Problemas teórico-metodológicos: uma investigação sobre a Cachorro Grande e o rock gaúcho

Carolini Govari Nunes
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS)

Resumo

Nosso problema propõe sistematizar e detalhar as tensões identitárias presentes na banda Cachorro Grande e suas relações com as cenas musicais de Porto Alegre e Manchester (Inglaterra). Pensamos a música como objeto de identidade cultural e discutimos possíveis paralelos entre tais cenas musicais. Atravessando conflitos teóricos e metodológicos, tentamos fazer a teoria do nosso objeto, o qual se desdobra em ângulos como, por exemplo, cenas musicais, identidades culturais e arqueologia da mídia – tudo uso propondo uma metodologia ancorada na etnografia.

Tema

O tema sugere pensar a relação entre identidades, cultura e música. Trabalhamos especialmente com o “Costa do Marfim”, disco mais recente da banda gaúcha Cachorro Grande, pois no novo disco houve um rompimento – ou uma repaginação, ou mudanças performáticas – da própria identidade do grupo.

Objeto de pesquisa

A banda Cachorro Grande. Por meio dela, pensamos em remanejos identitários e tentamos identificar se é possível traçar um paralelo entre as cenas musicais de Porto Alegre e Manchester.

Problema

No decorrer de nosso trabalho, levantamos a suposição de um possível diálogo entre cenas musicais de Porto Alegre e Manchester. Ao que tudo indica, o rock gaúcho já estaria dando indícios  dessa relação.  A Cachorro Grande, por hipótese, é a banda que melhor realiza isto, assume isto, dentro do mercado e, mesmo assim, debatendo-se com uma identidade local que se tem (uma identidade mítica, estereotipada) de rock gaúcho. Nos parece plausível averiguar se existe mesmo uma semelhança de matrizes culturais no aspecto pós-punk de Manchester e na música juvenil feita em Porto Alegre de meados dos anos 1970 pra cá. Então será, por exemplo, que a Cachorro Grande, agora, com o disco “Costa do Marfim”, deu finalmente maior formatação para essa conversa Porto Alegre – Manchester?

Filiação teórica

Quando pensamos em questões identitárias, ancoramo-nos em autores como, por exemplo, Stuart Hall, já que este comenta que as identidades são pontos de afeição temporária às posições do sujeito que as práticas discursivas reúnem para nós. Kathryn Woodward e Tomaz Tadeu da Silva, com seus aportes sobre identidade e diferença, também se mostram relevante aqui. Nas questões de cenas musicais, Will Straw é quem nos dá suporte para a discussão, descrevendo cenas como espaços culturais mutáveis e fluidos (que pensamos junto às feições temporárias de Hall e problematizamos nestas cenas que se reconfiguram constantemente). Ainda, Friedrich Kittler e Seigfried Zielinski aparecem para nos ajudar a discutir a arqueologia da mídia. Eles nos explicam que esse pensamento aparece como uma modernização da arqueologia do saber de Foucault para o audiovisual e a era da mídia digital. Através da perspectiva da materialidade, esta acaba rompendo com as teorias de mídia clássicas. Pensamos que pode ser importante fazer a arqueologia da Cachorro Grande para avaliar um pequeno acidente numa parte da evolução ou do processo histórico maior, que, neste caso, seria o rock gaúcho.

Impasses atuais

Nossa metodologia baseia-se na etnografia, um método antropológico. Dessa forma, vários questionamentos surgem ao aplicar o método etnográfico no ambiente comunicacional. Alguns dos principais impasses decorrem justamente das características do método, que estamos, no momento, nos aproximando. Por exemplo: a) O que fazer para não correr o risco de a pesquisa ficar calcada somente na antropologia? b) Até que ponto eu, enquanto pesquisador, devo ficar neutro ou atuar dentro do campo? c) O que observar nestes observáveis? E como observar, já que o método pede um olhar que não deve ser nem desenvolto nem extremamente concentrado? d) E quais os cuidados que devemos ter com o método, já que nossos objetos falam (pois não queremos que suas falas sejam a resposta de nosso problema, mas sim algo a ser analisado)?