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Ulisses com Beuys e Joyce
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Metadados
Miniatura
Título
Ulisses com Beuys e Joyce
Autor
Data de produção
1985
Denominação
Número de Registro
IA1172
Classificação
Dimensões com Moldura
[não se aplica]
Dimensões
11cm x 20,5cm
Técnica
Comentários
Lenir Garcia de Miranda (Pedro Osório, RS, 1945) é formada em Pintura (Escola de Belas Artes de Pelotas, RS, 1966) e Comunicação Social – Jornalismo (PUCRS, Porto Alegre, RS, 1975), tendo especializações em Desenho e em História da Arte, bem como Mestrado em Artes Visuais, ênfase em Poéticas Visuais (UFRGS, Porto Alegre, RS, 2004). Atuou como professora junto ao Instituto de Letras e Artes da Universidade Federal de Pelotas (ILA–UFPEL) e também como professora visitante na School of Art and Design, em Sutherland, Inglaterra. Marcado pelo viés expressionista, seu trabalho estabelece um vigoroso diálogo entre o universo das artes visuais e da literatura, sobretudo a partir do resgate do personagem Ulisses, paradigma tanto de Homero (século VIII a.C.), como de James Joyce (1882–1941).
Lenir entrou em contato com Ulisses ainda nos anos 1960, mas foi nas duas décadas seguintes que ele emergiu em sua poética. A jornada de Ulisses é marcada não somente pela tentativa de retorno à sua casa, como pela busca de conhecimento. E, nesse percurso, ele enfrenta diversos obstáculos. Para sobreviver, precisa negar a própria identidade, o que lhe constitui; precisa perseverar. Lenir diz que “somos todos Ulisses”, uma vez que, ao lançar-se ao mundo, cada indivíduo enfrenta seus próprios ciclopes, seus próprios demônios.
O livro-objeto Ulisses com Beuys e Joyce presta três grandes homenagens: a Ulisses, ao já citado Joyce e ao alemão Joseph Beuys (1921–1986), um dos mais influentes artistas da segunda metade do século XX.
A capa, em feltro, é uma referência a Beuys, em cujo trabalho esse material era recorrente. Nela estão presas, graças a um fio de nylon, duas penas antigas, que aludem ao universo da escrita e da literatura. O fio que as fixa também prende a capa à primeira página do livro, fazendo com que, para abrí- -lo, seja necessário empregar força, interagindo com o objeto como se fosse um organismo vivo. Na abertura, identificamos o seguinte texto: “São como caracteres alquímicos para descortinar alguma verdade que deve ser registrada. Um modo de adivinhação, para os indícios de alguma cena captada. Foram feitos muitos destes desenhos em pequenas folhas que, ao se agruparem, formavam, anunciavam códigos a serem decifrados para algum vaticínio, uma prenunciação para alguém além de mim.”
Na página seguinte, uma colagem pergunta: “Que signos são esses que me deixaram e que, sozinha, eu retorno para descobrir?”, que parece replicar a imagem subsequente, uma ampliação do primeiro bloco caligráfico, remetendo-nos a um desdobramento da pintura rupestre. “And with the remembering of J. Beuys” é a anotação na quarta página, imediatamente antes da fotocópia da pintura de um ciclope. Lenir já havia referenciado Beuys em outros trabalhos, como na performance Como ensinar pintura a uma galinha viva?, apresentada na UFPEL em 1988, uma referência direta à antológica Como explicar arte a uma lebre morta? (1965), do artista alemão.
Na penúltima página, encontra-se, em inglês, um trecho da parte III do Ulisses de Joyce, do Episódio Ítaca, que Lenir também adotou em sua Dissertação de Mestrado. ”Diz respeito à nossa dificuldade de entendimento dos caracteres ali citados, do grego, romano, de hieróglifos etc, na antecipação de modernos caracteres. Fala da nossa capacidade de reflexão sobre os significados a partir destes signos”, explica. A última página, a versão traduzida do trecho anterior, foi colada à contracapa por uma manifestação da goma laca sobre o material do livro, que Lenir permitiu para que, ao agir sobre ele próprio, o livro, além da história que contava, adquirisse outra: a história de si mesmo.
Com uma vigorosa produção pictórica, Lenir de Miranda trabalhou, nos anos 1970 e 1980, com diversas mídias alternativas, como xerox, vídeo e fax; também teve uma intensa participação no circuito da Mail Art internacional, participando de projetos em vários países. Desde a década de 1990, principalmente, a artista, que vive em Pelotas (RS), tem desenvolvido livros de artista; todos eles, no dizer de Paulo Silveira, “obscenamente plásticos” (SILVEIRA, 2001, p.235). O exemplar que integra a Pinacoteca Barão de Santo ngelo é um desses exemplares, importante não somente pela sua exuberância formal, mas por expressar de modo intenso a relação de Lenir com Joseph Beuys, sua referência inconteste no campo das artes visuais, e James Joyce, sua referência inconteste no campo da literatura. Ambos atravessados pelo espírito de Ulisses, leitor de sinais.
ALINE CORANGE
FONTE DO TEXTO:
CORANGE, ALINE. Lenir Garcia de Miranda (1853–1929). In: GOMES, Paulo (Org.). Pinacoteca Barão de Santo Ângelo: Catálogo Geral (1910-2014). 1. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2015. v. 2, p. 590.
Data de aquisição
2014
Doador
Condições de reprodução
As imagens são liberadas para trabalhos escolares; outros usos mediante autorização, conforme a Lei de Direitos Autorais: Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Crédito obrigatório: Acervo Artístico IA-UFRGS.


