{"id":370,"date":"2019-09-29T15:48:51","date_gmt":"2019-09-29T18:48:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/?page_id=370"},"modified":"2019-10-17T15:35:28","modified_gmt":"2019-10-17T18:35:28","slug":"eixo-6","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/eixo-6\/","title":{"rendered":"Eixo 6"},"content":{"rendered":"\n<h2>CR\u00cdTICAS, POL\u00cdTICAS E INTERNACIONALIZA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA <\/h2>\n\n\n\n<p><em>Antonio Barros, Antonio Sanseverino, Cl\u00e1udia Caimi e\nRejane Pivetta<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 \u201cestar\u201d em uma cultura, para quem se dedica ao\nestudo te\u00f3rico-cr\u00edtico da literatura? Qual sentido de pertencimento experimenta\no pesquisador que maneja constantemente um material que emerge em outra l\u00edngua,\ncom todo o peso de uma tradi\u00e7\u00e3o cultural espec\u00edfica, e se desloca, atravessando\nfronteiras lingu\u00edsticas, nacionais e culturais para servir ao pesquisador na\ntarefa cotidiana de questionar e responder \u00e0s inquieta\u00e7\u00f5es da literatura?\nExiste algum sentido em se dizer que se \u201cest\u00e1 em casa\u201d, quando se trata da\npesquisa te\u00f3rica em literatura? Mesmo a Literatura Comparada, que na sua origem\nno s\u00e9culo XIX est\u00e1 atrelada \u00e0s fronteiras do Estado-na\u00e7\u00e3o e \u00e0s suas respectivas\nculturas, exibe a marca de uma teoria \u201ctransnacional\u201d e \u201cinternacionalizante\u201d.\nIsto \u00e9, os m\u00e9todos e princ\u00edpios que norteiam a atividade cr\u00edtica segundo a\nLiteratura Comparada s\u00e3o compartilhados, em que pesem as especificidades\nculturais \u2013 ligadas muitas vezes \u00e0s agendas pol\u00edticas \u2013 dos grupos sociais\nminorit\u00e1rios que viram no m\u00e9todo comparativo um incremento \u00e0s suas ambi\u00e7\u00f5es\nacad\u00eamicas. Tamb\u00e9m ao longo do s\u00e9culo XX \u2013 processo que n\u00e3o se interrompe neste\ns\u00e9culo XXI, a prop\u00f3sito \u2013, v\u00ea-se um deslocamento constante e cont\u00ednuo de\nteorias, filosofias e abordagens cr\u00edticas que se espalham pelo globo. Assim, do\nformalismo russo ao estruturalismo tcheco, do estruturalismo e\np\u00f3s-estruturalismo franceses ao materialismo hist\u00f3rico-dial\u00e9tico e \u00e0 Teoria\nCr\u00edtica, da psican\u00e1lise aos diferentes estudos da recep\u00e7\u00e3o, o que se nota \u00e9 a\ninternacionaliza\u00e7\u00e3o das teorias da literatura e das filosofias, ocupando\nterrit\u00f3rios inesperados e produzindo, por atrito ou coopera\u00e7\u00e3o, leituras\nconvergentes e divergentes, t\u00e3o criativas quanto por vezes inusitadas, que\namplificam a recep\u00e7\u00e3o das obras liter\u00e1rias no interior de uma cultura nacional,\nproduzindo, com isso, a constante renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social da cultura\natrav\u00e9s de leituras ou desleituras (parciais ou completas) de te\u00f3ricos e\nfil\u00f3sofos internacionais. Nesse caso, como n\u00e3o mencionar as leituras\nbenjaminianas de textos da cultura brasileira produzidas nas \u00faltimas d\u00e9cadas?\nOu as abordagens ricoeurianas do texto liter\u00e1rio, seja do ponto de vista\nhermen\u00eautico, seja ainda no que toca \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre a literatura e a \u00e9tica, a\nmet\u00e1fora ou o tempo? Ou, mais recentemente, os vieses agambianos que surgiram\ncomo suporte \u00e0 cr\u00edtica da viol\u00eancia e da exclus\u00e3o social no Brasil, t\u00e3o\nlargamente manifestadas na literatura recente? Na dire\u00e7\u00e3o oposta, por que n\u00e3o\npensar nos incrementos que o perspectivismo amer\u00edndio de Viveiros de Castro, as\npo\u00e9ticas canibais da antropofagia oswaldiana, a dial\u00e9tica da malandragem de\nC\u00e2ndido ou as distintas vozes da literatura marginal brasileira produzem ou\nainda podem produzir na interpreta\u00e7\u00e3o de obras estrangeiras? \u00c9 desse modo que o\ntrabalho com o texto liter\u00e1rio se beneficia da internacionaliza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e\nfilos\u00f3fica \u2013 movimento que, num primeiro momento, desorienta a cr\u00edtica\ntradicional da cultura para, posteriormente, reorganiz\u00e1-la em fun\u00e7\u00e3o de novos\nparadigmas.<\/p>\n\n\n\n<h2>EIXO 6 \u2014 DATA E ORDEM DAS COMUNICA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n\n\n\n<h3><strong>23 de outubro (quarta)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 512. <\/p>\n\n\n\n<p>1 <strong>Apenas um retrato na parede, mas como d\u00f3i: algumas notas sobre fotografia e escravid\u00e3o<\/strong>, Antonio Marcos Vieira Sanseverino <\/p>\n\n\n\n<p>2 <strong>Ag\u00eancia e precariedade em <\/strong><em><strong>Mariana <\/strong><\/em><strong>(1871), de Machado de Assis<\/strong>, J\u00falia de Campos Lucena <\/p>\n\n\n\n<p>3 <strong>Nem todas as crian\u00e7as vingam: servid\u00e3o industrial, documentos de barb\u00e1rie e l\u00f3gica maqu\u00ednica em Machado de Assis<\/strong>, Jeison Karnal da Silva <\/p>\n\n\n\n<p>4 <strong>Amplia\u00e7\u00e3o da leitura e contradi\u00e7\u00f5es da imprensa abolicionista brasileira: o caso da Gazeta de Not\u00edcias<\/strong>, William Moreno Boenavides <\/p>\n\n\n\n<p>5 <strong>A perspectiva da Teoria Social da Edi\u00e7\u00e3o para desbravar a obra tipogr\u00e1fica de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto<\/strong>, Priscila Monteiro<\/p>\n\n\n\n<p>6 <strong>A Antropofagia como cr\u00edtica pol\u00edtica da cultura<\/strong>, Rejane Pivetta de Oliveira <\/p>\n\n\n\n<p>7 <strong>Po\u00e9ticas ayahuasqueiras: esbo\u00e7o de uma cartografia<\/strong>, Fernanda Vivacqua de Souza Galv\u00e3o Boarin<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>24 de outubro (quinta)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 512.  <\/p>\n\n\n\n<p>8 <strong>O teor testemunhal no teatro documental: aporia entre a representa\u00e7\u00e3o do real e o labor memorial\u00edstico, an\u00e1lise da obra <\/strong><em><strong>Proyecto 1980\/2000, el tiempo que hered\u00e9<\/strong><\/em>, Rafael da Silveira Falc\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>9 <strong>Narrando a viv\u00eancia benjaminiana: uma reflex\u00e3o sobre as escritas do eu na atualidade a partir da obra de Annie Ernaux<\/strong>, Elisa Fernandes Rodrigues<\/p>\n\n\n\n<p>10 <strong>Mem\u00f3ria, narrativa e viol\u00eancia: uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o romance <\/strong><em><strong>O ver\u00e3o tardio<\/strong><\/em><strong>, de Luiz Ruffato<\/strong>, Lu\u00edsa Os\u00f3rio Rizzatti<\/p>\n\n\n\n<p>11 <strong>A escrita do \u201ceu\u201d nos ensaios autobiogr\u00e1ficos de Ernesto Sabato e Affonso Romano de Sant\u2019Anna<\/strong>, Margarete J. V. C. H\u00fclsendeger<\/p>\n\n\n\n<p>12 <strong>O conto de Erico Verissimo \u00e0 luz das teoriza\u00e7\u00f5es de J\u00falio Cort\u00e1zar<\/strong>, Bruno Brizotto <\/p>\n\n\n\n<p>13 <strong>Os cr\u00edticos e os territ\u00f3rios na Parte dos Cr\u00edticos, de <\/strong><em><strong>2666<\/strong><\/em>, Gabriel da Fonseca Torres <\/p>\n\n\n\n<p>14 <strong>Do texto liter\u00e1rio a vida submersa: uma an\u00e1lise em&nbsp;<\/strong><em><strong>El r\u00edo s\u00edn orillas&nbsp;<\/strong><\/em><strong>de Jose Juan Saer<\/strong>, Fidelainy Sousa Silva<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>25 de outubro (sexta)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 512.  <\/p>\n\n\n\n<p>15 <strong>O poder de quase todos: a pol\u00edtica emergente da conforma\u00e7\u00e3o social apresentada em <\/strong><em><strong>O Senhor das Moscas<\/strong><\/em><strong>, de William Golding<\/strong>, Juliana Boeira da Silva<\/p>\n\n\n\n<p>16<strong> Emancipar-se do tempo: mimese, ontologia e pol\u00edtica<\/strong>, Antonio Barros de Brito Junior<\/p>\n\n\n\n<p>17 <strong>Pensando a cat\u00e1strofe com Stengers e Sebald: uma interven\u00e7\u00e3o poss\u00edvel<\/strong>, Davi Alexandre Tomm <\/p>\n\n\n\n<p>18 <strong>Elvira Vigna e a <\/strong><em><strong>dif\u00e9rrance<\/strong><\/em><strong> de Jacques Derrida<\/strong>, Karen Cristina Garbo<\/p>\n\n\n\n<p>19 <strong>Por uma literatura do <\/strong><em><strong>fora<\/strong><\/em>, Rodrigo Gon\u00e7alves Lima<\/p>\n\n\n\n<p>20 <strong>A obsess\u00e3o do p\u00f3s-modernismo com o passado, segundo Linda Hutcheon<\/strong>, Jefferson Jos\u00e9 Pereira Figueiredo<\/p>\n\n\n\n<p>21 <strong>Entre a cegueira e a lucidez: um di\u00e1logo com o Estoicismo<\/strong>, Pedro Nunes de Castro <\/p>\n\n\n\n<p>22 <strong>Reflex\u00f5es de Merleau-Ponty para uma interface entre a literatura e a filosofia<\/strong>, \u00c9der Corr\u00eaa<\/p>\n\n\n\n<h2>EIXO 6 \u2014 RESUMOS DAS COMUNICA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n\n\n\n<h4><strong>1 Apenas um retrato na parede, mas como d\u00f3i: algumas notas sobre fotografia e escravid\u00e3o<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Antonio Marcos Vieira Sanseverino<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00falio Cort\u00e1zar aproxima o conto e a fotografia a partir do\nrecorte de um fragmento do cotidiano e pela fixa\u00e7\u00e3o de limites (2006). Cort\u00e1zar\nfaz uso da analogia para caracterizar melhor o conto, enquanto g\u00eanero. A\nfotografia, na sua hist\u00f3ria, pode ser pensada ainda mais al\u00e9m na reflex\u00e3o sobre\nas condi\u00e7\u00f5es da arte, e especificamente, da literatura, a partir do s\u00e9culo XIX.\nWalter Benjamin traz a fotografia para o centro de uma reflex\u00e3o sobre a arte\ncontempor\u00e2nea, a partir de uma altera\u00e7\u00e3o da sensibilidade, de uma abertura do\ncampo da experi\u00eancia pelo olho da c\u00e2mera. Jacques Ranci\u00e8re realiza uma invers\u00e3o\nao propor que h\u00e1 uma altera\u00e7\u00e3o do campo da experi\u00eancia sens\u00edvel a partir do\ns\u00e9culo XIX, que a fotografia gradualmente incorpora. No presente momento,\ninteressa insistir nesse lugar que a fotografia ocupa para uma reflex\u00e3o sobre a\narte. A partir da\u00ed, interessa interrogar a entrada da fotografia no contexto de\nsociedades escravocratas nos Estados Unidos e no Brasil. No presente trabalho, \u00e9\nconstru\u00eddo um esbo\u00e7o inicial para entender o lugar que os retratos de negros\nescravizados podem nos ajudar no debate sobre a fotografia em contextos\nperif\u00e9ricos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: fotografia;\nescravid\u00e3o; Walter Benjamin; Jacques Ranci\u00e8re.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>2 <\/strong><strong>Ag\u00eancia e precariedade em <em>Mariana <\/em>(1871), de Machado de Assis<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><em>J\u00falia de Campos Lucena<\/em><em> <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho aqui proposto d\u00e1\nsequ\u00eancia \u00e0 interlocu\u00e7\u00e3o sugerida na cadeira de Contos Machadianos ministrada\npelo professor Ant\u00f4nio Sanseverino no PPG de Letras da UFRGS entre a teoria de\ng\u00eanero da fil\u00f3sofa norte-americana Judith Butler, a partir da leitura parcial\ndo texto <em>Problemas de g\u00eanero <\/em>(1990),\ne a an\u00e1lise do historiador Sidney Chalhoub do conto <em>Mariana<\/em> (1871) em <em>Machado de\nAssis historiador<\/em> (2003). O pequeno conto de Machado, segundo Chalhoub, \u00e9\num verdadeiro documento hist\u00f3rico de um per\u00edodo em que ideias abolicionistas e\nleis emancipat\u00f3rias tensionavam a rela\u00e7\u00e3o entre escravid\u00e3o, em vias de findar,\ne a liberdade. Por tratar de uma personagem mulher, a obra exp\u00f5e tamb\u00e9m as\ncondi\u00e7\u00f5es impostas ao g\u00eanero feminino pela ideologia patriarcal e paternalista,\nque intensifica a l\u00f3gica hegem\u00f4nica da depend\u00eancia pessoal. Nesse sentido,\npretendo dar sequ\u00eancia \u00e0 an\u00e1lise iniciada em aula a partir da teoria pol\u00edtica\ndesenvolvida pelas obras subsequentes de Judith Butler, quando a autora avan\u00e7a\nda teoria de g\u00eanero em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s considera\u00e7\u00f5es acerca das minorias submetidas\n\u00e0 precariedade pelas din\u00e2micas do poder. Textos como <em>A vida ps\u00edquica do poder <\/em>(1997), <em>Vida prec\u00e1ria<\/em> (2004), <em>Relatar\na si mesmo <\/em>(2005) e <em>Quadros de guerra\n<\/em>(2009) nos fornecem categorias de an\u00e1lise melhor elaboradas e mais precisas\nque propiciam novas chaves de leitura para obras liter\u00e1rias em cuja moldura\nest\u00e3o representadas tanto as estruturas do poder hegem\u00f4nico quanto as a\u00e7\u00f5es de\nag\u00eancia e resist\u00eancia do sujeito que sujeitado por ela (sujei\u00e7\u00e3o, que, em\nButler, significa tanto ser subjugado pelo poder quanto se tornar sujeito).\nEsse, acredito, \u00e9 o caso do conto <em>Mariana<\/em>.\nA posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria de \u201cescrava quase senhora\u201d da protagonista a coloca no\nentre-lugar onde residem as tens\u00f5es antes mencionadas e faz com que Mariana\navalie com enorme lucidez sua condi\u00e7\u00e3o. Mobilizada por um desejo que rompe as\nnormas da estrutura social pela qual \u00e9 constitu\u00edda (ela se apaixona pelo senhor\nmo\u00e7o), ela revela o \u00edmpeto do sujeito de resistir \u00e0 sujei\u00e7\u00e3o absoluta, e de poder\n\u201cnarrar a si pr\u00f3prio\u201d e constituir-se como subjetividade enquadrada em uma\n\u00e9tica do reconhecimento (o que ela \u00e9 apenas em partes, pois sempre que estica a\ncorda, predomina a viol\u00eancia senhorial). Esse desejo atua como um propulsor de\nmudan\u00e7as no comportamento da personagem, que passa a confrontar o seu estado de\nsemi-emancipa\u00e7\u00e3o (em que a mesma estrutura de poder que concede sua liberdade\ntem o poder de encerr\u00e1-la) e a adotar estrat\u00e9gias de resist\u00eancia, isto \u00e9, de\nag\u00eancia. Seu suic\u00eddio, ao final da narrativa, antes de um excesso rom\u00e2ntico ou\nmelanc\u00f3lico, talvez possa ser lido, sob o ponto de vista te\u00f3rico proposto, como\num extremo e violento ato de resist\u00eancia pelo reconhecimento de sua\nindividualidade e valor \u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ASSIS, Machado. <em>Mariana<\/em>. 