{"id":1888,"date":"2020-06-30T02:00:33","date_gmt":"2020-06-30T02:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/?p=1888"},"modified":"2021-03-03T17:50:12","modified_gmt":"2021-03-03T17:50:12","slug":"antonio-vitoria-seculo-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/antonio-vitoria-seculo-xvi\/","title":{"rendered":"Ant\u00f4nio\/Vit\u00f3ria (s\u00e9culo XVI)"},"content":{"rendered":"\n<p>Nascido(a) em data incerta no Reino do Benin, no sudoeste da atual Nig\u00e9ria, foi escravizado(a) e enviado(a) em 1556 para Ponta Delgada, na Ilha de S\u00e3o Miguel (A\u00e7ores), onde passou a pertencer ao portugu\u00eas Paulo Manriques. Denunciado(a) ao Tribunal da Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa, foi acusado por praticar prostitui\u00e7\u00e3o,  sodomia e por comportamento desviante. <\/p>\n\n\n\n<p>Embora fosse identificado(a) como homem, de nome Ant\u00f4nio, reivindicava para si o nome de Vit\u00f3ria, vestia-se com trajes femininos, comportava-se como mulher e, com a concord\u00e2ncia, autoriza\u00e7\u00e3o ou a ordem do propriet\u00e1rio, praticou a prostitui\u00e7\u00e3o &#8211; primeiro em A\u00e7ores e depois na regi\u00e3o do cais de Lisboa.  <\/p>\n\n\n\n<p>Segundo consta no processo inquisitorial,  era  \u201cgrande de corpo, mal assombrado, sem barba, muito preto\u201d.  A den\u00fancia  feita contra ela(e)  partiu das prostitutas da ribeira de Lisboa, isto \u00e9, da regi\u00e3o pr\u00f3xima ao rio Tejo, que se sentiam prejudicadas com a concorr\u00eancia daquela \u201cpessoa preta, vestida e toucada como negra, que cometia os mo\u00e7os, mancebos e ratinhos&#8221;,  quer dizer, os trabalhadores que passavam na \u00e1rea do cais. Ela(e) os levava para detr\u00e1s de umas casas derrubadas num lugar escuso, &#8220;chamando-os com acenos e jeitos como mulher que provocava para pecarem&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>O que mais incomodou os inquisidores foi a ousadia de Ant\u00f4nio\/Vit\u00f3ria transgredir as rigorosas normas sexuais ent\u00e3o vigentes, apresentando-se em forma feminina.  De acordo com o pesquisador Luiz Mott, consta em sua descri\u00e7\u00e3o f\u00edsica no processo inquisitorial que se vestia de forma bizarra e amb\u00edgua:  \u201ctrazia um pano muito alvo na cabe\u00e7a, com um chap\u00e9u em cima, e um a\u00e7afate (cestinho de vime) em riba do chap\u00e9u, e um gib\u00e3o branco atacado todo por diante, e um avental de burel cingido aberto \u00e0 frente\u201d. E perguntando na rua: \u201cPor que chama os homens se \u00e9s negro? Ele disse: Sou negra e n\u00e3o negro! E mostrava os peitos [&#8230;]\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para se certificar de sua identidade sexual, os inquisidores ordenaram aos carcereiros que vistoriassem o corpo de Vit\u00f3ria \u201cpara ver se era homem, ou mulher ou mofrodito\u201d, quer dizer, hermafrodita.  Ao ser confirmada sua identidade f\u00edsica masculina, foi condenado \u00e0s gal\u00e9s perp\u00e9tuas, isto \u00e9, aos trabalhos for\u00e7ados em galeras da marinha portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente \u00e0s suas atividades sexuais, era respeitado(a) curandeiro(a) ritualista. Algo observado em outras pessoas envolvidas em processos inquisitoriais, como os(as) quimbandas de origem centro-africana, que eram acusados como &#8220;feiticeiros&#8221; e por vezes vinham a ser denunciados como praticantes da sodomia.  <\/p>\n\n\n\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>SWEET, James. Mutual misunderstandings: gesture, gender and healing in the african portuguese world. <strong>Past and Present<\/strong>, Londres, v. 15, p. 128-143, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>MOTT, Luiz. \u201cRa\u00edzes hist\u00f3ricas da homossexualidade no Atl\u00e2ntico lus\u00f3fono negro\u201d. <em>&nbsp;<strong>Afro-\u00c1sia<\/strong><\/em>, Salvador, vol. 33, 2005, pp. 9-33.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascido(a) em data incerta no Reino do Benin, no sudoeste da atual Nig&eacute;ria, foi escravizado(a) e enviado(a) em 1556 para Ponta Delgada, na Ilha de S&atilde;o Miguel (A&ccedil;ores), onde passou a pertencer ao portugu&ecirc;s Paulo Manriques. Denunciado(a) ao Tribunal da Inquisi&ccedil;&atilde;o de Lisboa, foi acusado por praticar prostitui&ccedil;&atilde;o, sodomia e por comportamento desviante. 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