Simpósio Internacional de Escultura: Superando Opacidades Del Imaginario de la Ciudad


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Local
: Guadalajara, México.

Data: 1999

Texto do Seminário, apresentado em uma mesa de debates neste Simpósio.

 

Superando opacidades no imaginário da cidade
Maria Amélia Bulhões

Presença instigante
O Museu de Belas Artes da Universidade de Guadalajara apresentou ao longo do mês de dezembro uma visão alterada de sua fachada. Em seu entorno foram colocadas sete grandes esculturas de ferro. Com sua monumentalidade, diversidade de propostas e resultados plásticos, elas atraíram o olhar dos transeuntes e impactaram o de seus tradicionais freqüentadores.
Essas obras fazem parte de um projeto amplo e complexo: o Simpósio Internacional de Esculturas. Passear por entre elas é uma boa forma de iniciar seu conhecimento. Partindo pela direita da fachada principal, se encontra a peça de Fancine Secretam, artista suíça radicada na Bolívia há mais de 30 anos. Ela trabalha a partir de signos da cultura indígena e pré-colombiana. Em sua escultura, se entrelaçam placas de ferro recortado com signos gráficos geométricos que se desdobram no ar com mais de quatro metros de altura. Denominada Oferenda para receber o canto dos pássaros, ela propõe uma leitura pessoal e contemporânea dos amuletos indígenas- illas- que buscam, por meios mágicos, harmonizar as relações dos homens com as forcas da natureza. A coloração vermelha da escultura ressalta seu sentido mítico, sugerindo também o sangue com que muitos destes amuletos eram recobertos. Reatualizando tradições, Secretan busca colocar, no seio da vida urbana, meios de recuperar formas mais sensíveis de relacionamento, resultantes de visões abertas ao multiculturalismo.
Ao seu lado está a obra de Nabil Basbous, artista libanês, descendente de uma família tradicional de escultores, que criou uma peça com a forma básica de uma serpente. Ele estudou arqueologia, e a escolha desse tema tem a ver com o fato de que essa imagem mítica tão forte aparece em inúmeras culturas, entre elas a sua e a mexicana. Esse símbolo contém muitos sentidos; nessa escultura, também pintada de vermelho, Basbous incorpora a força energética desse animal como representação da vida
Outro animal é evocado por Francisco Gazitua, escultor chileno, com formação artística na Inglaterra, cuja obra vem a seguir. O cavalo aparece como temática no trabalho desse artista, integrando um grande projeto, como já o foram anteriormente as árvores e os barcos. Tradicionalmente ele utiliza por um largo tempo um tema, que vai desdobrando com metódico experimentalismo. Nesse caso, o animal foi escolhido por ser amplamente utilizado na cultura andina, e Gazitua pretende executá-lo em uma gigantesca peça que será colocada em meio à cordilheira em seu país. Para tal, já fez inúmeros estudos do tema, com dobraduras e encaixes. A escultura colocada na frente do Museu, em Guadalajara, mantendo a cor natural oxidada do metal, realiza um desdobramento de planos em que se integram inúmeros experimentos de linguagem.
Ainda nessa fachada do Museu, se encontra a obra de Jean Paul Chablais, artista francês, de formação autodidata. Diferentemente das anteriores, ele propõe um desdobramento horizontal de forma. Nessa peça, embora ele inove na utilização do metal, a forma ainda remete a seus materiais tradicionais -pedra e madeira- com a tensão e movimento sempre presente. O titulo, Equilíbrio, reforça sua intenção de jogar com a inestabilidade visual e real, tentando captar o vazio como elemento estrutural. Chablais deixa perceber claramente a alusão a um balanço tencionado.
