{"id":431,"date":"2024-08-22T08:30:00","date_gmt":"2024-08-22T11:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/?p=431"},"modified":"2024-08-28T00:44:33","modified_gmt":"2024-08-28T03:44:33","slug":"artes-indigenas-contemporaneas-e-a-cosmo-sustentacao-na-era-do-antropoceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/2024\/08\/22\/artes-indigenas-contemporaneas-e-a-cosmo-sustentacao-na-era-do-antropoceno\/","title":{"rendered":"Artes ind\u00edgenas contempor\u00e2neas e a cosmo-sustenta\u00e7\u00e3o na Era do Antropoceno"},"content":{"rendered":"\n<p>Autor: <em>Willams Lucian Belo Ramo<\/em><sup>1<\/sup><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><\/p>\n<cite>Passarinho quando canta<br>Que alegra o mundo inteiro<br>E o \u00edndio quando chora<br>\u00c9 por falta do terreiro<br>(canto de May\u00e1 Tupinamb\u00e1 Patax\u00f3 H\u00e3h\u00e3h\u00e3e, BA \u2013 Brasil)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Lembro que em 1999, reunia-me com os amigos de bairro (juntando moedas), para tentar alugar a fita cassete do rec\u00e9m lan\u00e7ado filme Matrix. Assistimos na sala de Dona Margarete (Rua Nova, Queimadas \u2013 PB.), uma das poucas que possu\u00eda videocassete e permitia que toda a gurizada se reunisse para assistir filmes. Fiquei deslumbrado com as tantas alegorias gr\u00e1ficas de representa\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos bin\u00e1rios e, ao mesmo tempo, assustado com as potencialidades perigosas da \u201ctecnologia\u201d como condutora da revolu\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas. Um ano depois, quando estava comprando o material escolar, deparei-me com uma agenda Tilibra dos Gorillaz, outro deslumbre: uma banda que aparentava ser totalmente \u201cvirtual\u201d, que ao inv\u00e9s de m\u00fasicos convencionais, era composta por personagens de desenho animado que moravam em um site na internet desde 1998.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Falando em desenho animado, lembro de \u201cCapit\u00e3o Planeta\u201d que estreou no Brasil em 1991 e se estendeu at\u00e9 1996, reunia personagens de diferentes lugares do mundo, lutando contra vil\u00f5es que tentavam destruir a natureza em nome do \u201cprogresso\u201d. N\u00e3o obstante, em 1999 foi sancionada a lei de Pol\u00edtica Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental no Brasil \u2013 como implanta\u00e7\u00e3o tardia da internacionaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o ambiental proposta ainda na d\u00e9cada de 1970<sup>2<\/sup>, instituindo que dever\u00edamos estimular \u201c[&#8230;] os processos por meio dos quais o indiv\u00edduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e compet\u00eancias voltadas para a conserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial \u00e0 sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade\u201d<sup>3<\/sup>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, apenas quero dizer, que minha gera\u00e7\u00e3o foi uma das primeiras no Brasil a ter uma programa\u00e7\u00e3o exclusiva sobre a import\u00e2ncia da prote\u00e7\u00e3o ambiental e, a\u00e7\u00f5es diretamente pedag\u00f3gicas (lembro-me das caminhadas em grupinho escolar com as mudas nas m\u00e3os) sobre a preserva\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da \u201cm\u00e3e natureza\u201d. Era para mim, desde cedo, uma quest\u00e3o de emerg\u00eancia global. Motivo b\u00e1sico para tomar como absurdo o negacionismo \u201c[&#8230;] daqueles adeptos, em graus variados, da teoria da conspira\u00e7\u00e3o e que, como muitos pol\u00edticos americanos, veem na quest\u00e3o ecol\u00f3gica um modo indireto de impor o socialismo nos Estados Unidos! (Latour, 2015, p. 19). Assim, as primeiras reflex\u00f5es sobre \u201cecologia\u201d e \u201ctecnologia\u201d surgiram em minha vida praticamente na mesma \u00e9poca. J\u00e1 o sentido ocidental de arte, s\u00f3 viria ser formalmente apresentado nos meus primeiros anos no bacharelado em Arte e M\u00eddia (UFCG) em 