{"id":363,"date":"2019-09-29T14:56:11","date_gmt":"2019-09-29T17:56:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/?page_id=363"},"modified":"2019-10-18T09:12:17","modified_gmt":"2019-10-18T12:12:17","slug":"eixo-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/eixo-2\/","title":{"rendered":"Eixo 2"},"content":{"rendered":"\n<h2>COSMOPOLITISMOS E CARTOGRAFIAS P\u00d3S-NACIONAIS: MESCLAS TEXTUAIS \/ CORPOS-CORPUS EM TR\u00c2NSITO \/ FAZERES TE\u00d3RICOS-TRADUT\u00d3RIOS-LITER\u00c1RIOS-CULTURAIS<\/h2>\n\n\n\n<p><em>Cinara Ferreira, Denise Salles, Rita Lenira\nBittencourt <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A literatura comparada contempor\u00e2nea apresenta-se como uma ecologia cultural, na contram\u00e3o de processos globalizantes e estandardizados que, via de regra, montam um cen\u00e1rio de&nbsp;<em>tropos-topos<\/em>&nbsp;midiatizados e mercantilizados. Existe hoje um consenso de que a err\u00e2ncia e a deriva marcam, desde sempre, os saberes e os fazeres liter\u00e1rios, e o comparatismo estabelece marcos te\u00f3rico-cr\u00edticos que permitem a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento sobre esses processos e sobre as muta\u00e7\u00f5es de formas est\u00e9ticas, na literatura e nas outras artes. Para tanto, s\u00e3o operacionalizados agenciamentos plurais e deslocamentos de fronteiras geogr\u00e1ficas e disciplinares, em espa\u00e7os m\u00faltiplos de significa\u00e7\u00e3o est\u00e9tico-cultural, evocando no\u00e7\u00f5es de territorialidade e desterritorialidade, geocultura, comunica\u00e7\u00e3o intercultural e adaptabilidade cultural. Vale, nessa dire\u00e7\u00e3o, remontar a Angel Rama (1982), com seu conceito de \u201ctranscultura\u00e7\u00e3o\u201d, em&nbsp;<em>Transculturaci\u00f3n narrativa en Am\u00e9rica Latina;<\/em>&nbsp;a \u00c9douad Glissant (1981), com o conceito de \u201cmesti\u00e7agem\u201d, entendido inicialmente no processo semi\u00f3tico\/est\u00e9tico da cultura antilhana e posteriormente estendido a outros objetos liter\u00e1rio-culturais; e, ainda, a Walter Mignolo (2000), que em seu&nbsp;<em>Local histories\/Global designs<\/em>&nbsp;elabora a no\u00e7\u00e3o de \u201cpensamento de fronteira\u201d como pressuposto para o estudo das formas liter\u00e1rias produzidas nas Am\u00e9ricas. Juntam-se a estes te\u00f3ricos, as no\u00e7\u00f5es de \u201ctranscria\u00e7\u00e3o\u201d, de Haroldo de Campos, (1962), de \u201cculturas h\u00edbridas\u201d, de N\u00e9stor Garcia Canclini (1998); de \u201cliteratura anf\u00edbia\u201d, desenvolvida por Silviano Santiago (2004); de \u201calteridade planet\u00e1ria\u201d, formulada por Gayatri Spivak em 2003, e, por fim, a de \u201chibridismo\u201d, de Homi Bhabha (1998), que, em&nbsp;<em>O local da cultura<\/em>, explora o termo em chave anal\u00edtica, capaz de dar conta do trabalho fronteiri\u00e7o das culturas. Neste contexto, podemos afirmar que o comparatismo promove o descentramento das no\u00e7\u00f5es tradicionais de na\u00e7\u00e3o e fronteira, rejeitando uma no\u00e7\u00e3o essencialista de origem, cultura e literatura, para se voltar ao \u201coutro\u201d, \u00e0s alteridades e diferen\u00e7as, aos processos de contamina\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o, nos quais se incluem as quest\u00f5es vinculadas \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BHABHA, Homi.&nbsp;<strong>O local da cultura.<\/strong>&nbsp;Tradu\u00e7\u00e3o de Myriam \u00c1vila; Eliana Louren\u00e7o de Lima Reis; Gl\u00e1ucia Renate Gon\u00e7alves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.<br>CAMPOS, Haroldo de.&nbsp;<strong>Transcria\u00e7\u00e3o.<\/strong>&nbsp;S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2013.<br>CANCLINI, N\u00e9stor Garcia.&nbsp;<strong>Culturas h\u00edbridas:<\/strong>&nbsp;estrat\u00e9gias para entrar e sair da modernidade. 2.ed. S\u00e3o Paulo, SP: Edusp, 1998.<\/li><li>GLISSANT, \u00c9douard.&nbsp;<strong>Le discours antillais<\/strong>, Paris: Seuil, 1981.<\/li><li>MIGNOLO, Walter.&nbsp;<strong>Local histories \/ Global designs<\/strong><em>:<\/em>&nbsp; coloniality, subaltern knowledges, and border thinking. New Jersey: Princeton University, 2000.&nbsp;<\/li><li>RAMA, \u00c1ngel.&nbsp;<strong>Transculturaci\u00f3n narrativa en Am\u00e9rica Latina<\/strong>. Buenos Aires: Ediciones El Adariego, 1982.<\/li><li>SANTIAGO, Silviano. Uma literatura anf\u00edbia.&nbsp;<strong>Revista ALCEU<\/strong><em>.&nbsp;<\/em>v.3, n.5, jul.\/dez. 2004. p. 13-21.<\/li><li>SPIVAK, Gayatri Chakravorty.&nbsp;<strong>Death of a discipline<\/strong>. New York: Columbia University Press, 2003.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<h2>EIXO 2 \u2014 DATA E ORDEM DAS COMUNICA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n\n\n\n<h3><strong>23 de outubro (quarta-feira)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 611.   <\/p>\n\n\n\n<p>1&nbsp;<strong>Reflex\u00e3o\nte\u00f3rico-pr\u00e1tica a partir de sugest\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas brasileiro de\nparte de&nbsp;La novela de mi vida, romance do escritor cubano Leonardo Padura<\/strong>,\nNath\u00e1lia Hecz Couto<\/p>\n\n\n\n<p>2 <strong>O entre-lugar\nda apropria\u00e7\u00e3o: dissemina\u00e7\u00e3o, propriedade e despossess\u00e3o na escritura<\/strong>, Luis\nFelipe Silveira de Abreu<\/p>\n\n\n\n<p>3 <strong>Literaturas e\nnacionalidades na R\u00fassia contempor\u00e2nea, <\/strong>Denise Regina de Sales<\/p>\n\n\n\n<p>4 <strong>As mesclas\ntransnacionais problematizadas em&nbsp;Arquivo das crian\u00e7as perdidas, de\nValeria Luiselli, <\/strong>Samara Alves; Eunice T. Piazza Gai; Maria Luiza Berwanger\nda Silva<\/p>\n\n\n\n<p>5 <strong>O andante e a\nfronteira: o paradoxo cultural e a maternidade lingu\u00edstica em Elias Canetti, <\/strong>Ricieri\nCamatti Ramos Silva<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;6 <strong>O\nretorno, de Dulce Maria Cardoso: apontamentos para entender a lusofonia<\/strong>,\nLuciana Rosa Costa<\/p>\n\n\n\n<p>7 <strong>Tradu\u00e7\u00e3o\nliter\u00e1ria e cultural de Himani Bannerji: reflex\u00f5es sobre o processo tradut\u00f3rio,\n<\/strong>Rodrigo da Rosa Pereira<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>24 de outubro (quinta-feira), sess\u00e3o A <\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p> Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 611.    <\/p>\n\n\n\n<p>8 <strong>A M\u00e1quina do\nmundo e o&nbsp;<em>jus publicum europaeum<\/em><\/strong><em>, <\/em>Jo\u00e3o Guilherme Dayrell<\/p>\n\n\n\n<p>9 <strong>A voz de\nSherazade: O fogo ser\u00e1 tua casa, de Nuno Camarneiro<\/strong>, Gabriela Silva<\/p>\n\n\n\n<p>10 <strong>Escritas do\ncorpo: textualidade fora da lei<\/strong>, Rita Terezinha Schmidt<\/p>\n\n\n\n<p>11 <strong>Viagem e\nalteridade: a paisagem liter\u00e1ria da It\u00e1lia de Goethe<\/strong>, Renato Barros de\nCastro<\/p>\n\n\n\n<p>12 <strong>Paisagens do\n\u00edntimo e po\u00e9ticas de internacionaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>, Maria Luiza Berwanger<\/p>\n\n\n\n<p>13 <strong>Da\nArquiliteratura de Conform\u00f3polis: Cartografia liter\u00e1ria<\/strong>, Tiago Radatz\nKickh\u00f6fel<\/p>\n\n\n\n<p>14 <strong>Po\u00e9ticas \u00e0\nderiva em&nbsp;Berkeley em Bellagio&nbsp;e&nbsp;Lorde, de Jo\u00e3o Gilberto Noll<\/strong>,\nKim Amaral Bueno<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>24 de outubro (quinta-feira), sess\u00e3o B <\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p> Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 511.    <\/p>\n\n\n\n<p>15 <strong>\u201cComo uma\nonda no mar\u201d&nbsp;\u2013&nbsp;\u00e9tica e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria atrav\u00e9s da poesia<\/strong>,\nGisela Rodriguez<\/p>\n\n\n\n<p>16 <strong>Redescobrindo\na humanidade: uma an\u00e1lise f\u00edlmica de Distrito<\/strong>, Marlova Soares Mello <\/p>\n\n\n\n<p>17 <strong>Contar para\ndeslocar: espacialidades do lirismo cr\u00edtico entre a poesia brasileira\ncontempor\u00e2nea e a literatura coreana, <\/strong>Douglas Rosa da Silva, Melissa Rubio\ndos Santos<\/p>\n\n\n\n<p>18 <strong>As facetas\nda melancolia na can\u00e7\u00e3o In Darkness Let Me Dwell, de John Dowland, e sua\nressignifica\u00e7\u00e3o na ecologia cultural atual, <\/strong>Jo\u00e3o Alexandre Straub Gomes,\nWerner Ewald, Marcelo Barros de Borba<\/p>\n\n\n\n<p>19 <strong>O olhar\noitocentista e a pintura de paisagem de Caron: notas para uma po\u00e9tica da\nrela\u00e7\u00e3o, <\/strong>Ana Carla de Brito<\/p>\n\n\n\n<p>20 <strong>A m\u00fasica em\ne a partir de As intermit\u00eancias da morte, de Jos\u00e9 Saramago, <\/strong>Cinara\nFerreira, Carlos Walter Soares<\/p>\n\n\n\n<p>21 <strong>Das Letras \u00e0 Geografia, a possibilidade de uma fus\u00e3o<\/strong>, Cristiane Marques Machado, Maria Luiza Berwanger da Silva<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>25 de outubro (sexta-feira)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p> Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 611.    <\/p>\n\n\n\n<p>22 <strong>Migraaaantes\ne o cerceamento de todas as cercas ou O devir-minorit\u00e1rio de Matei Visniec\nfrente \u00e0 democracia assustada<\/strong>, Diego Lock Farina<\/p>\n\n\n\n<p>23 <strong>Em busca de personagens invis\u00edveis: fragmentos\nde cartografia<\/strong>, Gabriela\nSemensato Ferreira<\/p>\n\n\n\n<p>24 <strong>A estranha\npoesia das mulheres: corpos, vozes, performances<\/strong>, Rita Lenira de Freitas\nBittencourt<\/p>\n\n\n\n<p>25 <strong>A trai\u00e7\u00e3o da\ncarta: o mal contado e o perme\u00e1vel<\/strong>, Israel Augusto Moraes de Castro Fritsch<\/p>\n\n\n\n<p>26 <strong>A fic\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o:\numa leitura comparatista das narrativas de estupro n\u2019O corti\u00e7o&nbsp;(1890) e\nem&nbsp;Duas irm\u00e3s&nbsp;(1883)<\/strong>, Karine Mathias D\u00f6ll<\/p>\n\n\n\n<p>27 <strong>Cicatrizes e\nlus\u00f3rias<\/strong>, Andr\u00e9 Winter Noble<\/p>\n\n\n\n<p>28 <strong>Entre ready-mades e colagens: a mescla textual\nde Val\u00eancio Xavier em <\/strong><strong><\/strong><strong>Crimes \u00e0 moda antiga<\/strong>, Taynara Leszczynski<\/p>\n\n\n\n<h2>EIXO 2 \u2014 RESUMOS DAS COMUNICA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n\n\n\n<h4><strong>1\n<\/strong><strong>Reflex\u00e3o te\u00f3rico-pr\u00e1tica a partir de sugest\u00e3o de\ntradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas brasileiro de parte de&nbsp;La novela de mi vida, romance\ndo escritor cubano Leonardo Padura<\/strong> <\/h4>\n\n\n\n<p><em>Nath\u00e1lia Hecz Couto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esta\npesquisa tem por objetivo apresentar uma reflex\u00e3o te\u00f3rico-pr\u00e1tica a partir de\nsugest\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas de parte de&nbsp;<em>La novela de mi vida<\/em>,\nde Leonardo Padura, com foco nas caracter\u00edsticas da tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e nos aspectos\nculturais envolvidos nesse processo. No cen\u00e1rio atual da literatura\nhispano-americana, o trabalho do autor cubano tem ganhado cada vez mais espa\u00e7o\ne reconhecimento, conquistando leitores em diversas l\u00ednguas, como ingl\u00eas,\nitaliano, alem\u00e3o e portugu\u00eas. Portanto, a escolha da referida obra para a\nrealiza\u00e7\u00e3o deste trabalho se justifica pelo motivo de que n\u00e3o h\u00e1, at\u00e9 o\npresente momento, uma tradu\u00e7\u00e3o publicada ao portugu\u00eas brasileiro. Sendo assim,\na sugest\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o apresentada se configura como um trabalho inicial, com o\nfim de gerar discuss\u00f5es e coment\u00e1rios acerca da atividade tradut\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o\naos aspectos culturais, intr\u00ednsecos \u00e0 l\u00edngua do texto original. A partir de uma\nviagem \u00e0 origem da consci\u00eancia nacional por meio da vida de seu primeiro grande\npoeta,&nbsp;<em>La novela de mi vida<\/em>&nbsp;transforma-se numa leitura de\naspectos da hist\u00f3ria cubana. Padura nos apresenta, inicialmente, a Fernando\nTerry, professor que dedicou sua tese de doutorado ao poeta Jos\u00e9 Mar\u00eda Heredia.\nDepois de ser expulso de seu cargo universit\u00e1rio e ap\u00f3s dezoito anos de ex\u00edlio,\ndecide voltar por um m\u00eas a Havana, interessado na possibilidade de encontrar a\nautobiografia desaparecida do poeta, intitulada&nbsp;<em>La novela de mi vida<\/em>.\nNesse contexto, criam-se paralelismos entre a vida dos personagens e a hist\u00f3ria\nde Cuba, permeando o destino de cada um. Ap\u00f3s a contextualiza\u00e7\u00e3o com\ninforma\u00e7\u00f5es sobre Leonardo Padura, sua obra e sua rela\u00e7\u00e3o\ncom Cuba, d\u00e1-se lugar \u00e0s considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas acerca da tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.\nPara a discuss\u00e3o de aspectos referentes \u00e0 linguagem liter\u00e1ria e \u00e0 equival\u00eancia,\ns\u00e3o citados Garc\u00eda Yebra (1983), Bassnett (2003) e Pym (2011). Para o\nembasamento te\u00f3rico a respeito da atividade tradut\u00f3ria como formadora de\nidentidade cultural, procede-se \u00e0 leitura de Venuti (2002). Sobre a tradu\u00e7\u00e3o\ncomo atividade de produ\u00e7\u00e3o de significados, apresentam-se ideias expostas por\nFrota (2000). Como ponto de an\u00e1lise, com o aporte te\u00f3rico de Bhabha (2007)\nsobre estrangeiridade na atividade tradut\u00f3ria, alguns exemplos de tradu\u00e7\u00e3o s\u00e3o\ncomentados e comparados ao texto original em espanhol. Por fim, conclui-se que,\na partir da pr\u00e1tica e do estudo te\u00f3rico realizados, \u00e9 essencial que o tradutor\ntenha a consci\u00eancia de que a tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um trabalho meramente de c\u00f3pia ou\ntransfer\u00eancia de significados, resgatando as reflex\u00f5es de Frota (2000). Al\u00e9m de\nse ter o cuidado de prezar o sentido do texto original e a l\u00edngua para a qual\nse traduz, h\u00e1 de se levar em conta o grande impacto cultural que essa atividade\n\u00e9 capaz de fomentar. Conforme proposto por Venuti (2002), o trabalho de\ntradu\u00e7\u00e3o tem influ\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o de identidades culturais, gerando respeito,\nestigma ou avers\u00e3o, considerando a recep\u00e7\u00e3o do texto traduzido. Como efeito\ndisso, pode-se explicar o grande impacto das tradu\u00e7\u00f5es das obras de Leonardo Padura,\nlevando a identidade cubana, com seus estigmas e controv\u00e9rsias, a diversos\npa\u00edses atrav\u00e9s do trabalho do tradutor.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BASSNETT, Susan.&nbsp;<strong>Estudos de tradu\u00e7\u00e3o<\/strong>:&nbsp;fundamentos de uma disciplina. Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian. Lisboa: Orgal impressores, 2003.&nbsp;<br> BHABHA, Homi.&nbsp;<strong>O local da cultura<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Myriam \u00c1vila, Eliana Louren\u00e7o de&nbsp;Lima Reis e Glaucia Renate Gon\u00e7alves.&nbsp;Belo Horizonte: UFMG, 2007.<\/li><li>FROTA, Maria Paula.&nbsp;<strong>A singularidade na escrita tradutora<\/strong>.&nbsp;Campinas: Pontes Editores, 2000.<\/li><li>GARC\u00cdA YEBRA, Valent\u00edn.&nbsp;<strong>En torno a la traducci\u00f3n<\/strong>:&nbsp;teor\u00eda, cr\u00edtica e historia. Espa\u00f1a: Editorial Gredos, 1983.<\/li><li>PADURA, Leonardo.&nbsp;<strong>La novela de mi vida<\/strong>. Barcelona: Tusquets Editores S.A., 2002.<\/li><li>PYM, Anthony.&nbsp;<strong>Teor\u00edas contempor\u00e1neas de la traducci\u00f3n<\/strong>: materiales para un curso universitario.&nbsp;Tarragona: Intercultural Studies Group, 2011. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/266557109_Teorias_contemporaneas_de_la_traduccion&gt;&nbsp;. Acesso em: 03. mar. 2018.<\/li><li>VENUTI, Lawrence.&nbsp;<strong>Esc\u00e2ndalos da tradu\u00e7\u00e3o<\/strong>:&nbsp;por uma \u00e9tica da diferen\u00e7a.Trad. Laureano Pelegrin, Lucin\u00e9ia Marcelino Villela, Marileide Dias Esqueda, Val\u00e9ria Biondo.Bauru, SP: EDUSC, 2002.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>&nbsp;tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria;&nbsp;<em>La novela de mi vida<\/em>; Leonardo Padura;\nliteratura hispano-americana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>2 <\/strong><strong>O entre-lugar da apropria\u00e7\u00e3o: dissemina\u00e7\u00e3o, propriedade e\ndespossess\u00e3o na escritura <\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Luis Felipe Silveira de Abreu<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este ensaio come\u00e7a em um sinal; o h\u00edfen interposto por Jacques Derrida (2016) na grafia de ex-apropria\u00e7\u00e3o.