindo a an\u00e1lise e\ndescri\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros orais. No caso da produ\u00e7\u00e3o escrita, textos de autores\nind\u00edgenas vindos de diversos povos s\u00e3o tratados em conjunto, muitas vezes sem\naten\u00e7\u00e3o a suas especificidades. Neste trabalho, proponho o exerc\u00edcio de buscar\no que seria uma \u201cliteratura yanomami\u201d, incluindo tanto sua produ\u00e7\u00e3o oral quanto\nescrita. Para tanto, foi feito um levantamento de publica\u00e7\u00f5es de textualidade\nyanomami. Ap\u00f3s apresentar o levantamento, concentrou-se a leitura em tr\u00eas obras\ncaracter\u00edsticas: <em>Folk Literature of the\nYanomami Indians<\/em> (Wilbert), os quatro livros dos paj\u00e9s Parahiteri\npublicados na Cole\u00e7\u00e3o Mundo Ind\u00edgena, da Editora Hedra, e <em>A queda do C\u00e9u<\/em>, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Por fim,\nespecula-se sobre como a possibilidade de uma literatura yanomami p\u00f5e em\nquest\u00e3o o paradigma nacionalista da Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Hist\u00f3ria da Literatura, Literatura Ind\u00edgena, Yanomami.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MINORIAS, DI\u00c1SPORAS, FRONTEIRAS E TRADU\u00c7\u00c3O CULTURAL Gerson Neumann, Liliam Ramos, Rafael Guimar\u00e3es e Rita Schmidt A identidade nacional, uma das quest\u00f5es mais discutidas no contexto ocidental nos s\u00e9culos XIX e XX, sofreu, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, um significativo redimensionamento e uma ampla problematiza\u00e7\u00e3o de suas premissas, na esteira do processo de globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cultural. 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