{"id":616,"date":"2024-12-26T11:00:13","date_gmt":"2024-12-26T14:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/?p=616"},"modified":"2024-12-26T11:32:41","modified_gmt":"2024-12-26T14:32:41","slug":"a-arte-e-as-intervencoes-da-natureza-na-obra-de-cristina-oiticica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artenaturezatecnologia\/2024\/12\/26\/a-arte-e-as-intervencoes-da-natureza-na-obra-de-cristina-oiticica\/","title":{"rendered":"A Arte e as interven\u00e7\u00f5es da natureza na obra de Cristina Oiticica"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por: Mariene Mendon\u00e7a de Freitas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o atual da civiliza\u00e7\u00e3o com a terra encontra-se em conflito no que desrespeito \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, biol\u00f3gicas e geol\u00f3gicas e suas consequ\u00eancias mediante \u00e0 pr\u00f3pria vida humana no planeta. Segundo Latour, o que vivemos neste s\u00e9culo XXI \u00e9 resultado de sucessivas transforma\u00e7\u00f5es operadas pelo homem e que hoje, diante de uma gaia a tanto transformada tem pago um pre\u00e7o que se traduz nas cat\u00e1strofes naturais que vemos a cada vez mais sendo noticiadas. Bruno Latour afirma que <em>\u201cHoje, cada elemento do solo, do ar, do mar e dos rios resulta, em grande medida, de modifica\u00e7\u00f5es, cria\u00e7\u00f5es e inven\u00e7\u00f5es de organismos vivos<\/em>.\u201d Apesar de estas modifica\u00e7\u00f5es engendradas e operadas sucessivamente na natureza da terra, a esta estamos emaranhados em seus aspectos natural e cultural, e inevitavelmente nos relacionamos com as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsico-qu\u00edmicas e geol\u00f3gicas com as quais a terra encontra-se hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das mudan\u00e7as na terra e suas consequ\u00eancias em forma de desastres serem fatos amplamente noticiados, desde os anos 90 h\u00e1 o interesse pol\u00edtico em lan\u00e7ar d\u00favidas sobre eles, de modo a fazer com que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e suas consequ\u00eancias n\u00e3o sejam pautas pol\u00edticas e nem um clamor popular absoluto capaz de fazer press\u00e3o \u00e0s grandes empresas a fazerem mudan\u00e7a em seus meios de produ\u00e7\u00e3o e emiss\u00e3o de Co2.<\/p>\n\n\n\n<p>A arte diante desse conflito entre o \u201chomem e a terra\u201d, pode se fazer valer de sua capacidade de transforma\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o. Se a terra se modificou pelo homem e reage de forma a ser implac\u00e1vel em sua for\u00e7a, tamb\u00e9m pode ser incorporado este agir na pr\u00f3pria obra de arte. A artista Cristina Oiticica tem se utilizado das interven\u00e7\u00f5es da terra e demais elementos da natureza de forma a integrar e fazer interagir a arte e a terra. Cristina Oiticica \u00e9 uma artista visual brasileira nascida no Rio de Janeiro em 1951 e&nbsp; desde 2003 desenvolve um trabalho art\u00edstico que re\u00fane pintura, performance e interven\u00e7\u00f5es da natureza e seus elementos. O processo art\u00edstico de Cristina correlacionado \u00e0s \u201cm\u00e3os\u201d da natureza teve in\u00edcio em 2003 quando a artista foi morar na Fran\u00e7a e residia em um pequeno quarto de hotel, devido a falta de um ateli\u00ea de arte a mesma trabalhava ao ar livre, foi nessa circunst\u00e2ncia que um dia uma de suas pinturas ao ficar exposta do lado de fora acabou tendo interven\u00e7\u00f5es de insetos e folhas na tinta fresca alterando assim a obra com manchas e novos elementos que lhe foram acrescentados naturalmente, foi a partir de ent\u00e3o que Cristina Oiticica percebeu que a natureza e seus elementos traziam interven\u00e7\u00f5es em suas pinturas que poderiam ser integradas ao seu processo de trabalho art\u00edstico e a mesma passou a usar a natureza como elemento simb\u00f3lico e introdutor de mudan\u00e7as est\u00e9ticas&nbsp; em sua arte pict\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Figura 1: Pintura de Cristina Oiticica ap\u00f3s ter sido enterrada na Amaz\u00f4nia e ficado submersa em enchente.