2010, marcado como \u201co ano dos desastres naturais\u201d, em mem\u00f3ria do terremoto que aterrou milhares de vidas no Haiti. Noto que enquanto direcionava minhas primeiras rela\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas entre artes e <em>m\u00e9dias<\/em> no contexto da hist\u00f3ria da arte entre o popular e o erudito, ocorria uma escalada catastr\u00f3fica relacionada ao predatismo capitalista da natureza que escancarava, em per\u00edodo cada vez menores, uma sensa\u00e7\u00e3o de que a \u201cm\u00e1quina\u201d consumir\u00e1 tudo consigo. \u201cPlanet Earth is blue, and there&#8217;s nothing I can do\u201d, j\u00e1 cantava David Bowie em 1969.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, desenvolvo uma pesquisa no Doutorado em Artes Visuais (PPGAV \u2013 UFRGS), com a proposta de refletir sobre a insubordina\u00e7\u00e3o contracolonial das artes ind\u00edgenas contempor\u00e2neas. Neste intento, venho conhecendo algumas produ\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que realizam uma intersec\u00e7\u00e3o entre arte, tecnologia e natureza, ensinando-nos que seus conhecimentos tradicionais e contempor\u00e2neos, podem sugerir reflex\u00f5es e a\u00e7\u00f5es cr\u00edticas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da multiplica\u00e7\u00e3o das cat\u00e1strofes socioambientais causadas por \u201c[&#8230;] uma profunda muta\u00e7\u00e3o em nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo\u201d (Latour, 2015, p. 16), caracterizada como a Era do Antropoceno. N\u00e3o se trata apenas de uma \u201ccrise\u201d, caso seja, sabemos que \u00e9 um plano hegem\u00f4nico. O senso de coletividade que conduz os processos criativos de artistas ind\u00edgenas, desdobram-se em possiblidades m\u00faltiplas enquanto conceitos e formas \u2013 por\u00e9m, intimamente preocupadas com a preserva\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo entre os distintos \u201ccosmos-mundos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto <em>Arte Eletr\u00f4nica Ind\u00edgena<\/em> (<em>AEI<\/em> &#8211; 2018) realizado pela Organiza\u00e7\u00e3o da Sociedade Civil Thyd\u00eaw\u00e1, foi efetivado atrav\u00e9s de resid\u00eancias art\u00edsticas em pontos de cultura nas aldeias ind\u00edgenas do povo Pankararu (Tacaratu \u2013 PE), Karapot\u00f3 Plaki-\u00f4 (Sebasti\u00e3o \u2013 AL), Patax\u00f3 (Camexatib\u00e1, Prado \u2013 BA), Patax\u00f3 H\u00e3h\u00e3h\u00e3e (Pau Brasil \u2013 BA), Patax\u00f3 (Barra Velha, Porto Seguro \u2013 BA), Xoc\u00f3 (Porto da Folha \u2013 SE), Kariri-Xox\u00f3 (Porto Real do Col\u00e9gio \u2013 AL, Camacam Imbor\u00e9\/Tupinamb\u00e1 (Porto do Largo \u2013 BA) e Tupinamb\u00e1 (Ilh\u00e9s \u2013 BA). Os encontros entre artistas e outros profissionais ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas nessas resid\u00eancias, resultaram em diversas obras realizadas a partir da conex\u00e3o entre tecnologias cosmo-tradicionais e eletr\u00f4nicas contempor\u00e2neas, que foram expostas primeiramente no Museu de Arte Moderna da Bahia (Salvador) entre 2 de agosto e 2 de setembro em 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta conceitual que perpassou os processos criativos dos variados formatos das obras realizados no projeto <em>AEI<\/em> (instala\u00e7\u00f5es, v\u00eddeos, fotografias, performances, desenhos, sonoriza\u00e7\u00f5es etc.), centrou-se \u201c[&#8230;] na partilha de experi\u00eancias entre pessoas de diferentes estilos de vida, de \u201ccomunalidade coeva\u201d nos termos de Terry Smith (PITMAN, 2020, p. 59). A produ\u00e7\u00e3o compartilhada que mais me chamou aten\u00e7\u00e3o nesse projeto, diz respeito, ao encontro da artista boliviana Aruma (Sandra De Berduccy \u2013 Cochabamba, BO) com a artista Mangtxai Camacan Imbor\u00e9, na aldeia ind\u00edgena de Porto do Largo na Bahia, entre os dias 12 e 24 de julho. Juntas elas teceram a obra <em>Pulsa\u00e7\u00e3o<\/em>, que consiste em uma esp\u00e9cie de \u201ccasulo\u201d constru\u00eddo a partir de fios org\u00e2nicos e eletr\u00f4nicos com a utiliza\u00e7\u00e3o de \u201c[&#8230;] um micro controlador e um sensor de pulso que converte em luz os batimentos do cora\u00e7\u00e3o de quem entre nele (Cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o, 2018, p. 15).