{"id":394,"date":"2023-08-28T15:29:41","date_gmt":"2023-08-28T18:29:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/?p=394"},"modified":"2024-08-27T23:44:42","modified_gmt":"2024-08-28T02:44:42","slug":"o-fenomeno-da-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/2023\/08\/28\/o-fenomeno-da-luz\/","title":{"rendered":"O fen\u00f4meno da luz"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Daniel Escobar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com frequ\u00eancia temos acompanhado as not\u00edcias de grandes cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas associadas ao fen\u00f4meno de aquecimento global que decorre da falta de limites em rela\u00e7\u00e3o ao consumo de bens naturais. Se, por um lado, a tecnologia \u00e9 uma grande aliada do projeto capitalista global, contribuindo com o acelerado<br>processo de degrada\u00e7\u00e3o ambiental que temos vivenciado, por outro, ela tamb\u00e9m representa um futuro poss\u00edvel que passamos a vislumbrar com base nas fontes renov\u00e1veis de energia e outros avan\u00e7os recentes. Nas artes visuais esta rela\u00e7\u00e3o entre natureza e tecnologia tem conduzido parte das narrativas atuais<br>demonstrando, acima de tudo, um compromisso com a produ\u00e7\u00e3o de debate e posturas cr\u00edticas que possam ajudar a repensar as rela\u00e7\u00f5es humanas no contexto ambiental global. Este cen\u00e1rio acaba tamb\u00e9m por favorecer uma suposta correspond\u00eancia direta que a cidade teria com o desenvolvimento tecnol\u00f3gico,<br>enquanto a natureza ocuparia uma posi\u00e7\u00e3o mais intocada, uma vis\u00e3o moderna (e hoje anacr\u00f4nica) de oposi\u00e7\u00e3o entre natureza e civiliza\u00e7\u00e3o. Ocorre que, sendo a urbe um organismo resultante do modo de vida coletivo de nossa esp\u00e9cie, seria adequado pensarmos a cidade como algo fora da natureza? E, sendo a cidade tamb\u00e9m natureza, haveria algum modo de conex\u00e3o entre indiv\u00edduos e ambiente que pudesse ser motivado por sensa\u00e7\u00f5es mais primitivas de conforto e bem-estar? Podem a arte e a tecnologia, em sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza, produzirem infraestruturas que impactem positivamente a qualidade de vida nas grandes cidades. O texto que segue apresenta um conjunto de obras criadas por artistas que atuam na fronteira entre a arte e o design, usando a tecnologia como uma ferramenta capaz de evidenciar a aus\u00eancia de limites definidos entre cultura e natureza.<br><\/p>\n\n\n\n<p>No ano de 2003, quando come\u00e7avam ganhar corpo as discuss\u00f5es sobre o clima, o artista dinamarqu\u00eas Olafur Eliasson projetou a instala\u00e7\u00e3o The Weather Project, para a Tate Modern em Londres. Conhecido por suas obras imersivas de grande escala que exploram elementos como a luz, a \u00e1gua e a temperatura do ar, Eliasson ocupou o Turbine Hall com uma experi\u00eancia sensorial que tornou poss\u00edvel aos visitantes desfrutarem de um p\u00f4r-do-sol no interior de um museu. A magnitude do espa\u00e7o, que exibe em geral esculturas de escala monumental e grandes instala\u00e7\u00f5es, foi evidenciada pelo artista atrav\u00e9s de um grande vazio. O teto foi revestido por placas de espelhos, duplicando visualmente o volume do v\u00e3o e, no alto da parede, um semic\u00edrculo composto por 200 l\u00e2mpadas de monofrequ\u00eancia foi refletido no espelho, criando a sensa\u00e7\u00e3o de uma grande esfera incandescente. O espa\u00e7o foi envolto por uma discreta camada de n\u00e9voa artificial conferindo densidade ao vazio e ampliando a sensa\u00e7\u00e3o de dist\u00e2ncia entre os corpos que transitavam pela sala. Projetar meticulosamente o vazio \u00e9 uma das especialidades de Eliasson, no entanto o objetivo central de suas instala\u00e7\u00f5es \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o destes ambientes pelas pessoas e, no caso espec\u00edfico de The Weather Project, pode-se afirmar que esta a\u00e7\u00e3o foi realizada com muito \u00eaxito, uma vez que a mostra superou a marca de dois milh\u00f5es de visitantes, ampliando vertiginosamente o alcance de sua obra.