1871. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/machadodeassis.ufsc.br\/obras\/contos\/avulsos\/CONTO,%20Mariana,%201871.htm&gt; Acesso em: 23.08.2019.<\/li><li>BUTLER, Judith. <em>Frames of War: when is life grievable?<\/em> New York: Verso, 2009. <\/li><li>______. <em>Precarious life: the powers of mourning and violence<\/em>. New York: Verso, 2004. <\/li><li>______. <em>Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade<\/em>. 8\u00aa ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2015.&nbsp; <\/li><li>______. <em>Relatar a si mesmo: cr\u00edtica da viol\u00eancia \u00e9tica<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2015.<\/li><li>______. The Psychic Life of Power. Theories of subjection. California : Stanford University Press, 1999. <\/li><li>CHALOUB, Sidney. <em>Machado de Assis historiador<\/em>. Cia das Letras. 2003. Ebook<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: escravid\u00e3o; paternalismo; Machado de\nAssis; precariedade; ag\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h4>3 Nem todas as crian\u00e7as vingam: servid\u00e3o industrial,\ndocumentos de barb\u00e1rie e l\u00f3gica maqu\u00ednica em Machado de Assis<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Jeison Karnal da Silva<\/em><em> <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pela\ncamada mais exposta do conto \u201cPai Contra M\u00e3e\u201d (1907), do escritor Machado de\nAssis, desliza um narrador pragm\u00e1tico que dissimula. <\/p>\n\n\n\n<p>A voz se\ncont\u00e9m, num emaranhado grotesco de naturaliza\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es individuais a\nque C\u00e2ndido Das Neves se p\u00f5e (ou \u00e9 posto). Diante do leitor, erup\u00e7\u00f5es de outros\npatamares instigam uma elabora\u00e7\u00e3o <em>ex-post facto <\/em>da jornada de Neves<em>: <\/em>asrea\u00e7\u00f5es do particular \u00e0 l\u00f3gica social e econ\u00f4mica do per\u00edodo pr\u00e9-Aboli\u00e7\u00e3o\nda Escravatura. Parte da elite intelectual ocupava-se de ideais positivistas. A\npr\u00e1xis da barb\u00e1rie, ao largo, justificava-se pela urg\u00eancia da manuten\u00e7\u00e3o do <em>status\nquo<\/em>. \u201cA ESCRAVID\u00c3O levou consigo of\u00edcios\ne aparelhos, como ter\u00e1 sucedido a outras institui\u00e7\u00f5es sociais. (&#8230;) Um\ndeles era o ferro ao pesco\u00e7o, outro o ferro ao p\u00e9; havia tamb\u00e9m a m\u00e1scara de\nfolha-de-flandres. A m\u00e1scara fazia perder o v\u00edcio da embriaguez aos escravos,\npor lhes tapar a boca. (&#8230;) Com o v\u00edcio de beber, perdiam a tenta\u00e7\u00e3o de furtar\n(&#8230;), e a\u00ed ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade\ncertas. Era grotesca tal m\u00e1scara, mas a ordem social e humana nem sempre se\nalcan\u00e7a sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham\npenduradas, \u00e0 venda, na porta das lojas\u201d (ASSIS, 1998, p.94). Eis a l\u00f3gica\nmaqu\u00ednica do capital, cujo processo maturado ocuparia Engels. Machado refere\nque \u201ch\u00e1 meio s\u00e9culo os escravos fugiam com frequ\u00eancia\u201d, o que faz depreender\nque o per\u00edodo referido da hist\u00f3ria nacional seria algo em torno de 1860,\nsegunda fase do II Reinado, lucrativa para cafeicultores, com incremento de\ntecnologia ao processo. <\/p>\n\n\n\n<p>Cabe ver\nos funileiros sob outro prisma: \u201ccorpos produtivos\u201d. Resistem ao movimento de\napagamento do saber artesanal e disp\u00f5em sua manufatura, assimilados pelo jogo\nconcorrencial (com ou sem dilemas \u00e9ticos). <\/p>\n\n\n\n<p>Machado\ncentraliza aspectos particulares (num contexto proto-fabril brasileiro, ex\u00f3geno\ne pitoresco frente ao europeu). D\u00e1 forma est\u00e9tica \u00e0 l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o em\nescala de trabalhadores pobres ou escravizados, cujos corpos alienados operam\nno limite por um projeto de lucro. O texto traz j\u00e1 a semente da futura\nind\u00fastria dos Anos 1950.<\/p>\n\n\n\n<p>A\nest\u00e9tica da m\u00e1scara-de-flandres, em exibi\u00e7\u00e3o, \u201ca sombra antes do\nacontecimento\u201d. O \u201cutens\u00edlio\u201d paira num <em>entre-lugar<\/em> simb\u00f3lico: signo da\nviol\u00eancia institucionalizada e da oferta.&nbsp; <em>Locus<\/em> dial\u00e9tico:\n\u201cagente da passiva\u201d (sujeito e objeto, a cadeia da tortura).&nbsp; A dualidade:\no impulso dos que ganham a vida \u201cpegando escravos fugidios\u201d. O narrador e as\nraz\u00f5es plaus\u00edveis: \u201c(&#8230;) a necessidade de uma achega, a inaptid\u00e3o para o\ntrabalho (&#8230;)\u201d (<em>idem<\/em>, p.96). O\nembate de dois desvalidos. Mesmo para os opressores h\u00e1 prazo de validade. Neves\nperdia lugar \u201cpara m\u00e3os mais novas e h\u00e1beis\u201d. Mulheres e crian\u00e7as, na Revolu\u00e7\u00e3o\nIndustrial, tomaram o lugar de homens robustos gra\u00e7as a motricidade fina\n(necess\u00e1ria para operar o novo maquin\u00e1rio). \u201cNem todas as crian\u00e7as vingam\u201d,\njustifica no retorno da guerra heroica. O aborto de uns \u00e9 o florescer de\noutros. <\/p>\n\n\n\n<p>A\nproposta aqui \u00e9 \u201cler a contrapelo, trazer o passado ao sol, fazer as\ncontradi\u00e7\u00f5es abafadas se erguerem no c\u00e9u da hist\u00f3ria\u201d. Assim prop\u00f5e Benjamin.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ASSIS, Machado de. Contos: Pai Contra M\u00e3e. Porto Alegre: L&amp;PM, 1998.<\/li><li>ENGELS, Friederich. A situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na Inglaterra. Editora Boitempo. S\u00e3o Paulo 2008. <\/li><li>BENJAMIN, Walter. O Anjo da Hist\u00f3ria: Sobre o conceito de HIst\u00f3ria. S\u00e3o Paulo: Aut\u00eantica, 2016.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: revolu\u00e7\u00e3o industrial; materialismo dial\u00e9tico; Machado de Assis; Friederich Engels; Walter Benjamin.<\/p>\n\n\n\n<h4>4 Amplia\u00e7\u00e3o\nda leitura e contradi\u00e7\u00f5es da imprensa abolicionista brasileira: o caso da\nGazeta de Not\u00edcias<\/h4>\n\n\n\n<p><em>William Moreno\nBoenavides <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\nGazeta de Not\u00edcias foi o maior entre os peri\u00f3dicos brasileiros identificados\ncom o movimento abolicionista de fins do s\u00e9culo XIX. No in\u00edcio da d\u00e9cada de\n1880, j\u00e1 rodava entre vinte e dois e vinte e quatro mil exemplares di\u00e1rios (Gazeta\nde Not\u00edcias, 03\/08\/1881, p. 1). Al\u00e9m disso, notabilizou-se por implementar a\nvenda avulsa num per\u00edodo em que os demais jornais comerciais s\u00f3 eram vendidos\npor meio de assinaturas (RAMOS, 2010, p. 40-41) bastante inacess\u00edveis pela\nfalta de trabalhos fixos com pagamentos regulares (FRANCO, 1976). Tendo ainda\num pre\u00e7o considerado baixo em rela\u00e7\u00e3o aos demais, a Gazeta de Not\u00edcias foi\nentendida, tanto pelos seus contempor\u00e2neos quanto por estudiosos(as) da\nliteratura e da imprensa brasileira, um peri\u00f3dico exemplar no que diz respeito\n\u00e0 busca pela amplia\u00e7\u00e3o do p\u00fablico leitor e pela moderniza\u00e7\u00e3o de suas pr\u00e1ticas\ncomerciais (SODR\u00c9 (1969), BARBOSA (2010), RAMOS (2005 e 2010) e CRESTANI\n(2014)). Neste trabalho, analiso a rela\u00e7\u00e3o da Gazeta de Not\u00edcias com o movimento\nabolicionista da \u00e9poca, bem como seus tra\u00e7os considerados modernos no que tange\n\u00e0 busca por maior p\u00fablico leitor. Numa perspectiva cr\u00edtica, concentro-me nas\ncontradi\u00e7\u00f5es a\u00ed presentes. Elas se revelem pelo estudo do modo como o peri\u00f3dico\nvalia-se da escravid\u00e3o para veicular an\u00fancios de alugu\u00e9is e vendas de\nescravizados (Gazeta de Not\u00edcias, 13\/06\/1888, p. 3), bem como aproveitava-se da\nm\u00e3o-de-obra infantil para distribui\u00e7\u00e3o de seus exemplares (ARA\u00daJO,1889, posi\u00e7\u00e3o\nKindle 11121 e BARBOSA, 2010, p. 80). Destaco ainda que o pre\u00e7o de venda do\nperi\u00f3dico era bem maior do que os principais coment\u00e1rios sobre isso deixam\nentrever, podendo uma assinatura mensal custar, por exemplo, cerca de cinquenta\npor cento do sal\u00e1rio de um servente de pedreiro no per\u00edodo (ALENCASTRO, 1988,\np. 43-44; 55). Assim sendo, a partir do caso da Gazeta de Not\u00edcias, proponho o\ndebate sobre o modo como n\u00e3o s\u00f3 a cultura, mas tamb\u00e9m sua transmiss\u00e3o n\u00e3o est\u00e1\nisenta de barb\u00e1rie, nas conhecidas palavras de Walter Benjamin (1994), nesse\nmomento crucial da cultura brasileira em que as contradi\u00e7\u00f5es da escravid\u00e3o se\ncruzam com as da leitura.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Prolet\u00e1rios e escravos: imigrantes portugueses e cativos africanos no Rio de Janeiro, 1850-1872. Novos estudos, n\u00ba 21, julho de 1988, p. 30-56.<\/li><li>ARA\u00daJO, Ferreira de. Press. In.: SANTA-ANNA NERY, Frederico Jos\u00e9 de. (org.) Le Br\u00e9sil en 1889: avec une carte de l&#8217;empire en chromolithographie, des tableaux statistiques, des graphiques et des cartes. Paris: Charles Delagrave, 1889. <\/li><li>BARBOSA, Marialva. Hist\u00f3rica cultural da imprensa: Brasil, 1800-1900. Rio de Janeiro: Mauad X, 2010.<\/li><li>BENJAMIN, Walter. Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica: ensaios sobre literatura e hist\u00f3ria da cultura. 7ed. \u2013 Trad. S\u00e9rgio Paulo Ruanet. Obras escolhidas vol. 1 \u2013 S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1994.<\/li><li>CRESTANI, Jaison Lu\u00eds. Machado de Assis e o processo de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: estudo comparativo das narrativas publicadas n\u2019A Esta\u00e7\u00e3o (1879-1884), na Gazeta de Not\u00edcias (1881-1884) e nas colet\u00e2neas Pap\u00e9is Avulsos (1882) e Hist\u00f3rias sem Data (1884). S\u00e3o Paulo: Nankin: Edusp, 2014.<\/li><li>FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1976. <\/li><li>RAMOS, Ana Fl\u00e1via Cernic. As m\u00e1scaras de L\u00e9lio: fic\u00e7\u00e3o e realidade nas \u201cBalas de estalo de Machado de Assis. 410 f. Tese (Doutorado em Hist\u00f3ria) \u2013 Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 2010. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.bibliotecadigital.unicamp.br\/document\/?code=000473 160&gt;. Acesso em: 23 ago. 2012.<\/li><li>______. Pol\u00edtica e humor nos \u00faltimos anos da monarquia: a s\u00e9rie \u201cBalas de Estalo\u201d (1883-1884). 168 f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Hist\u00f3ria) \u2013 Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 2005. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.bibliotecadigital.unicamp.br\/document\/?down=vtls000350 300&gt;. Acesso em: 23 ago. 2012.<\/li><li>SODR\u00c9, Nelson Werneck. Hist\u00f3ria da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 3\u00aa ed., 1969.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: escravid\u00e3o; imprensa; s\u00e9c XIX; Gazeta de Not\u00edcias; leitura.<\/p>\n\n\n\n<h4>5 A\nperspectiva da Teoria Social da Edi\u00e7\u00e3o para desbravar a obra tipogr\u00e1fica de\nJo\u00e3o Cabral de Melo Neto<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Priscila Monteiro<\/em><em> <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\npassagem de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto pelo mundo das Artes Gr\u00e1ficas n\u00e3o chamou a\naten\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Embora quase oitenta anos nos distanciem desde o in\u00edcio de\nsua fortuna cr\u00edtica, poucos foram os te\u00f3ricos que mencionaram a exist\u00eancia de O\nLivro Incons\u00fatil para al\u00e9m da curiosidade aned\u00f3tica. Paralelo \u00e0 vida de\nvice-c\u00f4nsul em Barcelona, ao longo de seis anos Cabral sustentou um projeto\neditorial a fim de publicar poesia. As cartas da \u00e9poca registram o esfor\u00e7o em\ncriar um sistema liter\u00e1rio receptivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o brasileira e \u00e0 catal\u00e3 no\nexterior. Dominar t\u00e9cnicas tipogr\u00e1ficas para construir objetos tradicionais e\nconcretos como livros \u00e9 parte de um aprendizado que exige artesania e\nautorreflex\u00e3o, caracter\u00edsticas igualmente presentes no rigor formal e\nlingu\u00edstico na poesia desse autor, sobretudo nas produ\u00e7\u00f5es posteriores \u00e0 essa\nexperi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A Cr\u00edtica\nTextual oferece ferramentas para compreender situa\u00e7\u00f5es como essa, em que um dos\nautores mais estudados pelo mundo lus\u00f3fono tem uma faceta criativa sua\npraticamente in\u00e9dita. A Teoria Social da Edi\u00e7\u00e3o, de D.F. McKenzie, e o conceito\nde c\u00f3digo bibliogr\u00e1fico, de Jerome McGann, colocam em evid\u00eancia os processos de\nsignifica\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica como parte das redes de sentido que estruturam as\nformas textuais, portanto dialogam com as pr\u00e1ticas de Cabral em seu projeto\neditorial, tendo em vista que atuou como editor, gr\u00e1fico, tradutor e poeta,\ncompondo e imprimindo \u00e0 m\u00e3o centenas de exemplares das catorze obras que\npublicou \u2013 sendo duas delas de sua autoria.