{"id":2218,"date":"2020-07-02T23:25:48","date_gmt":"2020-07-02T23:25:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/?p=2218"},"modified":"2021-01-28T14:01:51","modified_gmt":"2021-01-28T14:01:51","slug":"sudaniyyat","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/sudaniyyat\/","title":{"rendered":"Sudaniyyat"},"content":{"rendered":"\n<p>Nome pelo qual os escritores \u00e1rabes designavam as mulheres negras escravizadas da \u00c1frica saariana, o voc\u00e1bulo corresponde ao adjetivo \u201csudan\u201d, um dos termos para designar \u201cnegro\u201d na l\u00edngua \u00e1rabe. Elas eram vendidas e levadas pelas milhares de caravanas de atravessavam o Deserto do Saara para serem revendidas nas cidades do Magrebe, do lado europeu do Mediterr\u00e2neo e do Oriente M\u00e9dio, onde trabalhavam como servi\u00e7ais dom\u00e9sticas, como dan\u00e7arinas e cantoras (kaynat;&nbsp; kiyam), servi\u00e7ais palacianas e\/ou mesmo eram colocadas em casas de prostitui\u00e7\u00e3o. Encontra-se a\u00ed uma das ra\u00edzes hist\u00f3ricas da erotiza\u00e7\u00e3o do corpo das mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira refer\u00eancia a escravid\u00e3o feminina na \u00c1frica subsaariana aparece na descri\u00e7\u00e3o feita pelo cronista andaluz al-Bakri, no fim do s\u00e9culo XI, quando ele descreve o com\u00e9rcio caravaneiro mantido com o reino de Gana, atrav\u00e9s da cidade saariana de Awdaghost, situada na atual Maurit\u00e2nia. Diz ele que ali se encontravam excelentes cozinheiras, e uma delas valeria 100 meticais (moedas) ou mais. Elas seriam excelentes quituteiras, seus bolinhos com noz e mel (kata\u2019if) e outros doces eram incompar\u00e1veis. Diz ainda que eram muito vistosas, e que o mercador Abu Rustan du Djabal Nafusa o informou ter certa vez avistado uma delas deitada de lado, com o filhinho divertindo-se ao lado dela enquanto passava por baixo de suas costas de um lado para outro, \u201ct\u00e3o fina era a cintura e t\u00e3o grande era o quadril\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o desenvolvimento do com\u00e9rcio transaariano a procura por cativos (as) aumentou gradualmente, e a prefer\u00eancia por mulheres (jawari) e por pessoas jovens (fityan) de cor negra conferiu ao tr\u00e1fico um car\u00e1ter eminentemente racial e de g\u00eanero. Em 1353, quando retornava de sua viagem \u00e0 corte de Mansa Sulaiman, no Mali, o viajante marroquino Ibn Battuta comprou e devolveu uma mulher que n\u00e3o o agradou, e a caravana do qual ele fazia parte, com destino \u00e0 cidade de Fez, levava seiscentas delas como cativas.<\/p>\n\n\n\n<p>No Marrocos antes do s\u00e9culo XVIII, al\u00e9m do servi\u00e7o dom\u00e9stico, as mulheres negras escravizadas pelas fam\u00edlias influentes eram encarregadas de preparar as noivas e ajud\u00e1-las durante o ritual do casamento, preparando-as para a noite de n\u00fapcias. Com o tempo, organizaram-se em grupos sob a dire\u00e7\u00e3o geral de uma l\u00edder referida como <em>amina<\/em>, a qual era sempre uma mulher idosa, rica e respeitada, reconhecida como respons\u00e1vel por todos os grupos de mulheres \u201ccasamenteiras\u201d. Outras denomina\u00e7\u00f5es ou qualifica\u00e7\u00f5es, em l\u00edngua local, aplicadas \u00e0 essas mulheres eram <em>neggafat<\/em>, \u201cprudentes\u201d, \u201ccircunspectas\u201d; e <em>machitat<\/em>,&nbsp; \u201cpenteadoras\u201d, \u201croupeiras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ENNAJ, Mohammed. <strong>Soldats, domestiques et concubines<\/strong>: l\u2019esclavage au Maroc au XIX si\u00e8cle. Paris: Balland, 1994 (Collection Le Nadir).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>GOMES, Michael A.. <strong>African dominium<\/strong>: a new history of empire in early and medieval West Africa. Princeton; Oxford: Princeton University Press, 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nome pelo qual os escritores &aacute;rabes designavam as mulheres negras escravizadas da &Aacute;frica saariana, o voc&aacute;bulo corresponde ao adjetivo &ldquo;sudan&rdquo;, um dos termos para designar &ldquo;negro&rdquo; na l&iacute;ngua &aacute;rabe. 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