<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"805\" height=\"609\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/FOTO1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-434\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/FOTO1.jpg 805w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/FOTO1-300x227.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/FOTO1-768x581.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 805px) 100vw, 805px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-1 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p class=\"has-text-align-center\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Capa do cat\u00e1logo do projeto <em>Arte Eletr\u00f4nica Ind\u00edgena<\/em> (<em>AEI<\/em> &#8211; 2018)<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p>A tessitura da obra <em>Pulsa\u00e7\u00e3o<\/em> foi realizada utilizando as fibras da planta taboa, juntamente com fios eletr\u00f4nicos que ao serem conectados a um sensor de pulso, interagem luminosamente com a presen\u00e7a de quem se aproxima ou toca na instala\u00e7\u00e3o, variando as cores e simulando o fluxo do batimento card\u00edaco dos espectadores. Percebe-se que essa obra foi realizada atrav\u00e9s do di\u00e1logo intercultural que levou em considera\u00e7\u00e3o a for\u00e7a criativa que surge da partilha de conhecimentos, assim como, uma forma comum de criar meios de ressignifica\u00e7\u00e3o das tecnologias que refletem a import\u00e2ncia da rela\u00e7\u00e3o sens\u00edvel as diferen\u00e7as culturais e a natureza. Sobre isto, a artista Mangtxai reflete o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s vamos tran\u00e7ar a taboa junto com a fibra em forma de trancinha de duas voltas. Eu nunca tinha trabalhado com o artificial. Nunca passava na minha mente que eu conseguiria fazer uma obra de arte com um tipo de linha assim. Como a colega Aruma falou, ela est\u00e1 aprendendo com a fibra natural e eu passando a aprender a trabalhar com a fibra artificial (Mangtxai, informa\u00e7\u00e3o verbal).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-2 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p class=\"has-text-align-center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfEHMA2j1--t-VllCTgz8kQNh1c7lWhhiGy7S3rhYr3dJxmGoPH2avdIEb6ufTB7x1wnwHvTTXiEmXVDfouBb3o9r0slOB3i6sd1N5TvJYLT5s4tXY1eDcN3HRNHaIXfbaTgKOnkqZTNw4np2IDnx4Pd7FWLUTPri2puVBb08gTJjbIghREu2Y?key=ESiNSUibgP1pOCCDx78a_A\" style=\"width: 700px;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXcxRrR16XCZLj40IL9iE_mnBFMqDyAGTN1ZBt2M-T3tkY4XUPTT-fGjodFfaI-9fxcLmdS0JhYGBsjBht2WXIqzpPutYjRmRJ7ZUnw8GFS-g3PVEYhp0GCB0ek1Df3gJWLel0kpxdD3l1dG1Zg8grQW7NImkPygyf5pb_HyK3Jeo5n0GYfua3U?key=ESiNSUibgP1pOCCDx78a_A\" style=\"width: 700px;\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><img decoding=\"async\" style=\"width: 700px;\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXdWnvUUjyUzDSAfgSYQGM33SRS5Y51Soo58K0bXk6BTjoiJbsPAN5FqF4sTqeH3LXoiXgZHjhrMJ7fiLn8312IeV3iyYmPgI6Yf_HmtRx4G2uS9G_k0W4BIC5wXnxfmk-mnKhnZbtEp2aPi7rsOTF3kodHqimmhl5OBqpO33ffyjHY8CHlngTE?key=ESiNSUibgP1pOCCDx78a_A\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">&nbsp;&nbsp;Prints extra\u00eddos do v\u00eddeo de documenta\u00e7\u00e3o do processo criativo da obra <em>Pulsa\u00e7\u00e3o<\/em>, 2018.