<\/p>\n\n\n\n<p>A origem\ndo desinteresse do pensamento acad\u00eamico em reconhecer Cabral-gr\u00e1fico como parte\ndo seu processo liter\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 explicada pela Teoria. Segundo os autores, \u00e9\npreciso integrar processo de produ\u00e7\u00e3o e de recep\u00e7\u00e3o formal \u00e0 historicidade dos\nobjetos culturais para al\u00e9m das abordagens semi\u00f3ticas e hermen\u00eauticas, pois \u00e9 a\npartir da valoriza\u00e7\u00e3o da materialidade espec\u00edfica de cada edi\u00e7\u00e3o estudada que a\nbibliografia pode auxiliar a cr\u00edtica liter\u00e1ria a ampliar suas abordagens para\nal\u00e9m da exclusiva compara\u00e7\u00e3o entre textos. Assim, \u00e9 poss\u00edvel encontrar\nimport\u00e2ncia em manusear as primeiras edi\u00e7\u00f5es impressas pelo O Livro Incons\u00fatil\na fim de reconhecer nelas formas textuais n\u00e3o bibliogr\u00e1ficas como parte da\ntextualiza\u00e7\u00e3o, bem como perceber o que se modifica nas edi\u00e7\u00f5es posteriores,\nconsumidas pela maior parte do p\u00fablico-leitor. Para McKenzie, as bibliografias\ndeveriam ser \u201csociologia dos textos\u201d, abarcar diferentes m\u00eddias e suportes\ndocumentais, assim reivindicando uma cr\u00edtica capaz de alargar os princ\u00edpios\ninterpretativos t\u00e3o arraigados na cultura dominante letrada do mundo impresso.\nA hip\u00f3tese central \u00e9 que forma material espec\u00edfica que uma obra assume pertence\nao est\u00e1gio inicial de socializa\u00e7\u00e3o dessa obra, logo sua reprodu\u00e7\u00e3o e\ntransmiss\u00e3o deveriam fazer parte das chaves de leitura quando pesquisamos\ncria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de qualquer natureza, j\u00e1 que s\u00e3o, sobretudo, artefatos\nculturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerar\nos livros impressos por Cabral \u00e0 luz dessa Teoria \u00e9 minha pesquisa de tese.\nEssa comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 parte da discuss\u00e3o sobre o cap\u00edtulo que estou desenvolvendo\na respeito das Materialidades da Literatura aplicadas \u00e0 epistemologia do livro\nde poesia artesanal e sua rela\u00e7\u00e3o com as edi\u00e7\u00f5es impressas de 1947 a 1953 por\nJo\u00e3o Cabral.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>MCGANN, Jerome. <em>Critique of Modern Textual Criticism<\/em>. Chicago\/London: University of Chicago Press, 1983. <\/li><li>__________. <em>Textual Criticism and Literary Interpretation.<\/em> Chicago\/London: University of Chicago Press, 1985. <\/li><li>__________. <em>The Textual Condition<\/em>. Princenton\/New Jersey: Princenton University Press, 1991.<\/li><li>MCKENZIE, D.F. <em>Bibliography and the Sociology of Texts<\/em>. Cambridge University Press, 2004 [1986, 1999].<\/li><li>__________. <em>Making meaning: \u201cPrinters of the mind\u201d and other essays<\/em>. University of Massachusetts Press, 2002.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: O Livro Incons\u00fatil; D.F. McKenzie; Jerome McGann; poesia brasileira; livro artesanal brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<h4>6 A Antropofagia como cr\u00edtica pol\u00edtica da cultura<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Rejane Pivetta de\nOliveira <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A antropofagia constitui, nas palavras de Augusto de Campos, a \u201c\u00fanica filosofia original brasileira\u201d \u2013 afirma\u00e7\u00e3o que talvez contradiga os princ\u00edpios da cr\u00edtica contida no conceito proposto por Oswald de Andrade, no <em>Manifesto Antrop\u00f3fago<\/em> (1928). Criada no contexto das vanguardas do Modernismo brasileiro, a antropofagia responde, naquele momento, \u00e0 demanda por afirma\u00e7\u00e3o de uma cultura nacional, rompendo a rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia com os modelos europeus. Contudo, n\u00e3o se restringe a uma categoria do nacional, e certamente refuta as concep\u00e7\u00f5es de \u201coriginal\u201d e mesmo de \u201cfilosofia\u201d. As rela\u00e7\u00f5es entre o primitivo e o civilizado, o matriarcado e o patriarcado, o comunit\u00e1rio e o global, o espiritual e o material, o eu e o outro est\u00e3o no fundo da elabora\u00e7\u00e3o conceitual de Oswald de Andrade sobre a antropofagia, resgatando do passado hist\u00f3rico o elemento ind\u00edgena reprimido, tomado agora como subst\u00e2ncia cr\u00edtica e matriz de pensamento sobre a cultura, e n\u00e3o como aspecto tem\u00e1tico e identit\u00e1rio, tal como o fora no Romantismo. A antropofagia \u00e9 um projeto cr\u00edtico de interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da cultura, continuamente retomado e desdobrado ao longo da obra de Oswald de Andrade, com repercuss\u00f5es na hist\u00f3ria dos movimentos de vanguarda e de resist\u00eancia cultural no Brasil, como o Concretismo, o Tropicalismo, o Cinema Novo, o Teatro Oficina e a Poesia Marginal. A incid\u00eancia do conceito se faz perceber tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e intelectual contempor\u00e2nea, como \u00e9 o caso da literatura marginal perif\u00e9rica, que explicitamente assume uma atitude de devora\u00e7\u00e3o antropof\u00e1gica, e tamb\u00e9m no \u00e2mbito da antropologia, com os estudos de Eduardo Viveiros de Castro sobre o perspectivismo amer\u00edndio e as metaf\u00edsicas canibais, que estabelecem uma rela\u00e7\u00e3o direta com o princ\u00edpio da alteridade antropof\u00e1gica. Herdeira da renova\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do Modernismo, a antropofagia \u00e9 uma formula\u00e7\u00e3o que ultrapassa o \u00edmpeto da vanguarda, abrindo um campo fecundo de reflex\u00e3o sobre as contradi\u00e7\u00f5es, os impasses e as promessas mal cumpridas da civiliza\u00e7\u00e3o capitalista ocidental, cujos componentes de destrui\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, desigualdade e autoritarismo ainda hoje persistem. Nesta comunica\u00e7\u00e3o, propomos o exame dos ensaios de Oswald de Andrade sobre o conceito de antropofagia, em particular o <em>Manifesto Antrop\u00f3fago<\/em>, &#8220;A psicologia antropof\u00e1gica&#8221;, &#8220;A crise da filosofia messi\u00e2nica&#8221; e o &#8220;O Antrop\u00f3fago&#8221;, com o objetivo de explicitar os desdobramentos e o alcance pol\u00edtico do conceito, enquanto \u201cfilosofia\u201d que confronta os esquemas explicativos da racionalidade civilizada ocidental. Interessa, sobretudo, ler nos textos de Oswald de Andrade o modo como o ritual da antropofagia amer\u00edndia transforma-se em \u00edndice de cr\u00edtica pol\u00edtica da cultura.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ANDRADE, Oswald de. <em>Os Dentes do Drag\u00e3o<\/em>. (Entrevistas). S\u00e3o Paulo: Globo; Secretaria de Estado da Cultura, 1990a.<\/li><li>ANDRADE, Oswald de. <em>Mem\u00f3rias sentimentais de Jo\u00e3o Miramar<\/em>. S\u00e3o Paulo: Globo, 2004.<\/li><li>ANDRADE, Oswald de. <em>Pau Brasil<\/em>. S\u00e3o Paulo: Globo, 2003.<\/li><li>ANDRADE, Oswald de. <em>Serafim Ponte Grande<\/em>. S\u00e3o Paulo: Globo, 2007.<\/li><li>ANDRADE, Oswald de. <em>Um homem sem profiss\u00e3o<\/em>. Mem\u00f3rias e confiss\u00f5es. Sob as ordens da mam\u00e3e. S\u00e3o Paulo: Globo, 2002.<\/li><li>ANDRADE, Oswald de.&nbsp; <em>A utopia antropof\u00e1gica<\/em>. 4. ed. S\u00e3o Paulo: Globo, 2011.<\/li><li>BOPP, Raul. Vida e morte da antropofagia. 2. ed. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2008.<\/li><li>CAMPOS, Augusto de. <em>poesia, antipoesia, antropofagia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cortez e Moraes, 1978.<\/li><li>CAMPOS, Haroldo de. \u201cUma po\u00e9tica da radicalidade\u201d. Em: ANDRADE, Oswald de. <em>Poesias reunidas<\/em>. (Obras completas vol. VII). 3. ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, INL, 1972.<\/li><li>CAMPOS, Haroldo de.&nbsp; <em>Metalinguagem &amp; outras metas<\/em>: ensaios de teoria e cr\u00edtica liter\u00e1ria. 4. ed. 1. reimpress\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2004.<\/li><li>C\u00c2NDIDO, Ant\u00f4nio. <em>V\u00e1rios escritos<\/em>. S\u00e3o Paulo; Rio de Janeiro: Duas Cidades; Ouro sobre Azul, 2004.<\/li><li>FONSECA, Maria Augusta. <em>Oswald de Andrade \u2013 biografia<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Globo, 2007.<\/li><li>NUNES, Benedito. \u201cA antropofagia ao alcance de todos\u201d. Em: ANDRADE, Oswald de. <em>A utopia antropof\u00e1gica<\/em>. 4. ed. S\u00e3o Paulo: Globo, 2011. pp. 7-56.<\/li><li>REVISTA DE ANTROPOFAGIA: 1\u00aa e 2\u00aa denti\u00e7\u00f5es. (fac-s\u00edmile). S\u00e3o Paulo: Abril, Metal Leve, 1975. Dispon\u00edvel em https:\/\/digital.bbm.usp.br\/bitstream\/bbm\/7064\/1\/45000033273.pdf.<\/li><li>CASTRO ROCHA, Jo\u00e3o Cezar; RUFFINELLI, Jorge. <em>Antropofagia hoje<\/em>? Oswald de Andrade em cena. S\u00e3o Paulo: \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es, 2011.<\/li><li>VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. <em>A inconst\u00e2ncia da alma selvagem<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2002.<\/li><li>VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. <em>Metaf\u00edsicas Canibais<\/em>: elementos para uma antropologia p\u00f3s-estrutural. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2015.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Antropofagia; Oswald de Andrade; Perspectivismo; Modernismo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<h4>7\nPo\u00e9ticas ayahuasqueiras: esbo\u00e7o de uma cartografia<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Fernanda Vivacqua de\nSouza Galv\u00e3o Boarin <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este\ntrabalho tem como objetivo esbo\u00e7ar uma cartografia das po\u00e9ticas envolvendo a\nbebida psicoativa ayahuasca. A dificuldade que se imp\u00f4s a esta tarefa,\ninicialmente, foi lidar com a pluralidade de produ\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas ligadas \u00e0\nsubst\u00e2ncia, mesmo que esta esteja recorrentemente associada a cantos,\nnarrativas e outros atos perform\u00e1ticos que, de uma maneira ou de outra,\nconstituem a cosmologia e a est\u00e9tica dos grupos que dela fazem uso. Assim, ao\nbuscar uma geografia em torno de tais po\u00e9ticas, o que encontrei foi um tracejo\nque desobedece aos limites das fronteiras nacionais, apontando para um outro\ndesenho poss\u00edvel. Tendo isso em vista, em um primeiro momento, o trabalho\napresenta algumas po\u00e9ticas ayahuasqueiras, explicitando este territ\u00f3rio que se\ndelineia e destacando os deslocamentos transnacionais nele percebidos. Para\ntanto, recorro \u00e0 narrativa de Ricardo Yaiguaje, \u00edndio Siona da Col\u00f4mbia,\ncontada \u00e0 Langdon (2002) e por ela traduzida; aos estudos em torno dos cantos\nvision\u00e1rios dos \u00edndios Kaxinaw\u00e1 no leste do Peru (KEIFENHEIM, 2002); e aos\n\u201c\u00cdcaros\u201d \u2013 cantos de cura e ensino de povos ind\u00edgenas na Am\u00e9rica Central\n(CALLICOT, 2017; HANSEN, 2017). Al\u00e9m disso, entendendo a import\u00e2ncia de outros\nusos para a feitura de tal esbo\u00e7o, sobretudo aqueles hoje disseminados nos\nespa\u00e7os urbanos, somo aos exemplos a religi\u00e3o brasileira ayahuasqueira Santo\nDaime (LABETE; PACHECO, 2009), com seus hinos e bailados, e obra \u201cSeiva, veneno\nou fruto.\u201d, da poeta paulistana J\u00falia de Carvalho Hansen ([2016] 2018),\nencontrando um outro tr\u00e2nsito, entre a oralidade e a escrita. Ap\u00f3s esse\nmomento, e explicitada a pluralidade percebida, introduzo, no texto, as\ncontribui\u00e7\u00f5es de Viveiros de Castro (2007a; 2007b; 2007c), ao propor a\nformula\u00e7\u00e3o de um pensamento amaz\u00f4nico \u2013 o \u201cperspectivismo\u201d \u2013; e as no\u00e7\u00f5es de\n\u201cpaisagem\u201d \u2013 como s\u00edmbolo vivo de uma outra cosmovis\u00e3o e, portanto, de uma\noutra mirada est\u00e9tica, do mundo e das produ\u00e7\u00f5es humanas \u2013 e de \u201cpo\u00e9tica da\ndiversidade\u201d, encontradas em Glissant (2005; 2014). Dessa forma, acredito que o\ntrabalho p\u00f4de n\u00e3o s\u00f3 esbo\u00e7ar uma cartografia de tais po\u00e9ticas, como\nproblematizar suas possibilidades, sem que se recaia em um retrato est\u00e1tico e\ncalcado em concep\u00e7\u00f5es estranhas a essas culturas, ainda que muito afeitas ao\npensamento ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>CALLICOT, Christina. Comunica\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies na Amaz\u00f3nia Ocidental: a m\u00fasica como forma de conversa\u00e7\u00e3o entre plantas e pessoas.&nbsp;caderno de leituras.&nbsp;n.71. S\u00e3o Paulo: Ch\u00e3o da Feira, jul. 2017.&nbsp;<\/li><li>GLISSANT, \u00c9douard.&nbsp;Introdu\u00e7\u00e3o a uma po\u00e9tica da diversidade.&nbsp;Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.<\/li><li>______.&nbsp;O pensamento de tremor.&nbsp;La coh\u00e9e du lamentim. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2014.<\/li><li>HANSEN, J\u00falia de Carvalho. Ver o que o canto ensina a ver.&nbsp;caderno de leituras.&nbsp;n. 57. S\u00e3o Paulo: Ch\u00e3o da Feira, jan. 2017.&nbsp;<\/li><li>______.&nbsp;Seiva, veneno ou fruto.&nbsp;Belo Horizonte: Ch\u00e3o da Feira, [2016] 2018. 1a reimpress\u00e3o.<\/li><li>LABATE, Beatriz Caiuby; PACHECO, Gustavo.&nbsp;M\u00fasica brasileira de ayahuasca.&nbsp;Campinas: Mercado das Letras, 2009. 118 p.<\/li><li>LANGDON, Ester Jean. A tradi\u00e7\u00e3o narrativa e aprendizagem com yag\u00e9 (ayahuasca) entre os \u00edndios Siona da Col\u00f4mbia. In: LABATE, Beatriz Caiuby; ARA\u00daJO, Wladimyr Sena.