&nbsp;O termo insurge-se em meio \u00e0 sua reflex\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o linguageira de um franc\u00eas magrebino. Neste espa\u00e7o-al\u00e9m-do-territ\u00f3rio, Derrida identifica o problema como sendo do monolinguismo do outro: n\u00e3o tenho nenhum l\u00edngua que n\u00e3o a minha, ao passo que n\u00e3o tenho nenhuma l\u00edngua que n\u00e3o a dos outros. O quase-conceito de ex-apropria\u00e7\u00e3o opera demonstrando o paradoxo de propriedade existente no exerc\u00edcio da linguagem transcultural. Identifica-se uma despossess\u00e3o perp\u00e9tua; mas \u00e9 justo esse vazio que enseja as pr\u00e1ticas de tomada de posse da escritura. Partindo da aporia que movimenta aquele ensaio, movimentamos nossa pesquisa \u00e0 respeito de pr\u00e1ticas de apropria\u00e7\u00e3o, c\u00f3pia e imita\u00e7\u00e3o em textualidades contempor\u00e2neas. Neste texto, de car\u00e1ter conceitual e explorat\u00f3rio, propomos um estudo da ex-apropria\u00e7\u00e3o como l\u00f3gica dessas (re)escrituras. Deste modo, o texto retoma o quase-conceito, retomando seus debates e apreendendo sua l\u00f3gica e sua inser\u00e7\u00e3o na compreens\u00e3o derridiana da dissemina\u00e7\u00e3o (DERRIDA, 1991; 2001; BHABHA, 1998). Na fulgura\u00e7\u00e3o de seu h\u00edfen, buscamos entender a indecidibilidade deste lugar de fala transnacional tamb\u00e9m com a ideia entre-lugar, conforme elaborada por Silviano Santiago (2000). Tra\u00e7a-se a\u00ed uma rela\u00e7\u00e3o entre o lugar de subalternidade e a tomada da escritura estrangeira entre a assimila\u00e7\u00e3o e a transgress\u00e3o \u2013 o que ressalta o estatuto de entre dessas escritas, bem como desvela outras din\u00e2micas de dissemina\u00e7\u00e3o na apropria\u00e7\u00e3o. De forma a interrogar de modo localizado esta problem\u00e1tica, entendendo que ela s\u00f3 se d\u00e1 na escritura, partimos a apresentar e debater duas experi\u00eancias desse entre. Expostas, revelam este estatuto transit\u00f3rio e tentativo n\u00e3o apenas dos locais de enuncia\u00e7\u00e3o da cultura, bem como da indecidibilidade de atribui\u00e7\u00e3o da posse dos signos da linguagem. Experi\u00eancias como a de Gloria Anz\u00e1ldua em seu Borderlands\/La frontera (1987), livro escrito em um ingl\u00eas atravessado pelos dialetos da fronteira mexicana, discutindo a viv\u00eancia do migrante. Para Anz\u00e1ldua, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel possuir o ingl\u00eas, mas j\u00e1 o espanhol tamb\u00e9m foi perdido. \u201cPropriet\u00e1ria\u201d de nenhuma dessas l\u00ednguas, de nenhuma l\u00edngua, por\u00e9m, ela precisa a todo momento acion\u00e1-las para sua comunica\u00e7\u00e3o: de que modos se d\u00e3o esses momentos de posse, e que repercuss\u00f5es socio-pol\u00edticas eles ensejam, \u00e9 mat\u00e9ria an\u00e1lises. De modo semelhante, acionamos tamb\u00e9m as po\u00e9ticas de \u00c9douard Glissant (2005): seus estudos sobre como o regime econ\u00f4mico de escambos no Caribe cria uma cultura de trocas prec\u00e1rias, origem das l\u00ednguas crioulas. Processo debatido por Glissant sob a forja do conceito de despossess\u00e3o, que nos faz retomar ao tema inicial contido na ex-apropria\u00e7\u00e3o: \u00e9 poss\u00edvel possuir a linguagem, ou por ela que somos possu\u00eddos?&nbsp;Na leitura dos signos que emitem essas l\u00ednguas b\u00edfidas, o ensaio vai concluir a produtividade de se enfocar o problema dos textos e tr\u00e2nsitos p\u00f3s-nacionais pelo vi\u00e9s propriet\u00e1rio. Infere-se como as no\u00e7\u00f5es de ex-apropria\u00e7\u00e3o e entre-lugar suscitam esse aspecto, e permitem ler textos po\u00e9ticos transculturais por tal chave \u2013 levando a uma compreens\u00e3o da apropria\u00e7\u00e3o e da imita\u00e7\u00e3o como movimentos de um roubo que escancara a prec\u00e1ria performance da posse.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ANZALD\u00daA, Gloria.<strong>Borderlands\/La Frontera<\/strong>: The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.<\/li><li>BHABHA, Homi. <strong>O local da cultura<\/strong>. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1998.<\/li><li>DERRIDA, Jacques. <strong>Margens da Filosofia<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Papirus, 1991.<\/li><li>DERRIDA, Jacques. <strong>O monolinguismo do outro ou a pr\u00f3tese de origem<\/strong>. Belo Horizonte: Ch\u00e3o da Feira, 2016.<\/li><li>DERRIDA, Jacques. <strong>Posi\u00e7\u00f5es<\/strong>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2001.<\/li><li>GLISSANT, \u00c9douard. <strong>Introdu\u00e7\u00e3o a uma po\u00e9tica da diversidade<\/strong>. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.<\/li><li>SANTIAGO, Silviano. <strong>Uma literatura nos tr\u00f3picos<\/strong>: ensaios sobre depend\u00eancia cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: ex-apropria\u00e7\u00e3o;\ndissemina\u00e7\u00e3o; entre-lugar; apropria\u00e7\u00e3o; propriedade.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>3 <\/strong><strong>Literaturas e nacionalidades na R\u00fassia contempor\u00e2nea<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Denise Regina de Sales<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esta\ncomunica\u00e7\u00e3o tem o objetivo de refletir sobre a face multilingu\u00edstica e\nmulticultural da literatura publicada na R\u00fassia em sua rela\u00e7\u00e3o com a\nrepresenta\u00e7\u00e3o da literatura russa no Brasil. Em&nbsp;<em>Os escombros e o mito: a cultura e o fim\nda Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/em>, Boris Schnaiderman afirma que, \u201cna realidade, a\ncultura russa n\u00e3o pode ser pensada sem a marca forte de um verdadeiro mosaico\nde povos\u201d (SCHNAIDERMAN, 1997, p. 249). Essa riqueza cultural deve-se,\nhistoricamente, a expans\u00f5es e retra\u00e7\u00f5es do Imp\u00e9rio Russo, da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e\nda atual Federa\u00e7\u00e3o Russa. Muitos dos povos e etnias desse imenso territ\u00f3rio\nforam retratados na literatura por autores cl\u00e1ssicos. Aleksandr P\u00fachkin, por\nexemplo, passou per\u00edodos de sua vida no C\u00e1ucaso e, influenciado pela realidade\nsociocultural que ali encontrou, escreveu obras em l\u00edngua russa baseadas em\ntemas caucasianos, com exalta\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter e da vida dos montanheses. O\nfen\u00f4meno para o qual voltamos nosso olhar \u00e9 o do renascimento da produ\u00e7\u00e3o\nliter\u00e1ria de diversos povos na sua l\u00edngua local, por autores locais. De acordo\ncom dados do Programa de Apoio a Literaturas Nacionais dos Povos da R\u00fassia,\nconsidera-se que h\u00e1 mais de 80 l\u00ednguas com express\u00e3o escrita dentro das\nfronteiras da Federa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o escritas e publicadas obras liter\u00e1rias em quase 60\ndelas. Nos \u00faltimos dois anos, foram lan\u00e7adas tr\u00eas colet\u00e2neas bil\u00edngues (com\ntradu\u00e7\u00f5es para a l\u00edngua russa) que revelam bem esse quadro. A primeira \u00e9 um\nvolume de obras po\u00e9ticas de 229 autores, em 57 l\u00ednguas; a segunda, de\nliteratura infantojuvenil, com textos de 201 autores, em 55 l\u00ednguas; e a\nterceira, de prosa, com 116 autores e 50 l\u00ednguas. Em que medida a representa\u00e7\u00e3o\nda literatura russa no Brasil reflete essa face multilingu\u00edstica e\nmulticultural? Algum desses escritores t\u00eam alcan\u00e7ado o nosso p\u00fablico? Qual \u00e9 o\npapel do tradutor e do pesquisador da tradu\u00e7\u00e3o na abertura para o \u201cOutro n\u00e3o\nfamiliar\u201d (SAID, 2007, p. 22) desse mosaico de povos?<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>SCHNAIDERMAN, B.&nbsp;<strong>Os escombros e o mito<\/strong>: a cultura e o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1997.&nbsp;<\/li><li>SAID, E. W.&nbsp;<strong>Orientalismo:<\/strong> o Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente.&nbsp;S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.&nbsp;<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Palavras-chave: Literatura russa; Nacionalidades; Tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>4\n<\/strong><strong>As mesclas transnacionais problematizadas\nem&nbsp;Arquivo das crian\u00e7as perdidas, de Valeria Luiselli<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Samara Alves; Eunice T. Piazza Gai; Maria Luiza Berwanger da Silva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pensar em\nfronteira \u00e9 tratar de demarca\u00e7\u00f5es, limites, pressupondo o dentro, o fora, o\nigual e o diferente. Sendo assim, tratar de fronteira \u00e9 discutir a diferen\u00e7a e\nrefletir sobre as formas de lidar com ela. A fronteira \u00e9 o lugar pr\u00f3prio das\ntrocas, das intera\u00e7\u00f5es, das mobilidades culturais. Vincula-se \u00e0 ideia de\nlimite, mas ao mesmo tempo agrega as diferen\u00e7as que separam, ou intentam\nseparar. Dessa forma, o fronteiri\u00e7o \u00e9 o h\u00edbrido, o mesti\u00e7o, aquele que encerra\nem si a articula\u00e7\u00e3o ambivalente entre dois espa\u00e7os. \u00c9, como refere Bhabha, um\nentre-lugar, um interst\u00edcio. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar a fun\u00e7\u00e3o seletiva\nque a fronteira assume diante do fluxo que possibilita. \u00c9 um espa\u00e7o prop\u00edcio a\ntrocas, misturas, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 garantido que qualquer mistura possa ocorrer. A\nfronteira determina como e em que dire\u00e7\u00e3o viabilizar\u00e1 mov\u00eancias, por isso,\nainda que permita a imbrica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode pens\u00e1-la como um territ\u00f3rio\npac\u00edfico, em que os fluxos s\u00e3o calmos e sossegados e onde as diferen\u00e7as\nconvivem afetuosamente. Ao contr\u00e1rio, a fronteira \u00e9 tamb\u00e9m o local pr\u00f3prio do\nembate, do conflito, da disc\u00f3rdia, do choque, da contesta\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 tamb\u00e9m o\nmotivo da sua exist\u00eancia. Por isso, Paul Gilroy coloca a fronteira n\u00e3o como uma\ngeografia fixa, mas campo flu\u00eddo, em que os sujeitos moventes ocupam outras\nna\u00e7\u00f5es, territ\u00f3rios e culturas. Essa mescla vai de encontro com as representa\u00e7\u00f5es\ndo corpo humano como reposit\u00f3rio fundamental da ordem da verdade racial,\nprevendo a ideia da morte da ra\u00e7a como um c\u00e1lculo pol\u00edtico e moral. Tendo em\nvista que a crise migrat\u00f3ria \u00e9 uma quest\u00e3o recorrente na fic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea e\na partir dessas premissas iniciais, o trabalho se prop\u00f5e a analisar a crise dos\nrefugiados, especialmente das crian\u00e7as, que diariamente atravessam a fronteira\ndos EUA, apresentada do livro&nbsp;<em>Arquivo das crian\u00e7as perdidas<\/em>, da\nescritora mexicana Valeria Luiselli. No romance, a autora destaca que as\ncrian\u00e7as que atravessam a fronteira est\u00e3o \u201csozinhas, elas viajam em trens e a\np\u00e9 (&#8230;) elas t\u00eam que atravessar fronteiras nacionais, rios, desertos,\nhorrores. E as que finalmente chegam s\u00e3o postas no limbo. (&#8230;) elas esperam\nque sua dignidade seja restaurada\u201d (LUISELLI, 2019, p. 58). Essas crian\u00e7as n\u00e3o\nest\u00e3o em busca do sonho americano, mas fugindo de circunst\u00e2ncias de\nindescrit\u00edveis maus-tratos e viol\u00eancia sistem\u00e1tica, fugindo de pa\u00edses onde\ngangues se tornaram Estados paralelos, em que usurparam o poder e assumiram o\nimp\u00e9rio da lei. Dessa forma, com base no livro de Luiselli, este trabalho\ntamb\u00e9m procura questionar a defini\u00e7\u00e3o de cultural nacional introduzida pelo o\nabsolutismo \u00e9tnico e busca explorar as rela\u00e7\u00f5es entre ra\u00e7a, na\u00e7\u00e3o, nacionalidade\ne etnia, para colocar em xeque o mito da identidade \u00e9tnica e da unidade\nnacional. Para debater essas quest\u00f5es, este trabalho tem como aporte te\u00f3rico\nHomi Bhabha, Aijaz Ahmad, Eric Hobsbawm, Paul Gilroy, J. Kristeva, entre\noutros.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AHMAD, Aijaz. <strong>Linhagens do presente<\/strong>: ensaios. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2002.<\/li><li>BHABHA, Homi. <strong>O local da cultura<\/strong>. Trad. Myriam \u00c1vila, Eliana Louren\u00e7o de Lima Reis, Gl\u00e1ucia Renata Gon\u00e7alves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.<\/li><li>GILROY, Paul. <strong>O Atl\u00e2ntico Negro<\/strong>: modernidade e dupla consci\u00eancia. S\u00e3o Paulo: Ed. 34, 2001.<\/li><li>HOBSBAWM, Eric. <strong>Tempos fraturados<\/strong>: cultura e sociedade no s\u00e9culo XX. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013.<\/li><li>KRISTEVA, J. <strong>Semi\u00f3tica do Romance<\/strong>: a palavra, o di\u00e1logo, o romance. Lisboa: Arc\u00e1dia, 1977.<\/li><li>LUISELLI, Valeria. <strong>Arquivo das crian\u00e7as perdidas<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:&nbsp;<\/strong>Fronteiras; Margens,\nTr\u00e2nsito; Literatura contempor\u00e2nea; Valeria Luiselli.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>5 <\/strong><strong>O andante e a fronteira: o paradoxo cultural e a\nmaternidade lingu\u00edstica em Elias Canetti<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Ricieri Camatti Ramos Silva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em\nvista a movimenta\u00e7\u00e3o em larga escala, tamb\u00e9m no sentido mais amplo de expans\u00e3o,\nem dire\u00e7\u00e3o \u00e0s territorialidades desconhecidas, a abrang\u00eancia de conflitos do\nandante se torna cada vez mais crucial, materializando-se no que concerne aos\ndesafios encontrados pelo desconhecido, seja no \u00e2mbito das perturba\u00e7\u00f5es\npol\u00edtico-culturais, assim como nas lingu\u00edsticas e toda a semiologia que o\ndesconhecido carrega. O b\u00falgaro sefardita Elias Canetti, um auto exilado em\nterras brit\u00e2nicas no estopim da segunda guerra, ao ser mais tarde galardoado em\nterras alem\u00e3s (sua l\u00edngua \u201cadotada\u201d, tendo em vista que sua l\u00edngua \u201cmaterna\u201d \u00e9\na ladina) discursa sobre \u201cacessos de palavras\u201d (CANETTI, 2011), o que\ndiretamente o liga ao seu car\u00e1ter de escritor transit\u00f3rio, tanto dentro das\nturbul\u00eancias da barb\u00e1rie, como em pesquisas de campo, liberto de pretens\u00f5es\neuroc\u00eantricas. Um exemplo \u00e9 sua visita ao Marrocos (CANETTI, 2006), pa\u00eds de seu\ntotal desconhecimento, onde se desnuda da sua tend\u00eancia ao dom\u00ednio lingu\u00edstico,\ndesta forma, dedicando a sua verve de poeta ao&nbsp;<em>outro<\/em>, em um\nexerc\u00edcio peculiar de alteridade. Por\u00e9m, aquilo que o escritor define como\nsendo a&nbsp;<em>sua<\/em>&nbsp;l\u00edngua ou sendo a l\u00edngua do&nbsp;<em>outro<\/em>,\npode tamb\u00e9m ser visto como um processo de invas\u00e3o, ou incapacidade, se levarmos\nem conta a proposi\u00e7\u00e3o de que \u201c a l\u00edngua dita materna nunca \u00e9 puramente natural\u201d\n(DERRIDA, 2001), ou, em car\u00e1ter judicioso, a provoca\u00e7\u00e3o afor\u00edstica que\nsentencia que \u201ca l\u00edngua \u00e9 a m\u00e3e, e n\u00e3o a criada do pensamento\u201d (KRAUS, 2019).\nPortanto, \u00e9 importante destacar aquilo que, em princ\u00edpio, cerceia o pensamento\nliter\u00e1rio-filos\u00f3fico, porque at\u00e9 mesmo a reflex\u00e3o contemplativa, seja\npanor\u00e2mica ou n\u00e3o, pode impor ao \u201cobjeto\u201d observado: at\u00e9 onde as fronteiras\nditas perpassadas pelos itinerantes pesquisadores v\u00e3o de (ou, ao) encontro dos\nitinerantes em situa\u00e7\u00e3o de plena fragilidade? Qual o alcance da teoria e da\nl\u00edngua defronte o vilipendio progressivo que se alastra em mundo demarcado? E o\nque \u00e9 a import\u00e2ncia do poeta e seu tempo (cada vez mais sombrios, onde o humano\nainda permanece moeda de troca, e cada vez mais descart\u00e1vel), ou seja, a sua\nimport\u00e2ncia dentro da \u201ccontemporaneidade\u201d (AGAMBEM, 2009)? Dadas as referidas\nquest\u00f5es, este trabalho dirige o olhar de Canetti para outros campos de\ninvestiga\u00e7\u00e3o, confrontando aquilo que o autor considera de seu&nbsp;<em>pertencimento<\/em>&nbsp;com\no que de fato as suas conclus\u00f5es, partindo de experi\u00eancias pr\u00f3prias,\ncontribu\u00edram e ainda podem contribuir; ou mesmo se podem ser consideradas, de\ncerta forma, pueris (dado o contexto absolutamente humanista de toda a sua\nobra, ficcional ou n\u00e3o), para a viol\u00eancia dos desandares arbitrariamente\nimpostos, for\u00e7ando nichos e povos ao impacto afetante \u00e0s suas pr\u00f3prias\nidentidades? Portanto, eis uma reflex\u00e3o da atualidade dos discursos ditos\nuniversais sobre di\u00e1sporas, apropria\u00e7\u00f5es e desapropria\u00e7\u00f5es dos marginais,\nproduzidos pelo labor art\u00edstico das escrituras daquele que delegara ao poeta a\nresponsabilidade fundamental de, em princ\u00edpio, entender a desagrega\u00e7\u00e3o radical\npara, ent\u00e3o, sim, dar-se o direito de assumir o seu ponto de vista sobre a\nviol\u00eancia e incomunicabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AGAMBEN, Giorgio.&nbsp;<strong>O que \u00e9 o contempor\u00e2neo?<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vin\u00edcius de Castro Honesko. Chapec\u00f3: Argos, 2009.<\/li><li>CANETTI, Elias.&nbsp;<strong>As vozes de Marrakech<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o &nbsp;de Samuel Titan Jr. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2006.<\/li><li>CANETTI, Elias.&nbsp;<strong>A consci\u00eancia das palavras<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00e1rcio Suzuki. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/li><li>DERRIDA, Jacques.&nbsp;<strong>O monolinguismo do outro<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Fernanda Bernardo. Porto: Campos das Letras, 2001.<\/li><li>KRAUS, Karl.&nbsp;<strong>Aforismos<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Zwick. Porto Alegre: Arquip\u00e9lago Editorial, 2019.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>&nbsp;Canetti;\nlingu\u00edstica; fronteira; alteridade; desagrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>6 <\/strong><strong>O retorno, de Dulce Maria Cardoso: apontamentos para\nentender a lusofonia<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Luciana Rosa Costa<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Eduardo\nLouren\u00e7o, em \u201c<em>A Nau de \u00cdcaro<\/em>\u201d, a respeito da lusofonia, exp\u00f5e: \u201cEm nome\nda mitologia lus\u00f3fona ou \u2013 antes da lusofonia \u2013 se fundou e faz repousar a\nrecente arquitetura da comunidade dos povos de l\u00edngua portuguesa\u201d (2004. 176).