<img decoding=\"async\" alt=\"Interface gr\u00e1fica do usu\u00e1rio, Texto, Aplicativo\n\nDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXcKbEQS5puo8SUCuSYNeKvWCAHGETELQ7S-lcuY0u4AKV1s3HZ6uwYqk0RehTGuux7acVpF89Yd_dPvSr1riMJJEtvnGrmWpJ-xeLGB6QklsAXnH1m1AVNE27FdgMnUFTh4zvxwFH7uliutduWJtV0?key=wf0sNzfy_sWK_Hn8DUQF-PsW\" width=\"567.6986370635959\" height=\"318.9315792096477\"><\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9yWb4TxwsXg&amp;t=917s<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre este processo a artista ressalta que a natureza completa a sua obra, sendo sempre uma surpresa os resultados est\u00e9ticos nas pinturas ap\u00f3s estas passarem pelas a\u00e7\u00f5es da natureza. O processo de trabalho de Cristina envolve a realiza\u00e7\u00e3o de pinturas e as exposi\u00e7\u00f5es das mesmas ao ar livre, em florestas, leitos de rios ou enterradas sob a terra, a artista se utiliza de per\u00edodos simb\u00f3licos de tempo para desenterrar as obras, como nove meses (tempo de uma gesta\u00e7\u00e3o humana) ou doze meses (per\u00edodo em que se desenvolve as quatro esta\u00e7\u00f5es), somente ap\u00f3s este processo as obras participam de exposi\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m da interfer\u00eancia est\u00e9tica no envolvimento do trabalho de Cristina com a natureza, a terra, a artista afirma que h\u00e1 a quest\u00e3o energ\u00e9tica, a obra recebendo e trocando energia com a terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Figura 2: Pintura de Cristina Oiticica ap\u00f3s ter sido enterrada na Amaz\u00f4nia e ficado submersa em enchente.&nbsp;<img decoding=\"async\" alt=\"Interface gr\u00e1fica do usu\u00e1rio, Texto, Aplicativo\n\nDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXeIhgaLoXmaZK9xQdhGYyrdzwOydzd0CKlmVmt4zRR0UUHl4dLuanD6__E7_NUwmBynZNMhOE_WS8z9T5Hyp1fia1ntZXy5-Uy7u1YtmdBncmb5on2gERrR-nM_GDUCC-fdfJBuRsnQqPlV60kDC8U?key=wf0sNzfy_sWK_Hn8DUQF-PsW\" width=\"567.6672630486162\" height=\"318.9315792096477\"><\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9yWb4TxwsXg&amp;t=917s<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;As pinturas realizadas por Cristina envolvem ainda a apresenta\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica no ato de retirar as obras da natureza, a\u00e7\u00e3o esta que pode ser coletiva entre a artista&nbsp; e o p\u00fablico ou feita apenas por ela mesma. As obras de Cristina Oiticica j\u00e1 foram expostas em diferentes pa\u00edses, como Brasil, Portugal, Fran\u00e7a e Su\u00ed\u00e7a, sendo este \u00faltimo o pa\u00eds em que reside.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre os primeiros trabalhos criados pela pintora que vieram a explorar a rela\u00e7\u00e3o da natureza com a sua arte citamos o trabalho desenvolvido na Amaz\u00f4nia entre os anos de 2004 e 2005.Para o desenvolvimento deste trabalho cujo document\u00e1rio est\u00e1 dispon\u00edvel no canal oficial da artista no Youtube (link: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9yWb4TxwsXg\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9yWb4TxwsXg<\/a>)&nbsp; visitou comunidades ribeirinhas \u00e0s margens do Rio Negro no Amazonas e desenvolveu na comunidade chamada Bet\u00e2nia o processo de enterrar suas&nbsp; pinturas que ficaram sob a terra por um ano inteiro. No retorno da artista ao local para a retirada das obras que estavam sob o solo, um fator que causou espanto a esta foi a dificuldade de desenterrar as obras ap\u00f3s os doze meses em que ficaram expostas \u00e0s a\u00e7\u00f5es da natureza, posto que no retorno da artista ao local em que as obras haviam sido enterradas o terreno tinha sido alagado por uma enchente, fazendo com que a&nbsp; localiza\u00e7\u00e3o das pinturas fosse mais dif\u00edcil&nbsp; e a umidade inesperada do solo viesse a&nbsp; interferir ainda mais nas pinturas.