{"id":112,"date":"2020-06-16T19:42:31","date_gmt":"2020-06-16T19:42:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/?page_id=112"},"modified":"2021-02-04T12:11:10","modified_gmt":"2021-02-04T12:11:10","slug":"apresentacao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/","title":{"rendered":"O projeto"},"content":{"rendered":"\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\"><strong>Sobre o projeto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:12px\"> Jos\u00e9 Rivair Macedo e Thuila Ferreira<\/p>\n\n\n\n<p><em>Biografias de mulheres africanas<\/em> \u00e9 o resultado de um projeto de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica desenvolvido por estudantes de gradua\u00e7\u00e3o e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no per\u00edodo de 2018 \u2013 2020. Seu objetivo, eminentemente pedag\u00f3gico, \u00e9 dar a conhecer informa\u00e7\u00f5es sobre a vida do maior n\u00famero poss\u00edvel de mulheres nascidas no continente africano, das origens aos dias atuais, de modo a oferecer subs\u00eddios de ensino e pesquisa sobre a hist\u00f3ria das mulheres africanas em todos os n\u00edveis de educa\u00e7\u00e3o \u2013 em l\u00edngua portuguesa. Inspirou-nos a constata\u00e7\u00e3o de que, ao procurar referenciais biogr\u00e1ficos de mulheres africanas, quase nada se encontra neste idioma \u2013 em geral, as fontes neste sentido est\u00e3o em l\u00edngua inglesa, e, secundariamente, francesa. Esta dificuldade por n\u00f3s sentida, que se estende a pesquisadores, estudantes e sociedade civil em geral, nos levou \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do projeto, agora concretizado no presente s\u00edtio eletr\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho, a equipe de estudantes teve acesso ao <em>Dictionary of African Biography<\/em>, coordenado por Emmanuel K. Akyeampong e Henry Louis Gates Jr (Oxford, 2012). Esta obra serviu de consulta na proposi\u00e7\u00e3o de centenas de biografias de mulheres, em sua maior parte, desconhecidas fora dos c\u00edrculos especializados de pesquisadores(as). Os verbetes desta publica\u00e7\u00e3o serviram de base para a elabora\u00e7\u00e3o de minibiografias com a identifica\u00e7\u00e3o da origem e forma\u00e7\u00e3o escolar e\/ou profissional, condi\u00e7\u00e3o social, trajet\u00f3ria p\u00fablica e eventos que caracterizam cada uma das personagens biografadas. Na pesquisa, tamb\u00e9m foram consultados outros dicion\u00e1rios especializados, assim como s\u00edtios eletr\u00f4nicos, artigos acad\u00eamicos, livros, e a Wikip\u00e9dia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a preocupa\u00e7\u00e3o principal tenha sido com a biografia de mulheres cuja exist\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 comprovada por documenta\u00e7\u00e3o e evid\u00eancias hist\u00f3ricas, reservamos algum espa\u00e7o para a inclus\u00e3o de personagens que povoam o imagin\u00e1rio das sociedades africanas ou cuja exist\u00eancia vincula-se ao plano das tradi\u00e7\u00f5es orais (se\u00e7\u00e3o \u201cLegend\u00e1rias e m\u00edticas\u201d), assim como para seres anatomicamente femininos considerados importantes na escala evolutiva da humanidade (se\u00e7\u00e3o \u201cA g\u00eanese africana\u201d). Esta decis\u00e3o foi tomada em respeito ao modo de pensar de diversas culturas africanas, em que a no\u00e7\u00e3o de pessoa n\u00e3o se restringe aos corpos, mas abrange os(as) ancestrais e entes n\u00e3o-humanos. Tamb\u00e9m foram inclu\u00eddas mulheres de origem africana cuja vida ocorreu parcialmente em situa\u00e7\u00e3o de di\u00e1spora em virtude dos tr\u00e1ficos internacionais de cativos atrav\u00e9s do Saara, do Mar Mediterr\u00e2neo, do Oceano \u00cdndico e do Oceano Atl\u00e2ntico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As minibiografias poder\u00e3o ser acessadas a partir de um \u00edndice alfab\u00e9tico, ou por meio de diversas se\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas criadas a partir da identifica\u00e7\u00e3o de localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica ou localiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, e de acordo com a