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Este \u201ccasulo\u201d inicialmente projetado para ser suspenso em uma \u00e1rvore da comunidade ind\u00edgena (p\u00e9 de umbu) em forma de instala\u00e7\u00e3o, foi criado pelas tramas da tecitura realizada pelas m\u00e3os das duas artistas, que em di\u00e1logo nomearam-no como <em>Pulsa\u00e7\u00e3o<\/em>. Seus processos criativos nos remente a refletir sobre a <em>tecelagem<\/em> (entre outras tecnologias), n\u00e3o apenas como uma t\u00e9cnica de transmiss\u00e3o tradicionalmente oral ou, simplesmente, uma mera manualidade artesanal, pois, conceitualmente essa obra \u00e9 tamb\u00e9m pensada enquanto meio tecnol\u00f3gico sofisticado de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de \u201ccosmot\u00e9cnicas\u201d, que sustentam milenarmente pensamentos e a\u00e7\u00f5es em coexist\u00eancia respeitosamente sustent\u00e1vel e precavida, com o pouco que apreendemos da imensid\u00e3o da Terra e do Cosmo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-3 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p class=\"has-text-align-center\">&nbsp;<br><img decoding=\"async\" style=\"width: 700px;\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXe2HC7kPi-bSsEUeNq1OA8HkvpCv9FWvTuKKZY7fiE7XJ_PETXDduRg8Eaymh4mDwmkgfqzujJT8PIhqsG3zU5RAbnYgewgB6fVwHdTax2QQFhDs0sNHkBV3E0qKrFJJq5oVA_ro2V4qxKPspFOauXyNrV4tr4qBb1wNGM0kphAV2m3tEeOLqk?key=ESiNSUibgP1pOCCDx78a_A\"><img decoding=\"async\" style=\"width: 700px;\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXenPlEB_sx34BZcfjhKMRGPsXUoXzXkH1AcLRSZiGaGppjBGtQCBkmw-k1yqUsLcvLcJ31uMb1mWMov4IBKwmGzjvRGfqPC_IFJ-GvEsaGCKB2W9F4cMb7NgfAdwoQYPu4TE2K9TmKd5wCt7aoUws1JJyueIg30OxlXXJJsHf8shtLpyO5NgYA?key=ESiNSUibgP1pOCCDx78a_A\"><img decoding=\"async\" style=\"width: 700px;\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXdSsYddaUpcsAU8mVgXyGGbZQQwFo3VqztwQCh5gL56jgY2hyY2xo7S3cRbQdna8Mkv5cTyb09HfFKN14nj7P-apN506qdaya_xWZM_ya39HcfGXo9-vpHpZE4C5xuke10JQpU9mRd_sO4IAyK2eHhHPtaQWx5kASO_EMYUH46Pzr4GImZaHPk?key=ESiNSUibgP1pOCCDx78a_A\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Prints extra\u00eddos do v\u00eddeo de documenta\u00e7\u00e3o do processo criativo da obra <em>Pulsa\u00e7\u00e3o<\/em>, 2018.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Neste sentido, \u201cancestralidade\u201d e \u201ctecnologia\u201d, n\u00e3o devem ser compreendidos como conceitos antag\u00f4nicos (ou anacr\u00f4nicos), pois, est\u00e3o condicionalmente relacionadas \u00e0 coetaneidade emp\u00edrica dos contextos s\u00f3cio-hist\u00f3ricos das m\u00faltiplas sociedades. Portanto, as artes podem ser pensadas como gestos conceituais que possibilitam a experimenta\u00e7\u00e3o entre t\u00e9cnicas pr\u00e9-coloniais ou industriais. A expans\u00e3o colonizadora do sentido de \u201cprogresso\u201d empregado pelo ocidente \u00e0 \u201ctecnologia\u201d (<em>high-tech<\/em>), n\u00e3o deve ser apreendido universalmente para sobrepor, ou mesmo, apagar as tecnologias dos povos n\u00e3o europeus. Como bem nos aponta Yuk Hui: \u201cAssim, n\u00e3o h\u00e1 uma tecnologia \u00fanica, mas uma multiplicidade de cosmot\u00e9cnicas\u201d (2020, p. 15). A artista Aruma reflete sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o da instala\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">No momento de tecer, em que estou entendendo o tecido, buscando entender da mesma forma que os antigos e na \u00e9poca antiga, a tecelagem era a mais alta tecnologia, a mais alta ci\u00eancia, uma forma de pensamento completo. Ent\u00e3o entend\u00ea-la \u00e9 entender uma cultura tamb\u00e9m. \u00c9 uma forma de aproveitar o conhecimento que as m\u00e3os t\u00eam para fazer experi\u00eancias com outras tecnologias. Todo mundo agora est\u00e1 trocando o cabo tradicional de cobra para a internet, pela fibra \u00f3tica, onde a informa\u00e7\u00e3o viaja atrav\u00e9s da luz. O tecido tamb\u00e9m, as t\u00e9cnicas tradicionais, s\u00e3o informa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, tem muitas coisas que tem a ver com as t\u00e9cnicas tradicionais com a tecnologia atual. \u00c9 uma pesquisa que eu estou fazendo, mas, n\u00e3o \u00e9 uma pesquisa te\u00f3rica, \u00e9 uma pesquisa mat\u00e9rica. A arte tem um papel especial nesse sentido. Pelo menos, dar a possibilidade de criar coisas, assim, na experimenta\u00e7\u00e3o. Em um espa\u00e7o que n\u00e3o precisa necessariamente de utilidade (informa\u00e7\u00e3o verbal).