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-395\" style=\"width:685px;height:839px\" width=\"685\" height=\"839\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed.jpg 418w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-245x300.jpg 245w\" sizes=\"(max-width: 685px) 100vw, 685px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Olafur Eliasson. <em>The Weather Project,<\/em> 2003. Tate Modern, Londres<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Lan\u00e7ada em 2019, a segunda temporada da s\u00e9rie documental Abstract: the art of design, produzida pela Netflix tem seu primeiro epis\u00f3dio dedicado a Eliasson onde \u00e9 poss\u00edvel conhecer o processo de trabalho do artista em um passeio por diversas obras site-specific, entre elas The Weather Project. \u00c9 impactante perceber o modo como esta ambienta\u00e7\u00e3o \u00e9 apropriada pelo p\u00fablico e como o artista consegue definitivamente subverter um certo tipo de frui\u00e7\u00e3o contemplativa caracter\u00edstico das obras de arte, ativando sensa\u00e7\u00f5es que conectam as pessoas a esta nova paisagem, suscitando o desejo de permanecerem no interior de um museu, desempenhando diferentes atividades introspectivas como medita\u00e7\u00e3o, ioga,<br>alongamentos e exerc\u00edcios f\u00edsicos variados. Ao representar um fen\u00f4meno da natureza conferindo-lhe escala arquitet\u00f4nica, o artista utiliza a tecnologia para negar certa no\u00e7\u00e3o moderna de museu de arte, ainda arraigada no senso comum, onde a neutralidade do espa\u00e7o criaria uma situa\u00e7\u00e3o de desconex\u00e3o com a<br>realidade favorecendo assim a frui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Ocorre que nesta experi\u00eancia a arquitetura do museu \u00e9 manipulada a ponto de elucidar uma paisagem externa, invertendo as rela\u00e7\u00f5es de dentro e fora e dotando o interior de uma dimens\u00e3o infinita, uma sensa\u00e7\u00e3o espacial que talvez nenhuma paisagem real possa<br>reproduzir.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, o grande fasc\u00ednio criado pela obra de Eliasson, est\u00e1 menos na sua capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o ou simula\u00e7\u00e3o de um fen\u00f4meno natural, e mais no modo como consegue construir uma experi\u00eancia tecnol\u00f3gica e inovadora, produzindo um fen\u00f4meno artificial que impacta justamente por estas caracter\u00edsticas, mas que conseguiu ativar um tipo de viv\u00eancia sensorial com o ambiente, em uma intensidade que poucas paisagens naturais despertariam neste mesmo p\u00fablico. Esta compreens\u00e3o da natureza e das sensa\u00e7\u00f5es humanas mediadas pela arquitetura e pelos adventos tecnol\u00f3gicos me parece a grande intelig\u00eancia do artista, com uma obra que a cada movimento nos convida a pensar a natureza de modo ampliado, atravessada pelas no\u00e7\u00f5es de cidade, design e cultura que constituem nossas viv\u00eancias e mem\u00f3rias cotidianas. De certo modo, esse ponto de vista pode ser verificado j\u00e1 no conceito de objetos t\u00e9cnicos, desenvolvido por Gilbert Simondon, que identifica na t\u00e9cnica, uma singularidade dos humanos como seres naturais, sem projet\u00e1-la em uma transcend\u00eancia enganosa ou autodestrutiva. Segundo o autor, \u201cexiste uma beleza pr\u00f3pria dos objetos t\u00e9cnicos, beleza que aparece quando estes objetos s\u00e3o inseridos num mundo geogr\u00e1fico ou humano: a impress\u00e3o est\u00e9tica \u00e9 ent\u00e3o relativa \u00e0 inser\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma esp\u00e9cie de gesto.\u201d (SIMONDON, 1989 p. 275).