\nPara entendermos o arranjo dessa ideia de lusofonia \u00e9 necess\u00e1rio perceber a\nhist\u00f3ria de Portugal e a rela\u00e7\u00e3o com as col\u00f4nias e posteriores ex-col\u00f4nias. A\nliteratura portuguesa do final do s\u00e9culo XX, in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, vai\napresentar diversas perspectivas dessa hist\u00f3ria. Dulce Maria Cardoso, em \u201c<em>O\nRetorno<\/em>\u201d, narra a hist\u00f3ria de Rui, um adolescente \u201cretornado\u201d de Angola\nque, junto com sua fam\u00edlia, \u00e9 obrigado a recome\u00e7ar a vida em Portugal, ap\u00f3s o\nfinal da ditadura e o rompimento dos tratos coloniais. 1975, seria o ano em que\nPortugal receberia um significativo grupo de portugueses sem p\u00e1tria, fam\u00edlia ou\nemprego. Eram os \u201cretornados\u201d, ou os sem pertencimento, uma vez que j\u00e1 n\u00e3o eram\nbem-vindos. Era o fim da hist\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o colonizadora, o recuo definitivo do\nimp\u00e9rio ultramarino de Portugal, como enfatiza Louren\u00e7o. Assim, as personagens\nde Dulce Maria Cardoso s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es desses portugueses \u201cretornados\u201d que\nvivenciaram o momento de independ\u00eancia das col\u00f4nias. Logo, come\u00e7ava a invers\u00e3o\nde um sistema de poder, pois mesmo para quem agiu com justi\u00e7a para com a\npopula\u00e7\u00e3o nativa dessas col\u00f4nias, como foi o caso de Rui, n\u00e3o havia mais lugar\npara ele em Angola. A narrativa que discorre para al\u00e9m da situa\u00e7\u00e3o financeira\nprec\u00e1ria e limitada da fam\u00edlia de Rui, traz uma reflex\u00e3o sobre os sentimentos\nde quem tudo perdeu e j\u00e1 n\u00e3o pertence mais \u00e0 lugar algum. Esse trabalho\napresenta uma an\u00e1lise das personagens de \u201c<em>O retorno<\/em>\u201d em suas principais\ncaracter\u00edsticas constitutivas, bem como sua rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria de Portugal\n\u00e0 luz das ideias de Eduardo Louren\u00e7o e outros pensadores, historiadores e\nte\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>CARDOSO, Dulce Maria.<em>&nbsp;O Retorno<\/em>. Rio de Janeiro: Tinta-da-China. 2012.<\/li><li>LOUREN\u00c7O, Eduardo.&nbsp;<em>A Nau de \u00cdcaro<\/em>. Lisboa: Gravida, 2004.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:&nbsp;<\/strong>lusofonia; mitologia;\npersonagem; sem pertencimento; interculturalidade.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>7 Tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e cultural de Himani Bannerji: reflex\u00f5es sobre o processo tradut\u00f3rio <\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Rodrigo da Rosa Pereira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O entrela\u00e7amento\nentre teorias e pr\u00e1ticas de tradu\u00e7\u00e3o com quest\u00f5es sociais e culturais se mostra\nrelevante em especial nos casos de literaturas n\u00e3o hegem\u00f4nicas. Tendo como\nmaterial de an\u00e1lise, pesquisa e tradu\u00e7\u00e3o os contos da autora canadense\nsul-asi\u00e1tica Himani Bannerji, o presente trabalho tem por objetivo fornecer um\nbreve relato reflexivo a partir do projeto \u201cTraduzindo contos de Hinani\nBannerji: um processo de tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e cultural\u201d, desenvolvido no \u00e2mbito\ndo Programa de Bolsas de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (PIBIC-CNPq), vinculado ao Grupo\nde Estudos em Tradu\u00e7\u00e3o (GET) e ao N\u00facleo de Tradu\u00e7\u00e3o (NUTRA) da Universidade\nFederal de Rio Grande (FURG). Fundamenta-se teoricamente no que entende-se n\u00e3o\napenas de&nbsp;tradu\u00e7\u00e3o, mas de&nbsp;\u201cprocesso tradut\u00f3rio\u201d, numa perspectiva\ndiscursiva, operando um deslocamento da tradu\u00e7\u00e3o, como produto, para o processo\nde tradu\u00e7\u00e3o, em conson\u00e2ncia com Mittmann (2003). O projeto se norteia ainda por\nno\u00e7\u00f5es de tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e cultural, segundo Oustinoff (2011), para quem\numa l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de palavras, mas tamb\u00e9m, e sobretudo, uma\nmaneira de pensar, de ver o mundo, pois n\u00e3o fazemos as mesmas associa\u00e7\u00f5es de\nideias, as mesmas constru\u00e7\u00f5es mentais de uma l\u00edngua para outra;\nconsequentemente, traduzir \u00e9, ao mesmo tempo, habitar a l\u00edngua do estrangeiro e\ndar hospitalidade a esse estrangeiro no cora\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria l\u00edngua.\nEntendemos, nesse sentido, que \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o apenas dar conta de palavras e\nfrases, mas da forma de escrever do autor e de suas particularidades, o que,\ntrazido para um contexto cultural, pode nos mostrar o quanto essas\ncaracter\u00edsticas s\u00e3o fundamentais como marca identit\u00e1ria e para uma melhor\ncompreens\u00e3o de lugares de fala. Em Bannerji, verifica-se uma produ\u00e7\u00e3o\nculturalmente marcada, que diz respeito aos anseios de toda sua obra, sendo ela\numa autora que busca dar formas expressivas a experi\u00eancias por ela denominadas\n\u201cn\u00e3o brancas\u201d, movendo-se da nostalgia da terra natal em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ang\u00fastia da\nintegra\u00e7\u00e3o ao novo territ\u00f3rio, seu novo lar, conforme nos ajudam a perceber\ncriticamente Pereira e Cunha (2013). Por fim, cumpre ressaltar que o referido\nprojeto traz uma iniciativa pioneira, ao aproximar o estudante de licenciatura\nem Letras \u00e0 \u00e1rea da tradu\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de acrescer na forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e\nprofissional dos envolvidos, como resultados das leituras te\u00f3ricas e das\npr\u00e1ticas de tradu\u00e7\u00e3o, espera-se divulgar em l\u00edngua portuguesa os contos da\nautora, profundamente engajada em quest\u00f5es feministas, marxistas e\nantirracistas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>MITTMANN, Solange. <strong>Notas do tradutor e processo tradut\u00f3rio<\/strong>: an\u00e1lise e reflex\u00e3o sob uma perspectiva discursiva. Porto Alegre: Editora da Universidade\/UFRGS, 2003.<\/li><li>OUSTINOFF, Micha\u00ebl. <strong>Tradu\u00e7\u00e3o<\/strong>: hist\u00f3ria, teorias e m\u00e9todos. [Tradu\u00e7\u00e3o de Marco Marcionilo] S\u00e3o Paulo: Par\u00e1bola Editorial, 2011.<\/li><li>PEREIRA, Rodrigo da Rosa; CUNHA, Rubelise da. Etnia e g\u00eanero: literatura canadense (sul-asi\u00e1tica) e a escrita cr\u00edtico-criativa de Himani Bannerji. <strong>Interfaces Brasil\/Canad\u00e1<\/strong>. Canoas, v. 13, n. 16, 2013, p. 299-324.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: tradu\u00e7\u00e3o; literatura;\ncultura; escritora canadense sul-asi\u00e1tica; Himani Bannerji.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>8 <\/strong><strong>A M\u00e1quina do mundo e o&nbsp;<em>jus publicum europaeum<\/em><\/strong><strong><em><\/em><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Jo\u00e3o Guilherme Dayrell<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esta\ncomunica\u00e7\u00e3o toma como objeto um exerc\u00edcio de literatura comparada, qual seja, tra\u00e7ar\nas origens do t\u00f3pico da \u201cM\u00e1quina do mundo\u201d partindo da men\u00e7\u00e3o feita por Nuno\nRamos em&nbsp;<em>Junco<\/em>&nbsp;(2011)\nao poema hom\u00f4nimo de Carlos Drummond de Andrade, de&nbsp;<em>Claro enigma<\/em>&nbsp;(1951),\nal\u00e9m da poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o entre&nbsp;<em>\u00d3<\/em>&nbsp;(2008),\ndo escritor e artista paulista, e o serm\u00e3o \u201cNossa senhora do O\u201d (1640), de\nPadre Ant\u00f4nio Vieira, no qual, por sua vez, a imensa M\u00e1quina \u00e9 tamb\u00e9m\nmencionada. Destas breves refer\u00eancias, passaremos pela recorr\u00eancia da tem\u00e1tica\nna&nbsp;<em>Commedia<\/em>,\nde Dante Alighiere e em Lu\u00eds de Cam\u00f5es. Em di\u00e1logo direto com estudo similar de\nJo\u00e3o Adolfo Hansen, a saber, \u201cM\u00e1quina do mundo\u201d (2018), iremos propor, por\nnossa vez, a colossal M\u00e1quina exibida por T\u00e9tis a Vasco da Gama no canto X d\u2019<em>Os lus\u00edadas&nbsp;<\/em>como uma\ndas primeiras e incontorn\u00e1veis materializa\u00e7\u00f5es na cultura do que o jurista Carl\nSchimitt conceituou como&nbsp;<em>jus\npublicum europaeum<\/em>, uma vez que \u00e0s orbes metaf\u00edsicas dantescas se\nsoma o Globo terrestre em sua totalidade enquanto dado geogr\u00e1fico. Nota-se que\ntal&nbsp;<em>nomos<\/em>&nbsp;da\nTerra, cujo advento se deve \u00e0 conquista do mar, como coloca o jurista\ncolaboracionista citando Hegel, possibilita, posteriormente, a Revolu\u00e7\u00e3o\nIndustrial que marca, por sua vez e como observamos, o in\u00edcio do Antropoceno,\nisto \u00e9: o momento no qual as a\u00e7\u00f5es humanas passam a interferir nos ciclos\ngeol\u00f3gicos do planeta Terra (<em>Cf<\/em>.\nLUCIANO, 2015;&nbsp;CRUTZEN, 2000; LEWIS, 2015). Com isto poderemos conceituar\nmelhor o projeto teol\u00f3gico-pol\u00edtico do barroco de Vieira, especialmente a\nmencionada por Hansen (2003a; 2003b; 2006a) e Alcir P\u00e9cora (2008; 2014; 2019)\ninclus\u00e3o da Lei natural pela Lei positiva (seguindo as resolu\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio\nde Trento, que Schimitt aponta como um dos efeitos da conquista do mar), que\ngera pr\u00e1ticas como a dicionariza\u00e7\u00e3o, cataloga\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o un\u00edvoca das l\u00ednguas\nbab\u00e9licas do gentio para efeito de contraste com a l\u00edngua portuguesa maior e\nideal, conforme identificou Andrea Daher (2012) \u2013 ao inv\u00e9s da mera declara\u00e7\u00e3o\nde guerra aos n\u00e3o crist\u00e3os, como era comum antes das navega\u00e7\u00f5es. Com isto\npretendemos, basicamente, sugerir \u00e0 conclus\u00e3o de Hansen outro desdobramento,\nqual seja: a recusa do eu-l\u00edrico de Drummond n\u00e3o somente como frustra\u00e7\u00e3o acerca\nda impossibilidade do sublime no mundo capitalista, mas como recusa ao\ncapitalismo (ou ao Antropoceno) como atualiza\u00e7\u00e3o do sublime matizado pela\nM\u00e1quina e prefer\u00eancia ao caminhar, \u00e0 err\u00e2ncia; al\u00e9m de indicar, pontualmente, a\nimport\u00e2ncia de tal gesto ao projeto de Ramos, especialmente no que tange \u00e0\nproposi\u00e7\u00e3o de outras formas de articula\u00e7\u00e3o entre cultura e natureza, tamb\u00e9m\npresente em Drummond.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ANDRADE, Carlos Drummond de.&nbsp;<em>Carlos Drummond de Andrade<\/em><strong><em>.<\/em><\/strong> Poesia completa e prosa. Volume \u00fanico. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Aguilar, 1973.<\/li><li>CRUTZEN, Paul J.; Stoermer, Eugene F. The Anthropocene.&nbsp;<strong>IGBP Newsletter<\/strong>, 41, 2000.<\/li><li>DANTE, Alighieri.&nbsp;<em>A divina com\u00e9dia<\/em><strong><em>.<\/em><\/strong> Tradu\u00e7\u00e3o, coment\u00e1rios e notas de Italo Eugenio Mauro. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2009.<\/li><li>DAHER, Andrea.&nbsp;<em>A oralidade perdida<\/em>. Ensaio de hist\u00f3ria das pr\u00e1ticas letradas. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o brasileira, 2012.<\/li><li>CAM\u00d5ES, Lu\u00eds de.&nbsp;<em>Os lus\u00edadas<\/em>. Pref\u00e1cio e notas: Hern\u00e2ni Cidade. S\u00e3o Paulo: Editora Abril, 1982.<\/li><li>HANSEN, Jo\u00e3o Adolfo. \u201cA civiliza\u00e7\u00e3o pela palavra.\u201d In: LOPES, Eliane Marta Teixeira; FILHO, Luciano Mendes Faria; VEIGA, Cynthia Greive. (Org.).&nbsp;<em>500 Anos de Educa\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/em>&nbsp;3 edi\u00e7\u00e3o. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2003a.<\/li><li>_____. \u201cAnchieta: poesia em tupi e produ\u00e7\u00e3o da alma.\u201d In: Abdala Jr., Benjamin; Cara, Salete de Almeida. (Org.).&nbsp;<em>Moderno de nascen\u00e7a<\/em>: figura\u00e7\u00f5es cr\u00edticas do Brasil. 1ed.S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2006a, v. 1, p. 11-26.<\/li><li>_____. \u201cEsquema para Vieira\u201d. In: ROCHA, Jo\u00e3o Cezar de Castro (org).&nbsp;<em>Nenhum Brasil existe.<\/em>&nbsp;Pequena enciclop\u00e9dia. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 2003b.<\/li><li>_____. \u201cM\u00e1quina do mundo\u201d. In:&nbsp;<em>Teresa<\/em>. Revista de Literatura Brasileira, n. 19; p. 295-314. S\u00e3o Paulo, 2018.<\/li><li>LUCIANO, Dana. \u201cThe inhuman anthropocene\u201d. Publicado no blog Avidly, em 22\/03\/2015. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/avidly.lareviewofbooks.org\/2015\/03\/22\/the-inhuman-anthropocene\/&gt;.<\/li><li>LEWIS, Simon L.; Maslin, Mark A. Defining the Anthropocene.&nbsp;<strong>Nature<\/strong>, 519, 2015.<\/li><li>P\u00c9CORA, Alcir. \u201cO bom selvagem e o bo\u00e7al (argumentos de Vieira em torno \u00e0 imagem do &#8216;\u00edndio bo\u00e7al&#8217;)\u201d. <strong>Revista Lus\u00f3fona de Ci\u00eancia das Religi\u00f5es<\/strong>, v. 13\/14, p. 65-76, 2008.<\/li><li>_____.&nbsp;<em>Teatro do sacramento<\/em>. A unidade teol\u00f3gico-ret\u00f3rico-pol\u00edtica dos Serm\u00f5es de Ant\u00f4nio Vieira. S\u00e3o Paulo; Campinas: Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo; Editora da Universidade de Campinas, 1994.&nbsp;<\/li><li>_____. \u201cSerm\u00f5es: o modelo sacramental\u201d. In: VIEIRA, Antonio.&nbsp;<em>Serm\u00f5es<\/em>. Tomo I. P\u00c9CORA, Alcir. (Org.). S\u00e3o Paulo: Hedra, 2014.<\/li><li>_____. \u201cVieira, o \u00edndio e o corpo m\u00edstico\u201d. Acessado em Blog do MIS.&nbsp;https:\/\/artepensamento.com.br\/item\/vieira-o-indio-e-o-corpo-mistico\/.&nbsp;Acessado em 2019.<\/li><li>RAMOS, Nuno.&nbsp;<em>\u00d3<\/em>. 3\u00ba reimpress\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2008.<\/li><li>_____.&nbsp;<em>Junco<\/em>. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2011.<\/li><li>SCHMITT, Carl.&nbsp;<em>O&nbsp;<\/em><strong>nomos<\/strong><em>&nbsp;da Terra no direito das gentes&nbsp;<\/em><strong>do jus publicum europaeum<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Alexandre Franco de S\u00e1; Bernardo Ferreira; Jos\u00e9 Maria Arruda; Pedro Herm\u00edlio Villas B\u00f4as Castelo Branco. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC Rio, 2014.<\/li><li>VIEIRA, Padre Ant\u00f4nio.&nbsp;<em>Serm\u00f5es<\/em>. Tomo 1. Organiza\u00e7\u00e3o: \u00c1lcir P\u00e9cora. S\u00e3o Paulo: Hedra, 2014.<\/li><li>_____.&nbsp;<em>Serm\u00f5es<\/em>. Tomo 2. Organiza\u00e7\u00e3o: \u00c1lcir P\u00e9cora. S\u00e3o Paulo: Hedra, 2001.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: m\u00e1quina do\nmundo;&nbsp;<em>jus publicum\neuropaeum<\/em>; antropoceno; literatura; comparatismo.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>9 <\/strong><strong>A voz de Sherazade: O fogo ser\u00e1 tua casa, de Nuno\nCamarneiro<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Gabriela Silva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\nliteratura \u00e9 um espa\u00e7o fudamental da mem\u00f3ria, afirma Helena Buescu. No \u00e2mbito\nda narrativa, a mem\u00f3ria desdobra-se das mais diferentes maneiras e\napropria\u00e7\u00f5es. Destarte, a literatura portuguesa tem como uma de suas principais\ncaracter\u00edsticas a aproxima\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e a constru\u00e7\u00e3o de vozes que se\nconstituem como fonte inesgot\u00e1vel de conhecimento da hist\u00f3ria portuguesa, em\ndiferentes momentos. No entanto, a literatura portuguesa contempor\u00e2nea, em\ncasos singulares, tem se constitu\u00eddo pelo afastamento dos temas recorrentes da\nhist\u00f3ria, e procurado absorver e conviver com o mundo fora do espa\u00e7o\nportugu\u00eas.Nesse contexto, a literatura portuguesa pode ser ententida como\nintegradora, numa tentativa de cosmopolitismo que seria uma de suas principais\ncaracter\u00edsticas. &nbsp;Em <em>O fogo ser\u00e1 tua casa<\/em>, de Nuno Camarneiro, um escritor portugu\u00eas em\nviagem ao Oriente M\u00e9dio, \u00e9 mantido como ref\u00e9m junto a outros prisioneiros. O\ntempo, a fome, e o medo da morte s\u00e3o impostos pelos sequestradores. Os\nsequestrados, no exerc\u00edcio da solid\u00e3o que lhes \u00e9 imputada, resgatam do pr\u00f3prio\npassado, num am\u00e1lgama de exist\u00eancias, diversas narrativas. As vozes que se\nconjugam no obscuro espa\u00e7o da pris\u00e3o, numa din\u00e2mica polif\u00f4nica, retomam a\nm\u00edtica Sherazade, com suas narrativas para afastar a morte.&nbsp; Por conta da diversidade cultural dos\nprisioneiros, o ambiente da pris\u00e3o e a troca de narrativas, tornam-se um\nentre-lugar em que o mais importante \u00e9 a sobreviv\u00eancia. Amplia-se o sentido\nhumanista da literatura e a ideia da aproxima\u00e7\u00e3o dos sujeitos atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o\nnarrativa. Para al\u00e9m das delimita\u00e7\u00f5es das nacionalidades dessas personagens, as\nnarrativas configuram-se como um arcabou\u00e7o de conhecimentos e formas de pensar\no mundo e sua hist\u00f3ria.&nbsp; A partir da\naproxima\u00e7\u00e3o com os textos te\u00f3ricos de Helena Carvalh\u00e3o Buescu, Eduardo\nLouren\u00e7o, Silvina Rodrigues Lopes e outros, este trabalho procura estabelecer\nos elementos essenciais da narrativa de Nuno Camarneiro, enunciando as\npeculiaridades da polifonia que \u00e9 caracter\u00edstica de sua escrita. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BUESCU, Helena Carvalh\u00e3o. <strong>Experi\u00eancia do incomum e boa vizinhan\u00e7a<\/strong>. Literatura comparada e literatura-mundo. Porto: Porto Editora: 2013.<\/li><li>CAMARNEIRO, Nuno. <strong>O fogo ser\u00e1 tua casa<\/strong>. Lisboa: D. Quixote, 2018.<\/li><li>LOPES, Silvina Rodrigues. <strong>A legitima\u00e7\u00e3o da literatura<\/strong>. Lisboa: Cosmos, 1994.