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-4 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p class=\"has-text-align-center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXcB7bGICYLdzRXO5ero-ptAGCRfcVoE_LVKkkyFiX9-IUI1vkcCJh4YlfNFwzQDAWjpBtVZbUYJviC4jJ_h_YMUvHjkvqA5XY1NiQ4EQ8C83UNduTRytUSScN-ohmv9MYHFIS4fgAuWC9VmJxCxGB7ZEsWWAZrmDzh8W2EZ4WNEXJkq3yoMens?key=ESiNSUibgP1pOCCDx78a_A\" style=\"width: 700px;\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Instala\u00e7\u00e3o da obra Pulsa\u00e7\u00e3o em \u00e1rvore na aldeia ind\u00edgena de Porto do Largo na Bahia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">&nbsp;(Aruma e Mangatxai, 2018 \u2013 fotografia: Grupo <em>AIE<\/em>).<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Esta obra de feitura partilhada integra um conjunto de acionamentos art\u00edsticos realizados pelo coletivo <em>AEI<\/em>, no intuito movimentar uma ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os que costumeiramente n\u00e3o reconheciam as produ\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas como &#8220;arte\u201d. Sobre o primeiro momento de ocupa\u00e7\u00e3o da <em>AEI<\/em>, a l\u00edder ind\u00edgena May\u00e1 Tupinamb\u00e1 Patax\u00f3 H\u00e3h\u00e3h\u00e3e aponta: \u201cEu disse para os meus colegas, irm\u00e3os, parentes da comunidade, que n\u00f3s est\u00e1vamos nos preparando para fazer uma retomada perante ao MAM. Mostrando a nossa sabedoria, as nossas intelig\u00eancias\u201d (informa\u00e7\u00e3o verbal, 2018). O projeto <em>AEI<\/em> realiza um intrincado di\u00e1logo entre \u201ctradicionalidade\u201d e \u201cmodernidade\u201d, atrav\u00e9s das tecnologias ancestrais ind\u00edgenas e as tecnologias ocidentais eletr\u00f4nicas, que funcionam como amalgamas conceituais de uma est\u00e9tica dialogicamente interativa; permitindo-nos refletir sobre a necessidade emergencial da produ\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o de obras art\u00edsticas que realizam manuten\u00e7\u00f5es e reatualiza\u00e7\u00f5es das m\u00faltiplas cosmovis\u00f5es, que resistem na luta pela sustenta\u00e7\u00e3o da \u201cqueda do c\u00e9u\u201d na Era do Antropoceno.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-7 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-6 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong>Gerlic, Sebasti\u00e1n.<\/strong> Arte Eletr\u00f4nica Ind\u00edgena: reflex\u00f5es com Imbor\u00e9 Camacan. YouTube, 20 de ago. de 2018. 8 minutos, colorido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hui, Yuk.<\/strong> Tecnodiversidade. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Kopenawa, Davi; Albert, Bruce.<\/strong> A queda do c\u00e9u: palavras de um xam\u00e3 Yanomami. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015.<br><strong>Latour, B.<\/strong> Diante de Gaia: oito confer\u00eancias sobre a natureza no Antropoceno. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora\/Ateli\u00ea de Humanidades, 2020.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\"\/>\n<\/div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-content-justification-left is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-8 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><sup>[1]<\/sup> Doutorando em Artes Visuais no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Artes Visuais da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>[2]<\/sup> Lembremo-nos da publica\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio <em>Os Limites do Crescimento<\/em>, realizado por 30 especialistas de v\u00e1rios pa\u00edses (Clube de Roma) em 1972. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.donellameadows.org\/wp-content\/userfiles\/Limits-to-Growth-digital-scan-version.pdf\">https:\/\/www.donellameadows.org\/wp-content\/userfiles\/Limits-to-Growth-digital-scan-version.pdf<\/a>. Acesso em: 20\/06\/2024. No mesmo ano, ocorre tamb\u00e9m a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre o Ambiente Humano, em Estocolmo.