&nbsp;O uso ritual da ayahuasca.&nbsp;Campinas: Mercado das Letras; S\u00e3o Paulo: Fapesp, 2002. p. 69-97.<\/li><li>KEIFENHEIM, Barbara.&nbsp;<em>Nixi pae<\/em>&nbsp;como participa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel no princ\u00edpio da transforma\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o primordial entre os \u00edndios Kaxinaw\u00e1 no leste do Peru. In: LABATE, Beatriz Caiuby; ARA\u00daJO, Wladimyr Sena.&nbsp;O uso ritual da ayahuasca.&nbsp;Campinas: Mercado das Letras; S\u00e3o Paulo: Fapesp, 2002. p. 97-129.<\/li><li>VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O chocalho do xam\u00e3 \u00e9 um acelerador de part\u00edculas [1999]. In: VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo.&nbsp;Encontros.&nbsp;Rio de Janeiro: Azougue, 2007a. p. 24-29.<\/li><li>______. O perspectivismo \u00e9 a retomada da Antropofagia oswaldiana em novos termos [2007]. In: ______.&nbsp;Encontros.&nbsp;Rio de Janeiro: Azougue, 2007b. p. 114-129.<\/li><li>______. Temos que criar um outro conceito de cria\u00e7\u00e3o [2007]. In: ______.&nbsp;Encontros.&nbsp;Rio de Janeiro: Azougue, 2007c. p. 162-181.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: po\u00e9ticas ayahuasqueiras; cartografia; pensamento amaz\u00f4nico; po\u00e9tica da diversidade; paisagem.<\/p>\n\n\n\n<h4>8 O teor\ntestemunhal no teatro documental: aporia entre a representa\u00e7\u00e3o do real e o\nlabor memorial\u00edstico, an\u00e1lise da obra <em>Proyecto 1980\/2000, el tiempo que\nhered\u00e9<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Rafael da Silveira Falc\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Proyecto\n1980\/2000 el tiempo que hered\u00e9, <\/em>\u00e9 uma obra de teatro peruana, dirigida por\nSebasti\u00e1n Rubio y Cl\u00e1udia Tangoa. Sua estreia ocorreu em 2012 no festival de\nartes perform\u00e1ticas do MALI (Museu de Arte de Lima). A obra se caracteriza\nenquanto teatro documental e foi inspirada no processo de constru\u00e7\u00e3o c\u00eanica de <em>Mi\nvida despu\u00e9s<\/em>, de Lola Arias (dramaturga argentina), pe\u00e7a que estreou em\n2009 e foi apresentada n\u00e3o apenas na Argentina, mas tamb\u00e9m no Chile, Uruguai,\nBrasil, M\u00e9xico, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Se por um\nlado, me interesso pelo espa\u00e7o pol\u00edtico que \u00e9 pensar o teatro desde e para\nAm\u00e9rica Latina, por outro, me interessa compreender como os sujeitos e sujeitas\nlidam com sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, com seus traumas, com o tempo hist\u00f3rico que\nlhes tocou viver e a partir disso, continuamente, ressignificam as suas\nidentidades. Ambos interesses convergem no estudo do teor\/fun\u00e7\u00e3o testemunhal no\nteatro, que como tal, possui uma estrutura espec\u00edfica que delimita a\nexperi\u00eancia humana de indagar sobre suas origens e recri\u00e1-las, na tentativa de\nconstituir narrativas que deem conta de entender o seu caminho e as\nimplicaturas sociais do encontro dessas hist\u00f3rias. Os testemunhos dos <em>performers<\/em>\nna pe\u00e7a fazem alus\u00e3o a um per\u00edodo de viol\u00eancia pol\u00edtica e terrorismo que\nimpactou durante duas d\u00e9cadas a vida a popula\u00e7\u00e3o peruana, e que direta ou\nindiretamente segue impactando. <\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1rcio\nSeligmann-Silva (2003, p. 11), avan\u00e7a na reflex\u00e3o deixada por Walter Benjamin\nem 1936, de que frente a processos de constru\u00e7\u00e3o de mitos e estetiza\u00e7\u00e3o da\npol\u00edtica, h\u00e1 que politizar a arte. Para Seligmann-Silva n\u00e3o basta politizar a\narte, a arte pol\u00edtica ainda serve a qualquer fim. Sua proposta \u00e9 de que \u00e9\nnecess\u00e1rio levar em considera\u00e7\u00e3o o paralelismo entre pol\u00edtica e a\narte\/literatura de maneira cr\u00edtica. Em tal sentido \u00e9 que inicio o estudo da\nobra de teatro, a partir do seu espa\u00e7o de publica\u00e7\u00e3o\/circula\u00e7\u00e3o, ou seja, numa\nan\u00e1lise da \u201cGESTOS \u2013 Revista de teoria e pr\u00e1tica do teatro hisp\u00e2nico\u201d, o\nobjetivo aqui, foi entender qual o espa\u00e7o pol\u00edtico no qual o texto da obra <em>Proyecto\n1980\/2000 el tiempo que hered\u00e9<\/em>, estava inserido, para depois partir \u00e0\nan\u00e1lise do texto da obra propriamente dita. <\/p>\n\n\n\n<p>Este\nmovimento de an\u00e1lise surge porque partilho do debate de que falar sobre arte e\nliteratura, estritamente em termos t\u00e9cnicos n\u00e3o \u00e9 suficiente para\nentend\u00ea-la.&nbsp; \u00c9 necess\u00e1rio justamente, buscar um lugar para ambas no\ncontexto das demais express\u00f5es humanas, e dos modelos de vida a que essas\nexpress\u00f5es, em seu conjunto, d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o. Clifford Geertz (1997, p. 146),\nevidencia que o processo de atribui\u00e7\u00e3o aos objetos de arte um significado\ncultural, \u00e9 sempre um processo local, mesmo que as qualidades intr\u00ednsecas que\ntransformam a for\u00e7a emocional em coisas concretas possam ser universais. <\/p>\n\n\n\n<p>Espera-se\nque como resultado do exerc\u00edcio de an\u00e1lise da obra peruana, seja poss\u00edvel\ncompreender como se articulam distintos mecanismos te\u00f3rico-pr\u00e1ticos utilizados na\nabordagem de quest\u00f5es que envolvem: mem\u00f3ria, testemunho, representa\u00e7\u00e3o e\nidentidade. Para tal, os principais autores visitados, s\u00e3o: M\u00e1rcio\nSelligmann-Silva, Roberto Esposito, Clifford Geertz, Walter Mignolo e Patrice\nPavis.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ARIAS, L. Mi vida despu\u00e9s. Buenos Aires, AR. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/lolaarias.com\/proyectos\/mi-vida-despues\/&gt;, Acesso em: 12 jun. 2019, 22:00:07.<\/li><li>ESPOSITO, R. Communitas: origen y destino de la comunidade. 1\u00aa ed., 2\u00aa reimp. Buenos Aires: Amorrortu, 2012.<\/li><li>GEERTZ, C. O&nbsp;saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Mello Joscelyne. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 1997.<\/li><li>MIGNOLO, W. Colonialidad, conocimientos subalternos y pensamiento fronterizo. In: __. Historias Locales \u2013 Dise\u00f1os Globales. Madrid: Akal, 2003, p. 18-60.<\/li><li>PAVIS, P. O teatro no cruzamento de culturas. Tradu\u00e7\u00e3o de Nanci Fernandes. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2008.<\/li><li>RUBIO, S; TANGOA, C. Proyecto 1980-2000, el tiempo que hered\u00e9. Revista GESTOS Teor\u00eda y Pr\u00e1ctica del Teatro Hisp\u00e1nico: nuevas estrat\u00e9gias y mem\u00f3ria hist\u00f3rica, Calif\u00f3rnia, v.29, n.58, p. 152-174, nov. 2014.<\/li><li>RUBIO, S; TANGOA, C. Sobre el tiempo que heredamos. Revista GESTOS Teor\u00eda y Pr\u00e1ctica del Teatro Hisp\u00e1nico: nuevas estrat\u00e9gias y mem\u00f3ria hist\u00f3rica, Calif\u00f3rnia, v.29, n.58, p. 149-151, nov. 2014.<\/li><li>SELIGMANN-SILVA, M. (Org.). Hist\u00f3ria, Mem\u00f3ria e Literatura: o testemunho na era das cat\u00e1strofes.&nbsp; Campinas, SP: Unicamp, 2003.<\/li><li>VILLEGAS, J. (Ed.). Revista GESTOS Teor\u00eda y Pr\u00e1ctica del Teatro Hisp\u00e1nico. Calif\u00f3rnia, v.23, n.45, abr. 2008.<\/li><li>VILLEGAS, J. (Ed.). Revista GESTOS Teor\u00eda y Pr\u00e1ctica del Teatro Hisp\u00e1nico: en los escenarios del mundo hisp\u00e2nico, 2013, Calif\u00f3rnia, v.29, n.57, abr. 2014.<\/li><li>VILLEGAS, J. (Ed.). Revista GESTOS Teor\u00eda y Pr\u00e1ctica del Teatro Hisp\u00e1nico: nuevas estrategias y memoria hist\u00f3rica, Calif\u00f3rnia, v.29, n.58, nov. 2014.<\/li><li>VILLEGAS, J. (Ed.). Revista GESTOS Teor\u00eda y Pr\u00e1ctica del Teatro Hisp\u00e1nico: gestos transit\u00f3rios: presente, pasado y futuro de las teor\u00edas sobre el teatro, Calif\u00f3rnia, v.30, n.60, nov. 2015.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Teatro documental; Testemunho; Representa\u00e7\u00e3o; Mem\u00f3ria; Identidade.<\/p>\n\n\n\n<h4>9 Narrando a viv\u00eancia benjaminiana: uma reflex\u00e3o sobre\nas escritas do eu na atualidade a partir da obra de Annie Ernaux<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Elisa Fernandes Rodrigues<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este\ntrabalho tem como objetivo refletir sobre em que medida as escritas do eu, na\nforma de autobiografias e autofic\u00e7\u00f5es, s\u00e3o a representa\u00e7\u00e3o atual da viv\u00eancia\nbenjaminiana, com foco na an\u00e1lise da obra da escritora francesa Annie Ernaux,\nque dedicou sua vida \u00e0 escrita autobiogr\u00e1fica. Walter Benjamin desenvolve nos\nensaios <em>Experi\u00eancia e pobreza <\/em>(1933) e<em> O narrador <\/em>(1936) os\nconceitos de <em>viv\u00eancia<\/em> (<em>Erlebnis<\/em>) e de <em>experi\u00eancia<\/em> (<em>Erfahrung<\/em>),\nde onde partem este trabalho. A experi\u00eancia benjaminiana \u00e9 aquela que atravessa\ngera\u00e7\u00f5es, ligada \u00e0s sociedades tradicionais e veiculada sobretudo pela\nnarrativa oral. Benjamin defende que a modernidade, sobretudo nos grandes\ncentros urbanos ocidentais, \u00e9 marcada pelo decl\u00ednio da experi\u00eancia e pelo\ndesaparecimento da figura do narrador, atribuindo \u00e0 Primeira Guerra Mundial o\ngolpe derradeiro da transmiss\u00e3o oral. Segundo Benjamin, isso se deve \u00e0\nimpossibilidade de narrar o horror vivenciado nas trincheiras, \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de\nacelera\u00e7\u00e3o, intensifica\u00e7\u00e3o e contra\u00e7\u00e3o do tempo na modernidade, \u00e0 mudan\u00e7a total\ndas paisagens do p\u00f3s-guerra e \u00e0s grandes transforma\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. A viv\u00eancia\nbenjaminiana \u00e9, por sua vez, a experi\u00eancia pobre da modernidade: fragment\u00e1ria,\ncontingente e limitada \u00e0 exist\u00eancia de um homem. A temporalidade deixa ent\u00e3o de\nser linear, cont\u00ednua e extensiva e passa a ser imediata, quebrada e\ndescont\u00ednua, e a experi\u00eancia moderna \u00e9, enfim, caracterizada sobretudo pela\nimpossibilidade de transmitir um conhecimento que atravesse gera\u00e7\u00f5es. Rompe-se\no la\u00e7o entre os indiv\u00edduos, rompe-se a transmiss\u00e3o do passado coletivo e restam\nas singularidades. Segundo Silva (2015), Benjamin aponta para a \u201cnecessidade de\numa nova <em>ars<\/em> narrativa\u201d (p. 74) que desse conta, n\u00e3o mais da\nexperi\u00eancia, mas da viv\u00eancia pr\u00f3pria \u00e0 modernidade, e que pudesse representar\nseu car\u00e1ter fragment\u00e1rio limitado, tal qual a <em>Erlebnis<\/em>, \u00e0 vida de uma s\u00f3\npessoa. Para Benjamin, a poesia de Baudelaire teria conseguido esse feito, na\nfigura do <em>fl\u00e2neur<\/em>. Acredito que as escritas do eu deem conta n\u00e3o apenas\ndo car\u00e1ter ef\u00eamero da <em>Erlebnis<\/em>, mas tamb\u00e9m de seu car\u00e1ter duradouro,\nconforme apresentado por Silva (2015). Interrogo-me por fim sobre a poss\u00edvel\ncoletividade, durabilidade e, por que n\u00e3o, transmiss\u00e3o presentes nesse esfor\u00e7o\nde recordar, conforme Assmann (2011), testemunhar, escrever e publicar a\npr\u00f3pria vida, muitas vezes representativa de um grupo social ou de um fen\u00f4meno\nhist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ASSMANN, Aleida. Espa\u00e7os da recorda\u00e7\u00e3o: formas e transforma\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria cultural. Campinas: Editora da Unicamp, 2011.<\/li><li>BENJAMIN, Walter. Experi\u00eancia e pobreza(1933). In: Walter Benjamin &#8211; Obras escolhidas. Vol 1. Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica. Ensaios sobre a literatura e hist\u00f3ria da cultura. Pref\u00e1cio de Jeanne Maria Gagnebin. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1987.<\/li><li>BENJAMIN, Walter. O narrador: considera\u00e7\u00f5es sobre a obra de Nikolai Leskov(1936). In: Walter Benjamin &#8211; Obras escolhidas. Vol 1. Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica. Ensaios sobre a literatura e hist\u00f3ria da cultura. Pref\u00e1cio de Jeanne Maria Gagnebin. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1987.<\/li><li>SILVA, Jo\u00e3o Gabriel Lima da. O castelo da experi\u00eancia: Walter Benjamin e a literatura. Rio de Janeiro: Editora Appris, 2015.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: mem\u00f3ria; escritas do eu; viv\u00eancia; recorda\u00e7\u00e3o; Annie Ernaux.