<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00e1tica de Eliasson n\u00e3o se limita a ocupa\u00e7\u00e3o de museus e galerias e estende-se tamb\u00e9m para o desenvolvimento de projetos arquitet\u00f4nicos, interven\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os p\u00fablicos ou a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica, social e ambiental. Em outro projeto igualmente ambicioso, mas inserido no corpo da<br>cidade, o artista trabalha com a no\u00e7\u00e3o complexa de espa\u00e7o p\u00fablico na contemporaneidade, criando cachoeiras artificiais que aparecem em meio ao denso tecido social, ambiental e pol\u00edtico da cidade de Nova York. The New York City Waterfalls (2008) consiste em quatro quedas d\u2019\u00e1gua medindo entre 90 e 120 metros de altura que foram instaladas na orla do Est River. Produzidas com materiais industriais onipresentes na cidade, as cachoeiras tiveram sua espinha dorsal constitu\u00edda por andaimes de constru\u00e7\u00e3o e um sistema de canaliza\u00e7\u00e3o acoplado a uma bomba que tornou poss\u00edvel conduzir a \u00e1gua do rio at\u00e9 o alto das estruturas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-396\" style=\"width:680px;height:831px\" width=\"680\" height=\"831\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-1.jpg 419w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-1-246x300.jpg 246w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Olafur Eliasson. <em>The New York City Waterfalls<\/em>, 2008. Interven\u00e7\u00e3o na cidade de Nova York.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As cachoeiras de Olafur s\u00e3o estruturas tecnol\u00f3gicas desenvolvidas por uma equipe de aproximadamente 200 profissionais de design, engenharia e constru\u00e7\u00e3o, e que foi capaz de evidenciar o ambiente natural de uma cidade como Nova York, atrelado \u00e0 sua paisagem industrial e comercial. A vista para o rio tantas<br>vezes escondida pelo car\u00e1ter monumental da arquitetura, torna-se, atrav\u00e9s dela, uma atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica, ainda que tempor\u00e1ria, possibilitando repensar a rela\u00e7\u00e3o que estabelecemos com estes ambientes espetaculares, evocando experi\u00eancias individuais e aumentando um senso de coletividade. Se \u00e0 dist\u00e2ncia o mecanismo ganha ares de arranha-c\u00e9u, e torna-se digno de cart\u00e3o postal em uma cidade que cresce vertiginosamente para cima, de perto, a atmosfera criada pela n\u00e9voa e pelo som da queda s\u00e3o capazes de encobrir a cidade, para que se viva a experi\u00eancia de uma catarata. Importante lembrar que cachoeiras e cataratas s\u00e3o o motor para a gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica e que equiparar quedas d\u2019\u00e1gua \u00e0 silhueta de edif\u00edcios \u00e9 tamb\u00e9m um modo de dimensionar o consumo de recursos naturais tomando como<br>medida a escala das grandes cidades. Para al\u00e9m da paisagem inebriante proporcionada por Waterfalls, e do modo como a obra consegue despertar um desejo de aproxima\u00e7\u00e3o com o rio no cora\u00e7\u00e3o de uma megal\u00f3pole como Nova York, existe tamb\u00e9m um coment\u00e1rio cr\u00edtico e bem-humorado acerca das escalas e<br>propor\u00e7\u00f5es utilizadas para projetar o espa\u00e7o das grandes cidades. Al\u00e9m disso, o processo de produ\u00e7\u00e3o desta obra p\u00fablica atenta para a necessidade de cuidados com o ambiente que projetos ambientais em grande escala n\u00e3o podem ou n\u00e3o deveriam negligenciar. Para proteger os peixes e a vida aqu\u00e1tica, a \u00e1gua foi filtrada atrav\u00e9s de piscinas de capta\u00e7\u00e3o suspensas no rio abaixo de cada estrutura. Seu funcionamento utilizou &#8220;energia verde&#8221; \u2013 eletricidade gerada a partir de recursos renov\u00e1veis \u2013 e a ilumina\u00e7\u00e3o noturna empregou l\u00e2mpadas de LED.<\/p>\n\n\n\n<p>Um p\u00f4r-do-sol ou uma cachoeira conseguem mobilizar certo deslumbramento atrav\u00e9s do belo, enquanto outros fen\u00f4menos da natureza podem nos causar como\u00e7\u00e3o por sua grandiosidade e seu aspecto sublime. Se na transi\u00e7\u00e3o do neoclassicismo para o romantismo a arte teria a importante tarefa de representar este inconceb\u00edvel, algumas produ\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas demonstram uma habilidade em equilibrar imagina\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o, como \u00e9 o caso da dupla paulistana Motta &amp; Lima (Gisela Mottta e Leandro Lima) que cria representa\u00e7\u00f5es de diferentes