<\/li><li>LOUREN\u00c7O, Eduardo. <strong>O canto do signo<\/strong>. Exist\u00eancia e literatura (1957-1993). Lisboa: Gradiva, 2017. <\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> literatura\ncontempor\u00e2nea portuguesa; polifonia; Nuno Camarneiro; cosmopolitismo.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>10 <\/strong><strong>Escritas do corpo: textualidade fora da lei<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Rita Terezinha Schmidt<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de\na viol\u00eancia materna constituir um fato na s\u00e9rie hist\u00f3rica da cultura ocidental,\ntal tema foi e ainda \u00e9 silenciado em termos de investiga\u00e7\u00e3o\ncr\u00edtico-filos\u00f3fica-cultural, e permanece \u00e0s margens da cultura, marcado com o\nestigma de tabu, como express\u00e3o de uma alteridade radical a ser reprimida e\nnegada, mas que ronda, tal como um espectro, as normas de inteligibilidade\nsocial e cultural. A partir de considera\u00e7\u00f5es sobre o processo de normaliza\u00e7\u00e3o\ndo corpo feminino como um \u201cfato natural\u201d e, portanto, da constru\u00e7\u00e3o do ser\nmulher como efeito de uma manipula\u00e7\u00e3o epist\u00eamico-discursiva pelo sistema\nontol\u00f3gico do pensamento patriarcal, pode-se afirmar que a constitui\u00e7\u00e3o da\nmaternidade&nbsp; funciona tal como um\noperador&nbsp; ontol\u00f3gico que inscreve valores\ninegoci\u00e1veis na cultura moderna. Tomando como ponto de partida a premissa de\nque n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia significativa \u00e0 realidade humana fora dos termos da\ncultura, examino alguns percursos&nbsp; do\ndiscurso filos\u00f3fico que permitem compreender a constru\u00e7\u00e3o da mulher como ser\n\u201cnatural\u201d \u00e0 luz da qual estabele\u00e7o um contraponto no romance <em>Uma duas<\/em>, de Eliane Brum. Na figura\nperformativa da viol\u00eancia materna pela lente do conceito de corpo abjeto e seu\npoder disruptivo, argumento que o referido romance desnaturaliza normas de\ninteligibilidade filos\u00f3fica, social e cultural do corpo feminino decorrentes de\num processo de coloniza\u00e7\u00e3o patriarcal e que seu alcance pol\u00edtico reside no fato\nde abrir novos caminhos de reflex\u00e3o sobre os limiares indiz\u00edveis do corpo\nfeminino bem como de resignificar a categoria do humano, sem contudo\nreescrev\u00ea-la no dualismo humano\/animal.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AGAMBEN, Giorgio.&nbsp;<em>O que \u00e9 o contempor\u00e2neo?&nbsp;&nbsp;e outros ensaios<\/em>. Trad. Vinicius Nicastro Honesko. Chapec\u00f3, SC: Argos Editora, 2012.<\/li><li>BADINTER, Elisabeth.&nbsp;<em>Um amor conquistado: o mito do amor materno<\/em>. Trad. Waltemir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.<\/li><li>BORDO, Susan:&nbsp;<em>Unbearable weight: feminism, western culture and the body<\/em>. New York: Columbria University Press, 1997.<\/li><li>BRUM, Eliane.<em>Uma\/Duas<\/em><strong><em>.<\/em><\/strong> S\u00e3o Paulo: Texto Editores Ltda., 2011.<\/li><li>BUTLER, Judith.&nbsp;<em>Cuerpos que importam<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2002.<\/li><li>FOUCAULT, Michel.&nbsp;<em>A verdade e as formas jur\u00eddicas<\/em>. Trad. Eduardo Jardim e Roberto Machado.&nbsp;&nbsp;Rio de Janeiro: NAU Editora, 2013.<\/li><li>KRISTEVA, Julia.&nbsp;<em>Power of horrors.<\/em>&nbsp;Trans. Leon Roudiez. New York: Colimbia University Press, 1982.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> discurso, filosofia, maternidade, corpo, abje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>11 <\/strong><strong>Viagem e alteridade: a paisagem liter\u00e1ria da It\u00e1lia de\nGoethe<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Renato Barros de Castro<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este\ntrabalho aborda a constru\u00e7\u00e3o da paisagem e da alteridade na obra&nbsp;<em>Viagem\n\u00e0 It\u00e1lia&nbsp;<\/em>(1816), de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), por meio\nda \u00f3tica do pensador franc\u00eas Michel Collot (1952-), conforme expresso em&nbsp;<em>Po\u00e9tica\ne filosofia da paisagem&nbsp;<\/em>(2013). Distinguindo-a do conceito de paisagem\ngeogr\u00e1fica ou cen\u00e1rio est\u00e1tico, Collot aponta a exist\u00eancia de uma paisagem\nenigm\u00e1tica, intraduz\u00edvel e m\u00f3vel. Ela tem a alteridade como um dos seus\nprincipais elementos constitutivos, apresentando-se como uma permanente\nconstru\u00e7\u00e3o, onde entram em cena a surpresa e o inesperado. E ajuda a responder\na indaga\u00e7\u00e3o: \u00e9 poss\u00edvel \u201ctraduzir\u201d um lugar visitado? Marco da chamada\n\u201cliteratura de viagem\u201d, a obra&nbsp;<em>Viagem \u00e0 It\u00e1lia<\/em>,\nde&nbsp;Goethe,&nbsp;constitui-se uma ambiciosa tentativa nesse sentido.\nPublicada em 1816, ela deixa transparecer a busca do autor por transmitir o que\nn\u00e3o se consegue por meio de palavras: seu contato com uma terra estrangeira a\nqual lhe havia sido apresentada apenas por meio dos livros. Para entender o\npercurso de Goethe, \u00e9 poss\u00edvel recorrer \u00e0 distin\u00e7\u00e3o dos conceitos de \u201cpaisagem\ngeogr\u00e1fica\u201d e \u201cpaisagem liter\u00e1ria\u201d de que trata Michel Collot (2013). Para\nCollot (2013), a paisagem geogr\u00e1fica implica desconstru\u00e7\u00e3o, imobilidade,\nenquanto a paisagem liter\u00e1ria \u00e9 m\u00f3vel e est\u00e1 sempre em constru\u00e7\u00e3o,\nsurpreendendo o enunciador. \u2013 Em Goethe, esses dois tipos de paisagem entram em\nevid\u00eancia. Se a paisagem liter\u00e1ria surge na interse\u00e7\u00e3o entre um certo espa\u00e7o e\num certo tempo, conforme Collot (2013), e se os lugares podem ser como pessoas,\ncomo lembra Bessa-Lu\u00eds (2016), \u00e9 poss\u00edvel refletir tamb\u00e9m sobre os espa\u00e7os como\ninstrumentos para o exerc\u00edcio da alteridade, proporcionando uma maneira de\nexperimentar \u201co si-mesmo como um outro\u201d, m\u00f3vel e cambiante como essa paisagem\nliter\u00e1ria sempre em constru\u00e7\u00e3o.&nbsp;No que tange \u00e0s narrativas de viagem,\nespecialmente, tal experi\u00eancia se torna uma primeira etapa para a descoberta do\n\u201coutro\u201d. Ao mesmo tempo em que se descobre, o autor tamb\u00e9m contribui com a\nconstru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria dos locais e comunidades visitados, levando-se em conta\nque, conforme os preceitos de Stanley Fish e Wolfgang Iser, uma obra n\u00e3o \u00e9 algo\nobjetivo e independente, mas tamb\u00e9m a experi\u00eancia do leitor (CULLER, 1999, p.\n120). H\u00edbrida e interdisciplinar, a narrativa de viagem envolve um exerc\u00edcio do\nautor (e&nbsp;do leitor) na busca pela compreens\u00e3o do alheio. A percep\u00e7\u00e3o do outro\n\u2013 que come\u00e7a pela percep\u00e7\u00e3o de si mesmo \u2013, de seus valores e modos de ver,\ntorna-se um importante caminho para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo. A literatura\ncomparada, nesse sentido, serve de b\u00fassola&nbsp;a fim de concretizar tal\naspira\u00e7\u00e3o: a&nbsp;<em>Weltliteratur<\/em>, como Goethe a compreendia, e cujo\nestudo, para Homi Bhabha (2007), equivale ao \u201cestudo do modo pelo qual as\nculturas se reconhecem atrav\u00e9s de suas proje\u00e7\u00f5es de \u2018alteridade\u2019\u201d (BHABHA,\n2007, p. 33).&nbsp;Conseguir enxergar bem a si mesmo pode significar, afinal, o\nalcance de uma compreens\u00e3o melhor sobre os outros seres humanos, abrindo espa\u00e7o\npara uma comunica\u00e7\u00e3o mais efetiva entre as pessoas e, sobretudo, um conv\u00edvio\nmais tolerante: algo essencial a todas as \u00e9pocas (como aquela da It\u00e1lia de\nGoethe), mas ainda mais urgente no mundo contempor\u00e2neo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BESSA-LU\u00cdS, Agustina.&nbsp;<strong>Brevi\u00e1rio do Brasil<\/strong>.Rio de Janeiro: Tinta-da-China, 2016.<\/li><li>BHABHA, Homi K.&nbsp;<strong>O local da cultura<\/strong>.Belo Horizonte: UFMG, 2007.<\/li><li>COLLOT, Michel.&nbsp;<strong>Po\u00e9tica e filosofia da paisagem<\/strong>. Rio de Janeiro: Ed. Oficina Raquel, 2013.<\/li><li>CULLER, Jonathan.&nbsp;<strong>Teoria liter\u00e1ria<\/strong><em>:<\/em>&nbsp;uma introdu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Beca, 1999.<\/li><li>GOETHE, Johann Wolfgang Von.&nbsp;<strong>Viagem \u00e0 It\u00e1lia<\/strong><em>.<\/em>&nbsp;S\u00e3o Paulo: UNESP, 2017.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Alteridade; Viagem;\nLiteratura Comparada; Filosofia; Paisagem.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>12 <\/strong><strong>Paisagens do \u00edntimo e po\u00e9ticas de internacionaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Maria Luiza Berwanger<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\nconfigura\u00e7\u00e3o da obra de Clarice Lispector por Julia Kristeva em <em>Solei noir. D\u00e9pression et m\u00e9lancolie<\/em>\n(1987), como \u201cvalor purificador\u201d, possibilita demarcar certa cartografia do \u201cestado\nde gra\u00e7a\u201d , dito por esta autora brasileira ,&nbsp;\nencontrando , no di\u00e1logo do cr\u00edtico liter\u00e1rio Georges Bataille com o\nfil\u00f3sofo Fran\u00e7ois Jullien, uma das prov\u00e1veis media\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o&nbsp;&nbsp; brasileira \u00e0s \u201cpo\u00e9ticas de\ninternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Articulam essa media\u00e7\u00e3o imagens nomeadas como\n\u201cexperi\u00eancia interior\u201d por Georges Bataille e \u201c\u00edntimo\u201d, \u201ctransforma\u00e7\u00f5es\nsilenciosas\u201d e \u201cviver\u201d por Fran\u00e7ois Jullien, imagens que captam sua for\u00e7a\ndinamizadora da incessante err\u00e2ncia \u00e0 Alteridade. Percebe-se que , na narratividade\nde Clarice Lispector, formas e figuras traduzidas por territorialidades,\nsujeitos, subjetividades, campos outros de saberes simb\u00f3licos e n\u00e3o simb\u00f3licos\n, uma vez postos em intersec\u00e7\u00e3o, produzem o efeito do inusitado,\nconstituindo-se como figura\u00e7\u00e3o exemplar da \u201cfelicidade clandestina\u201d. Buscar\ndecifr\u00e1-la pelo ato de escrever, sob o signo da palavra compartilhada, eis a\nsingularidade da escritura clariceana, definida por Julia Kristeva como \u201cvalor\npurificador\u201d. Com base nesse caminho te\u00f3rico-cr\u00edtico, a presente comunica\u00e7\u00e3o\nbuscar\u00e1 evidenciar as diferentes pr\u00e1ticas te\u00f3ricas de natureza comparatista,\nresultantes da rela\u00e7\u00e3o \u00cdntimo\/Alteridade\/ Internacionaliza\u00e7\u00e3o e sua efic\u00e1cia\npara a&nbsp; textualidade de Clarice\nLispector. Considerar essa rela\u00e7\u00e3o como fertilidade das \u201cpo\u00e9ticas de\ninternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d inova a Literatura Comparada, nela sublinhando o car\u00e1ter\ndo liter\u00e1rio como&nbsp; fato liter\u00e1rio e\ncultural.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BATAILLE, Georges. <strong>L\u2019Exp\u00e9rience int\u00e9rieure.<\/strong> Paris: Gallimard, 1954. <\/li><li>BESSI\u00c8RE, Jean. <strong>Forum Jean Bessi\u00e8re<\/strong>. Site Internet, 2013.<\/li><li>INSTITUTO MOREIRA SALLES. <strong>Cadernos de Literatura Brasileira<\/strong>. S\u00e3o Paulo, dez. 2004.<\/li><li>KRISTEVA, Julia. <strong>Soleil noir<\/strong>. D\u00e9pression et m\u00e9lancolie. Paris: Gallimard, 1987.<\/li><li>___. Une f\u00e9licit\u00e9 nomm\u00e9 Rousseau. <strong>Le Monde<\/strong>, Paris, p. 7-24, 2003. <\/li><li>LISPECTOR, Clarice. <strong>A descoberta do mundo<\/strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.<\/li><li>___. <strong>Felicidade clandestina<\/strong>: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.<\/li><li>___. <strong>La\u00e7os de fam\u00edlia<\/strong>: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. <\/li><li>___. <strong>Um sopro de vida<\/strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. <\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Clarice Lispector;\npaisagem; alteridade; Literatura Comparada; internacionaliza\u00e7\u00e3o.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<h4><strong>13 <\/strong><strong>Da Arquiliteratura de Conform\u00f3polis: Cartografia\nliter\u00e1ria<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Tiago Radatz Kickh\u00f6fel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Frutos da\npesquisa para a constru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de uma obra liter\u00e1ria, as an\u00e1lises\napresentadas aqui versam sobre quest\u00f5es latentes na rela\u00e7\u00e3o\nsujeito-cidade-literatura na cartografia liter\u00e1ria de \u201cConform\u00f3polis\u201d, obra que\nresultar\u00e1 na disserta\u00e7\u00e3o de mestrado do autor.&nbsp;O&nbsp;escopo de\naproxima\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, cr\u00edticas e pr\u00e1ticas entre estas esferas [subjetividade,\nespa\u00e7o e palavra] foi chamado neste projeto de arquiliter\u00e1rio, lugar onde se\nexperimenta a po\u00e9tica da mat\u00e9ria urbana; onde s\u00e3o dadas a ver met\u00e1foras geradas\npela cidade (INTERNACIONAL SITUACIONISTA, 2007); onde se reflete o jogo de\nalteridades na paisagem (COLLOT, 2005); onde se leem discursos urbanos\ndeslocados de seus contextos reais para outros, simb\u00f3licos (GOLDSMITH, 2011);\nonde se apresenta a constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os liter\u00e1rios, do projeto \u00e0 cria\u00e7\u00e3o \/ \u00e0\nfunda\u00e7\u00e3o \/ \u00e0 experi\u00eancia (ECO, 1985; 1994). O estudo do espa\u00e7o na literatura \u00e9\ncampo produtivo \u00e0 teoria liter\u00e1ria, sobretudo ap\u00f3s o surgimento dos estudos comparados\ne dos estudos culturais, que expandiram\/hibridizaram horizontes de pesquisa com\nquest\u00f5es socioculturais mais amplas. E quando a pesquisa em urbanismo passa a\nincluir processos subjetivos da experi\u00eancia urbana em seu escopo (antropologia\nurbana e psicogeografia, por exemplo), transcendendo a materialidade no estudo\ndo espa\u00e7o, h\u00e1 um avan\u00e7o significativo na reflex\u00e3o do espa\u00e7o na pr\u00f3pria\nliteratura. Uma pr\u00e1tica que faz emergir esta rela\u00e7\u00e3o arquiliter\u00e1ria \u00e9 a\ncartografia po\u00e9tica, dos afetos, humores, sons: discursos urbanos que\nrevelam\/fornecem aspectos tamb\u00e9m imateriais, t\u00e3o significativos para a leitura\npoliss\u00eamica de um espa\u00e7o. A ess\u00eancia da cartografia, como sugerem Deleuze e\nGuattari (1997), \u00e9 a possibilidade que ela oferece de enxergar o n\u00e3o vis\u00edvel,\nexperimentar cen\u00e1rios socioculturais por meio de elementos n\u00e3o definidos pelos\nmapas habituais, abrindo o jogo cartogr\u00e1fico \u00e0s subjetividades da realidade\ncircundante. \u00c9 comum o cart\u00f3grafo utilizar o m\u00e9todo de err\u00e2ncia para provocar\nesses exames, dado que, enquanto pr\u00e1tica, ele permite ter a cidade como espa\u00e7o\nde experi\u00eancia, explorando-a por meio de caminhadas, como jogo de absor\u00e7\u00e3o e\ninvestiga\u00e7\u00e3o da urbe e do corpo (JACQUES, 2009), tendo como for\u00e7a motriz o\n\u00ednfimo, as sensa\u00e7\u00f5es que passam no corpo em contato com o outro, com a cidade;\ncomo sugere Barthes (1988), experimentar&nbsp;a cidade como uma consci\u00eancia\npercept\u00edvel, uma imagem formada a partir dos seus leitores, com diferentes\npotenciais de legibilidade. O deslocamento destes discursos para o registro cartogr\u00e1fico\npode ser organizado por outras linguagens, sendo a liter\u00e1ria uma delas. Esse\ndeslocamento, na literatura, gera met\u00e1foras a partir do pr\u00f3prio movimento, como\n\u00e9 o caso do processo de cria\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>ready-made<\/em>, que transfere discursos\nreais e geralmente banais a um registro distinto, dando-lhes outros n\u00edveis de\nsignifica\u00e7\u00e3o a partir da nova linguagem. \u00c9 o que o \u201cProjeto para Conform\u00f3polis\u201d\nbusca em seu mapeamento po\u00e9tico: perceber as met\u00e1foras geradas neste\ndeslocamento discursivo. Assim, o que este trabalho procura discutir e\napresentar \u00e9 o modo pelo qual os discursos urbanos s\u00e3o deslocados para uma obra\nliter\u00e1ria espec\u00edfica atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o de cartografias po\u00e9ticas, criadas por\nerr\u00e2ncia e arranjadas na forma de planta-baixa psicogeogr\u00e1fica, engendrando o\ncorpo-plataforma para os enredos das curtas narrativas de \u201cConform\u00f3polis\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BARTHES, R.&nbsp;<strong>A Aventura Semiol\u00f3gica<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria de Sta. Cruz. Lisboa, ed. 70, 1987.<\/li><li>COLLOT, M.&nbsp;<strong>Paysage et po\u00e9sie: <\/strong>du romantisme \u00e0 nos jours<strong>.<\/strong> Paris: Jos\u00e9 Corti, 2005.<\/li><li>DELEUZE, G.; GUATTARI, F.&nbsp;<strong>Mil plat\u00f4s:<\/strong> Capitalismo e Esquizofrenia&nbsp;(Vols. 1-4). S\u00e3o Paulo, SP, Editora 34. 1997.<\/li><li>ECO, U.&nbsp;<strong>P\u00f3s-escritos a \u201cO nome da Rosa\u201d<\/strong>. Editora Nova Fronteira, 1985.<\/li><li>________.&nbsp;<strong>Seis passeios pelos bosques da fic\u00e7\u00e3o<\/strong>. Companhia das letras, 1994.<\/li><li>GENETTE, G.&nbsp;<strong>Espa\u00e7o e linguagem<\/strong>. S\u00e3o Paulo, Perspectiva, 1972.<\/li><li>GOLDSMITH, K.&nbsp;<strong>Uncreative writing:<\/strong> managing language in the digital age. Columbia University Press, 2011.<\/li><li>INTERNACIONAL SITUACIONISTA.&nbsp;<strong>Deriva, psicogeografia e urbanismo totalit\u00e1rio<\/strong>. Erahsto Fel\u00edcio (org.). Porto Alegre, Deriva, 2007.<\/li><li>JACQUES, P. <strong>Corpografias urbanas:<\/strong> a mem\u00f3ria da cidade no corpo. In: VELLOSO, M, ROUCHOU J. e OLIVEIRA.&nbsp;<em>Corpo: identidades, mem\u00f3rias e subjetividades<\/em>. Rio de Janeiro: Mauad X, 2009<strong>.