situa\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00e3o ou atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica das mulheres. Isso permite conferir certa uniformiza\u00e7\u00e3o de grupos, perfis e tra\u00e7os distintivos das mulheres africanas aqui apresentadas, oferecendo possibilidades de percep\u00e7\u00e3o da heterogeneidade e diversidade da hist\u00f3ria das mulheres de todas as partes do continente. Como ao final de cada personagem biografada constam indica\u00e7\u00f5es bibliogr\u00e1ficas, o material disponibilizado convida a ir al\u00e9m das informa\u00e7\u00f5es fornecidas em pesquisa mais aprofundada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com o Projeto <em>Biografias de Mulheres Africanas<\/em>, espera-se que o p\u00fablico brasileiro e que o p\u00fablico dos pa\u00edses africanos de fala oficial portuguesa possa encontrar referenciais iniciais para o reconhecimento do papel distintivo e crucial que as mulheres africanas desempenham em suas respectivas sociedades. Espera-se tamb\u00e9m que as mulheres negras da di\u00e1spora possam encontrar meios de aproxima\u00e7\u00e3o com as africanas, de modo a identificar pautas comuns e situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas em suas reivindica\u00e7\u00f5es, a\u00e7\u00f5es e conquistas. Em todos os casos, o conhecimento p\u00fablico, compartilhado, \u00e9 um instrumento essencial para a busca pela equidade racial, de g\u00eanero, e para uma tomada de consci\u00eancia pol\u00edtica e cultural em \u00e2mbito transcontinental.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile is-vertically-aligned-center\" style=\"grid-template-columns:15% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" width=\"300\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Rivair_foto.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4399 size-full\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Rivair_foto.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Rivair_foto-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-left\" style=\"font-size:12px\"><strong>Jos\u00e9 Rivair Macedo<\/strong>&nbsp;(Brasil) \u00e9 licenciado em Hist\u00f3ria pela Universidade de Mogi das Cruzes (1985) e doutor em Hist\u00f3ria Social pela FFLCH-USP; realizou estudos de p\u00f3s-doutorado na Universidade Nova de Lisboa (2001) e na Universidade de Lisboa (2011); atua com pesquisador do CNPQ desde 1995, \u00e9 professor titular no Departamento de Hist\u00f3ria da UFRGS e tamb\u00e9m docente do quadro permanente do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da mesma Universidade; coordena a Rede Multidisciplinar de Estudos Africanos do ILEA-UFRGS e \u00e9 integrante do NEAB-UFRGS.<br><br><i>joserivairmacedo@gmail.com<\/i><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile is-vertically-aligned-center\" style=\"grid-template-columns:15% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" width=\"520\" height=\"520\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Thuila-web.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4410 size-full\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Thuila-web.png 520w, https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Thuila-web-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Thuila-web-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-left\" style=\"font-size:12px\"><strong>Thuila Farias Ferreira<\/strong> (Brasil), cria da Restinga (Porto Alegre), \u00e9 Bacharela em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade La Salle (2016) e Mestra em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2020). Pesquisa pensamento de mulheres africanas, rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero no continente africano e feminismos negros.