fen\u00f4menos, com base no universo de informa\u00e7\u00f5es e aparatos tecnol\u00f3gicos que hoje nos ajudam a decodificar a natureza. Este \u00e9 a caso da obra Zero Hidrogr\u00e1fico (2010), onde um conjunto de 60 l\u00e2mpadas fluorescentes s\u00e3o montadas sob pequenos pilares motorizados que sobem e descem, compondo uma malha luminosa cujo movimento elucida o balan\u00e7o do alto-mar. A obra surge da<br>constata\u00e7\u00e3o da dupla de que as ondas na superf\u00edcie do mar, que aparentemente resultam do deslocamento da \u00e1gua, na realidade s\u00e3o apenas o deslocamento do movimento da onda sem que haja qualquer deslocamento de \u00e1gua. A instala\u00e7\u00e3o reproduz certa vertigem que o mar \u00e9 capaz de provocar, mas o que nos deixa perplexos \u00e9 a organicidade do movimento que n\u00e3o pode ser desvinculada da rigidez de seus elementos constitutivos. A suave onda luminosa que ap\u00f3s alguns minutos se acomoda em nosso olhar, volta a nos confrontar quando piscamos o olho e percebemos o mecanismo r\u00edgido em perfeita sincronia. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil pensar que o descompasso de uma das pe\u00e7as poderia gerar um caos autodestrutivo, ou<br>um verdadeiro maremoto com estilha\u00e7os de l\u00e2mpadas quebradas. Zero hidrogr\u00e1fico (Chart datum) \u00e9 a altitude de refer\u00eancia a partir da qual s\u00e3o medidas as profundidades do oceano. De certo modo, o t\u00edtulo da obra surge como um coment\u00e1rio cr\u00edtico sobre a altera\u00e7\u00e3o do n\u00edvel das \u00e1guas do mar, um dos principais<br>riscos associados ao aquecimento global, tendo como consequ\u00eancia a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel m\u00e9dio dos oceanos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-397\" style=\"width:680px;height:499px\" width=\"680\" height=\"499\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-2.jpg 512w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-2-300x220.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Motta &amp; Lima. Zero Hidrog\u00e1fico, 2010.<br>60 l\u00e2mpadas fluorescents T5, 36 mecanismos motorizados.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em Rel\u00e2mpago (2015), a dupla de artistas explora a pot\u00eancia e o mist\u00e9rio dos raios, numa interessante colis\u00e3o entre as for\u00e7as da natureza e a energia el\u00e9trica, sem a qual a civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais sobrevive. Em Rel\u00e2mpago, o fen\u00f4meno natural de mesmo nome \u00e9 transposto para o interior de uma galeria. Assim como em Zero Hidrog\u00e1fico, uma composi\u00e7\u00e3o criada por l\u00e2mpadas tubulares d\u00e1 forma para a obra, desenhando o raio luminoso no espa\u00e7o tridimensional. A pe\u00e7a \u00e9 composta por l\u00e2mpadas do tipo activiva, que, segundo o fabricante, promovem o bem-estar e a produtividade do ser humano, al\u00e9m de estimular a fotoss\u00edntese. Ao investigarmos aspectos da simbologia relacionada aos rel\u00e2mpagos, podemos encontrar teorias cient\u00edficas que apontam as descargas el\u00e9tricas como fundamentais para surgimento da vida. Na hist\u00f3ria humana, foi<br>possivelmente a primeira fonte de fogo, fundamental no processo da evolu\u00e7\u00e3o. De um modo geral, seja do ponto de vista cient\u00edfico ou mitol\u00f3gico, o raio representa um poder criador e uma for\u00e7a destrutiva, sendo simultaneamente vida e morte.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-398\" style=\"width:685px;height:583px\" width=\"685\" height=\"583\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-3.jpg 512w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-3-300x255.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 685px) 100vw, 685px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Motta &amp; Lima. Rel\u00e2mpago, 2015.<br>L\u00e2mpadas T5 activiva, cabos, reatores e suportes de alum\u00ednio.