<\/p>\n\n\n\n<p>Figura 3: Pintura de Cristina Oiticica enterrada com folhas em comunidade da Amaz\u00f4nia<img decoding=\"async\" alt=\"Interface gr\u00e1fica do usu\u00e1rio, Aplicativo\n\nDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXcf5Fm69-TlMa84T_tGYeNDGR-K-etsaVXJtkXCTyMwysbTwX8fhSZIpuBBS0rPC2_rVkTN0Aoi5bhZJBw08BDk74AF_0XUsdh9ywRqd1xwNF_9hDiFEzvvoegz1iHlxZcg2uzOIbpwQwIZQSHZMQM?key=wf0sNzfy_sWK_Hn8DUQF-PsW\" width=\"837.0709178915582\" height=\"471.7761959940406\"><\/p>\n\n\n\n<p>Figura 4: Pintura de Cristina Oiticica enterrada com folhas em comunidade da Amaz\u00f4nia<img decoding=\"async\" alt=\"Interface gr\u00e1fica do usu\u00e1rio, Aplicativo\n\nDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfRJ8-Fj9it3d9YKt-PjOQoQUXsMeVScfklwEcn3oZzdOXQXt1r33MUPWX3ADM8uPXqhmhDwfbnvQ3-lsDAwA8LCi2lChurqKMAcqWqObKskAtZ_p_hBNUdJoB_4r5QAm_eBjRz4XaxNDdk7YhW7w?key=wf0sNzfy_sWK_Hn8DUQF-PsW\" width=\"836.6378618745273\" height=\"469.95182148592676\"><\/p>\n\n\n\n<p>Figura 5: A Artista Cristina Oiticica realizando pinturas com ind\u00edgenas em uma comunidade na Amaz\u00f4nia em 2005. Fonte: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9yWb4TxwsXg&amp;t=917s<img decoding=\"async\" alt=\"Interface gr\u00e1fica do usu\u00e1rio, Texto, Aplicativo\n\nDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXczoC2wLfxKLVLZ_6bcP1J9qDAM9yfEijO70eo_WqUUoAMbJgKHQGKNL3vSzBHF940PKgFyDGlICiI4P_uBonwBMOc6Izp6dtlonsgHloYxuFAns4d9sQTgarZ7tlUlKp4fVFY8vezT_k3YDkohu9g?key=wf0sNzfy_sWK_Hn8DUQF-PsW\" width=\"479.92429363255377\" height=\"269.0072597472021\"><\/p>\n\n\n\n<p>Figura 6: Pinturas de Cristina Oiticica que passaram por processo interven\u00e7\u00e3o na natureza j\u00e1 emolduradas para exposi\u00e7\u00e3o em 2005.<img decoding=\"async\" alt=\"Interface gr\u00e1fica do usu\u00e1rio, Site\n\nDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfKY5eQSPRgCzEwNwGYEhwkDBSsfRFkO2Ae0ovVD2e55PP5R4gE470sodsJIIBdFCH5UPUgFiPIzs3YM-9K_l71IVhUCaAQNGAGLkhHT_v6j46dgbJ1Vlrks6DFrugvwooSzOo0C7bx4GFzsx0SnQ?key=wf0sNzfy_sWK_Hn8DUQF-PsW\" width=\"1359.0713447241426\" height=\"763.9085367422001\"><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Fonte: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9yWb4TxwsXg&amp;t=917s<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a nossa rela\u00e7\u00e3o com a terra e suas altera\u00e7\u00f5es Latour afirma que os proclamados humanos est\u00e3o irremediavelmente emaranhados nas transforma\u00e7\u00f5es materiais com os outros seres vivos, neste sentido&nbsp; a obra de Cristina Oiticica se transforma e entrela\u00e7a de maneira simb\u00f3lica e est\u00e9tica com os processos da natureza, como se sua arte fosse em si mesma um elemento que faz parte de um percurso org\u00e2nico de mudan\u00e7as, ao integrar os processos org\u00e2nicos da terra em sua arte em pintura Cristina se desencontra com a degrada\u00e7\u00e3o e colapsos da natureza neste mil\u00eanio que a partir da moderniza\u00e7\u00e3o, segundo Latour.&nbsp; A obra de Cristina est\u00e1 ao alcance dos processos da natureza, seus percursos , suas surpresas e sua ess\u00eancia, no retrabalho realizado na Amazonia ao se deparar com as obras em um terreno que fora alagado por uma enchente a artista apesar de demonstrar surpresa com o ocorrido e se mostrar consciente de que algumas obras iriam se perder, tamb\u00e9m deixou claro que as \u00e1guas trariam ainda mais elementos e modifica\u00e7\u00f5es \u00e0s pinturas. A a\u00e7\u00e3o da terra e seus elementos&nbsp; assim como de um modo geral toda a vida se entrela\u00e7a num pr\u00f3prio percurso.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p>LATOUR, Bruno. <em>Diante de Gaia<\/em>. S\u00e3o Paulo:, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>OITICICA, Christina. Site oficial. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/christinaoiticica.com.br\/\">https:\/\/christinaoiticica.com.br\/<\/a>. Acesso em: 29 ago. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>Christina Oiticica &#8211; Floresta Amaz\u00f4nica, Amazon Rainforest (2004-2005). YouTube, 2023. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9yWb4TxwsXg\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9yWb4TxwsXg<\/a>. Acesso em: 29 ago. 2024.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Mariene Mendon\u00e7a de Freitas A rela\u00e7\u00e3o atual da civiliza\u00e7\u00e3o com a terra encontra-se em conflito no que desrespeito \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, biol\u00f3gicas e geol\u00f3gicas e suas consequ\u00eancias mediante \u00e0 pr\u00f3pria vida humana no planeta. 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