<\/p>\n\n\n\n<h4>10 Mem\u00f3ria,\nnarrativa e viol\u00eancia: uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o romance <em>O ver\u00e3o tardio<\/em>, de Luiz\nRuffato<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Lu\u00edsa Os\u00f3rio Rizzatti<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\nproposta do trabalho \u00e9 uma reflex\u00e3o cr\u00edtica acerca do livro <em>O ver\u00e3o tardio<\/em>,\ndo escritor mineiro Luiz Ruffato, atrav\u00e9s de um aporte te\u00f3rico estrangeiro,\ncontando, sobretudo, com pensamentos de Walter Benjamin, Paul Ricoeur e Jeanne\nMarie Gagnebin. Publicado em maio de 2019 pela Companhia das Letras, o romance\n\u00e9 narrado pelo protagonista Os\u00e9ias, um representante de vendas que trabalhava\nem S\u00e3o Paulo e que decide retornar a sua cidade-natal, Cataguases, em Minas\nGerais, ap\u00f3s ser abandonado pela esposa e pelo filho. <\/p>\n\n\n\n<p>Cada cap\u00edtulo\ncorresponde a um dia da sua jornada de retorno \u00e0s origens familiares: de ter\u00e7a\na domingo, Os\u00e9ias deixa registrado suas andan\u00e7as, encontros e desencontros. No\nplano narrativo, existe uma mescla temporal do presente com o passado, de modo\nque o conte\u00fado do presente trata da enumera\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es e de descri\u00e7\u00f5es de\ncenas, com frases curtas e pontuais, enquanto as refer\u00eancias ao passado parecem\nmais longas. Sob esse vi\u00e9s, a hist\u00f3ria trata, sobretudo, de um sujeito que\ntenta a todo instante reatar os cacos do passado e recuperar as mem\u00f3rias de\noutrora. <\/p>\n\n\n\n<p>O problema, entretanto,\n\u00e9 que nem ele nem Cataguases s\u00e3o mais os mesmos, ambos experimentaram mudan\u00e7as\nque provocam conflitos nesse retorno. Os\u00e9ias percebe-se como algu\u00e9m inadequado\ne sem esperan\u00e7as diante daquele universo violento, sujo e preconceituoso. Fora\nisso, bem como diz o pr\u00f3prio autor, o livro traz uma discuss\u00e3o acerca da\nhist\u00f3ria brasileira contempor\u00e2nea atrav\u00e9s dos conflitos entre as personagens de\ndiferentes estratos sociais. <\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, a ideia do\ntrabalho \u00e9 trazer para o debate as duas dimens\u00f5es evidentes no texto: uma\nindividual e outra coletiva. Para a primeira quest\u00e3o, discutirei sobre mem\u00f3ria\ne narrativa atrav\u00e9s de Jeanne Marie Gagnebin, com <em>Lembrar escrever esquecer,\n<\/em>com o intuito de entender como a personagem busca elaborar o seu passado e\nreconstruir a trajet\u00f3ria de sua vida a partir da narrativa. \u00c9 sob esse vi\u00e9s que\n<em>Tempo e Narrativa (Tomo 1)<\/em>, de Paul Ricoeur, tamb\u00e9m ser\u00e1 importante para\nembasar a rela\u00e7\u00e3o\nentre o ato de narrar uma hist\u00f3ria e o car\u00e1ter temporal da exist\u00eancia. J\u00e1 <em>O narrador <\/em>e<em> Experi\u00eancia\ne pobreza, <\/em>de Walter Benjamin, colocam em cena a discuss\u00e3o das formas de\nnarrar, possibilitando que se compreendam as disson\u00e2ncias das ang\u00fastias\nindividuais de um sujeito imerso em uma coletividade que n\u00e3o o representa. <\/p>\n\n\n\n<p>O segundo aspecto, por\nsua vez, \u00e9 macro, amplo, pois trata-se de um debate sobre o Brasil dos tempos\natuais. O texto norteador dessa etapa ser\u00e1 <em>Sobre a cr\u00edtica do poder como\nviol\u00eancia<\/em>, de Walter Benjamin, para discutirmos as viol\u00eancias que aparecem\nno enredo e que est\u00e3o imbricadas em toda e qualquer ordem social, englobando os\ndiscursos pol\u00edticos corrompidos, o individualismo, a intoler\u00e2ncia, a briga pelo\npoder e as atitudes med\u00edocres de ascens\u00e3o social. Essa tem\u00e1tica \u00e9 uma esp\u00e9cie\nde espelhamento do que acontece no pa\u00eds atualmente, em que dever\u00edamos, em pleno\ns\u00e9culo XXI, estar caminhando em dire\u00e7\u00e3o a um pa\u00eds melhor, sem tantas\ndesigualdades e preconceitos, mas, na verdade, o que vemos \u00e9 quase um grande retrocesso\n\u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BENJAMIN, Walter. Experi\u00eancia e Pobreza. In: BENJAMIN, Walter. <em>O anjo da hist\u00f3ria. <\/em>Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Barrento \u2013 Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2012.<\/li><li>BENJAMIN, Walter. O narrador. In: BENJAMIN, Walter. <em>Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica: ensaios sobre literatura e hist\u00f3ria da cultura.<\/em> Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o S\u00e9rgio Paulo Rouanet \u2013 S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2012 \u2013 (Obras escolhidas v. 1)<\/li><li>BENJAMIN, Walter. Sobre a cr\u00edtica do poder como viol\u00eancia. In: BENJAMIN, Walter. <em>O anjo da hist\u00f3ria. <\/em>Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Barrento \u2013 Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2012.<\/li><li>GAGNEBIN, Jeanne Marie. <em>Lembrar escrever esquecer<\/em> \u2013 S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2009.<\/li><li>RICOEUR, Paul. <em>Tempo e narrativa.<\/em> Campinas: Papirus, 1994, v.1<\/li><li>RUFFATO, LUIZ. <em>O ver\u00e3o tardio.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: O ver\u00e3o tardio; mem\u00f3ria; narrativa; temporalidade; viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h4>11 A\nescrita do \u201ceu\u201d nos ensaios autobiogr\u00e1ficos de Ernesto Sabato e Affonso Romano\nde Sant\u2019Anna<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Margarete J. V. C. H\u00fclsendeger<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O ensaio\nna Am\u00e9rica latina tem se mostrado como uma pr\u00e1xis capaz de interpretar as\nrealidades s\u00f3cio-pol\u00edticas e econ\u00f4micas de uma determinada \u00e9poca e lugar. Desse\nmodo, o g\u00eanero acabou se tornando uma express\u00e3o art\u00edstica que ao emanar do\nhomem e do seu contexto hist\u00f3rico, n\u00e3o pode abster-se de refleti-lo. Entre as\nin\u00fameras caracter\u00edsticas de um ensaio \u2013 vinculador de discursos, flexibilidade,\nabertura para diferentes temas, interdisciplinaridade \u2013 podemos citar tamb\u00e9m o\nseu car\u00e1cter autobiogr\u00e1fico. No ensaio os ensa\u00edstas expressam, n\u00e3o apenas seus\nsentimentos, como tamb\u00e9m o processo no qual eles se desenvolveram, de tal\nmaneira, que os textos ensa\u00edsticos, na maioria dos casos, sempre t\u00eam um car\u00e1ter\nde \u00edntima biografia. Nesse sentido, podemos citar os ensaios do escritor e\nensa\u00edsta argentino Ernesto Sabato e do escritor e poeta brasileiro Affonso\nRomano de Sant\u2019Anna como exemplos de uma escrita na qual se destaca o \u201ceu\u201d do\nautor, como uma esp\u00e9cie de bandeira que anuncia uma forte individualidade. O\ntom, muitas vezes confessional, desses escritos s\u00e3o mais do que uma\nmanifesta\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d, pois os autores preocupam-se em escrever sobre o mundo\nque os rodeia e suas rea\u00e7\u00f5es diante dele. Devido ao n\u00famero significativo de\nensaios escritos por Sabato e Sant\u2019Anna, neste trabalho ser\u00e1 analisada apenas\numa obra de cada autor: A<em> resist\u00eancia<\/em> (2000), de Ernesto Sabato e <em>Entre\nleitor e autor <\/em>(2015), de Affonso Romano de Sant\u2019Anna. Nos dois livros,\napesar da dist\u00e2ncia de 15 anos que os separa, encontraremos uma frut\u00edfera\nreflex\u00e3o sobre quest\u00f5es relacionadas com a contemporaneidade, o prazer da\nescrita e o papel da literatura em um mundo em r\u00e1pida e constante\ntransforma\u00e7\u00e3o. O objetivo deste estudo comparativo \u00e9 assinalar pontos de\nconverg\u00eancia e diverg\u00eancia entre as ideias desses dois autores, demonstrando a\npossibilidade de se estabelecer um di\u00e1logo enriquecedor entre a produ\u00e7\u00e3o\nliter\u00e1ria da Argentina e do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>SABATO, Ernesto. (2008). <em>A resist\u00eancia<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o S\u00e9rgio Molina. S\u00e3o Paulo:&nbsp; Companhia das Letras, 2008.<\/li><li>SANT&#8217;ANNA, Affonso Romano.&nbsp;<em>Entre leitor e autor<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco (Edi\u00e7\u00e3o Digital), 2015.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: literatura latino-americana; ensaio; autobiografia; Ernesto Sabato; Affonso Romano de Sant\u2019Anna.<\/p>\n\n\n\n<h4>12 O conto\nde Erico Verissimo \u00e0 luz das teoriza\u00e7\u00f5es de J\u00falio Cort\u00e1zar<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Bruno Brizotto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No que\ndiz respeito ao conjunto da fic\u00e7\u00e3o do escritor sul-rio-grandense Erico\nVerissimo (1905-1975), a cr\u00edtica universit\u00e1ria tem se debru\u00e7ado, desde a d\u00e9cada\nde 1970 (CHAVES, 1972), em demasia diante do romance produzido pelo autor de\nCruz Alta, negligenciando uma importante parcela de sua cria\u00e7\u00e3o ficcional, a\nsaber, o conto. Importa registrar, nesse sentido, que \u00e9 por meio da narrativa\nbreve que Erico inicia sua carreira liter\u00e1ria, com a publica\u00e7\u00e3o, em 1929, na <em>Revista\ndo Globo<\/em>, dos contos \u201cLadr\u00e3o de gado\u201d e \u201cA trag\u00e9dia de um homem gordo\u201d. No\nano seguinte, por insist\u00eancia do amigo e jornalista Prado J\u00fanior, o peri\u00f3dico <em>Cruz\nAlta em Revista<\/em> publica \u201cChico: um conto de Natal\u201d. Nesse mesmo ano, remete\na Souza J\u00fanior, diretor do suplemento liter\u00e1rio do <em>Correio do Povo<\/em>, o\nconto \u201cA l\u00e2mpada m\u00e1gica\u201d. Nos anos 1930-1931, Verissimo segue escrevendo para\njornais, destacando-se o <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em> e o mencionado <em>Correio do\nPovo<\/em>. Em 1932, publica seu primeiro livro, intitulado <em>Fantoches<\/em>, uma\ncolet\u00e2nea de quinze hist\u00f3rias, na qual \u201ch\u00e1 um grupo de textos dram\u00e1ticos e\noutro de textos narrativos, em que est\u00e1 representado um mundo irreal e\nfantasioso, aproximando-se, em muitos casos, dos chamados contos infantis de\nPerrault, Dickens e Irm\u00e3os Grimm.\u201d (BITTENCOURT, 2005, p. 50-51) E, em 1972,\ncom o intuito de comemorar os quarenta anos de vida liter\u00e1ria do autor, \u00e9\nrelan\u00e7ado o livro de estreia, agora \u201ctotalmente anotado com observa\u00e7\u00f5es de\npr\u00f3prio punho e com desenhos e caricaturas t\u00edpicas de seu processo de\ncomposi\u00e7\u00e3o\u201d (BITTENCOURT, 2005, p. 50). Ao lado dos textos originais de 1932,\nencontram-se outros seis contos publicados ao longo de sua vida liter\u00e1ria: \u201cAs\nm\u00e3os de meu filho\u201d (1942), \u201cO navio das sombras\u201d (1942), \u201cOs devaneios do\ngeneral\u201d (1942), \u201cEsquilos de outono\u201d (1959), \u201cSonata\u201d (1959) e \u201cA ponte\u201d\n(1959) (VERISSIMO, 2007). E s\u00e3o precisamente tais narrativas que levaremos em\nconta nesta comunica\u00e7\u00e3o, a qual objetiva examinar a cont\u00edstica de Erico\nVerissimo \u00e0 luz de uma s\u00e9rie de proposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas apresentadas pelo escritor\nargentino Julio Cort\u00e1zar (1914-1984) em \u201cAlguns aspectos do conto\u201d (CORT\u00c1ZAR,\n2006). Por meio da lente te\u00f3rica cortaziana observaremos como \u201ccertas\nconstantes [e] certos valores\u201d (CORT\u00c1ZAR, 2006, p. 149) podem ser aplicados \u00e0\nnarrativa breve redigida por Verissimo nas d\u00e9cadas de 1940 e 1950. Assim sendo,\nelegemos como t\u00f3picos de an\u00e1lise: (i) a diferencia\u00e7\u00e3o entre conto e romance;\n(ii) a defini\u00e7\u00e3o do bom contista; (iii) o conto significativo; (iv) a escolha\ndo tema; (v) o conto excepcional; (vi) o tema significativo; (vii) a rela\u00e7\u00e3o\nentre contista e leitor; (viii) o dom\u00ednio do of\u00edcio pelo autor; (ix) o escritor\nrevolucion\u00e1rio e (x) a exig\u00eancia err\u00f4nea de uma literatura acess\u00edvel a todos.\nAo final, temos como resultado uma prof\u00edcua grade de leitura, a qual, ao\ncentrar-se na cont\u00edstica praticada por Erico Verissimo, possui meios de\ntorn\u00e1-la mais acess\u00edvel tanto \u00e0 cr\u00edtica especializada quanto ao grande p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BITTENCOURT, Gilda Neves da Silva. O conto em Erico Verissimo. <em>Ci\u00eancias e Letras<\/em>, Porto Alegre, n. 38, p. 50-58, jul.\/dez. 2005.<\/li><li>CHAVES, Fl\u00e1vio Loureiro (org.). <em>O contador de hist\u00f3rias:<\/em> quarenta anos de vida liter\u00e1ria de Erico Verissimo. Porto Alegre: Globo, 1972.<\/li><li>CORT\u00c1ZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In: CORT\u00c1ZAR, Julio. <em>Valise<\/em> <em>de cron\u00f3pio<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Davi Arrigucci Jr. e Jo\u00e3o Alexandre Barbosa. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2006. p. 147-163.<\/li><li>VERISSIMO, Erico. <em>Fantoches e outros contos.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: conto; Erico Verissimo; Julio Cort\u00e1zar; literatura brasileira; teoria do conto.<\/p>\n\n\n\n<h4>13 Os\ncr\u00edticos e os territ\u00f3rios na Parte dos Cr\u00edticos, de <em>2666<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Gabriel da Fonseca\nTorres <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\nliteratura de Roberto Bola\u00f1o, e em especial o romance 2666, se insere como\nelemento importante da literatura hispano-americana do fim do s\u00e9culo XX e\ncome\u00e7o do XXI, apresentando um grande panorama de figuras, acontecimentos e\ninstitui\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria recente. Essa multiplicidade da sua obra permite uma\nabordagem de diversos temas como a presen\u00e7a da literatura como institui\u00e7\u00e3o em\ndiversos contextos, o papel e a atua\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica liter\u00e1ria universit\u00e1ria, as\nrela\u00e7\u00f5es e tens\u00f5es entre nacionalidades e literaturas nacionais. A pesquisa busca\nabordar alguns elementos da <em>parte dos\ncr\u00edticos, <\/em>segmento do romance 2666, do escritor chileno Roberto Bola\u00f1o. O\nromance se insere como obra de destaque nos livros do autor, e apresenta uma\nmultiplicidade gigantesca de temas, personagens e narrativas. O romance \u00e9\ndivido em cinco partes, cada uma com a devida centralidade, todas unidas pela\nconflu\u00eancia de um lugar espec\u00edfico, a cidade fict\u00edcia de Santa Teresa, no\nM\u00e9xico, na fronteira com os Estados Unidos. <em>A\nparte dos cr\u00edticos<\/em> narra a trajet\u00f3ria de cinco professores universit\u00e1rios\nde literatura alem\u00e3 em seus respectivos pa\u00edses (Fran\u00e7a, Espanha, Inglaterra,\nIt\u00e1lia); todos tem suas carreiras acad\u00eamicas direcionada para o autor alem\u00e3o\nBenno Von Archimboldi, cujas informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas s\u00e3o muito escassas. A busca\npor informa\u00e7\u00f5es sobre o autor \u2013 e pelo pr\u00f3prio autor que ao que tudo indica\nest\u00e1 vivo \u2013 leva os cr\u00edticos para a cidade mexicana de Santa Teresa &#8211; na qual\nh\u00e1 uma elevada recorr\u00eancia de feminic\u00eddios \u2013 em busca de seu autor (seu objeto\nde estudo?). A pesquisa busca investigar as formas que a literatura se\napresenta como <em>territ\u00f3rio<\/em>, conceito\nde Deleuze e Guattari: \u201cO conceito n\u00e3o \u00e9 objeto, mas territ\u00f3rio. N\u00e3o h\u00e1 Objeto,\nmas um territ\u00f3rio\u201d(2002). A partir\ndessa delimita\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel investigar os diferentes agenciamentos\nterritoriais do territ\u00f3rio da literatura, tanto pelos discursos a respeito da\ncr\u00edtica e do fazer liter\u00e1rio, quanto pela constitui\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o\ninstitucionalizado como a universidade, na qual, de certa forma, a cr\u00edtica\nliter\u00e1ria \u00e9 <em>profissionalizada<\/em> e\nfortemente territorializada (<em>A profiss\u00e3o,\no of\u00edcio, a especialidade, implicam atividades territorializadas, <\/em>DELEUZE;\nGUATTARI, 2012). Para al\u00e9m do ambiente fortemente territorializado da\nuniversidade, um olhar sobre a viagem ao M\u00e9xico exp\u00f5e diversas formas de <em>desterritorializa\u00e7\u00e3o<\/em> tanto pela viagem\nem si, quanto pela presen\u00e7a dos personagens em uma cidade violenta e de\nfronteira, mostrando diferentes agenciamentos e <em>uma tens\u00e3o peculiar \u00e0s exist\u00eancias fronteiri\u00e7as <\/em>(BHABHA, 1998), e<em> formas nem sempre familiares de domina\u00e7\u00e3o\nestrutural <\/em>(SCHMIDT, 2011).