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 1977 o artista Walter de Maria instalou 400 postes de a\u00e7o no deserto do Novo M\u00e9xico, atraindo um grande volume de descargas el\u00e9tricas durante uma tempestade. Campo de Rel\u00e2mpagos \u00e9 uma obra produzida com base em preceitos estabelecidos pela Land Art, movimento derivado da arte conceitual que buscava conectar pessoas e natureza de modo profundo e significativo a partir de interven\u00e7\u00f5es ambientais que tomavam a pr\u00f3pria paisagem como elemento central da obra. Enquanto a proposta de Walter de Maria abordava uma rela\u00e7\u00e3o entre cultura e natureza que pode ser evidenciada na tentativa de manipular um<br>fen\u00f4meno, como forma de gerar um evento sem propor\u00e7\u00f5es previamente definidas, o Rel\u00e2mpago de Motta &amp; Lima \u00e9 uma linha luminosa constante, previs\u00edvel e esquem\u00e1tica, que ilumina o interior de uma galeria ou museu. Um raio que comenta o interesse pelos fen\u00f4menos em uma era de hiperinforma\u00e7\u00e3o e realidade virtual. Um circuito de cabos e reatores que integra a magnitude das descargas el\u00e9tricas e o conforto da eletricidade em fluxo cont\u00ednuo, gerando novas simbologias de vida e morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Certa vez, ao visitar uma exposi\u00e7\u00e3o fui absorvido por um conjunto de pequenos pontos luminosos sobre uma tela retangular negra. Uma esp\u00e9cie de c\u00e9u estrelado me conduziu para perto da pe\u00e7a, para em seguida desmentir minha primeira impress\u00e3o. O objeto na parede apresentava o desenho do mapa de uma<br>cidade sobre uma caixa de luz, sendo parcialmente coberto por uma placa de acr\u00edlico preto com pequenos orif\u00edcios que desenhavam o mapa do c\u00e9u desta mesma cidade. Ao observar a obra atrav\u00e9s da fenda que separa os dois planos, as estrelas luminosas imediatamente tornam-se furos iluminados, uma vez que a luz<br>n\u00e3o estava a emanar dos astros celestes, mas da trama de uma cidade. Quem ilumina? Quem \u00e9 iluminado? Universos Paralelos (2011), da artista ga\u00facha Marina Camargo estabelece um par\u00e2metro para a rela\u00e7\u00e3o entre cultura e natureza a partir da cartografia e das representa\u00e7\u00f5es planares. O t\u00edtulo da obra pode remeter aos multiversos e a exist\u00eancia de varia\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de nossa realidade, mas seu mecanismo confere um novo sentido ao termo. Colocando a cidade e o c\u00e9u em planos paralelos, Marina cria um conjunto de coordenadas que definem nosso verdadeiro lugar hoje, evidenciando uma rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia que se revela atrav\u00e9s da luz &#8211; elemento t\u00e3o essencial para a natureza quanto para a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-399\" style=\"width:680px;height:453px\" width=\"680\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-4.jpg 512w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-4-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/unnamed-4-510x341.jpg 510w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Marina Camargo. Universos Paralelos (S\u00e3o Paulo), 2011.<br>Desenho em caixa de acr\u00edlico com luz. 50 x 70 x 12cm<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><br>CAMARGO, Marina. Site da artista. Dispon\u00edvel em https:\/\/marinacamargo.com\/ Acesso em: 10 de julho de 2023.<br>LIMA, Leandro. Site do artista. Dispon\u00edvel em https:\/\/aagua.net Acesso em:10 de julho de 2023.<br>OLAFUR ELIASSON: O Design da Arte (temporada 2, ep.1). Abstract: The Art of Design. [seriado]. Dire\u00e7\u00e3o: Scott Dadich. Netflix, 2019. (45 min.)<br>OLAFUR, Eliasson. Site do artista. Dispon\u00edvel em: https:\/\/olafureliasson.net. Acesso em: 10 de julho de 2023.<br>SIMONDON, Gilbert. Du mode d\u2019existence des objets techniques. Paris: Aubier, 1989.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Daniel Escobar Com frequ\u00eancia temos acompanhado as not\u00edcias de grandes cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas associadas ao fen\u00f4meno de aquecimento global que decorre da falta de limites em rela\u00e7\u00e3o ao consumo de bens naturais. 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