<br><br><i>thuilafa@gmail.com<\/i><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:140px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\"><strong>Imaginando o acervo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:12px\">Ramon Dorneles Moser<\/p>\n\n\n\n<p>A imagem \u00e9 um importante recurso comunicativo que, al\u00e9m de cativar a curiosidade das pessoas, tem a capacidade de transmitir uma infinidade de informa\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, decidimos ilustrar todas as biografias estudadas e disponibilizar o resultado desse trabalho em uma p\u00e1gina de visual simples e de f\u00e1cil navega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Constitu\u00edmos este acervo mediante uma cuidadosa pesquisa. Concentramos nossas buscas em fontes que ofereciam imagens de forma gratuita para uso educativo, sem fins comerciais \u2013 tais como museus, universidades e organiza\u00e7\u00f5es governamentais. Pudemos contar tamb\u00e9m com a generosidade de institui\u00e7\u00f5es, artistas e fot\u00f3grafos que gentilmente nos autorizaram a publicar seus trabalhos para ilustrar este projeto. Entretanto, houve biografias para as quais n\u00e3o foram encontradas representa\u00e7\u00f5es diretas das mulheres, ent\u00e3o sugerimos imagens relativas ao seu contexto hist\u00f3rico, cultural e social; ou produzimos ilustra\u00e7\u00f5es, a partir de livre interpreta\u00e7\u00e3o, que foram sinalizadas como meramente ilustrativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0 diversidade e \u00e0 complexidade de situa\u00e7\u00f5es das personalidades retratadas \u2013em termos de per\u00edodo hist\u00f3rico, cultura, extrato social, etc.\u2013, tamb\u00e9m tivemos de buscar imagens em fontes alternativas como redes sociais, blogs, Wikimedia Commons e outros acervos p\u00fablicos dispon\u00edveis na Internet. Nesses casos, em raz\u00e3o da liberdade de formato dos conte\u00fados (sem as exig\u00eancias de rigor acad\u00eamico, ou jornal\u00edstico) dificilmente pudemos obter informa\u00e7\u00f5es sobre a autoria ou a origem das imagens. Entretanto, publicamos tudo o que encontramos com seus devidos cr\u00e9ditos, quando identificados, bem como suas fontes; para oferecer \u00e0queles que \u00e0s consultarem a possibilidade de tirar suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Acreditamos que, ao associarmos imagens de mulheres das mais variadas \u00e9pocas e regi\u00f5es \u00e0s biografias, estamos acrescentando informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o contidas nos textos que colaboram para ampliar nosso conhecimento sobre a rica diversidade de culturas do continente africano ao mesmo tempo em que oferecemos \u00e0s pesquisadoras e pesquisadores um ponto de partida para suas pr\u00f3prias investiga\u00e7\u00f5es visuais.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:15% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" width=\"300\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Ramon.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6086 size-full\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Ramon.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Ramon-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p style=\"font-size:12px\"><strong>Ramon Dorneles Moser<\/strong> (Brasil) Bacharel em Comunica\u00e7\u00e3o Social com \u00eanfase em Publicidade e Propaganda (1998) e Especialista em Express\u00e3o Gr\u00e1fica (2009) pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul. Editor de v\u00eddeo, animador, desenhista e fot\u00f3grafo. Atualmente trabalha como Produtor Cultural no Departamento de Educa\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.<br><br><i>ramon.moser@ufrgs.br<\/i><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:140px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\"><strong><strong>Introdu\u00e7\u00e3o ao projeto \u201cBiografias de Mulheres Africanas\u201d<\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:12px\">Patr\u00edcia Godinho Gomes<\/p>\n\n\n\n<p>O conhecimento liberta. Foram estas as palavras que ecoaram na minha mente enquanto expunha as minhas reflex\u00f5es na quinta \u201cSemana da \u00c1frica na UFRGS\u201d, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul\/UFRGS, em maio de 2017, dedicado ao tema \u201cG\u00eanero e participa\u00e7\u00e3o feminina\u201d. Na minha comunica\u00e7\u00e3o, abordei o tema da condi\u00e7\u00e3o das mulheres da Guin\u00e9-Bissau, meu pa\u00eds de origem, e de suas lutas hist\u00f3ricas e contempor\u00e2neas, em uma perspectiva feminista e libert\u00e1ria. O debate deixou claro que, mais do que nunca, african@s e brasileir@s precisam conhecer melhor o que escrevem e precisam conhecer-se melhor. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o que me parece relevante e uma preocupa\u00e7\u00e3o que me tem acompanhado nestes anos de perman\u00eancia no Brasil, bem como os meus estudos. Como \u00e9 poss\u00edvel discutirmos convenientemente e com a devida compet\u00eancia sobre mulheres, g\u00eanero e feminismos em contextos africanos e brasileiros se ainda precisamos, seja l\u00e1 que c\u00e1, dominar a produ\u00e7\u00e3o intelectual sobre a tem\u00e1tica e discutir\/repensar conceitos? Mais ainda, como podemos abordar essas quest\u00f5es em \u00c1frica, se @s pr\u00f3pri@s african@s carecem de conhecimento sobre as diferentes regi\u00f5es do continente? \u00c9 nesta mesma linha de pensamento que a soci\u00f3loga nigeriana Oyeronk\u00e9 Oy\u0115w\u00f9m\u00ed observou o fato de os estudos africanos permanecerem, substancialmente, dependentes do ocidente, produzindo o que a autora apela de teorias de \u201csegunda-m\u00e3o\u201d, em que as quest\u00f5es que informam a pesquisa em \u00c1frica derivam do norte global e onde as experi\u00eancias africanas que informam a teoria s\u00e3o consideradas exce\u00e7\u00e3o (Oy\u00e8w\u00f9m\u00ed, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, no Brasil, os estudos de g\u00eanero sobre realidades africanas produzidos por pesquisadores brasileir@s e african@s permanecem largamente marginais em termos acad\u00eamicos (e mais ainda em termos da sua dissemina\u00e7\u00e3o na sociedade), sobretudo se comparados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o no campo dos estudos africanos em termos globais, numa perspectiva evolutiva. Em contrapartida, a produ\u00e7\u00e3o africana sobre temas de g\u00eanero tem sido notoriamente mais extensa e com importantes contribui\u00e7\u00f5es do ponto de vista te\u00f3rico, emp\u00edrico e epistemol\u00f3gico, ainda que considerado um campo de pesquisa relativamente tardio dentro da grande \u00e1rea das ci\u00eancias sociais (Zeleza, 2005: 207-32).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se, por um lado, se tem verificado, em termos globais, o relativo des(n\u00e3o)conhecimento, no Brasil, das lutas sociais, pol\u00edticas e intelectuais de africanas num processo inscrito na colonialidade, que n\u00e3o apenas subalterniza, bem como remete \u00e0 invisibilidade todo o conhecimento produzido fora do <em>mainstream<\/em> colonial e hegem\u00f4nico, h\u00e1 que reconhecer, igualmente, que a presen\u00e7a de mulheres, seja como sujeito que como objeto de pesquisa foi uma conquista relativamente recente nos estudos sobre \u00c1frica desenvolvidos por african@s, seja a partir do continente que fora dele. Como nota Paul Thiambe Zeleza, as mulheres africanas foram, por um longo per\u00edodo de tempo, invisibilizadas ou, melhor, sub-representadas, na historiografia africana, seja como autoras de textos que como temas de pesquisas; como demonstrou o autor, as mulheres africanas foram representadas de forma inadequada nos grandes manuais de hist\u00f3ria de \u00c1frica, a exemplo das hist\u00f3rias gerais como a <em>General History of Africa<\/em> publicada pela UNESCO e a <em>History of Africa<\/em> publicada pela Cambridge, ou de hist\u00f3rias regionais como o volume <em>A History of Maghrib<\/em>, da autoria de Abun-Nasr &nbsp; (Zeleza, 2005: 207-32). A import\u00e2ncia do papel das mulheres nas suas respetivas sociedades foi subestimada e, em casos mais extremos, as mulheres sequer foram mencionadas ou, se foram, as discuss\u00f5es assumiram um vi\u00e9s estereotipado de mulheres com fun\u00e7\u00f5es de reprodutoras, m\u00e3es e esposas. Globalmente, a tend\u00eancia foi a da inferioriza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias hist\u00f3ricas das mulheres. As suas vidas foram descritas em obras sob o v\u00e9u da intemporalidade e reduzidas a sujeitos \u201ctrans-hist\u00f3ricos\u201d, isto \u00e9, fora das din\u00e2micas do desenvolvimento hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desta breve reflex\u00e3o, estou