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BHABHA, H. <em>O local da cultura<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Myriam \u00c1vila; Eliana Louren\u00e7o de Lima Reis; Gl\u00e1ucia Renate Gon\u00e7alves. Belo Horizonte: UFMG, 1998BOLA\u00d1O, Roberto. 2666. Barcelona: Editorial Anagrama, 2004.<\/li><li>DELEUZE, Gilles e GUATTARI, F\u00e9lix. <em>Mil plat\u00f4s: capitalismo e esquizofrenia, vol. 4<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Suely Rolnik. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2012.<\/li><li>DELEUZE, Gilles e GUATTARI, F\u00e9lix. <em>O que \u00e9 a filosofia?.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Mu\u00f1oz. Rio de Janeiro: Editora 34, 2002.<\/li><li>SCHMIDT, R. O pensamento-compromisso de Homi Bhabha: notas para uma introdu\u00e7\u00e3o. In: BHABHA, H.&nbsp;<em>O bazar global e o clube dos cavalheiros ingleses<\/em>: textos seletos de Homi Bhabha. Organiza\u00e7\u00e3o de Eduardo Coutinho. Tradu\u00e7\u00e3o de Teresa Carneiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. p. 13-61.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Roberto Bola\u00f1o, Territorializa\u00e7\u00e3o\/Desterritorializa\u00e7\u00e3o, Literaturas Nacionais, Cr\u00edtica Liter\u00e1ria, Literatura Hispano-Americana.<\/p>\n\n\n\n<h4>14 Do texto liter\u00e1rio a vida submersa: uma an\u00e1lise\nem&nbsp;<em>El r\u00edo s\u00edn orillas&nbsp;<\/em>de Jose Juan Saer<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Fidelainy Sousa Silva <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em&nbsp;<em>El\nrio s\u00edn orillas<\/em>, o argentino Jose Juan Saer coaduna duas ideias centrais\nque abordaremos ao longo deste texto: a \u00e1gua do rio como personagem principal\ne&nbsp;<em>Tratado imagin\u00e1rio&nbsp;<\/em>como possibilidade te\u00f3rica. A teoria\nliter\u00e1ria enquanto categoria fixa \u00e9 a problem\u00e1tica discutida neste texto.\nPretende redirecionar o olhar liter\u00e1rio para escritas provocadas por elementos\nda natureza, sem hierarquizar o poder do escritor sobre o rio. Com inten\u00e7\u00e3o de\nprovocar um alargamento do conceito ficcional do livro de Saer devemos pautar a\nargumenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, principalmente, em Ana Pizarro (2012). Ela aponta sobre a\nimposi\u00e7\u00e3o de estruturas acad\u00eamicas contar a hist\u00f3ria oficial sem perceber a\naus\u00eancia de vozes m\u00faltiplas das regi\u00f5es de rios importantes como o rio\nAmazonas. A proposta dessa investiga\u00e7\u00e3o al\u00e9m ampliar o constructo do tratado\nimagin\u00e1rio, pretende destacar a contribui\u00e7\u00e3o de Saer para a intersec\u00e7\u00e3o entre a\nescrita ficcional, n\u00e3o-ficcional e hist\u00f3rica. Portanto, esse debate abre para\nconvergir vozes silenciadas que n\u00e3o puderam narrar sobre as \u00e1guas do rio da\nPrata. Dentro da perspectiva saeriana, o rio interfere, reorganiza e expande as\nparticularidades da escrita liter\u00e1ria, assim como, amplia o espa\u00e7o\/tempo\norganizado pelos contornos do&nbsp;<em>fluir&nbsp;<\/em>do rio. Ademais, dentro de\num campo amplo&nbsp;<em>El rio s\u00edn orillas<\/em>&nbsp;<em>re<\/em>dimensiona, inclusive,\na forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria latino-americana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Rio da Prata; tratado imagin\u00e1rio; Jose Juan Saer.<\/p>\n\n\n\n<h4>15 O poder\nde quase todos: a pol\u00edtica emergente da conforma\u00e7\u00e3o social apresentada em <em>O\nSenhor das Moscas<\/em>, de William Golding<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Juliana Boeira da Silva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Publicado\nem 1954 por William Golding, <em>O Senhor das Moscas<\/em> aborda a trajet\u00f3ria de\num grupo de meninos que sofrem um acidente de avi\u00e3o e caem em uma ilha deserta,\nnecessitando criar sua pr\u00f3pria conforma\u00e7\u00e3o de sociedade para sobreviver. Dessa\nforma, v\u00e3o irrompendo l\u00edderes e pequenos grupos dentro daquele sistema, que vai\nse configurando diante de disputas de poder e das necessidades que se mostram\npara os jovens. A partir dessa circunst\u00e2ncia inusual, proponho analisar tanto a\nquest\u00e3o social quanto pol\u00edtica que se manifestam na sociedade rec\u00e9m formada por\nesses meninos. Para embasar a an\u00e1lise de <em>O Senhor das Moscas<\/em>, irei\nassociar dois te\u00f3ricos cujos pensamentos tocam quest\u00f5es importantes presentes\nno livro: Ren\u00e9 Girard e Jacques Ranci\u00e8re. O primeiro fez-se conhecido,\nsobretudo, pela arquiteta\u00e7\u00e3o da teoria do desejo mim\u00e9tico. Essa, em suma, prev\u00ea\nque o desejo n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica inata ao homem, e sim que ele \u00e9 criado a\npartir do desejo de outro. Dessa forma, o indiv\u00edduo seria incapaz de desejar\npor si pr\u00f3prio, precisando sempre de um intermedi\u00e1rio que fa\u00e7a isso previamente.\nEssa hip\u00f3tese cria a ideia do desejo triangular (objeto &#8211; modelo &#8211; sujeito),\ndiante do qual acaba surgindo a viol\u00eancia &#8211; uma vez que h\u00e1 disputa do mesmo\nobjeto por duas pessoas. A partir dessa perspectiva, \u00e9 poss\u00edvel analisar toda a\ndisputa que se instaura entre Ralph (o l\u00edder supremo do grupo) e Jack (que\nfunciona quase como um vil\u00e3o dentro da trama) em <em>O Senhor das Moscas<\/em>,\numa vez que o lugar daquele que comanda \u00e9 constantemente desejado e at\u00e9 mesmo\ninvejado, fazendo com que exista uma intensa disputa de poder. Ainda segundo\nGirard, essa viol\u00eancia que surge da disputa do objeto de desejo passa a ser\nsolucionada pela cria\u00e7\u00e3o de um bode expiat\u00f3rio, transformando a viol\u00eancia\ngeneralizada em um movimento canalizado a apenas um indiv\u00edduo: aquele pass\u00edvel\nde sacrif\u00edcio. Essa rela\u00e7\u00e3o, portanto, faz-se valiosa ao se pensar a figura de\nPorquinho, escolhido pelo grupo para figurar como sofredor desse \u00f4nus. Logo, o\ndesejo mim\u00e9tico e a figura do bode expiat\u00f3rio se relacionam com quest\u00f5es base\napresentadas por William Golding, uma vez que a organiza\u00e7\u00e3o social que parte da\ndisputa de poder e da intimida\u00e7\u00e3o constante de um dos personagens da obra \u00e9 o\nponto de partida para o in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Para\nJacques Ranci\u00e8re, portanto, o pol\u00edtico \u00e9 o encontro de heterogeneidades, por\nisso o processo de atrito \u00e9 t\u00e3o importante para que esse fen\u00f4meno se\nconcretize. A cria\u00e7\u00e3o dessa hierarquia dentro da obra de William Golding,\nent\u00e3o, coloca \u00e0 prova o conceito de pol\u00edtico que o sistema instaurado entre os\njovens prop\u00f5e, uma vez que busca hierarquiz\u00e1-los. Desejo, por conseguinte,\nanalisar a proposi\u00e7\u00e3o de \u201cregime de todos\u201d que tenta ser passada pelos l\u00edderes\ndos meninos na ilha, onde teoricamente foi instaurada uma gest\u00e3o popular, que\nleva em considera\u00e7\u00e3o a opini\u00e3o tanto dos agentes mais importantes (como Ralph e\nJack) quanto daqueles cujo nome nem \u00e9 revelado ao longo da obra.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>GIRARD, Ren\u00e9. A Viol\u00eancia e o sagrado. Tradu\u00e7\u00e3o de Martha Concei\u00e7\u00e3o Gambini. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1990.<\/li><li>GIRARD, Ren\u00e9. Coisas ocultas desde a funda\u00e7\u00e3o do mundo: a revela\u00e7\u00e3o destruidora do mecanismo vitim\u00e1rio. Tradu\u00e7\u00e3o de Martha Gambini. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2008.<\/li><li>GIRARD, Ren\u00e9. Mentira rom\u00e2ntica e verdade romanesca. Tradu\u00e7\u00e3o de Lilia Ledon da Silva. S\u00e3o Paulo: \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es, 2009.<\/li><li>GOLDING, William. O Senhor das Moscas. Tradu\u00e7\u00e3o de Geraldo Galv\u00e3o Ferraz. Rio de Janeiro: Editoria Nova Fronteira, 1983.<\/li><li>RANCI\u00c8RE, Jacques. <em>Politique de la litt\u00e9rature<\/em> . Paris: \u00c9ditions Galill\u00e9, 2007.<\/li><li>RANCI\u00c8RE, Jacques. <em>Dissensus On Politics and Aesthetics<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Steven Corcoran. Nova Iorque: Continuum, 2010.<\/li><li>RANCI\u00c8RE, Jacques. <em>Nas Margens do Pol\u00edtico<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vanessa Brito e Jo\u00e3o Pedro Cachopo. Lisboa: KKYM, 2014.<\/li><li>RANCI\u00c8RE, Jacques. <em>A partilha do sens\u00edvel: est\u00e9tica e pol\u00edtica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00f4nica Costa Netto. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2015.<\/li><li>RANCI\u00c8RE, Jacques. <em>Pol\u00edticas da escrita<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Raquel Ramalhete, La\u00eds Eleonora Vilanova, Ligia Vassalo e Eloisa Ara\u00fajo Ribeiro. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2017.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Pol\u00edtica; Democracia; Desejo Mim\u00e9tico; Bode Expiat\u00f3rio; Distopia.<\/p>\n\n\n\n<h4>16 Emancipar-se\ndo tempo: mimese, ontologia e pol\u00edtica<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Antonio Barros de Brito Junior<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Se Jacques Ranci\u00e8re estiver certo, o tempo da\nemancipa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o tempo das lutas sociais, mas sim o momento no qual o\nindiv\u00edduo, ao subjetivar-se politicamente, efetua um corte na temporalidade das\ncondi\u00e7\u00f5es sociais e inaugura um acontecimento pol\u00edtico pontual, no qual a igualdade\ne a emancipa\u00e7\u00e3o j\u00e1 ocorrem, em vez de ficarem \u00e0 espera de um porvir. Nesse\nsentido, a emancipa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o resultado pr\u00e1tico de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas a\npr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em toda sua efetividade, o que faz com que ela n\u00e3o fique\n\u00e0 espera de um tempo que traga (\u201cde uma vez por todas\u201d ou \u201cde volta\u201d) as\ncondi\u00e7\u00f5es materiais prop\u00edcias para a liberta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Portanto, a partir da\nobra de Jacques Ranci\u00e8re, penso que \u00e9 poss\u00edvel fazer-se a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: a\nemancipa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um emancipar-se <em>no<\/em>\ntempo, mas provavelmente um emancipar-se <em>do<\/em>\ntempo. Logo, considerando-se os v\u00ednculos entre a est\u00e9tica e a pol\u00edtica na obra\nranciereana, pode-se avan\u00e7ar a ousada hip\u00f3tese de que a emancipa\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um\nemancipar-se de um determinado regime est\u00e9tico, o que significa produzir,\npoeticamente, as condi\u00e7\u00f5es efetivas de visibilidade e dizibilidade do pr\u00f3prio\nfrente ao alheio, do pol\u00edtico frente ao sociol\u00f3gico. Nesta comunica\u00e7\u00e3o,\nportanto, daremos mais contornos a essa hip\u00f3tese, tratando especificamente do\nregime mim\u00e9tico das artes, de origem aristot\u00e9lica e consequentemente cl\u00e1ssica,\nque se op\u00f5e ao regime moderno, tribut\u00e1rio das revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da \u00e9poca\nliberal e rom\u00e2ntica. Pretende-se, ent\u00e3o, avaliar como a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\npode ter a ver com uma redefini\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica do ser social atrav\u00e9s da ruptura\npol\u00edtica, pondo em evid\u00eancia as limita\u00e7\u00f5es do regime mim\u00e9tico e possivelmente\nabrindo caminho para outros regimes est\u00e9ticos que, por isso, redefinem o papel\nsocial do humano.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AUERBACH, Eric. <em>Mimese<\/em>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, s.d.