<\/strong><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Cartografia; Cidade; Subjetividade;\nPsicogeografia; Produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>14 <\/strong><strong>Po\u00e9ticas \u00e0 deriva em&nbsp;Berkeley em\nBellagio&nbsp;e&nbsp;Lorde, de Jo\u00e3o Gilberto Noll<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Kim Amaral Bueno<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tropo recorrente na fic\u00e7\u00e3o moderna, a \u201cviagem\u201d reverbera,\nno contempor\u00e2neo, uma esp\u00e9cie de po\u00e9tica do desterro, como se verifica na obra\nde Jo\u00e3o Gilberto Noll. Importante autor ga\u00facho falecido em mar\u00e7o de 2017, Noll\npublicou ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas uma s\u00e9rie de romances e contos nos\nquais figuram personagens marginais, sujeitos que acolhem o tr\u00e2nsito e a deriva\ncomo t\u00f4nicas de suas exist\u00eancias, problematizando constantemente as no\u00e7\u00f5es de\npertencimento e de fronteira, adequando-se, assim, \u00e0s discuss\u00f5es sugeridas pelo\neixo \u201cCosmopolotismos e cartografias p\u00f3s-coloniais\u201d, deste VIII Col\u00f3quio Sul de\nLiteratura Comparada. O corpus de an\u00e1lise deste trabalho \u00e9 constitu\u00eddo pelos\nromances&nbsp;<em>Berkeley em Bellagio<\/em>&nbsp;(2002) e&nbsp;<em>Lorde<\/em>&nbsp;(2004).\nTais romances foram produzidos a partir de experi\u00eancias do escritor advindas da\nrealidade factual, isto \u00e9, de duas viagens suas como intelectual convidado por\nuniversidades nos Estados Unidos e na Inglaterra, respectivamente. S\u00e3o\nnarrativas nas quais figuram narradores-protagonistas que partem da periferia\ndo sistema global para o seu n\u00facleo, carregando n\u00e3o apenas epistemologias que\nse confrontam com os sistemas hegem\u00f4nicos de conhecimento, mas tamb\u00e9m com\nsensibilidades d\u00edspares para ver, ouvir, falar, perceber, enfim, o outro e a si\nmesmo. Partindo dos pressupostos apontados por Silviano Santiago (2004) em sua\nc\u00e9lebre confer\u00eancia \u201cUma literatura anf\u00edbia\u201d, associados \u00e0 ideia de uma forma\nde leitura dissonante e amplificadora semelhante \u00e0quela inspirada pelos atlas,\nconforme teoriza Didi-Huberman (2013), l\u00ea-se esses dois romances de Noll pelos seus\n\u201cfios menos vis\u00edveis que tecem migra\u00e7\u00f5es culturais\u201d constituindo um\n\u201cconhecimento n\u00f4made, desterritorializado, que nos convida a impureza\nfundamental das imagens\u201d (Didi-Huberman, 2013, p.25).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>DIDI-HUBERMAN, Georges.&nbsp;<strong>Atlas ou a gaia ci\u00eancia inquieta:<\/strong> o olho da hist\u00f3ria, 3. Trad. Renata Correia Botelho e Rui Pires Cabral. Lisboa: KKYM\/EAUM, 2013.<\/li><li>NOLL, Jo\u00e3o Gilberto.&nbsp;<strong>Berkeley em Bellagio.<\/strong>&nbsp;S\u00e3o Paulo: Objetiva, 2002.<\/li><li>NOLL, Jo\u00e3o Gilberto.&nbsp;<strong>Lorde<\/strong>. Rio de Janeiro: Record, 2014.<\/li><li>SANTIAGO, Silviano.&nbsp;<strong>O cosmopolitismo do pobre:<\/strong> cr\u00edtica liter\u00e1ria e cr\u00edtica cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2004.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Jo\u00e3o Gilberto Noll;\nLiteratura contempor\u00e2nea; Literatura comparada; Deslocamentos; Fronteiras.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>15\n<\/strong><strong>\u201cComo uma onda no mar\u201d&nbsp;\u2013&nbsp;\u00e9tica e\ncria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria atrav\u00e9s da poesia<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Gisela Rodriguez<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Como\numa onda no mar<\/em><strong>&nbsp;<\/strong>\u00e9 um texto produzido\ndurante os estudos na disciplina&nbsp;\u00c9tica e Cria\u00e7\u00e3o Liter\u00e1ria I, na PUCRS,\nque mescla poesia e filosofia. Nesse trabalho,&nbsp;o estilo ficcional de Dante\nAlighieri surge como o fio condutor de uma narrativa sobre os t\u00f3picos estudados\nnas aulas de filosofia, no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Letras. O texto \u00e9\ndividido em seis momentos: 1\u00ba- o Pr\u00f3logo, que introduz o leitor no \u201cpensar\nsobre a linguagem\u201d; 2\u00ba- o Ex\u00edlio, que ressalta a solid\u00e3o inerente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o\nliter\u00e1ria; 3\u00ba- a Realidade, que mostra as vicissitudes do oficio do escritor;\n4\u00ba- o Livro, que fala dos processos criativos e da \u00e9tica na escritura; 5\u00ba- a\nAlteridade, que aborda a import\u00e2ncia do \u201coutro\u201d e a dial\u00e9tica e\ninterdepend\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica; 6\u00ba- a Despedida, no qual a autora\ncomenta sobre o desapego da autoria, mostrando que o livro n\u00e3o pertence a ela e\nsim ao mundo. A cria\u00e7\u00e3o dos versos segue o padr\u00e3o das obras po\u00e9ticas de Dante,\nmas o conte\u00fado discorre sobre as aulas ministradas pelo fil\u00f3sofo e professor\nRicardo Timm de Souza. A linguagem, nesse caso, \u00e9 um mecanismo para envolver o\nleitor numa narrativa inusitada, por trazer a refer\u00eancia de uma obra cl\u00e1ssica,\ne ao mesmo tempo, a reflex\u00e3o sobre as concep\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas de alteridade,\nautoria e \u00e9tica na literatura. Um dos aspectos mais importantes dessa\nexperimenta\u00e7\u00e3o, que resultou no texto&nbsp;<em>Como uma onda no mar<\/em>,&nbsp;pode\nser identificado como um argumento para o repensar a quest\u00e3o da autoria,\nsegundo Roland Barthes, e seguir para o caminho do descentramento das no\u00e7\u00f5es\ntradicionais de na\u00e7\u00e3o e fronteira dentro da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. A apropria\u00e7\u00e3o de\numa obra de maneira a revisitar uma \u00e9poca e um estilo, em concomit\u00e2ncia com um pensamento\nda atualidade, reivindicando possibilidades de cria\u00e7\u00f5es textuais permeadas pela\ncontamina\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o da escrita, em tempos digitais e globalizados.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ALIGHIERI, Dante.&nbsp;<strong>Divina com\u00e9dia<\/strong>&nbsp;(1\u00ba volume). S\u00e3o Paulo: W. M. Jackson Inc. Editores, 1964.<\/li><li>______.&nbsp;<strong>Divina com\u00e9dia.<\/strong> (2\u00ba volume). S\u00e3o Paulo: W. M. Jackson Inc. Editores, 1964.<\/li><li>BARTHES, Roland.&nbsp;<strong>O rumor da l\u00edngua<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2004.<\/li><li>SOUSA, Ricardo Timm.&nbsp;<strong>\u00c9tica do escrever (Kafka, Derrida e a literatura como cr\u00edtica da viol\u00eancia).&nbsp;<\/strong>Porto Alegre: ZOUK, 2018.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: poesia; escrita\ncriativa; filosofia; processos criativos; apropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>16\n<\/strong><strong>Redescobrindo a humanidade: uma an\u00e1lise f\u00edlmica\nde Distrito<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Marlova Soares Mello <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\nidentidade cultural de um lugar \u00e9 mantida dentro dos objetivos de seus\ncidad\u00e3os. Quando uma popula\u00e7\u00e3o estrangeira com inten\u00e7\u00f5es misteriosas \u00e9\nintroduzida, h\u00e1 um per\u00edodo de grande inquieta\u00e7\u00e3o. D\u00favidas e medos crescem cada\nvez mais fortes \u00e0 medida que os indiv\u00edduos enfrentam suas preconcep\u00e7\u00f5es e seus\npreconceitos. Distrito 9, do diretor sul-africano Neil Blomkamp aborda\nexatamente esse fen\u00f4meno. Uma nave alien\u00edgena sobrevoa Johannesburg trazendo em\nseu interior uma popula\u00e7\u00e3o doente e faminta que encontra ref\u00fagio em campos do\ngoverno montados no centro da cidade. Vinte anos depois, sobrevivendo com uma\ndieta de carne crua e comida de gato, os estrangeiros se transformam em uma\nsociedade animalesca e os moradores locais passam a exigir sua reloca\u00e7\u00e3o. Como\nargumenta Michel Foucault em Hist\u00f3ria da sexualidade, o racismo \u00e9\npredominantemente uma tecnologia que autoriza a implementa\u00e7\u00e3o do biopoder como\nestrat\u00e9gia de governo. Dessa forma, a vida, em seu sentido pleno, n\u00e3o\nrepresenta mais um lugar acess\u00edvel para esses seres estranhos, e os humanos\nsurgem como os seres soberanos capazes de conhecer, organizar e controlar a\nexist\u00eancia de todos. Este \u00e9 o cen\u00e1rio onde est\u00e1 inserido Wikus Van De Merwe um\ndos protagonistas mais improv\u00e1veis que o cinema j\u00e1 produziu. \u00c9 na figura dessa\npersonagem que o encontro com a diferen\u00e7a ocorre em sua forma mais profunda,\numa vez que ele percebe estar se convertendo fisicamente em um extraterrestre.\nContudo, o que essa transforma\u00e7\u00e3o significa? Em um certo sentido, \u00e9 uma queda\npara a morte, a partir do apodrecimento do corpo (dentes, unhas e a pele branca\ncaem, e grandes escamas negras surgem).\u00c9 o apodrecimento do corpo humano em\ndetrimento do corpo alien que surge como um sopro de esperan\u00e7a em uma nova\nforma de relacionamento com os estrangeiros. Esse novo ser h\u00edbrido e improv\u00e1vel\nvai experimentar o outro lado da realidade e somente assim, ao deixar de ser\n\u201chomem\u201d, ser\u00e1 poss\u00edvel redescobrir sua humanidade. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias\n<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li><strong>DISTRITO 9<\/strong>, Dire\u00e7\u00e3o Neill Blomkamp. QED International WingNut Films. Nova Zel\u00e2ndia\/\u00c1frica do Sul. 2009. 112 min. <\/li><li>FOUCAULT, Michel. <strong>Hist\u00f3ria da Sexualidade I<\/strong>: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1999.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> humano; h\u00edbrido; cinema;\ntransforma\u00e7\u00e3o; racismo. <\/p>\n\n\n\n<h4><strong>17\n<\/strong><strong>Contar para deslocar: espacialidades do lirismo\ncr\u00edtico entre a poesia brasileira contempor\u00e2nea e a literatura coreana<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Douglas Rosa da Silva, Melissa Rubio dos Santos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O\npresente trabalho tem como objetivo tra\u00e7ar um estudo comparado entre a\nliteratura brasileira e a literatura coreana a partir do tra\u00e7o convergente de\nconstru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o simb\u00f3lico atrav\u00e9s do olhar das narradoras e do sujeito\nl\u00edrico, sendo este um elemento de destaque na po\u00e9tica de Mar\u00edlia Garcia e Park\nWan Seo. \u00c9 na engrenagem da produ\u00e7\u00e3o l\u00edrica que os artefatos da paisagem\ntransmutam os espa\u00e7os de significa\u00e7\u00e3o est\u00e9tico-cultural. A observa\u00e7\u00e3o lenta do\nsujeito l\u00edrico e as imagens po\u00e9ticas que constituem algumas das obras\nliter\u00e1rias na contemporaneidade focam nos fragmentos que t\u00eam como fun\u00e7\u00e3o o\ndeslocamento \u2013 o contar para deslocar.&nbsp; Considerando que o espa\u00e7o, para\nDoreen Massey (2008), dispensa a unidade e o que \u00e9 definitivo, este trabalho\nexplora as rela\u00e7\u00f5es que s\u00e3o constru\u00eddas tanto no espa\u00e7o quanto na paisagem,\nencarando-as como imagens po\u00e9tico-espaciais que s\u00e3o da ordem da multiplicidade,\nda possibilidade da diferen\u00e7a. O corpus de estudo deste trabalho \u00e9 composto\npelas obras da poeta Mar\u00edlia Garcia e do livro&nbsp;<em>In the realm of Budha<\/em>&nbsp;da\nescritora sul-coreana Park Wan Seo. O contexto da obra da poeta brasileira\ndestaca o ru\u00eddo de fundo, tamb\u00e9m caracterizado como aquilo que \u00e9 habitual, que\npode ser descrito e aprofundado como uma experi\u00eancia do infra-ordin\u00e1rio. Nas\nobras de Garcia, em especial em&nbsp;<em>C\u00e2mera Lenta<\/em>&nbsp;(2017) e&nbsp;<em>20\npoemas para seu walkman<\/em>&nbsp;(2006) as cartografias constru\u00eddas pelo\nsujeito l\u00edrico aprofundam as instabilidades do deslocamento, em uma tentativa\nde descrever a experi\u00eancia do sujeito mulher em rela\u00e7\u00e3o a tudo que \u00e9 e est\u00e1\np\u00fablico, exposto. &nbsp;Por outro lado, a narrativa de Park \u00e9 tecida a partir de\nfatos do cotidiano de mulheres que parecem, a princ\u00edpio, estarem totalmente\ndistantes de relatos hist\u00f3ricos do per\u00edodo traum\u00e1tico da Guerra da Coreia, mas\neste tipo de tem\u00e1tica \u00e9 introduzida como um deslize na constru\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e\npo\u00e9tica.&nbsp;&nbsp;Na maioria desses relatos, essas narrativas revelam traumas\ndo per\u00edodo da guerra e do p\u00f3s-guerra. Com isso, destaca-se que as experi\u00eancias\nfugidias instaladas na paisagem, os traumas averbados nas imagens e os\ntransportes po\u00e9ticos que desterritorializam os espa\u00e7os aproximam a poeta\nbrasileira e autora sul-coreana. Para pensar os encontros e os desencontros da\nexperi\u00eancia brasileira e da experi\u00eancia sul-coreana, se utiliza dos aportes\nte\u00f3ricos fornecidos por discuss\u00f5es recentes na Literatura Comparada, tais como\nas discuss\u00f5es encontradas em Michel Collot (2008), George Steiner (2012) e\nJullien Fran\u00e7ois (2013). Encontra-se, em ambas as autoras, a progress\u00e3o de um\nlirismo cr\u00edtico que coloca em perspectiva corpos-corpus em tr\u00e2nsito, de modo a\nevidenciar que a busca por novas pol\u00edticas da espacialidade devem ser calcadas\nno aprofundamento das alteridades, no partilhar para deslocar, no cartografar\npara corromper.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>COLLOT, Michel. <strong>Po\u00e9tica e Filosofia da Paisagem<\/strong>. (trad: Ida Alves e Maria Luiza Berwanger). RJ: Oficina Raquel, 2013.<\/li><li>FRAN\u00c7OIS, Jullien. <strong>As Transforma\u00e7\u00f5es Silenciosas<\/strong> (trad Maria Luiza Berwanger) Porto Alegre: Paiol, 2013.<\/li><li>GARCIA, Mar\u00edlia. <strong>C\u00e2mera lenta<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras. 2017.<\/li><li>GARCIA, Mar\u00edlia. <strong>20 poemas para seu walkman<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.<\/li><li>MASSEY, Doreen. <strong>Pelo espa\u00e7o:<\/strong> uma nova pol\u00edtica da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008. 312 p.<\/li><li>PEREC, Georges (2015). <strong>L\u2019infra-ordinaire<\/strong>. Paris: Le Seuil.<\/li><li>STEINER, George. <strong>A Poesia do pensamento<\/strong> (trad: Miguel S Pereira). Lisboa: 2012.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-Chave:<\/strong>&nbsp;espa\u00e7os simb\u00f3licos;\nnovas pol\u00edticas da espacialidade; imagem po\u00e9tica; poesia brasileira\ncontempor\u00e2nea; literatura coreana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>18\n<\/strong><strong>As facetas da melancolia na can\u00e7\u00e3o In Darkness\nLet Me Dwell, de John Dowland, e sua ressignifica\u00e7\u00e3o na ecologia cultural atual<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Jo\u00e3o Alexandre Straub Gomes, Werner Ewald, Marcelo Barros de Borba<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na\ncontemporaneidade, diversos grupos e artistas debru\u00e7am-se sobre o repert\u00f3rio da\nm\u00fasica antiga, propondo releituras, grava\u00e7\u00f5es e performances adaptadas a novos\ncontextos. No processo de atualiza\u00e7\u00e3o, o repert\u00f3rio revela um potencial\ncosmopolita, ao se estender no tempo, compondo a ecologia cultural atual.&nbsp; Um dos compositores mais retomados na\natualidade \u00e9 o ingl\u00eas John Dowland (1563-1626), regravado por artistas\ncontempor\u00e2neos, entre os quais o cantor e compositor Sting. Tal apropria\u00e7\u00e3o\nrevela espa\u00e7os m\u00faltiplos de significa\u00e7\u00e3o est\u00e9tico-cultural explorados desde o\ncontexto de origem. Nessa perspectiva, o presente trabalho investiga a\nintertextualidade entre m\u00fasica e poesia, por meio da an\u00e1lise da can\u00e7\u00e3o <a>\u201cIn Darkness Let Me Dwell<\/a>\u201d, de John\nDowland. Inserida na publica\u00e7\u00e3o <em>A\nMusicall Banquet<\/em> (1610), a pe\u00e7a utiliza como material liter\u00e1rio um excerto\nde um conjunto de poemas intitulado <em>Funeral\nTeares<\/em>&nbsp;(1606), do poeta ingl\u00eas John Coprario. John Cooper ou Coperario\nou Coprario (1570-1626) foi poeta e m\u00fasico, servindo \u00e0 corte inglesa como\ncompositor, alaudista e gambista, de 1605 at\u00e9 sua morte em 1626. A publica\u00e7\u00e3o\nde Coprario celebra a morte do conde de Devonshire e cont\u00e9m can\u00e7\u00f5es de tem\u00e1tica\nespecialmente f\u00fanebre e de luto. Por\u00e9m, \u201cIn Darkness Let Me Dwell\u201d tamb\u00e9m pode\nser considerado um exemplo cl\u00e1ssico de poesia melanc\u00f3lica. Dowland foi um\ncompositor que se interessou muito pelo tema da melancolia, sendo um dos\nexpoentes mais representativos na m\u00fasica elizabetana (HURVITZ, 1996: 47). Ao\nanalisar o conte\u00fado tem\u00e1tico da can\u00e7\u00e3o, a forma de versifica\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e a\nforma de express\u00e3o musical, nota-se que Dowland utiliza diferentes recursos\nt\u00e9cnicos para proporcionar uma intera\u00e7\u00e3o fluida e org\u00e2nica entre os elementos\ntextuais, mel\u00f3dicos e r\u00edtmico. Al\u00e9m de atribuir uma melodia ao poema, Dowland\nrealiza interfer\u00eancias no pr\u00f3prio texto. Dowland tamb\u00e9m estabeleceu parcerias\nart\u00edsticas com outros poetas deste g\u00eanero como, por exemplo, Henry Lee. Estando\nem contato com artistas dotados de habilidades no trato das palavras, Dowland\nacabou sofrendo influ\u00eancia na sua maneira particular de cria\u00e7\u00e3o. E essa\nintimidade tamb\u00e9m permitiu que o compositor manipulasse deliberadamente textos\nque n\u00e3o fossem de sua autoria, inclusive alterando a configura\u00e7\u00e3o de versos\nespec\u00edficos, para intensificar determinados afetos. Tal procedimento pode ser\ninterpretado como uma transcria\u00e7\u00e3o, segundo prop\u00f5e Haroldo de Campus, na medida\nem que recria os versos na can\u00e7\u00e3o. Em Coprario, o poema cont\u00e9m duas estrofes,\npor\u00e9m Dowland faz uso apenas da primeira na sua vers\u00e3o da pe\u00e7a, evidenciando\nmuta\u00e7\u00f5es das formas est\u00e9ticas j\u00e1 no contexto renascentista. O conte\u00fado tem\u00e1tico\nda melancolia pode ser absorvido na leitura apenas da primeira estrofe. O\nresultado dessa elabora\u00e7\u00e3o e criatividade de manipula\u00e7\u00e3o dos materiais textuais\ne musicais culmina em uma can\u00e7\u00e3o com qualidades po\u00e9ticas de comunica\u00e7\u00e3o\nafetiva, com simbolismos e jogos de duplo sentido\u201d (ROOLEY, 2006: 450). Na\nan\u00e1lise, conta-se ainda com algumas refer\u00eancias espec\u00edficas que d\u00e3o suporte\npara o entendimento de par\u00e2metros e conven\u00e7\u00f5es correntes nas artes e literatura\ndo per\u00edodo renascentista ingl\u00eas. Entre eles, Gerge Puttenham, Samuel Daniel e\nThomas Campion com seus tratados sobre a poesia inglesa. Para a tem\u00e1tica da\nmelancolia, a principal refer\u00eancia \u00e9 a <em>Anatomia\nda Melancolia<\/em> de Robert Burton (1621), na tradu\u00e7\u00e3o de Guilherme Gontijo\nFlores.