<\/p>\n\n\n\n<p><sup><sup>[3]<\/sup><\/sup> Lei N\u00ba 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/legislacao.presidencia.gov.br\/atos\/?tipo=LEI&amp;numero=9795&amp;ano=1999&amp;ato=b90QTQE9keNpWTc45\">https:\/\/legislacao.presidencia.gov.br\/atos\/?tipo=LEI&amp;numero=9795&amp;ano=1999&amp;ato=b90QTQE9keNpWTc45<\/a>. Acesso em: 20\/06\/2024.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>[4]<\/sup> A Organiza\u00e7\u00e3o da Sociedade Civil Thyd\u00eaw\u00e1 \u00e9 um projeto desenvolvido por pessoas ind\u00edgenas de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es do mundo que se aliam com pessoas n\u00e3o ind\u00edgenas, para promoverem a\u00e7\u00f5es que visam uma \u201cconsci\u00eancia planet\u00e1ria\u201d, valendo-se de um di\u00e1logo intercultural que valoriza a \u201cdiversidade das culturas e conhecimentos tradicionais; visando um desenvolvimento integral para todos em harmonia e paz\u201d (Site da OSCT). Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.thydewa.org\/thydewa\/\">https:\/\/www.thydewa.org\/thydewa\/<\/a>. Acesso em: 20\/06\/2014.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>[5]<\/sup> Essa exposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi montada em parceria da Britsh Academy de Londres, entre os dias 21 e 22 de junho (2019), como parte da programa\u00e7\u00e3o do Festiva \u201cSummer Case\u201d. Assim como, entre os dias 5 e 9 de dezembro (2019) no Ars Eletronica Festival em Linz na \u00c1ustria, entre outras ocasi\u00f5es. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.thydewa.org\/uk\/\">https:\/\/www.thydewa.org\/uk\/<\/a>. Acesso em: 20\/06\/2024.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>[6]<\/sup> Thea Pitman \u00e9 professora de estudos latino-americanos da Universidade de Leeds e atuou em parceria com a <em>AEI<\/em> em alguns projetos.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>[7]<\/sup> Cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o Arte Eletr\u00f4nica Ind\u00edgena (2018). Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/aei.art.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/CAT%C3%81LOGO-AEI-PORTUGUES.pdf\">http:\/\/aei.art.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/CAT%C3%81LOGO-AEI-PORTUGUES.pdf<\/a>. Acesso em: 20\/06\/2024.<\/p>\n\n\n\n<p><sup><sup>[8]<\/sup><\/sup> Trecho da fala da artista Mangtxai Camacan Imbor\u00e9, extra\u00eddo do v\u00eddeo <em>Arte Eletr\u00f4nica Ind\u00edgena: reflex\u00f5es com Imbor\u00e9 Camacan<\/em> (2018), que documentou alguns momentos do processo criativo da obra <em>Pulsa\u00e7\u00e3o<\/em>. O trecho seguinte da fala da artista Aruma, tamb\u00e9m foi extra\u00eddo desse mesmo v\u00eddeo.\u00a0 Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=NvtQrJ1UqOI&amp;list=PLzU8Gh62ypXhGDYbyd8c43GtvvpLLfNw0&amp;index=2\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=NvtQrJ1UqOI&amp;list=PLzU8Gh62ypXhGDYbyd8c43GtvvpLLfNw0&amp;index=2<\/a>. Acesso em: 20\/06\/2024.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>[9]<\/sup> Trecho extra\u00eddo do v\u00eddeo <em>Occupy MAM!<\/em>, onde \u00e9 poss\u00edvel acompanhar momentos da abertura da exposi\u00e7\u00e3o das obras do <em>AEI<\/em>, realizada em 2018 no Museu de Arte Moderna da Bahia (Salvador). Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Wd8X93r5EH8&amp;list=PLzU8Gh62ypXhGDYbyd8c43GtvvpLLfNw0&amp;index=3\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Wd8X93r5EH8&amp;list=PLzU8Gh62ypXhGDYbyd8c43GtvvpLLfNw0&amp;index=3<\/a>. Acesso em: 25\/06\/2024.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Willams Lucian Belo Ramo1 Passarinho quando cantaQue alegra o mundo inteiroE o \u00edndio quando chora\u00c9 por falta do terreiro(canto de May\u00e1 Tupinamb\u00e1 Patax\u00f3 H\u00e3h\u00e3h\u00e3e, BA \u2013 Brasil) Lembro que em 1999, reunia-me com os amigos de bairro (juntando moedas), para tentar alugar a fita cassete do rec\u00e9m lan\u00e7ado filme Matrix. 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