<\/li><li>LIMA, Luiz Costa. <em>M\u00edmesis e modernidade<\/em>. Formas das sombras. S\u00e3o Paulo: Paz &amp; Terra, 2003.<\/li><li>RANCI\u00c8RE, Jacques. <em>O Desentendimento<\/em>. Pol\u00edtica e filosofia. Tradu\u00e7\u00e3o de \u00c2ngela Leite Lopes. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1995.<\/li><li>______. <em>O mestre ignorante<\/em>. Cinco li\u00e7\u00f5es sobre a emancipa\u00e7\u00e3o intelectual. Tradu\u00e7\u00e3o de L\u00edlian do Valle. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2005.<\/li><li>______. <em>Nas margens do pol\u00edtico<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vanessa Brito e Jo\u00e3o Pedro Cachopo. Lisboa: KKYM, 2014.<\/li><li>______. O tempo da emancipa\u00e7\u00e3o j\u00e1 passou?. In: SILVA, Rodrigo e NAZAR\u00c9, Leonor (orgs.). <em>A rep\u00fablica por vir<\/em>. Arte, pol\u00edtica e pensamento para o s\u00e9culo XXI. Tradu\u00e7\u00e3o de Vanessa Brito. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 2011.<\/li><li>______. O espectador emancipado. In: RANCI\u00c9RE, Jacques. <em>O Espectador emancipado<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Miranda Justo. Lisboa: Orfeu Negro, 2010.<\/li><li>WAIZBORT, Leopoldo. <em>A passagem do tr\u00eas ao um<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2007.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Jacques Ranci\u00e8re; Est\u00e9tica; Pol\u00edtica; Emancipa\u00e7\u00e3o; Mimese.<\/p>\n\n\n\n<h4>17 Pensando a cat\u00e1strofe com Stengers e Sebald: uma\ninterven\u00e7\u00e3o poss\u00edvel<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Davi Alexandre Tomm<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Desastre\nde Mariana, desastre de Brumadinho, queimadas na Amaz\u00f4nia: em apenas quatro\nanos o pa\u00eds viveu (e ainda est\u00e1 vivendo) os maiores desastres ambientais de sua\nhist\u00f3ria. Por tr\u00e1s destes desastres, e de tantos outros que se repetem na nossa\nhist\u00f3ria mundial, encontramos n\u00e3o s\u00f3 a gan\u00e2ncia humana, como o pr\u00f3prio modo de\nvida imposto pelo sistema capitalista, atrav\u00e9s da sua, aparentemente\nincontest\u00e1vel, ideia de progresso. Nesse contexto, torna-se atual\u00edssimo\ndiscutir as ideias da fil\u00f3sofa belga Isabelle Stengers, no livro <em>No Tempo\ndas Cat\u00e1strofes <\/em>(2015), bem como a obra do autor alem\u00e3o W. G. Sebald, pois\nambas apresentam uma forma de pensar o problema do progresso e da destrui\u00e7\u00e3o da\nnatureza de um modo outro, atrav\u00e9s da afeta\u00e7\u00e3o. A fil\u00f3sofa, no seu ensaio,\nafirma que n\u00f3s estamos em um tempo suspenso entre duas hist\u00f3rias, a primeira,\noficial, nos apresenta claramente as palavras de ordem: \u2018\u00e9 preciso mudar, a\n\u00e9poca mudou, n\u00f3s precisamos todos fazer sacrif\u00edcios\u2019, mas \u00e9 obscura quanto ao\nque significa isso: mais desigualdade social, mais polui\u00e7\u00e3o, mas acirramento da\nguerra econ\u00f4mica, pois o discurso do progresso como crescimento irrefre\u00e1vel\nassume que ele concertar\u00e1 os estragos que produziu, embora o resultado ser\u00e1\napenas novos desastres; a segunda hist\u00f3ria \u00e9 clara quanto ao que est\u00e1\nacontecendo: essa ideia de progresso ruiu, e se continuarmos seguindo-a, vamos\ncontinuar falhando, mas ela ainda \u00e9 obscura quanto \u00e0 resposta poss\u00edvel. Por\u00e9m,\n\u00e9 justamente a clareza dos fatos que se apresentam a n\u00f3s hoje que deve ser\naproveitada para se fazer pensar e aproveitar esse momento para realmente\nmudarmos, n\u00e3o como querem os agentes da primeira hist\u00f3ria, mas de outro modo\nque n\u00e3o envolva a ideia de progresso. Por isso, ela prop\u00f5e uma \u201cinterven\u00e7\u00e3o\u201d\n(2015, p. 5), uma forma de fazer as pessoas pensar de outro modo, uma forma de\ndotar a constata\u00e7\u00e3o evidente de que \u201ca \u00e9poca mudou\u201d, com o poder de nos \u201cfazer\npensar, sentir, imaginar, agir\u201d (p. 17). Esse outro modo de pensar, que envolve\no sentir, o ser afetado, \u00e9 tamb\u00e9m poss\u00edvel atrav\u00e9s da literatura. Sebald foi\ndos que empreenderam uma cr\u00edtica \u00e0 ideia de progresso atrav\u00e9s de sua\nliteratura. Para ele, n\u00f3s estamos sempre preparando a pr\u00f3xima cat\u00e1strofe, mas\nquando ela acontecer, n\u00f3s vamos nos surpreender, pois n\u00e3o percebemos o que\nfazemos: o ser humano \u00e9 uma esp\u00e9cie que n\u00e3o aprende com seus pr\u00f3prios erros. A\nobra de Sebald \u00e9 uma tentativa de mostrar isso atrav\u00e9s do dif\u00edcil conceito de\n\u201chist\u00f3ria natural da destrui\u00e7\u00e3o\u201d, no qual as v\u00e1rias e diferentes cat\u00e1strofes da\nnossa hist\u00f3ria se interconectam, em uma ordem que n\u00e3o pode ser entendida pela\nmera l\u00f3gica causal ou de sucess\u00e3o hist\u00f3rica, nem mesmo como uma mera\nnaturaliza\u00e7\u00e3o do nosso \u00edmpeto destrutivo que nos leva a um dar de ombros\ndizendo: \u201cse \u00e9 assim mesmo, n\u00e3o tem o que fazer\u201d. O que pretendo mostrar aqui,\ncom a aproxima\u00e7\u00e3o entre essas duas obras, \u00e9 como uma ajuda a iluminar a outra,\nnos fazendo pensar, sentir, nos movendo e comovendo para uma interven\u00e7\u00e3o\nposs\u00edvel, nem que seja uma sem respostas prontas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>STENGERS, Isabelle. <em>No Tempo das Cat\u00e1strofes<\/em>: resistir \u00e0 barb\u00e1rie que se aproxima. Trad. Eloisa Ara\u00fajo Ribeiro. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2015.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Cat\u00e1strofes; Cr\u00edtica do progresso; Sebald; Setengers; Interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4>18 Elvira\nVigna e a <em>dif\u00e9rrance<\/em> de Jacques Derrida<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Karen Cristina Garbo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao pensar\nsobre as implica\u00e7\u00f5es espaciais das mudan\u00e7as da narrativa para a literatura\ncontempor\u00e2nea, parte-se dos conceitos desconstrucionistas elaborados por\nJacques Derrida para aplica\u00e7\u00e3o na obra da escritora carioca Elvira Vigna. Por\nacionar diversas indaga\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de seu texto liter\u00e1rio, quais sejam, o\nlugar da escrita feminina e da escrita latino-americana no circuito de produ\u00e7\u00e3o\ncultural, o texto como espa\u00e7o material e metaf\u00f3rico, as reflex\u00f5es da\ncomunica\u00e7\u00e3o passar\u00e3o tamb\u00e9m pelas no\u00e7\u00f5es de centro e periferia, e como estas\nno\u00e7\u00f5es ainda pautam a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da literatura no Brasil e no\nmundo. A an\u00e1lise ser\u00e1 de tr\u00eas romances de Vigna, falecida em 2017: <em>Como se\nestiv\u00e9ssemos em um palimpsesto de putas<\/em> (2016), <em>Nada a dizer<\/em> (2010)\ne <em>Deixei ele l\u00e1 e vim<\/em> (2006). Ao trazer as contribui\u00e7\u00f5es do te\u00f3rico\nfranc\u00eas para a obra de Vigna, provocam-se tamb\u00e9m reflex\u00f5es sobre a\npossibilidade de o texto liter\u00e1rio ser um l\u00f3cus \u00fanico de enuncia\u00e7\u00e3o, trazendo\nassim a literatura (e o texto escrito) para um patamar particular do ato\ncomunicativo. Para isso, a proposta se alia principalmente ao conceito de\ndif\u00e9rrance de Derrida. Este conceito, que d\u00e1 as mostras de uma diferen\u00e7a que s\u00f3\nse percebe no texto escrito, conversa com o fazer liter\u00e1rio e art\u00edstico de\nVigna, que revela no seu texto palimpsesto a consci\u00eancia de um esvanecimento\npr\u00f3prio do discurso, cujo ato de escrita \u00e9 uma luta no sentido de conex\u00f5es e\nperman\u00eancias. A proposta de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 parte da pesquisa desenvolvida no\nmestrado, e nos usos da cr\u00edtica liter\u00e1ria como resposta a um momento pol\u00edtico\nde reconfigura\u00e7\u00e3o dos discursos e narrativas. O fim da temporalidade no\ndiscurso hist\u00f3rico, fen\u00f4meno percebido por Reinhart Koselleck desde os anos\noitenta, mostra assim as suas consequ\u00eancias para a pr\u00e1tica liter\u00e1ria, que passa\npor altera\u00e7\u00f5es irrevers\u00edveis frente a essas novas reconfigura\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferen\u00e7a. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2002.<\/li><li>KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado \u2013 Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 sem\u00e2ntica dos tempos hist\u00f3ricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.<\/li><li>VIGNA, Elvira. Como se estiv\u00e9ssemos em palimpsesto de putas. S\u00e3o Paulo: ed. Companhia das Letras, 2016.&nbsp;<\/li><li>_________. Nada a dizer. S\u00e3o Paulo: ed. Companhia das Letras, 2010.<\/li><li>_________. Deixei ele l\u00e1 e vim. S\u00e3o Paulo: ed. Companhia das Letras, 2006.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Elvira Vigna; Jacques Derrida; Dif\u00e9rrance; Literatura; Espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<h4>19 Por uma literatura do <em>fora<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Rodrigo Gon\u00e7alves Lima<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Prop\u00f5e-se um percurso a partir do\nque poderia ser entendido como um arranjo dos enunciados que comp\u00f5em os <em>agenciamentos<\/em> criados por Maurice\nBlanchot, Gilles Deleuze e J.M. Coetzee. Atrav\u00e9s de conceitos operados por\nBlanchot que permitem um di\u00e1logo com algumas das proposi\u00e7\u00f5es de Deleuze (algo\nque \u00e9 refor\u00e7ado pelo pr\u00f3prio Deleuze em seus escritos ao mencionar algumas\npropostas de Blanchot), busca-se refletir sobre a literatura, o fazer liter\u00e1rio\ne a condi\u00e7\u00e3o do escritor. Reflex\u00f5es que, no entendimento desta proposta,\natravessam o livro <em>Elizabeth Costello<\/em>,\nde Coetzee, e permitem que se opere essa aproxima\u00e7\u00e3o com certas proposi\u00e7\u00f5es dos\noutros dois autores estudados. Contudo n\u00e3o se pretende simplesmente aplicar os\nconceitos de Blanchot ou de Deleuze aos textos de Coetzee, mas sim enxergar\npratic\u00e1veis agenciamentos entre os tr\u00eas. A maneira como se optou por trabalhar\n\u00e9 justamente atrav\u00e9s do encontro entre os autores, avesso a colocar um autor \u00e0\nservi\u00e7o de outro. Assim como n\u00e3o se pretende determinar una a condi\u00e7\u00e3o da\nrela\u00e7\u00e3o entre os autores, mas desenvolver uma das m\u00faltiplas possibilidades que\npoderiam ser aventadas de acordo com as pr\u00f3prias propostas criadas por eles em\nseus textos. Vislumbrar a soma, sustentar o <em>e<\/em>,\npropor uma leve tor\u00e7\u00e3o dos textos para apresentar esse acorde; al\u00e9m de permitir\numa abertura ao pr\u00f3prio texto para gerar maquinarias outras.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 algo de muito caro aos tr\u00eas\nautores em seus textos que est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 linguagem; o modo como\nempregam e concebem a linguagem talvez seja um caminho poss\u00edvel para a proposta\napresentada, conduzindo tamb\u00e9m as maneiras de pensar a literatura e o fazer\nliter\u00e1rio. Empurrar a linguagem at\u00e9 o limite, for\u00e7\u00e1-la quase a desterrar a\nfronteira lim\u00edtrofe que demarca \u2013 ou melhor, <em>desterritorializa <\/em>\u2013 a si mesma, criando uma l\u00edngua estrangeira\ndentro da pr\u00f3pria l\u00edngua atrav\u00e9s do trabalho com a sintaxe e permitindo, assim,\numa quebra, uma fuga do modelo: esse procedimento lingu\u00edstico apresenta uma\ncondi\u00e7\u00e3o outra, a condi\u00e7\u00e3o de um <em>devir-revolucion\u00e1rio<\/em>.\nLevar a linguagem ao seu limite \u00e9 tamb\u00e9m acercar-se do <em>fora<\/em>, \u00e9 fugir ao senso comum e tornar-se errante no deserto, na\nbusca por uma origem inacess\u00edvel e de um <em>povo\nmenor<\/em> que est\u00e1 sempre por chegar. Permitir que a linguagem fale em seu\nsil\u00eancio eloquente: operar a passagem do <em>eu<\/em>\npara o <em>ele<\/em>, esta <em>solid\u00e3o essencial <\/em>submetida ao escritor que, a partir do <em>tom<\/em> imprimido no texto, assente cada vez\nmais nessa eloquente fala. \u00c9 evidenciar o neutro, \u00e9 evidenciar a linguagem em\nseu ser.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BLANCHOT, Maurice. <em>Livro por vir<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Leyla Perrone-Mois\u00e9s. S\u00e3o Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.<\/li><li>BLANCHOT, Maurice. <em>O espa\u00e7o liter\u00e1rio<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de \u00c1lvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.<\/li><li>DELEUZE, Gilles. <em>Cr\u00edtica e Cl\u00ednica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Peter P\u00e1l Pelbart. S\u00e3o Paulo: Ed. 34, 1997.<\/li><li>DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. <em>Kafka<\/em>: por uma literatura menor. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2014.<\/li><li>DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. <em>Di\u00e1logos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Gabriel Cunha. Lisboa: Rel\u00f3gio D\u2019\u00e1gua, 2004.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Maurice Blanchot; Gilles Deleuze; J.M. Coetzee; Literatura; Escrever.