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BURTON, Robert. (1621). <strong>Anatomia da Melancolia:<\/strong> vollume I \/ Tradu\u00e7\u00e3o Guilherme Gontijo Flores. Curitiba: Ed. UFPR, 2011a. 266p.<\/li><li>________________. (1621). <strong>Anatomia da Melancolia<\/strong>: volume II: A Primeira Parti\u00e7\u00e3o: Causas da Melancolia \/ Tradu\u00e7\u00e3o Guilherme Gontijo Flores. Curitiba: Ed. UFPR, 2011b. 535p.<\/li><li>________________. (1621). <strong>Anatomia da Melancolia:<\/strong> volume III: A segunda Parti\u00e7\u00e3o: A Cura da Melancolia \/ Tradu\u00e7\u00e3o Guilherme Gontijo Flores. Curitiba: Ed. UFPR, 2012. 453p.<\/li><li>________________. (1621). <strong>Anatomia da Melancolia<\/strong>: volume IV: A Terceira Parti\u00e7\u00e3o: Melancolia Amorosa \/ Tradu\u00e7\u00e3o Guilherme Gontijo Flores. Curitiba: Ed. UFPR, 2013. 872p.<\/li><li>CAMPION, Thomas. (1602). <strong>Observations in the Art of English Poesie<\/strong>. Oregon: Renaissansse Editions, 1998.<\/li><li>CAMPOS, Haroldo de. <em>T<strong>ranscria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2013.<\/li><li>COPRARIO, John. <strong>Funeal Tears.<\/strong> London,1606.<\/li><li>DANIEL, Samuel. (1603). <strong>A Defence of Rhyme. Oregon:<\/strong> Renascence Editions, 1998.<\/li><li>DOWLAND, John. <strong>A Musicall Banquet.<\/strong> London 1610.<\/li><li>HURVITZ, Nathaniel Joseph. <strong>A Flood of Tears:<\/strong> Melancholy as Style in English Music and Poetry circa 1600. 167f. Disserta\u00e7\u00e3o (Master of Arts) School of Music, The University of British Columbia, Canad\u00e1, 1996.<\/li><li>PUTTENHAM, George (1589). <strong>The Arte of English Poesie<\/strong>. Birmigham: English Reprints, 1869. 339p.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Melancolia; John Dowland; John Coprario;\nTranscria\u00e7\u00e3o; M\u00fasica e Literatura.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>19\n<\/strong><strong>O olhar oitocentista e a pintura de paisagem de\nCaron: notas para uma po\u00e9tica da rela\u00e7\u00e3o<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Ana Carla de Brito<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para esta\ncomunica\u00e7\u00e3o abordamos a pintura de paisagem de Hip\u00f3lito Boaventura Caron\n(1862-1892) no que tange \u00e0 sua percep\u00e7\u00e3o dos ambientes que ele representava em\ndi\u00e1logo com o pensamento de Michel Collot (2013) quanto \u00e0 paisagem liter\u00e1ria.\nCaron foi um artista brasileiro atuante entre 1882 e 1892, e \u00e9 conhecido principalmente\npor ter participado do Grupo Grimm \u2013 a agremia\u00e7\u00e3o de artistas cuja\ncaracter\u00edstica mais celebrada por cr\u00edticos de sua \u00e9poca era o fato de pintarem\nao ar livre. Dos dez anos de atua\u00e7\u00e3o de Caron, cerca de tr\u00eas anos foram\npassados com Grimm, e o tempo restante se dividiu entre uma temporada na Fran\u00e7a\n(1885-1888) estudando com Hector Hanoteau, e os anos no Brasil (1888-1892),\npassados em sua maior parte na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo\ncome\u00e7ado seu aprendizado na Academia Imperial de Belas Artes (AIBA), Caron foi\num dos artistas que continuou a forma\u00e7\u00e3o fora da institui\u00e7\u00e3o e foi\nidentificado, junto a outros de seus colegas do Grupo Grimm, como uma promessa\nde renova\u00e7\u00e3o da arte brasileira do Oitocentos, justamente pela prioridade que\nalguns intelectuais conferiam \u00e0 pintura de paisagem nesse projeto. Esses\nintelectuais correspondiam aos articulistas de peri\u00f3dicos que exerciam a\ncr\u00edtica \u00e0s exposi\u00e7\u00f5es de arte da \u00e9poca, tais como Gonzaga Duque, Raul Pompeia,\nOscar Guanabarino e Artur Azevedo, entre outros. Sabe-se que alguns deles eram\ntamb\u00e9m ficcionistas e que tinham acesso tanto a literatura estrangeira, quanto\n\u00e0 cr\u00edtica de arte europeia. Atrav\u00e9s das ideias desenvolvidas por Collot\nem&nbsp;Po\u00e9tica e filosofia da paisagem&nbsp;(2013) em que constr\u00f3i uma no\u00e7\u00e3o\nde paisagem ancorada no&nbsp;olhar&nbsp;como rela\u00e7\u00e3o entre um sujeito, a\nlinguagem e o referente, procuramos lan\u00e7ar os fundamentos para pensar a\nincid\u00eancia das concep\u00e7\u00f5es de paisagem na literatura sobre a percep\u00e7\u00e3o de Caron\nao longo de sua carreira. Entendendo a incid\u00eancia da cr\u00edtica como o\nesboroamento tanto de fronteiras textuais (entre a cr\u00edtica de arte e a\nliteratura) quanto de fronteiras interart\u00edsticas (entre a literatura e a\npintura). A percep\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o por Caron \u00e9 pensada atrav\u00e9s de suas pr\u00f3prias\npinturas, considerando o contexto em que ele estava inserido e pensando a\nades\u00e3o do artista aos modos de olhar de seus pares e de seus cr\u00edticos.\nQuestionamos as assertivas da cr\u00edtica da \u00e9poca em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 correspond\u00eancia\nentre referente e representa\u00e7\u00e3o sem media\u00e7\u00e3o de modelos, valendo-nos das\nreflex\u00f5es de Coccia (2010) segundo o qual a percep\u00e7\u00e3o seria sempre impura,\nsempre intermediada pelas imagens que temos como refer\u00eancia, e, ao mesmo tempo,\nde Collot (2013), para quem \u201ca percep\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 uma forma de linguagem\u201d (2013, p.\n58). Por fim, procuramos averiguar atrav\u00e9s das obras de Caron a trajet\u00f3ria de\num olhar que se altera, em parte por alterarem-se os elementos da rela\u00e7\u00e3o\nconstituinte do olhar, em parte, por sua busca por outras maneiras de figurar o\nambiente circundante que poderia se aproximar mais de uma recria\u00e7\u00e3o da\npaisagem, do que, propriamente, de sua representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>COCCIA, E.&nbsp;<strong>A vida sens\u00edvel<\/strong>. Florian\u00f3polis: Cultura e Barb\u00e1rie, 2010.<\/li><li>COLLOT, M.&nbsp;<strong>Po\u00e9tica e Filosofia da Paisagem.<\/strong> (trad: Ida Alves e Maria Luiza Berwanger). RJ: Oficina Raquel, 2013.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Hip\u00f3lito Caron;\npintura de paisagem; paisagem liter\u00e1ria; Michel Collot; percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>20 <\/strong><strong>A m\u00fasica em e a partir de As intermit\u00eancias da morte,\nde Jos\u00e9 Saramago<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Cinara Ferreira, Carlos Walter Soares<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em\num primeiro momento, este estudo prop\u00f5e a an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es entre m\u00fasica e\nliteratura em As intermit\u00eancias da morte (2005),\nde Jos\u00e9 Saramago, a fim de verificar em que medida e de que forma elementos musicais\naparecem na composi\u00e7\u00e3o da escrita. Para tal, ser\u00e3o levados em conta os aspectos\nda complementaridade, intertextualidade e imita\u00e7\u00e3o da ret\u00f3rica musical, bem\ncomo os aspectos apontados por Saramago em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 musicalidade de sua prosa.\nMarcada pelo car\u00e1ter evocativo e intertextual, <em>As\nintermit\u00eancias da morte <\/em>\u00e9 provavelmente o romance mais musical do autor portugu\u00eas,\nque escolhe, entre outras pe\u00e7as, a 9.\u00aa Sinfonia de Beethoven para mostrar a\ncapacidade que a m\u00fasica tem de comover e humanizar at\u00e9 a pr\u00f3pria morte,\ntransfigurada numa Donzela, que se apaixona por um violoncelista. Saramago\ncoloca em cena um repert\u00f3rio musical caracterizado tamb\u00e9m pela evoca\u00e7\u00e3o (tanto\nmusical quanto liter\u00e1ria), produzindo um movimento espiralar entre obras\nart\u00edsticas, que retomam outras sugerindo novas configura\u00e7\u00f5es e novos sentidos.\nO repert\u00f3rio musical oriundo dos movimentos do Barroco, do Cl\u00e1ssico Tardio e do\nRomantismo tem o papel de integrar as for\u00e7as contradit\u00f3rias do presente, que\ngeram a crise no pa\u00eds em que n\u00e3o se morre mais. Como observa Miguel Wisnik, o\nsom do mundo \u00e9 ru\u00eddo, o mundo se apresenta a n\u00f3s a todo o momento atrav\u00e9s de\nfrequ\u00eancias sonoras irregulares e ca\u00f3ticas com as quais a m\u00fasica trabalha para\nextrair-lhes uma ordena\u00e7\u00e3o, que cont\u00e9m tamb\u00e9m margens de instabilidade, com\ncertos padr\u00f5es sonoros interferindo sobre outros (1989, p. 33). Observa-se,\nportanto, uma similaridade entre m\u00fasica e literatura, no que tange a uma\nest\u00e9tica que nasce do jogo entre o som e o ru\u00eddo produzidos no mundo\ncontempor\u00e2neo. Em um momento posterior \u00e0 an\u00e1lise, visando retroalimentar\nas rela\u00e7\u00f5es entre m\u00fasica e literatura evidentes em <em>As intermit\u00eancias da morte<\/em> e contribuir\npara mais uma camada no processo em que uma arte complementa a outra,\nressignificando-a, este trabalho apresenta um conjunto de can\u00e7\u00f5es inspiradas no\nromance e nos elementos musicais presentes na narrativa, assim como a reflex\u00e3o\nsobre o processo criativo envolvido no trabalho de transposi\u00e7\u00e3o em um novo\ncontexto. Para tal, s\u00e3o compostas can\u00e7\u00f5es representativas das diferentes partes\ndo enredo, transpondo letra e melodia o conflito entre Vida e Morte e a ideia\nde integra\u00e7\u00e3o da morte na vida, entendida como uma das chaves de leitura do\nromance de Jos\u00e9 Saramago. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>OJEDA, Esther Lopez. Literatura y m\u00fasica. <strong>BROCAR:<\/strong> cuadernos de investigaci\u00f3n hist\u00f3rica, Rioja, v. 37, p. 121-143, 2013.<\/li><li>OLIVEIRA, Solange Ribeiro. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 melopo\u00e9tica: a m\u00fasica na literatura brasileira. In: OLIVEIRA, Solange Ribeito et al. <strong>Literatura e m\u00fasica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora Senac e Instituto Ita\u00fa Cultural, 2003.<\/li><li>SARAMAGO, Jos\u00e9. <strong>As intermit\u00eancias da morte<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2005.<\/li><li>SARAMAGO, Jos\u00e9. <strong>Cadernos de Lanzarote.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1997.<\/li><li>SQUEFF, Enio. M\u00fasica e literatura: entre o som da letra e a letra do som. <strong><em>Literatura e sociedade<\/em><\/strong><em>, <\/em>S\u00e3o Paulo, v. 1, n. 2, p. 139-148, 1997.<\/li><li>VALENTE, T\u00e2nia. Saramago e a m\u00fasica: breve an\u00e1lise da obra <em>As intermit\u00eancias da morte<\/em>. <strong>Glosas:<\/strong>Revista de M\u00fasica, Lisboa, s.d.<\/li><li>WISNIK, Jos\u00e9 Miguel. O som e o sentido: uma outra hist\u00f3ria das m\u00fasicas. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1989.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> <em>As intermit\u00eancias da morte; <\/em>Jos\u00e9 Saramago; M\u00fasica e literatura;\nInterartes; Intertextualidade. <\/p>\n\n\n\n<h4><strong>21 <\/strong><strong>Das Letras \u00e0 Geografia, a possibilidade de uma fus\u00e3o<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Cristiane Marques Machado, Maria Luiza Berwanger da Silva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A ideia\nde se lan\u00e7ar a refletir sobre as rela\u00e7\u00f5es entre Espa\u00e7o e Literatura Comparada\nrevela-se tanto fascinante quanto desafiador: nem sempre \u00e9 confort\u00e1vel adentrar\nterrit\u00f3rios dos quais n\u00e3o se \u00e9 especialista, como \u00e9 o meu caso no que se refere\n\u00e0 Geografia. Entretanto, \u00e0quele que empreende um caminho pela Literatura\nComparada, a atra\u00e7\u00e3o por territ\u00f3rios alheios parece inerente. Quanto mais o\ncomparatista n\u00e3o domina uma l\u00edngua, mais atraentes lhe soam os sotaques\ndaqueles que a falam. Quanto mais estranhas as abordagens de determinadas\ndisciplinas, mais ele as projeta ao quadrado, ao cubo, em suas an\u00e1lises.\nExponencialmente, nem o c\u00e9u \u2013 nem a mil\u00e9sima pot\u00eancia \u2013 \u00e9 o limite para um\ncomparatista. \u00c9 como se a solu\u00e7\u00e3o de um problema que busca resolver estivesse sempre\ncontida n\u00e3o no livro em que a procurava, mas naqueles que estavam ao lado,\nsobrepostos. Em fun\u00e7\u00e3o disso, \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar a Literatura Comparada como\numa disciplina que consome espa\u00e7os. Audacioso, o comparatista \u00e9 aquele que\natravessa fronteiras tanto de campos el\u00edsios quanto de campos minados. Frestas,\ndesvios, cantos, paragens, horizontes, paisagens, tudo isso o atrai. Por se\ncomportar como um exilado, sua condi\u00e7\u00e3o de estrangeiro lhe possibilita uma\nvis\u00e3o mais original, descont\u00ednua e plural dos objetos que estuda. Tal qual um\naduaneiro das letras, uma sorte de supervisor da circula\u00e7\u00e3o das ideias e das\nformas, o comparatista \u00e9 o sujeito que controla os agentes intermedi\u00e1rios e as\nmodalidades de trocas. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante de\numa fronteira, n\u00e3o almeja outra coisa a n\u00e3o ser atravess\u00e1-la. E, por ser porosa\ne perme\u00e1vel, a fronteira comparatista \u00e9 o lugar por excel\u00eancia destinado a\ntrocas e transa\u00e7\u00f5es que favorecem o transnacional. E \u00e9 justamente nesse sentido\nque, neste trabalho, vislumbramos nas rela\u00e7\u00f5es entre a Literatura Comparada e o\nEspa\u00e7o, a possibilidade de uma fus\u00e3o entre o pensamento de ge\u00f3grafos e os\nestudiosos das Letras, em favor da disciplina Geografia Liter\u00e1ria, proposta por\nMichel Collot, em <strong>Pour une G\u00e9ographie\nLitt\u00e9raire<\/strong> (2014).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BACHELARD, Gaston. <strong>A po\u00e9tica do espa\u00e7o<\/strong>. (Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio de P\u00e1dua Danesi). 5 ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2000.<\/li><li>BARRIOS, S. A produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. In: SANTOS, M.; SOUZA, M.A. (org). <strong>A constru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Nobel, 1986.<\/li><li>BAILLY, A. Distances et espaces : vingt ans de g\u00e9ographie des repr\u00e9sentations. In: <strong>Espaces g\u00e9ographique<\/strong>. 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Porto Alegre: Maison de France Literalis, 2009. <\/li><li>TUAN, Y. F. <strong>Topofilia:<\/strong> um estudo da percep\u00e7\u00e3o, atitudes e valores do meio ambiente. S\u00e3o Paulo: Difel, 1980. <\/li><li>________. <strong>Espa\u00e7o e lugar:<\/strong> a perspectiva da experi\u00eancia. S\u00e3o Paulo: DIFEL, 1983.<\/li><li>WESTPHAL, B. <strong>La g\u00e9ocritique:<\/strong> r\u00e9el, fiction, espace. Paris: \u00c9ditions de Minuit, 2007.<\/li><li>WHITE, K. <strong>Le Plateau de l&#8217;Albatros:<\/strong> Introduction \u00e0 la g\u00e9opo\u00e9tique. Paris: Grasset, 1994.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Geografia liter\u00e1ria;\nespa\u00e7o; paisagem; Geografia; Literatura Comparada. <\/p>\n\n\n\n<h4><strong>22\n<\/strong><strong>Migraaaantes e o cerceamento de todas as cercas\nou O devir-minorit\u00e1rio de Matei Visniec frente \u00e0 democracia assustada<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Diego Lock Farina<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao\nreferir-se que a quest\u00e3o do novo s\u00e9culo ser\u00e1 a dos refugiados, Giorgio Agamben\nincita-nos a atualizar o problema espinozista sobre&nbsp;<em>o que pode um corpo<\/em>.\nCorpo do&nbsp;<em>qualunque<\/em>,&nbsp;<em>comunidade que vem<\/em>&nbsp;(AGAMBEM,\n2013),&nbsp;<em>povo que falta<\/em>&nbsp;(DELEUZE, 2011) ou mesmo,\nsimplesmente,&nbsp;<em>ce qui arrive<\/em>&nbsp;(DERRIDA, 2012): como aproximar-se\ndesse bloco assim\u00e9trico de austeridade, de cidadania em crise, e de\nresist\u00eancias paradoxalmente solid\u00e1rias (Pia Klemp, Carola Rackete) com o qual a\nEuropa tem&nbsp;<em>recebido<\/em>&nbsp;suas atuais levas de migrantes? O tr\u00e1fico\ninternacional de pessoas, a promessa do Eldorado capitalista, as prec\u00e1rias\nembarca\u00e7\u00f5es, os menores afogados, os campos, o \u00f3dio, a explora\u00e7\u00e3o, o contraste\ndas culturas, das viol\u00eancias, das religi\u00f5es, o uso negocista do politicamente\ncorreto e a xenofobia das extremas-direitas ressurgentes com o prop\u00f3sito\ndelirante da limpeza \u00e9tnica, como cartograf\u00e1-las em pleno s\u00e9culo da radical\ntecnologiza\u00e7\u00e3o, reifica\u00e7\u00e3o e virtualiza\u00e7\u00e3o das vidas? O<em>&nbsp;que pode<\/em>&nbsp;a\narte \u00e0 medida que atravessa tais desterritorializa\u00e7\u00f5es rumo ao que Matei\nVisniec (2017) aponta como a revolu\u00e7\u00e3o deste s\u00e9culo, o&nbsp;<em>humanismo\nmigrat\u00f3rio<\/em>? Pode a arte narrar as inauditas possibilidades de exist\u00eancias\nque ficaram \u00e0 deriva? Certamente, o teatro modular de Visniec, dramaturgo e\njornalista romeno erradicado na Fran\u00e7a, diz muito a esse respeito.