convicta do fato de que projeto \u201cBiografias de mulheres africanas\u201d, do qual tenho a honra e o privil\u00e9gio de ser parte e de redigir esta introdu\u00e7\u00e3o, constitui, sem d\u00favida, uma ferramenta de pesquisa de grande utilidade para tod@s @s que nutrem interesse ou alguma forma de curiosidade pelo continente africano e por trajet\u00f3rias de mulheres africanas. S\u00e3o breves notas biogr\u00e1ficas, verbetes, que repercorrem o per\u00edodo da antiguidade aos nossos dias, algumas das quais at\u00e9 ao momento totalmente desconhecidas do grande p\u00fablico. Como referido pelos curadores do projeto, Jos\u00e9 Rivair Macedo e Thuila Farias Ferreira, esta ferramenta de pesquisa poder\u00e1 possibilitar \u00e0s mulheres negras brasileiras e africanas identificarem pautas comuns, mas sobretudo, poder\u00e1 permitir \u00e0s&nbsp; mulheres diasp\u00f3ricas reconhecerem o papel central e relevante das africanas nas suas pr\u00f3prias sociedades, bem como obterem informa\u00e7\u00f5es \u00fateis&nbsp; mas quase sempre pouco acess\u00edveis, se n\u00e3o mesmo inacess\u00edveis, em l\u00edngua portuguesa, ainda que dispon\u00edveis em l\u00edngua inglesa e francesa (e em menor medida em l\u00edngua espanhola). Como referi na abertura deste texto, o conhecimento liberta. Mas ele s\u00f3 liberta se devidamente apropriado, criticado e partilhado. Para que isso seja poss\u00edvel, \u00e9 preciso que o conhecimento circule ou, por outras palavras, \u00e9 necess\u00e1rio conhecer as experi\u00eancias hist\u00f3ricas das mulheres africanas para que se possa produzir um conhecimento cr\u00edtico sobre elas. \u00c9 fundamental, como se diz na Bahia, \u201cvirar a l\u00edngua\u201d, entendendo as formas de di\u00e1logo e entendimento entre grupos que partilham experi\u00eancias comuns ou similares, carater\u00edsticas aos contextos de resist\u00eancia negra e \u00e0s casas de candombl\u00e9 (Reis, 2017: 271). Como escrevi em outro texto (Godinho Gomes, 2017: 7), \u00e9 cada vez mais necess\u00e1rio representar sujeitos femininos e considerar a pluralidade indentit\u00e1ria que caracteriza os contextos nos quais as mulheres manifestam as pr\u00f3prias indaga\u00e7\u00f5es e inquieta\u00e7\u00f5es, lugares esses que apresentam carater\u00edsticas distintas, mas com cen\u00e1rios por vezes similares, capazes de favorecer a troca de experi\u00eancias e de saberes.<\/p>\n\n\n\n<p>As desigualdades sociais e raciais cada vez mais evidentes, t\u00eam mostrado toda a crueldade de um sistema mundial que divide, hierarquiza e classifica a humanidade entre ricos e pobres, brancos e n\u00e3o brancos, comunidades e indiv\u00edduos eleitos e comunidades e indiv\u00edduos destinados \u00e0 invisibilidade cultural, econ\u00f4mica e social. Assiste-se a uma recrudesc\u00eancia sem precedentes dos fen\u00f4menos do racismo e da xenofobia, bem como de tend\u00eancias pol\u00edticas extremistas. Neste contexto, o projeto \u201cBiografias de mulheres africanas\u201d pode auxiliar as mais jovens gera\u00e7\u00f5es&nbsp; brasileiras e africanas do espa\u00e7o \u201clus\u00f3fono\u201d no esfor\u00e7o comum de estudar as sociedades africanas a partir d@s seus protagonistas. Nesta perspectiva, torna-se necess\u00e1rio proceder a um di\u00e1logo sistem\u00e1tico entre comunidades e indiv\u00edduos pertencentes ao sul global, produzindo conhecimento <em>par le bas<\/em>, um conhecimento que seja relevante e situado, mas acima de tudo libertador. Esta perspectiva metodol\u00f3gica requer, na minha concep\u00e7\u00e3o, o aprofundamento dos saberes sobre as sociedades africanas, das trajet\u00f3rias e das biografias dos sujeitos que as constituem. \u00c9 o que o projeto que aqui se introduz procura fazer, isto \u00e9, t\u00e3o s\u00f3 proporcionar a@s leitores um espa\u00e7o de conhecimento a partir de imagens e de biografias de mulheres africanas que atuaram e que atuam em v\u00e1rios \u00e2mbitos das suas respetivas sociedades e em diferentes regi\u00f5es do continente. Esta vis\u00e3o plural do global poder\u00e1 constituir, possivelmente, uma via eficaz para o superamento de estere\u00f3tipos e de preconceitos que ainda