{"id":2544,"date":"2020-07-05T17:09:46","date_gmt":"2020-07-05T17:09:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/?p=2544"},"modified":"2021-01-22T22:54:57","modified_gmt":"2021-01-22T22:54:57","slug":"inari-konte-seculo-xiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/africanas\/inari-konte-seculo-xiv\/","title":{"rendered":"Inari Kont\u00e9 (s\u00e9culo XIV)"},"content":{"rendered":"\n<p>No antigo Mandinga, o governo do reino coube desde o princ\u00edpio a uma \u00fanica linhagem, a dos Keita, e pouco ou quase nada \u00e9 tratado sobre suas consortes do sexo feminino. As pesquisas da historiadora Madina Ly-Tall trouxeram \u00e0 tona o papel representado pelas mulheres dos governantes do Imp\u00e9rio do Mali, algumas delas como primeiras-esposas, outras como rainhas-m\u00e3es e outras ainda como esposas-preferidas, identificadas pelo t\u00edtulo de <em>Baramuso<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora as responsabilidades do governo estivessem na esfera p\u00fablica de poder das primeiras-esposas, a posi\u00e7\u00e3o de esposa-preferida era digna de nota devido a influ\u00eancia que elas podiam exercer sobre os seus maridos na esfera privada. Devido a essa influ\u00eancia, sua posi\u00e7\u00e3o na corte dos governantes lhes garantia grande prest\u00edgio e muitos disputavam sua aten\u00e7\u00e3o e sua amizade. Somente com elas os <em>mansas<\/em> (governantes) compartilhavam os seus segredos. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na conhecida cr\u00f4nica hist\u00f3rica dos acontecimentos transcorridos no Imp\u00e9rio Mandinga e no Imp\u00e9rio Songai intitulada <em>Tarikh al-Fattash<\/em>, cuja reda\u00e7\u00e3o data da metade do s\u00e9culo XVII, constam diversas anedotas sobre&nbsp;o Mansa Mussa do Mali e sua faustosa peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 Meca nos anos 1324-1325. Uma delas diz respeito ao relacionamento dele com sua esposa-preferida durante a travessia do Saara. O evento, registrado tr\u00eas s\u00e9culos ap\u00f3s ter supostamente ocorrido, foi recolhido da tradi\u00e7\u00e3o oral e reveste-se de elementos fantasiosos que sugerem o seu car\u00e1ter lend\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Certa noite, quando a caravana encontrava-se acampada entre as cidades de Tagazza e Touat, Mansa Mussa repousava com Inari Kont\u00e9 em sua tenda, e ao perceber que ela n\u00e3o conseguia dormir, perguntou-lhe o motivo. Ela teria ent\u00e3o explicado que n\u00e3o conseguia dormir devido ao inc\u00f4modo da areia sobre o seu corpo, e que necessitava banhar-se nas \u00e1guas do Rio \u2013 numa prov\u00e1vel alus\u00e3o ao grande rio N\u00edger. Na manh\u00e3 seguinte o marido encarregou o ministro, Farba, de providenciar fornecimento de \u00e1gua, algo aparentemente imposs\u00edvel de ser feito. Mas uma gigantesca opera\u00e7\u00e3o permitiu que a \u00e1gua do N\u00edger fosse drenada atrav\u00e9s do Saara por uma esp\u00e9cie de aqueduto constru\u00eddo por milhares de escravos, e a rainha pode ent\u00e3o realizar o seu desejo, banhando-se junto com suas quinhentas acompanhantes e servi\u00e7ais.<\/p>\n\n\n\n<p>O sobrenome da governanta lend\u00e1ria, Kont\u00e9, sugere o seu v\u00ednculo ao povo Sosso, ligado ao grupo lingu\u00edstico sonink\u00e9. Nesse caso, o seu casamento com Mansa Mussa poderia sinalizar arranjos pol\u00edticos com a antiga linhagem Kant\u00e9, que dominou o Mali antes do advento de Sundjata Keita no trono mandinga.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alguns tradicionalistas, como Dioma Hamana, o nome da rainha teria sido Ni\u00e9riba Kond\u00e9, que \u00e9 como o historiador Djibril Niane tamb\u00e9m a designa. Segundo este pesquisador, mesmo historiador, a tradi\u00e7\u00e3o mandinga conservou a mem\u00f3ria do epis\u00f3dio lend\u00e1rio que envolveu o desejo da rainha e transformou Ni\u00e9riba Kond\u00e9 numa esp\u00e9cie de ninfa, sempre rondando a margem do grande rio N\u00edger. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>LY-TALL, Madina. <strong>Contribution a l\u2019histoire de l\u2019Empire du Mali (XIII-XVI si\u00e8cles):<\/strong> limites, principales provinces, institutions politiques (th\u00e8se de doctorat de 3\u00ba cycle, Sorbonne, juin 1972). Dakar; Abidjan: Les Nouvelles \u00c9ditions Africaines, 1977.<\/p>\n\n\n\n<p>NIANE, Djibril Tamsir. Recherches sur l\u2019Empire du Mali au Moyen Age. <strong>Recherches africaines<\/strong>: \u00e9tudes guin\u00e9enes (Conacry), t. 1, 1959, p. 6-56.&nbsp; Texto dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.webguinee.net\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/www.webguinee.net<\/a>&nbsp; Acesso em 20\/08\/2019.<\/p>\n\n\n\n<p>PALA, Achola; LY, Madina. <strong>La mujer africana en la sociedad precolonial.<\/strong> Barcelona: Serbal; UNESCO, 1982: <a href=\"https:\/\/unesdoc.unesco.org\/images\/0004\/000402\/040262sb.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/unesdoc.unesco.org\/images\/0004\/000402\/040262sb.pdf<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No antigo Mandinga, o governo do reino coube desde o princ&iacute;pio a uma &uacute;nica linhagem, a dos Keita, e pouco ou quase nada &eacute; tratado sobre suas consortes do sexo feminino. 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