&nbsp;<em>Migraaaantes\nou Tem Gente Demais Nessa Merda de Barco ou O Sal\u00e3o das Cercas e Muros<\/em>,\nestreada nos palcos em 2016, \u00e9 uma pe\u00e7a arrebatadora, pol\u00eamica e visceralmente\npo\u00e9tica, que, ao denunciar a perversidade maqu\u00ednica concernente \u00e0 migra\u00e7\u00e3o\ncontempor\u00e2nea, sem abdicar de estrat\u00e9gias que exploram os limiares do humor,\naborda a incapacidade ou a falta de vontade das pol\u00edticas institucionais para\nresolver um problema de dimens\u00e3o t\u00e3o grave e proliferante. Tal drama pol\u00edtico\npolif\u00f4nico, que oscila entre um realismo n\u00e3o demagogo\/propagandista e um\nambiente on\u00edrico\/simb\u00f3lico, re\u00fane epis\u00f3dios fragmentados do cotidiano de quem\nmigra e de quem recebe, trazendo em sua singular montagem, mosaica e\ndescont\u00ednua, tamb\u00e9m uma intensa cr\u00edtica aos meios de comunica\u00e7\u00e3o (de poder, de\ncontrole) que emolduram a Imagem, de maneira sempre seletiva, desses\ncorpos-sem-rostos que desdobram-se. Os ap\u00e1tridas, os n\u00f4mades, a amea\u00e7a ao\nconforto do&nbsp;<em>n\u00f3s<\/em>, do consenso: s\u00e3o sujeitos larvares, como diz\nDeleuze (2000). A crueldade em Visniec ressoa Artaud; a est\u00e9tica ins\u00f3lita,\nIonesco; a intimidade do absurdo, Beckett; mas seu estilo se distingue desses\nautores (todos viveram sob deslocamentos art\u00edsticos, lingu\u00edsticos, territoriais)\ndevido a seu intento materialmente engajado de transforma\u00e7\u00e3o na emerg\u00eancia:<em>migraaaantes<\/em>,\nesse grito de pavor de uma democracia assustada ou o grito de socorro dos\nde-fora, dos sem-parte, convida-nos a um novo devir-minorit\u00e1rio, a uma nova \u00e9tica\nafectiva, a uma outra partilha que ainda n\u00e3o se sabe qual \u00e9. Este trabalho,\nportanto, visa explorar os meandros da pe\u00e7a em destaque em di\u00e1logo cr\u00edtico com\nas teorias est\u00e9ticas, pol\u00edticas e filos\u00f3ficas citadas, cujo agenciamento com a\nquest\u00e3o dos<em>corpos-migraaaantes<\/em>&nbsp;torna-se not\u00f3rio. Ante a repulsa\ndos&nbsp;<em>pr\u00f3prios<\/em>, busquemos, na literatura menor, a cria\u00e7\u00e3o das novas\nformas de doa\u00e7\u00e3o, de hospitalidade e sobretudo de empatia para com aqueles que\nhoje arriscam a sorte e a vida ao movimento desejante ou pervivente de\ntransladar.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AGAMBEN, Giorgio.&nbsp;<strong>A comunidade que vem.<\/strong> Tradu\u00e7\u00e3o de Cl\u00e1udio Oliveira. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2013.<\/li><li>DELEUZE, Gilles. A literatura e a vida. In: <strong>Cr\u00edtica e cl\u00ednica<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Peter P\u00e1l Pelbart. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2011.<\/li><li>________. <strong>Diferen\u00e7a e repeti\u00e7\u00e3o<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Luiz B. L Orlandi e Roberto Machado. Lisboa: Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua Editores, 2000.<\/li><li>DERRIDA, Jacques. Uma certa possibilidade imposs\u00edvel de dizer o acontecimento. In: <strong>Acontecimento e experi\u00eancias limites<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Piero Eyben. Bras\u00edlia: Cerrados (UNB), n\u00b033, ano 21, 2012, p. 231-251.<\/li><li>________. <strong>Jacques Derrida, penseur de l&#8217;\u00e9v\u00e9nement<\/strong>. Entretien par J\u00e9r\u00f4me-Alexandre Nielsberg. Paris: L&#8217;humanit\u00e9 \u2013 28 janvier, 2004.<\/li><li>DERRIDA, Jacques; FERRARIS, Maurizio. <strong>El gusto del secreto<\/strong>. Traducci\u00f3n de Luciano Padilla L\u00f3pez. Buenos Aires: Amorrortu, 2009.<\/li><li>RANCI\u00c8RE, Jacques. Se o irrepresent\u00e1vel existe. In: <strong>O destino das imagens<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00f4nica Costa Netto. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.<\/li><li>________. <strong>A partilha do sens\u00edvel<\/strong>: est\u00e9tica e pol\u00edtica. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00f4nica Costa Netto. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2009.<\/li><li>SAUVAGNARGUES, Anne. <strong>Deleuze et l&#8217;art<\/strong>. Paris: PUF, 2006.<\/li><li>VISNIEC, Matei. <strong>Migraaaants, ou, On est trop nombreux sur ce putain de bateau, ou, Le salon de la cl\u00f4ture<\/strong>. Paris: L&#8217;\u0152il du Prince, 2017.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Matei Visniec;\nMigraaaantes; Refugiados; Devir-minorit\u00e1rio; Corpos.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>23 <\/strong><strong>Em busca de\npersonagens invis\u00edveis: fragmentos de cartografia<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Gabriela Semensato Ferreira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um\ncorpo n\u00e3o \u00e9 um todo uno, nem pass\u00edvel de ser totalmente decifrado, desvendando.\nSegundo Judith Butler (2015), o corpo singular a que se refere uma narrativa\nenvolve uma opacidade necess\u00e1ria ao nosso entendimento de n\u00f3s mesmos. Parte\ndessa opacidade, em trabalhos como Gotham Handbook (1999\/2007), colabora\u00e7\u00e3o\nentre Sophie Calle e Paul Auster, deve-se \u00e0s articula\u00e7\u00f5es criadas entre sua\nforma e seu pensamento. Obras como essa conectam, em um mesmo espa\u00e7o, elementos\ndiferentes que formam um corpo h\u00edbrido, verbovisual, e que, ao mesmo tempo, se\npensa constantemente, pensa sobre seu pr\u00f3prio fazer, e tamb\u00e9m sobre aquele que\no faz, o artista. Proponho, por isso, uma leitura dessa obra, com o objetivo de\nexpor as opera\u00e7\u00f5es imag\u00e9tico-verbais envolvidas em sua constitui\u00e7\u00e3o e da\ncartografia que acaba por criar, em sua rela\u00e7\u00e3o com a cidade. A leitura desse\ncorpo\/corpusmotivou uma pesquisa de Doutorado Sandu\u00edche, em 2017, que\nproporcionou a experi\u00eancia de caminhar por algumas cidades, entre elas Nova\nYork, em busca de objetos identificados no trabalho de Sophie e Auster. A\npartir dos textos lidos, segui os passos de alguns de seus personagens pelas\nruas da metr\u00f3pole, buscando marcas \u2013 ao mesmo tempo vis\u00edveis e invis\u00edveis \u2013 de\nsua exist\u00eancia. Por algum tempo, pude habitar alguns dos espa\u00e7os encenados nesses\ntrabalhos, procurar quadros perdidos, molduras vazias, cabines telef\u00f4nicas\npichadas. Esses deslocamentos se deram tanto a partir de \u201cmapas\u201d (descritos,\ndesenhados, fotografados; mapas po\u00e9ticos ou conceituais), quanto a partir do\ndesejo de descoberta. Geraram tamb\u00e9m textos\/imagens pessoais, feitos de\nreflex\u00e3o e mem\u00f3ria, esp\u00e9cies de suplemento cartogr\u00e1fico ao projeto desenvolvido\npelos artistas. Assim, entramos em colabora\u00e7\u00e3o (por via indireta), atrav\u00e9s\ndesses olhares sobre o espa\u00e7o, o que resulta na cria\u00e7\u00e3o de uma escrita-imagem\nem que se procura refletir, tamb\u00e9m, sobre as rela\u00e7\u00f5es entre as artes e sobre a\npossibilidade de a pr\u00f3pria arte\/escrita refletirem, em si, (sobre) esses\nfazeres. O foco desta comunica\u00e7\u00e3o, portanto, ser\u00e1 apresentar estes fragmentos de\ncartografia, \u00e0 medida em que se descrevem as opera\u00e7\u00f5es envolvidas em sua\ncria\u00e7\u00e3o, entre as quais se destaca em especial a opera\u00e7\u00e3o de articula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m\ndas articula\u00e7\u00f5es entre linguagens art\u00edsticas e discursos (ficcionais, te\u00f3ricos\ne cr\u00edticos, por exemplo), importa aqui discutir uma articula\u00e7\u00e3o conceitual,\ncomo a descrita por Jacques Derrida em Dissemina\u00e7\u00e3o (1981). Ela n\u00e3o permite\nchegar a uma solu\u00e7\u00e3o especulativa entre dois \u201copostos\u201d, mas instaura uma\nesp\u00e9cie de crise do versus. Al\u00e9m disso, mostra como \u00e9 preciso \u201cp\u00f4r as m\u00e3os no\nobjeto\u201d para entrar no jogo, como diz Derrida (2005, p. 7). Isto \u00e9,\nenvolver-se, p\u00f4r algo de si.Rejeito, com Derrida, por isso, uma ideia de\nneutralidade da cr\u00edtica e passo a refletir sobre esse lugar de jun\u00e7\u00e3o e\ndisjun\u00e7\u00e3o, de contato e articula\u00e7\u00e3o; nem separa\u00e7\u00e3o completa, nem total\nindiferencia\u00e7\u00e3o. Caminhar por a\u00ed, para escrever, e escrever para caminhar\nforam, portanto, atos necess\u00e1rios, pois fizeram parte do m\u00e9todo empregado nesta\npesquisa. Sobretudo, n\u00e3o falar das misturas, articula\u00e7\u00f5es e disjun\u00e7\u00f5es\nobservadas a partir de um \u201cfora\u201d ilus\u00f3rio, mas utilizar-se justamente dessas\nopera\u00e7\u00f5es, dos desvios, cortes, saltos e pr\u00f3teses necess\u00e1rios, na pr\u00f3pria\ninvestiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li> AUSTER, Paul.&nbsp;<em>The New York Trilogy<\/em><strong>.<\/strong> London: Faber and Faber Limited, 2004.&nbsp;<\/li><li> BUTLER, Judith.&nbsp;<em>Relatar a si mesmo<\/em><strong>.<\/strong> Cr\u00edtica da viol\u00eancia \u00e9tica. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2015.<\/li><li> CALLE, Sophie. Gotham Handbook. In:&nbsp;<em>Double Game<\/em><strong>.<\/strong> 1o publica\u00e7\u00e3o 1999. England: Violette Editions, 2007.<\/li><li> DERRIDA, Jacques.&nbsp;<em>Dissemination<\/em><strong>. Translated, with introduction and additional notes, by Barbara Johnson<\/strong>. Chicago: The University of Chicago Press, 1981.<\/li><li> ______.<em>A farm\u00e1cia de Plat\u00e3o<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Rog\u00e9rio da Costa. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2005.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>:&nbsp;articula\u00e7\u00e3o; corpo; movimento; cartografia; suplemento.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>24 <\/strong><strong>A estranha poesia das mulheres: corpos, vozes,\nperformances<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Rita Lenira de Freitas Bittencourt<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A condi\u00e7\u00e3o do po\u00e9tico imp\u00f5e um compartilhar da sonoridade com a m\u00fasica e a encena\u00e7\u00e3o da linguagem com a performance, e mesmo com toda a tradi\u00e7\u00e3o livresca, que incluiu a bidimensionalidade da p\u00e1gina e os aspectos visuais da escrita, esses elementos continuaram ativos na literatura, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s formas da poesia popular e\/ou, mais recentemente, da poesia dita marginal ou praticada por grupos minorit\u00e1rios. Na cena brasileira contempor\u00e2nea, na esteira de poetas-narradoras ou poetas-cantadoras diversas, como Hilda Hilst, Cec\u00edlia Meireles ou Cora Coralina, as jovens poetas retomam com muita \u00eanfase as \u201cinespecificidades\u201d do dizer (Garramu\u00f1o, 2014) e se jogam outra vez para fora das conven\u00e7\u00f5es, incorporando, literalmente, na palavra, o org\u00e2nico, o pol\u00edtico, as condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de g\u00eanero, ra\u00e7a e\/ou classe, em busca de singularidades identit\u00e1rias, por um lado, e em rota de fuga de lugares consolidados de certas dic\u00e7\u00f5es, por outro (Butler, 2016). Em suas produ\u00e7\u00f5es, muito afinadas com o uso dos corpos e das vozes, elas exploram os limites est\u00e9ticos e anest\u00e9ticos (Benjamin, 1994) da arte, especialmente em obras de car\u00e1ter coletivo, como, por exemplo, as antologias <em>Blasf\u00eameas<\/em>. Mulheres de Palavra (2016) ou <em>Querem nos calar. <\/em>Poemas para serem lidos em voz alta (2019). S\u00e3o produ\u00e7\u00f5es que, pela multiplicidade e densidade, apresentam, ao mesmo tempo, uma \u201cdificuldade de leitura\u201d (Agamben, 2018), funcionam com uma for\u00e7a de \u201cexplos\u00e3o\u201d (Hollanda, 2018), atuam como dispositivos (Agamben, 2010) e fazem a poesia conformar e confirmar um acontecimento (Deleuze, 1992; Foucault, 1996). A condi\u00e7\u00e3o de \u201cestranho\u201d aplicada a esses trabalhos, para al\u00e9m de um mero jogo formalista, decorre da constata\u00e7\u00e3o de que, nesses lugares, as pr\u00e1ticas te\u00f3ricas e po\u00e9ticas da literatura se tornam performances, transbordam atrav\u00e9s de um dizer-fazer pl\u00e1stico e org\u00e2nico, d\u00e3o a ver corpos\/corpus em tr\u00e2nsito que s\u00e3o deliberadamente exibidos e priorizam a err\u00e2ncia, a voz e uma autoencena\u00e7\u00e3o exploradora de artif\u00edcios. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AGAMBEN, Giorgio.&nbsp;<strong>O fogo e o relato.&nbsp;<\/strong>Ensaio sobre cria\u00e7\u00e3o, escrita, arte e livros.Trad.Andrea Saturbano e Patricia Peterle. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2018.<\/li><li><strong>O que \u00e9 o contempor\u00e2neo?&nbsp;<\/strong>E outros ensaios. Trad. Vin\u00edcius Nicastro Honesko. Chapec\u00f3: Argos, 2010.<\/li><li>BENJAMIN, Walter.&nbsp;<strong>Obras escolhidas.&nbsp;<\/strong>Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica. Trad. Sergio Paulo Rouanet. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1994.<\/li><li>BUTLER, Judith.&nbsp;<strong>Problemas de g\u00eanero.&nbsp;<\/strong>Feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2016.<\/li><li>DELEUZE, Gilles.&nbsp;<strong>Conversa\u00e7\u00f5es:&nbsp;<\/strong>1972\/1990. Tradu\u00e7\u00e3o Peter P\u00e1l Pelbart. Rio de Janeiro: 34, 1992.<\/li><li>DUARTE, Mel (Org.).&nbsp;<strong>Querem nos calar<\/strong>. Poemas para serem lidos em voz alta. S\u00e3o Paulo: Planeta do Brasil, 2019.<\/li><li>FONSECA, Cristina.&nbsp;<strong>A poesia do acaso<\/strong>&nbsp;(na transversal da cidade). S\u00e3o Paulo: Queiroz, 1981.<\/li><li>FOUCAULT, Michel.&nbsp;<strong>A ordem do discurso.&nbsp;<\/strong>Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1996.<\/li><li>GARRAMU\u00d1O, Flor\u00eancia. &nbsp;<strong>Frutos estranhos:&nbsp;<\/strong>sobre a inespecificidade na est\u00e9tica contempor\u00e2nea.Rio de Janeiro: Rocco, 2014.<\/li><li>HOLLANDA, Heloisa Buarque de.&nbsp;<strong>Explos\u00e3o Feminista.&nbsp;<\/strong>Arte, curtura, pol\u00edtica e universidade.S\u00e3o Paulo:Companhia das Letras, 2018.<\/li><li>KUBOTA, Mar\u00edlia e BITTENCOURT, Rita L. de Freitas (Orgs.).&nbsp;<strong>Blasf\u00eameas.<\/strong>&nbsp;Mulheres de Palavra. Porto Alegre: Casa Verde, 2016.<\/li><li>VITROLIRA, Luna.&nbsp;<strong>Aquenda.&nbsp;<\/strong>O amor \u00e0s vezes \u00e9 isso. S\u00e3o Paulo: V. de Moura Mendon\u00e7a \u2013 Livros, 2018.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> poesia; mulheres;\ncorpo; voz; performance.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>25\n<\/strong><strong>A trai\u00e7\u00e3o da carta: o mal contado e o perme\u00e1vel<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Israel Augusto Moraes de Castro Fritsch<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O\nromance&nbsp;<em>Dom Casmurro<\/em>&nbsp;de Machado de Assis serve de par\u00e2metro\npara explicar duas contamina\u00e7\u00f5es do processo liter\u00e1rio. A obra sobre a suposta\ntrai\u00e7\u00e3o de Bento pela esposa Capitu \u00e9 tomada como exemplo para o cr\u00edtico\nSilviano Santiago desenvolver a ideia do mal contado, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se\nchegar a uma conclus\u00e3o acerca da acusa\u00e7\u00e3o do narrador: &#8220;as hist\u00f3rias \u2013\ntodas elas, eu diria num acesso de generaliza\u00e7\u00e3o \u2013 s\u00e3o mal contadas porque o\nnarrador, independentemente do seu desejo consciente de se expressar dentro dos\npar\u00e2metros da verdade, acaba por se surpreender a si pelo modo trai\u00e7oeiro como\nconta sua hist\u00f3ria&#8221;. J\u00e1 a pesquisadora&nbsp;Rita Schmidt considera que a\nnarrativa do personagem Bentinho, ao memorar sua vida, est\u00e1 contaminada pelo\nprocesso:&nbsp;\u201ca ruptura entre o eu do discurso e o sujeito da hist\u00f3ria ocorre\npor e na estrutura\u00e7\u00e3o presente&nbsp;de um relato perme\u00e1vel \u00e0 intromiss\u00e3o de reflex\u00f5es\ne conjecturas que constroem simultaneidade de sentidos\u201d, o que levaria o ci\u00fame\n\u00e0 uma ideia fixa sobre a trai\u00e7\u00e3o. As duas leituras\n&#8220;casmurras&#8221;&nbsp;valem como par\u00e2metro para se discutir tamb\u00e9m a\nambival\u00eancia das cartas. Deste modo,&nbsp;<em>Dom Casmurro<\/em>&nbsp;se aproxima\ndo entendimento sobre a pr\u00e1tica epistologr\u00e1fica de uma missivista contumaz: em\ncr\u00edtica liter\u00e1ria sobre a correspond\u00eancia de \u00c1lvares de Azevedo, a poeta Ana\nCristina Cesar afere que \u201cescrever cartas \u00e9 mais misterioso do que se pensa.\n(&#8230;) A limpidez da sinceridade nos engana, como engana a superf\u00edcie tranquila\ndo eu\u201d, por ser um meio \u201ctrai\u00e7oeiro\u201d permeado pelas \u201creflex\u00f5es e conjecturas\u201d.