<\/p>\n\n\n\n<h4>20 A obsess\u00e3o do p\u00f3s-modernismo com o passado, segundo\nLinda Hutcheon<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Jefferson Jos\u00e9 Pereira Figueiredo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O\nobjetivo desse estudo \u00e9 compreender por que o p\u00f3s-modernismo, segundo Linda\nHutcheon, e seus romances t\u00eam como um dos eixos centrais tem\u00e1ticos a\npreocupa\u00e7\u00e3o com a Hist\u00f3ria, \u00e1rea do conhecimento. No entremeio das teorias\np\u00f3s-estruturalistas francesas e dos estudos culturais, o p\u00f3s-modernismo insiste\nem investigar os caminhos pelos quais se transmite o conhecimento, refletindo\nn\u00e3o s\u00f3 sobre o saber em si como tamb\u00e9m sobre como e por que ele estrutura as\nideias apresentadas. Hutcheon (1991) desenvolve o conceito de <em>metafic\u00e7\u00e3o\nhistoriogr\u00e1fica<\/em>, o qual articula a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento hist\u00f3rico e da\nsua metaprodu\u00e7\u00e3o enquanto processo. Assim, partindo de alguns conceitos, tais\ncomo Benveniste (1976) e seu sistema enunciativo, Foucault (2008, 2013) e a\nquest\u00e3o sobre a composi\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o da <em>epist\u00e9m\u00ea, <\/em>Lyotard (2002) e a\ncrise das narrativas mestras do conhecimento, White (1978) e a sua reflex\u00e3o\nsobre a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento hist\u00f3rico, a autora aponta a necessidade das\nnarrativas do p\u00f3s-modernismo de sempre tratarem o conhecimento como algo a ser\nconclu\u00eddo ou complementado, n\u00e3o como um objeto fechado e completo. Portanto, o\npassado se imp\u00f5e como grande objeto de pesquisa, uma vez que a consci\u00eancia\nsobre a sua elabora\u00e7\u00e3o traz consigo a necessidade de compreender \u2013 e, por\nvezes, discordar \u2013 sobre o que se apresenta como a verdade. Logo, pretendo\nabordar a forma com que Hutcheon (1990, 1991) desenvolve a necessidade do\nquestionamento constante sobre a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento hist\u00f3rico enquanto\nsaber, focando nas semelhan\u00e7as existentes entre a constru\u00e7\u00e3o do discurso\nliter\u00e1rio e do hist\u00f3rico. Proponho apontar como conceitos como ironia (Hutcheon\n2000) e par\u00f3dia (Hutcheon 1989) s\u00e3o determinantes para a nova proposta de\n(re)avaliar o conhecimento hist\u00f3rico ao mesmo tempo em que as narrativas\np\u00f3s-modernistas exp\u00f5e as formas que seus discursos s\u00e3o produzidos. A discuss\u00e3o\nsobre ironia e par\u00f3dia enquanto ferramentas ret\u00f3ricas privilegiadas acontece\ndevido ao seu papel de desestruturar o conhecimento abordado enquanto n\u00e3o o\nsubstitui, servindo como mecanismos que advertem para n\u00e3o sobrepor uma fala por\noutra, apagando a primeira \u2013 fato que \u00e9 central na sua cr\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BENVENISTE, \u00c9mile. <em>Problemas de lingu\u00edstica geral.<\/em> S\u00e3o Paulo: Editora da USP, 1976.<\/li><li>FOUCAULT, Michel. <em>A arqueologia do saber<\/em>. 7\u00aa ed. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2008.<\/li><li>_______. <em>A ordem do discurso<\/em>: aula inaugural do Coll\u00e8ge de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 23 ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2013<\/li><li>HUTCHEON, Linda. <em>Po\u00e9tica do p\u00f3s-modernismo<\/em>: hist\u00f3ria, teoria e fic\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, 1991.<\/li><li>______. <em>Teoria e pol\u00edtica da ironia<\/em>. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000.<\/li><li>______. <em>The politics of postmodernism.<\/em> London: Routledge, 1990.<\/li><li>______. <em>Uma teoria da par\u00f3dia<\/em>: ensinamentos das formas de arte do s\u00e9culo XX. Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1989.<\/li><li>LYOTARD, Jean-Fran\u00e7ois. <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna<\/em>. 7\u00aa ed. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2002.<\/li><li>WHITE, Hayden<em>. Tropics of the discourse:<\/em> essays in cultural criticism. Baltimore: John Hopkins Press, 1978.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Linda Hutcheon; p\u00f3s-modernismo; Hist\u00f3ria; ironia; par\u00f3dia.<\/p>\n\n\n\n<h4>21 Entre a\ncegueira e a lucidez: um di\u00e1logo com o Estoicismo<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Pedro Nunes de Castro<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este\nartigo segue a esteira de outros estudos que evidenciaram a intera\u00e7\u00e3o prof\u00edcua\nque Jos\u00e9 Saramago estabelece em sua obra de fic\u00e7\u00e3o com a filosofia. Salzani e\nVanhoutte (2018) s\u00e3o organizadores de uma colet\u00e2nea com doze artigos em que\nexplicitam not\u00e1veis contribui\u00e7\u00f5es sobre o patrim\u00f4nio filos\u00f3fico presente nas\nnarrativas saramaguianas. Em \u201cIntroduction: Proteus the Philosopher, or Reading\nSaramago as a Lover of Wisdom\u201d, os pesquisadores acima comentam as declara\u00e7\u00f5es\ndo escritor sobre a sua rela\u00e7\u00e3o com a filosofia. O ficcionista, por vezes se\nautodenominou ignorante nesta mat\u00e9ria, no entanto os autores atentam para a\npossibilidade de ele estar utilizando-se do artif\u00edcio socr\u00e1tico: a ironia. E os\ndemais textos do livro confirmam esta hip\u00f3tese, porquanto indicam a presen\u00e7a de\num amplo leque de correntes filos\u00f3ficas na obra saramaguiana, tais como,\nFoucault, Filosofia da Hist\u00f3ria e Karl Marx. Uma aus\u00eancia, n\u00e3o podemos deixar\nde assinalar, \u00e9 a da filosofia estoica neste relevante volume. Recordamos, por\nseu turno, que j\u00e1 existem trabalhos apontando nesta dire\u00e7\u00e3o. Um deles \u00e9 a tese\ndefendida na Universidade Federal de Santa Catarina \u2013 UFSC \u2013 sob o t\u00edtulo de\n\u201cTodos os nomes da cegueira de Ricardo Reis\u201d (CASTRO, 2016) e um artigo\npublicado na Revista Veredas que se prop\u00f5e a evidenciar algumas das facetas do\nEstoicismo que repercutem na fic\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio Nobel (CASTRO; CARDOSO, 2017). \u00c9\nsobre esta tem\u00e1tica espec\u00edfica a proposta de comunica\u00e7\u00e3o. Fixando-nos em O ano\nda morte de Ricardo Reis (1984), Ensaio sobre a cegueira (1995) e Ensaio sobre\na lucidez (2004) desvelamos os componentes estoicos que subjazem a estas\nnarrativas. O \u00e2mbito \u00e9tico desta filosofia, sobrevalorizado na fase romana,\nprescreveu diretrizes para que o ser humano alcance a eudaimon\u00eda, isto \u00e9, que\nseja feliz e virtuoso. Entretanto, tais preceitos acarretaram uma polaridade\nhermen\u00eautica: facultou-se a infer\u00eancia de que a atitude apropriada para se\ntornar uma pessoa virtuosa \u00e9 adaptar-se \u00e0s circunst\u00e2ncias, preconizando uma\natua\u00e7\u00e3o contemplativa, e de outro lado, autoriza-se a dedu\u00e7\u00e3o de que as\ncircunst\u00e2ncias devam ser moldadas de acordo com as convic\u00e7\u00f5es, reportando-se a\numa exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o (REALE, 1994). E os romances do escritor portugu\u00eas\nexplicitam, atrav\u00e9s dos protagonistas Ricardo Reis e a mulher do m\u00e9dico, uma\nreflex\u00e3o sobre a \u00e9tica reproduzindo a duplicidade interpretativa mencionada.\nEntendemos que real\u00e7ar e distinguir tais conte\u00fados da filosofia referida na\nfic\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio Nobel em literatura suscitar\u00e1 inovadoras interpreta\u00e7\u00f5es do\ntexto liter\u00e1rio. Sob o prisma metodol\u00f3gico, referenciamo-nos nas teorias de\nKristeva (1974), e de Mikhail Bakhtin (1981). <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>CASTRO, Pedro Nunes de. Todos os nomes da cegueira de Ricardo Reis: estratos estoicos na obra saramaguiana. 2015. Tese (doutorado). Universidade Federal de Santa Catarina \u2013 UFSC. Florian\u00f3polis, SC, 2016.<\/li><li>______; CARDOSO, Rosane Maria. O ano da vida e da morte do estoico Ricardo Reis. Veredas, Revista da Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Lusitanistas. n. 27, p. 158-175, jan-jun, 2017.<\/li><li>REALE, Giovanni. Hist\u00f3ria da Filosofia Antiga. Tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Perine; Henrique C. de Lima Vaz. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1994. Vol. III.<\/li><li>SALZANI, Carlo. VANHOUTTE, Kristof (eds.). Saramago\u2019s Philosophical Heritage. Palgrave Macmillan, 2018.&nbsp; <\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Estoicismo; Cegueira; Lucidez; Intertextualidade; Dialogismo.<\/p>\n\n\n\n<h4>22 Reflex\u00f5es de Merleau-Ponty para uma interface entre\na literatura e a filosofia<\/h4>\n\n\n\n<p><em>\u00c9der Corr\u00eaa <\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A\nfilosofia fenomenol\u00f3gica de Maurice Merleau-Ponty sofreu de certo ostracismo\ndurante os \u00faltimos vinte anos. Suas coloca\u00e7\u00f5es foram reatualizadas\ncontemporaneamente pelos seus estudos sobre o corpo, que evidenciaram estar\nseus conceitos de acordo com os \u00faltimos estudos da neuroci\u00eancia. Todavia, sua\nobra refletiu o corpo n\u00e3o apenas como uma ruptura do dualismo cartesiano, mas\ncomo uma posi\u00e7\u00e3o do sujeito no mundo. Para Merleau-Ponty, a redu\u00e7\u00e3o\nfenomenol\u00f3gica, discordando de Husserl, \u00e9 um reaprender a ver o mundo. Essa\nforma de reaprender \u00e9 comparada, por ele, com a arte. Pela arte vemos o mundo\nde outro \u00e2ngulo. Al\u00e9m disso, a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica cria \u201cuma verdade diferente\u201d\ndaquela que se est\u00e1 acostumado a perceber, ou seja, a arte \u00e9 uma reconstru\u00e7\u00e3o\ndo sentido do mundo feita pelo artista. O pensamento ocidental constr\u00f3i-se\nsobre um conjunto de dicotomias: o sujeito e o objeto, a alma e o corpo, o\ninterior e o exterior, a ideia e a coisa, a representa\u00e7\u00e3o e o fato, a vida e a\nobra, etc. Merleau-Ponty pressup\u00f5e que a \u00fanica maneira de conseguir captar os\nfen\u00f4menos \u00e9 eliminando essas dicotomias, pois qualquer an\u00e1lise feita sobre um\nelemento sempre colocar\u00e1 a ideia oposta em contraponto. Seu desejo \u00e9 estudar e\ndescrever <em>os pares<\/em>, sem divis\u00e3o. Corpo e percep\u00e7\u00e3o s\u00e3o insepar\u00e1veis:\npara que exista percep\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso que exista corpo e para que se tenha a\nno\u00e7\u00e3o de ser um sujeito corporificado \u00e9 preciso percep\u00e7\u00e3o. A inten\u00e7\u00e3o da fenomenologia\ndo fil\u00f3sofo franc\u00eas \u00e9 eliminar completamente o dualismo cartesiano. A filosofia\nseria naturalmente uma est\u00e9tica, aponta Merleau-Ponty, pois arte e filosofia\nt\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o t\u00eanue e contribuem para modificar nossa percep\u00e7\u00e3o (<em>a\u00edsthesis<\/em>).\nO fil\u00f3sofo falou sobre a experi\u00eancia humana em um mundo fenomenal, de conceitos\nque s\u00e3o adquiridos por meio da experi\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos objetos que se\ndisp\u00f5em no entorno dos sujeitos. Entre essas rela\u00e7\u00f5es, a filosofia\nmerleau-pontyana dedicou especial apre\u00e7o \u00e0 arte, que, para ele, \u00e9 semelhante \u00e0\npr\u00f3pria filosofia ao desenvolver quest\u00f5es que s\u00e3o caras ao pensamento e aos\nseres humanos. Embora nunca tenha escrito um grande texto dedicado\nexclusivamente ao tema, suas proposi\u00e7\u00f5es encontram-se espalhadas em suas obras,\nde maneira que \u00e9 poss\u00edvel esbo\u00e7ar um entendimento da arte por meio da leitura\ndas obras de Merleau-Ponty. A import\u00e2ncia que Merleau-Ponty deu \u00e0 arte,\nprincipalmente \u00e0 literatura, merece destaque e \u00e9 digna de ser melhor\naprofundada para a compreens\u00e3o de uma poss\u00edvel teoria est\u00e9tica fenomenol\u00f3gica\nque reconhe\u00e7a o corpo como agente de produ\u00e7\u00e3o do objeto art\u00edstico e de sentido\ndo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Discurso do m\u00e9todo. As paix\u00f5es da alma. Medita\u00e7\u00f5es. Obje\u00e7\u00f5es e respostas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1996.<\/li><li>HURSSEL, Edmund.. <em>Medita\u00e7\u00f5es cartesianas<\/em>: introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 fenomenologia. S\u00e3o Paulo: Madras, 2001.<\/li><li>MERLEAU-PONTY, Maurice. <em>Fenomenologia da percep\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015.&nbsp;<\/li><li>MERLEAU-PONTY, Maurice . <em>O vis\u00edvel e o invis\u00edvel.<\/em> S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2014.&nbsp;<\/li><li>MERLEAU-PONTY, Maurice . O fantasma da linguagem pura. In: MERLEAU-PONTY, Maurice . <em>A prosa do mundo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac&amp;Naify, 2006.&nbsp;<\/li><li>MERLEAU-PONTY, Maurice . <em>O olho e o esp\u00edrito<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac&amp;Naify, 2004.<\/li><li>MERLEAU-PONTY, Maurice<em> . Parcours deux<\/em>. Lagrasse: Verdier, 2001.<\/li><li>MERLEAU-PONTY, Maurice . <em>Signos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1991.<\/li><li>MERLEAU-PONTY, Maurice. Le roman et la m\u00e9taphysique.&nbsp; In:&nbsp; MERLEAU-PONTY, Maurice . <em>Sens et nonsense<\/em>. Paris: Nagel, 1966. p.45-72.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Merleau-Ponty; fenomenologia; percep\u00e7\u00e3o; est\u00e9tica; literatura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CR\u00cdTICAS, POL\u00cdTICAS E INTERNACIONALIZA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA Antonio Barros, Antonio Sanseverino, Cl\u00e1udia Caimi e Rejane Pivetta O que \u00e9 \u201cestar\u201d em uma cultura, para quem se dedica ao estudo te\u00f3rico-cr\u00edtico da literatura? 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