prevalecem no mundo contempor\u00e2neo e sobre \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>1<\/sup> Para informa\u00e7\u00f5es mais detalhadas sobre o&nbsp; evento V Semana da \u00c1frica na UFRGS, veja-se&nbsp; <a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/deds\/noticias\/5a-semana-da-africa-na-ufrgs\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">5\u00aa Semana da \u00c1frica na UFRGS \u2014 Departamento de Educa\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Social \u2013 DEDS<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>OBRAS CITADAS:&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>GODINHO GOMES, Patr\u00edcia. \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o\u201d. In: GODINHO GOMES, Patr\u00edcia; FURTADO, Cl\u00e1udio Alves Furtado (Orgs.). <strong>Encontros e desencontros de l\u00e1 e de c\u00e1 do Atl\u00e2ntico. Mulheres africanas e afro-brasileiras em perspectiva de g\u00eanero<\/strong>. Salvador: EDUFBA, 2017, p. 7-24<\/p>\n\n\n\n<p>GODINHO GOMES, Patr\u00edcia. \u201cPosfazione\u201d. In: LOPES, Filomeno. <strong>Non amo i razzist dilettanti<\/strong>. Roma: Lit Edizioni (Castelvecchi), 2020, p. 133-138<\/p>\n\n\n\n<p>Oyew\u00f9m\u00ed, Oyeronk\u00e9. <strong>La invenci\u00f3n de las mujeres<\/strong>. <strong>Una perspectiva africana&nbsp; sobre los discursos occidentales de g\u00e9nero<\/strong>. Bogot\u00e1 (Colombia): En la frontera, 2017.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>REIS, Vilma. \u201cVirando a l\u00edngua l\u00e1 e c\u00e1: mulheres africanas ao sul do Saara e mulheres negras brasileiras em nossas produ\u00e7\u00f5es, trocas poss\u00edveis\u201d. <strong>Encontros e desencontros de l\u00e1 e de c\u00e1 do Atl\u00e2ntico. Mulheres africanas e afro-brasileiras em perspectiva de g\u00eanero<\/strong>. Salvador: EDUFBA, 2017, p. 271-290.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>ZELEZA, Paul Tiyambe. \u201cGender biases in African historiography\u201d. In: OY\u011aW\u00d9M\u00cd, Oyeronk\u00e9 (Ed). <strong>African Gender Studies<\/strong><em>. A reader<\/em>. Hampshire (England): Palgrave Macmillan, 2005, p. 207-232.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:15% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" width=\"200\" height=\"200\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/patricia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-195 size-full\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/patricia.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/patricia-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p style=\"font-size:12px\"><strong>Patr\u00edcia Godinho Gomes<\/strong> (Guin\u00e9-Bissau) \u00e9 Professora Associada visitante no Programa de P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos \u00c9tnicos e Africanos-P\u00f3s Afro da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Licenciada em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pelo Instituto Superior de Ci\u00eancias Sociais e Pol\u00edticas-ISCSP da Universidade T\u00e9cnica de Lisboa, com especializa\u00e7\u00e3o em Estudos Africanos (1995), Doutora em Hist\u00f3ria e Institui\u00e7\u00f5es da \u00c1frica \u2013 Universit\u00e0 degli Studi di Cagliari (2002), P\u00f3s-Doutora em Hist\u00f3ria da \u00c1frica pela Universidade de Cagliari (It\u00e1lia) (2006-2010) e em Estudos \u00c9tnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (2014-2018). Ocupa-se prevalentemente de estudos ligados \u00e0 participa\u00e7\u00e3o das mulheres africanas nas resist\u00eancias anticoloniais em perspetiva de g\u00eanero,&nbsp;bem como de feminismos africanos, com particular foco nos pa\u00edses africanos de fala portuguesa.&nbsp;<\/p>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre o projeto Jos&eacute; Rivair Macedo e Thuila Ferreira Biografias de mulheres africanas &eacute; o resultado de um projeto de inicia&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica desenvolvido por estudantes de gradua&ccedil;&atilde;o e de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no per&iacute;odo de 2018 &ndash; 2020. 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