\nAfora a contamina\u00e7\u00e3o do processo interno a partir das pr\u00f3prias escolhas do\nmissivista, que dependem do contexto em que a carta \u00e9 escrita e para qual\ndestinat\u00e1rio \u00e9 encaminhada (mal contado), o&nbsp;<em>gap<\/em>&nbsp;temporal e o\nprocesso editorial apontam, tamb\u00e9m, para uma contamina\u00e7\u00e3o externa (mau\ncontato). Assim como o&nbsp;Bento narrador trai os leitores&nbsp;com este\ndiscurso constru\u00eddo pela mem\u00f3ria enviesada, a&nbsp;correspond\u00eancia pessoal\nescrita por autores, ainda que esteja calcada na realidade, est\u00e1 sujeita\nao&nbsp;distanciamento, resultado entre o momento em que a carta \u00e9 elaborada e\nenviada ao destinat\u00e1rio original&nbsp;e a futura publica\u00e7\u00e3o para um leitor\nterceirizado. Assim, este leitor \u00e9 v\u00edtima e testemunha de um duplo processo de\ntrai\u00e7\u00e3o: testemunha da trai\u00e7\u00e3o do missivista com seu interlocutor \u2013 a\ncontamina\u00e7\u00e3o relatada por Schmidt, de simultaneidade de sentidos, e a limpidez\nque engana de Ana C. \u2013 e v\u00edtima da trai\u00e7\u00e3o do editor das cartas ao publicar um\ntexto datado, impreciso e perme\u00e1vel, mas que torna-se o que se classifica como\nescrita de si, em um contexto de obra permanente. Portanto, as cartas, por\nserem uma escrita errante entre o memorial\u00edstico e o liter\u00e1rio, transitam entre\no factual e o fict\u00edcio. Perdem-se refer\u00eancias diretas feitas ao interlocutor\noriginal, mas ganha-se em literariedade.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ASSIS, Machado.&nbsp;<strong>Obras completas<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Nova Aguilar, 2015.<\/li><li>SANTIAGO, Silviano. Medita\u00e7\u00e3o sobre o of\u00edcio de criar. In:&nbsp;<strong><em>Peixe-el\u00e9trico #05<\/em><\/strong>&nbsp;[recurso eletr\u00f4nico]. E-Gal\u00e1xia, 2016.<\/li><li>SCHMIDT, Rita Terezinha.&nbsp;<strong>Descentramentos\/converg\u00eancias:<\/strong> ensaios de cr\u00edtica feminista. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2017.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> epistolografia; contamina\u00e7\u00e3o;\nescritas de si; mem\u00f3ria; fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>26 <\/strong><strong>A fic\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o: uma leitura comparatista das\nnarrativas de estupro n\u2019O corti\u00e7o&nbsp;(1890) e em&nbsp;Duas irm\u00e3s&nbsp;(1883)<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Karine Mathias D\u00f6ll<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O\npresente estudo dedica-se a propor uma reflex\u00e3o sobre o estupro enquanto fato\nlingu\u00edstico, fundamentado numa ret\u00f3rica pr\u00f3pria, a partir de dois textos\nliter\u00e1rios produzidos por um autor e uma autora brasileiros e publicados na\nsegunda metade do s\u00e9culo XIX, a saber,&nbsp;<em>O corti\u00e7o&nbsp;<\/em>(1890)<em>,<\/em>&nbsp;de\nAlu\u00edzio Azevedo, e&nbsp;<em>Duas irm\u00e3s&nbsp;<\/em>(1883), de Maria Benedita de\nBormann (D\u00e9lia). A heterogeneidade inequ\u00edvoca das obras, quando contrastadas,\nmostra-se favor\u00e1vel ao objetivo do trabalho, uma vez que acentua os modos\npeculiares de aproxima\u00e7\u00e3o com o real promovidos por cada uma delas no que diz\nrespeito \u00e0s narrativas de estupro engendradas pelos autores. Entende-se\nnarrativas de estupro, com base no trabalho da pesquisadora inglesa Jocelyn\nCatty (2011), \u201ccomo qualquer uma em que uma amea\u00e7a sexual \u00e9 articulada, uma vez\nque o retrato da tentativa de estupro \u00e9 revelador de atitudes tanto quanto o\nestupro realizado\u201d (CATTY, 2011, p. 23). Assim, ao mesmo tempo em que se\nobserva um sabido apelo can\u00f4nico por parte da literatura j\u00e1 consagrada de\nAzevedo, observa-se tamb\u00e9m uma canoniza\u00e7\u00e3o dos recursos discursivos dispon\u00edveis\npara tratar do estupro ou da amea\u00e7a do estupro no contexto da literatura\nbrasileira, recursos estes que s\u00e3o evidenciados e hostilizados pelas m\u00e3os de\nD\u00e9lia, em contraponto. Se n\u2019<em>O corti\u00e7o<\/em>&nbsp;\u00e9 poss\u00edvel evidenciar tr\u00eas\nnarrativas de estupro distintas, embora apenas uma traga em seu bojo contornos\nde viol\u00eancia sexual, em&nbsp;<em>Duas irm\u00e3s<\/em>, cuja narrativa de estupro, \u00e0\nprimeira vista, tamb\u00e9m poderia escapar a uma tal leitura, engenhosamente \u00e9\ncriada a partir de uma cr\u00edtica \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da mulher como esposa, \u201cpresa pelo\ndever\u201d, que a obrigaria a situa\u00e7\u00f5es de estupro constantes sob \u201co selo da\nlegitimidade\u201d (BORMANN, 2011 [1883], p. 83).&nbsp;\u00c9 por reconhecer\nque a institui\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u201cinscreve o estupro na cultura, conferindo-lhe\ntanto fun\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas quanto narrativas\u201d (CATTY, 1999, p. 9), e que o\nentendimento do crime de estupro na sociedade brasileira est\u00e1 ainda pautado em\ndeterminados mitos norteadores que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, inviabilizaram-no\nprecisamente enquanto crime, que considerar as narrativas de estupro como\ncategoria de an\u00e1lise, sob a \u00e9gide de uma cr\u00edtica revisionista, torna-se\nimprescind\u00edvel para a compreens\u00e3o de nossos modos de viver e atuar no presente.\nComo aporte te\u00f3rico para este trabalho, foram mobilizadas tr\u00eas linhas\nreflexivas complementares. A primeira,&nbsp; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s discuss\u00f5es que\nconvergem o crime de estupro aos textos liter\u00e1rios, estar\u00e1 fundamentada na\nobra&nbsp;<em>Rape and Representation<\/em>&nbsp;(HIGGINS; SILVER, 1991),&nbsp;<em>Feminism,\nLiterature and Rape Narratives&nbsp;<\/em>(THOMPSON; GUNNE, 2010) e&nbsp;<em>Writing\nRape, Writing Women in Early Modern England: Umbridled Speech&nbsp;<\/em>(CATTY,\n2011). A segunda, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 convers\u00e3o do estupro em fato lingu\u00edstico e \u00e0\nno\u00e7\u00e3o de ret\u00f3rica do estupro, contar\u00e1 com os trabalhos das pesquisadoras Sharon\nMarcus (1992) e Garthine Walker (1998). Por fim, a terceira linha reflexiva\nvolta-se ao aspecto cultural do estupro no Brasil, por meio de alguns de seus\nmitos promovidos historiograficamente, a partir das considera\u00e7\u00f5es de Ronaldo\nVainfas (2017), Sueann Caulfield (2000) e Gilberto Freyre (1992).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AZEVEDO, Alu\u00edsio.&nbsp;<strong>O corti\u00e7o.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Editora \u00c1tica, 1989.<\/li><li>BORMANN, Maria Benedita C.&nbsp;<strong>Duas irm\u00e3s.<\/strong> 2011. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.normatelles.com.br\/livros\/Duas_Irmas.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/www.normatelles.com.br\/livros\/Duas_Irmas.pdf<\/a>.<\/li><li>CATTY, Jocelyn.&nbsp;<em>Writing Rape, <\/em><strong>Writing Women in Early Modern England<\/strong><em>:&nbsp;<\/em>Unbridled Speech. England: Palgrave Macmillan, 2011.<\/li><li>CAULFIELD, Sueann.&nbsp;<strong>Em defesa da honra:<\/strong>&nbsp;moralidade, modernidade e na\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da Unicamp, 2000.<\/li><li>FREYRE, Gilberto.&nbsp;<strong>Casa-grande &amp; senzala.<\/strong>40<sup>a<\/sup>&nbsp;ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.<\/li><li>GUNNE, S.; THOMPSON, Z\u00f6e B. (Org.).&nbsp;<strong>Feminism, Literature and Rape Narratives:<\/strong> violence and violation. London: Routledge, 2010.<\/li><li>MARCUS, Sharon. Fighting Bodies, Fighting Words: A Theory and Politics of Rape Prevention.&nbsp;<em>In:<\/em>&nbsp;BUTLER, J.; SCOTT, Joan W. (Org.).&nbsp;<strong>Feminists Theorize the Political.<\/strong> New York: Routledge, 1992.<\/li><li>VAINFAS, Ronaldo.&nbsp;<strong>Tr\u00f3pico dos pecados:<\/strong> moral, sexualidade e Inquisi\u00e7\u00e3o no Brasil. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2017.<\/li><li>WALKER, Garthine. Rereading Rape and Sexual Violence in Early Modern England.&nbsp;<em>In:<\/em>&nbsp;<strong>Gender &amp; History<\/strong>, v. 10, n. 1, p. 1-25, 1998.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: literatura brasileira;\nnarrativas de estupro; Alu\u00edzio Azevedo; D\u00e9lia; cr\u00edtica liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>27 <\/strong><strong>Cicatrizes e lus\u00f3rias<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Andr\u00e9 Winter Noble<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o\nregistro maqu\u00ednico, fotogr\u00e1fico, sobras humanas: imagens de onze mulheres\nreveladas em preto e branco [a mesma mo\u00e7a; uma mulher diferente a cada retrato,\num corpo feminino distinto a cada piscadela] e linhas tra\u00e7adas por elas mesmas:\ncamadas de azul (cor atribu\u00edda ao celestial e reivindicada em voz grave pelo\ng\u00eanero masculino). No entanto, cada uma das mulheres e cada uma das linhas de\ncor, convertidas gradualmente em camada, se exp\u00f5em em quadros diferentes.\nReferimo-nos \u00e0 s\u00e9rie de fotografias\/pinturas\/desenhos (que trataremos aqui como\n<em>fotopinturas<\/em>) intitulada <em>Pintura Habitada<\/em>, obra realizada em 1975\npela artista portuguesa Helena Almeida (Lisboa, 1934). S\u00e9rie de obras que,\nconsideraremos aqui como o pol\u00edptico inaugural desta artista que, na \u00e9poca de\nsua mostra, j\u00e1 revelava a pot\u00eancia de suas futuras cria\u00e7\u00f5es. Consideramos,\nportanto, o pol\u00edptico <em>Pintura Habitada<\/em>\n(1975) [o primeiro conjunto desta obra-s\u00e9rie composta por 11 fotografias p\/b de\ndimens\u00f5es vari\u00e1veis, com interven\u00e7\u00f5es em tinta acr\u00edlica] como a pedra\nfundamental da Obra desta artista pl\u00e1stica e trazemos, para ajudar a arquitetar\neste lugar-de-pensamento, tr\u00eas poemas (considerados aqui como um tr\u00edptico) de\n\u201cdimens\u00f5es vari\u00e1veis\u201d (<em>Grafia 1<\/em>: 13\nversos; <em>Grafia 2<\/em>: 6 versos; <em>Grafia 3<\/em>: 14 versos) da poetisa\nportuguesa Fiama Hasse Pais Brand\u00e3o (Lisboa, 1938 \u2013 2007) cuja mostra inicial\nocorreu junto \u00e0 <em>Poesia 61<\/em>, revista de\nvida breve, com raras e densas edi\u00e7\u00f5es dedicadas \u00e0 poesia lusitana. L\u00e1, com o\nconjunto de poemas intitulado &lt;<em>Morfismos<\/em>&gt;,\nFiama Hasse Pais Brand\u00e3o j\u00e1 revelava a pot\u00eancia de suas futuras cria\u00e7\u00f5es. L\u00e1,\nencontramos, somados a outros onze poemas, os tr\u00eas poemas intitulados <em>Grafia 1<\/em>, <em>Grafia 2<\/em> e <em>Grafia 3<\/em>,\npoemas [aqui considerados como um tr\u00edptico] cujo desenho muscular s\u00f3 se alcan\u00e7a\natrav\u00e9s do \u00e1rduo exerc\u00edcio com a linguagem, do cont\u00ednuo esfaimar e saturar o\nsignificante, do ininterrupto distender e desentesar do significado, e vice-versa. Fiama\nHasse Pais Brand\u00e3o, assim como Helena Almeida com sua <em>Pintura Habitada<\/em>, nos permite pensar os tr\u00eas poemas intitulados <em>Grafia<\/em>, tanto como um tr\u00edptico, quanto\ncomo a pedra fundamental de sua Obra po\u00e9tica, produ\u00e7\u00e3o multidimensional na qual\ncada palavra e letra grafo-erigida, cada verso arquitetado, nos exp\u00f5em\ninfinitas aberturas e passagens de dimens\u00f5es vari\u00e1veis para adentrar cada corpo\nvocabular. Atrav\u00e9s deste texto, portanto, propomos pensar esses dois conjuntos\nde obras inaugurais de duas mulheres pensadoras portuguesas, lisboetas,\nnascidas nos anos trinta do s\u00e9culo XX e cuja espessa produ\u00e7\u00e3o verbo-visual se\ndebru\u00e7a sobre o fazer po\u00e9tico, o fazer pol\u00edtico da artista-escritora mulher em\nPortugal e, sobretudo por terem elas testemunhado a ditadura salazarista, a\nqual foi maquinada e concretizada em 1933 e desmoronada com a revolu\u00e7\u00e3o de 25\nde abril de 1974. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BRAGA, Te\u00f3filo. <strong>Hist\u00f3ria do Romantismo em Portugal<\/strong>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Ulmeiro, 1987. <\/li><li>BRAND\u00c3O, Fiama Hasse Pais. <strong>\u00c2mago \u2013 Antologia<\/strong>. Lisboa: Ass\u00edrio &amp; Alvim, 2010.<\/li><li>COTTON, Charlotte. <strong>A Fotografia como Arte Contempor\u00e2nea.<\/strong> Tradu\u00e7\u00e3o: Silvia Maria Mour\u00e3o Netto. S\u00e3o Paulo WMF Martins Fontes, 2013.<\/li><li>MARTELO, Rosa Maria. <strong>O Cinema da Poesia<\/strong>. Lisboa: Documenta, 2012.<\/li><li>______. <strong>Os Nomes da Obra<\/strong>. Lisboa: Documenta, 2016.<\/li><li>RAMOS, Rui (coord.). <strong>Hist\u00f3ria de Portugal. Lisboa<\/strong>: A Esfera dos Livros, 2009.<\/li><li>ROUILLE, Andr\u00e9. <strong>A Fotografia<\/strong>: Entre o Documento e a Arte Contempor\u00e2nea. Tradu\u00e7\u00e3o: Constancia Egrejas. S\u00e3o Paulo: SENAC, 2009.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-Chave<\/strong>: Fiama Hasse Pais\nBrand\u00e3o; Helena Almeida; Artes Visuais; Poesia; Verbo-Visualidades. <\/p>\n\n\n\n<h4><strong>28 <\/strong><strong>Entre ready-mades\ne colagens: a mescla textual de Val\u00eancio Xavier em <em>Crimes \u00e0 moda antiga<\/em><\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Taynara Leszczynski;&nbsp; Maria Salete Borba<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\npresente pesquisa tem por objetivo analisar o livro <em>Crimes \u00e0 moda antiga<\/em>\n(2004) do escritor paranaense Val\u00eancio Xavier, a fim de observar como o autor\nconstr\u00f3i o seu livro atrav\u00e9s de <em>ready-mades<\/em> e colagens. Assim, Dias\n(2016) destaca que a obra de Xavier possui uma \u201cdisposi\u00e7\u00e3o caleidosc\u00f3pica dos\ntextos, alternados e misturados [&#8230;] uma esp\u00e9cie de montagem de extratos,\ndispostos em colagem heterodoxa, cujo horizonte temporal \u00e9 h\u00edbrido\u201d (DIAS,\n2016, p. 37). Borba (2011) ainda prop\u00f5e olhar para a escritura valenciana\nconsiderando o seu car\u00e1ter polif\u00f4nico al\u00e9m do texto, isto \u00e9, entendendo que as\ncolagens valencianas ultrapassam os limites da literatura, da imagem e do\ncinema. <em>Crimes \u00e0 moda antiga<\/em> (2004) \u00e9 composto por oito contos que\nremetem a crimes cru\u00e9is ocorridos no Brasil em meados do s\u00e9culo XX e noticiados\nem jornais da \u00e9poca. Por serem t\u00e3o incomuns, terem sido retirados de jornais e\nestarem em um livro, encontram-se na fronteira do real e do ficcional. Al\u00e9m da\nescrita baseada nessa dualidade (realidade-fic\u00e7\u00e3o), Xavier (2004) tamb\u00e9m traz\nilustra\u00e7\u00f5es, fotografias, recortes de jornais, cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica,\ndocumentos e testemunhos em seu trabalho, constituindo assim o que Borba (2011)\nchama de \u201clivro desdobr\u00e1vel\u201d, pelas v\u00e1rias possibilidades de leitura. Logo na\ncapa do livro de Xavier (2004) h\u00e1 uma esp\u00e9cie de subt\u00edtulo: \u201cContos Verdade\u201d, o\nqual real\u00e7a a maneira como o autor transita ora pela fic\u00e7\u00e3o, ora pelo campo\njornal\u00edstico, aspecto que est\u00e1 estritamente ligado aos moldes da literatura\npolicial. Nesse contexto, Piglia (1986) destaca que por mais que o crime na\nsociedade sempre chamasse muita aten\u00e7\u00e3o, os relatos policiais dos casos eram\nmuito rasos e se constituam em uma mera narra\u00e7\u00e3o de fatos. Sob essa\nperspectiva, a literatura policial teve em suas bases primordiais de funda\u00e7\u00e3o e\nimpulsionamento a precis\u00e3o de proporcionar os detalhes imaginativos dos crimes\nque os relatos n\u00e3o traziam. Ou seja, pelo vi\u00e9s do entretenimento, ela\nfortalecia as not\u00edcias de assassinatos e afins. Percebe-se, dessa forma, que o\nlivro de Xavier (2004) \u00e9 perpassado pela t\u00e9cnica <em>ready-made<\/em>, a partir da\nsele\u00e7\u00e3o dos crimes dos jornais, colando-os na fic\u00e7\u00e3o, ressignificando e\nreconfigurando-os em um espa\u00e7o muito mais imaginativo e criativo. Essa mescla\ntextual atravessada pela heterogeneidade e hibridez constitui um novo suporte,\n\u00e0 moda contempor\u00e2nea, enquanto uma descontinuidade de modelos e padr\u00f5es. Por\nconseguinte, Dias (2016) nomeia esse fen\u00f4meno de \u201cest\u00e9tica do almanaque\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BORBA, Maria Salete. <strong>Val\u00eancio Xavier:<\/strong> uma constru\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel. Revista Letras, n. 84, p. 37-46, jul.\/dez. 2011. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/revistas.ufpr.br\/letras\/article\/view\/25101\/18610&gt; Acesso em: 09 jun. 2017.<\/li><li>DIAS, \u00c2ngela Maria.<strong>Val\u00eancio Xavier o minotauro multim\u00eddia.<\/strong> Rio de Janeiro: Oficina, 2016.<\/li><li>PIGLIA, Ricardo. Sobre el g\u00e9nero policial in: <strong>Cr\u00edtica y ficci\u00f3n.<\/strong> Buenos Aires: Lectulandia, 1986.<\/li><li>XAVIER, Val\u00eancio. <strong>Crimes \u00e0 moda antiga.<\/strong> S\u00e3o Paulo: PubliFolha, 2004.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>:&nbsp;\nVal\u00eancio Xavier; Crimes \u00e0 moda antiga;&nbsp;\n<em>ready-mades;<\/em> colagens; polifonia. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>COSMOPOLITISMOS E CARTOGRAFIAS P\u00d3S-NACIONAIS: MESCLAS TEXTUAIS \/ CORPOS-CORPUS EM TR\u00c2NSITO \/ FAZERES TE\u00d3RICOS-TRADUT\u00d3RIOS-LITER\u00c1RIOS-CULTURAIS Cinara Ferreira, Denise Salles, Rita Lenira Bittencourt A literatura comparada contempor\u00e2nea apresenta-se como uma ecologia cultural, na contram\u00e3o de processos globalizantes e estandardizados que, via de regra, montam um cen\u00e1rio de&nbsp;tropos-topos&nbsp;midiatizados e mercantilizados. Existe hoje um consenso de que a err\u00e2ncia e &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/eixo-2\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Eixo 2&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/363"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=363"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/363\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":454,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/363\/revisions\/454"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}