Na fachada oposta do Museu, encontra-se a obra de Serge Gongolf, artista belga, professor da École de Beaux Arts de Namur e Correspondent de l’Academie Royale de Belgique. Sua peça constitui um imenso pórtico com uma fratura na parte superior. Pintada de amarelo, ela se abre ao azul do céu, dando prosseguimento ao trabalho de uma geometria poética que o artista vem desenvolvendo ao longo de vários anos. Se, inicialmente, ele elaborava suas esculturas em formas compactas, agora ele as desmonta, deixando que o espaço as penetre e que elas se desdobrem nessa integração. Dono de esmerada técnica e domínio formal, ele cria uma intervenção visual marcante.
Ao seu lado, está a obra de Jose Villa Soberon, artista cubano, que estudou em Praga. A peça aqui realizada faz parte de sua série de obeliscos, na qual procura atualizar uma forma tradicional de esculturas públicas para render tributo. Ele incorpora a essa estrutura básica, que pode ser encontrada em inúmeras culturas ao largo do mundo, elementos da plástica caribenha -algo da estética negra- ainda que bastante estilizados. Villa utiliza esses desenhos não em um sentido ilustrativo, mas como parte de um processo de elaboração cultural bem mais complexo. Com essa proposta, busca pensar o espaço da arte pública enquanto elemento de permanência cultural, mesmo se transitório em termos de duração física.
Terminando o percurso, encontra-se a obra de Irineu Garcia, artista brasileiro, com formação de arquiteto, que pensa a escultura como um espaço dentro de outro espaço, em um desdobramento infinito. Ele integra de forma bem resolvida o metal e a pedra: uma poética geometria em metal oxidado se articula com a beleza da pedra quase em seu estado bruto. Deixando perceber um sólido domínio formal e técnico, Garcia faz com que o metal funcione como suporte, sustentando uma imensa pedra fissurada ao meio, de onde surgem pequenas plantas, intencionalmente ali colocadas. Em uma dinâmica integração espacial, ele sugere a vida emergindo em difíceis condições.
A cidade contemporânea oferece aos seus habitantes um polissêmico conjunto de imagens: autdoors, letreiros luminosos, o fluxo contínuo de automóveis, vitrines e todo tipo de inúmeras interferências visuais. O movimento constante tira dos indivíduos a noção de passado e futuro, vive-se em um presente permanente, em um tempo em que não há mais lugar para o olhar contemplativo. As imagens se sobrepõem e os tempos também, uma opacidade se estabelece. A arte busca abrir seu lugar, tornando mais translúcido o véu que recobre os sentidos.
Ao se inscreverem como um conjunto no espaço da malha urbana, as obras do Simpósio Internacional de Escultura criaram um percurso que envolveu o espectador, estabelecendo um tempo em suspensão e um espaço de complexidade visual marcante. Elas tornaram possível, simultaneamente, tocar o passado e o futuro com um simples olhar. Estavam ali, mas, ao mesmo tempo, eram resultado de um processo de produção ainda vivo e ostentavam a marca de um vir-a-ser. Criavam um vasto lugar de trânsito em que se introduziam outros tempos e espaços. Para melhor compreender o instigante percurso dessas sete peças, faz-se necessário um retorno, reconstituindo as complexas etapas do seu projeto, para perceber sua amplitude e desfrutar das inúmeras repercussões que já se permitem antever.

Anterioridade marcante
Este evento iniciou-se muitos meses antes, com o trabalho integrado de Suny Ramires, diretora do Museu de Belas Artes, e Dolores Ortiz, escultora e professora da Universidade. O projeto integrou inúmeros setores dessa instituição, os quais se mobilizaram para a realização de algo inédito e ousado.
Quando se olha o conjunto das obras realizadas, em sua magnífica realidade formal, fica difícil, talvez, imaginar todos os preâmbulos que anteciparam a vinda dos artistas e a realização dos trabalhos, ao longo dos dias 17 a 27 de novembro. Muitas pequenas e grandes tarefas precisaram ser realizadas, vários preparativos foram necessários para que tudo corresse na harmoniosa eficiência que aqui foi encontrada.
Uma criteriosa seleção de escultores de prestígio, atuantes em diferentes países, prosseguiu com o convite, a cada um deles, para participar com seu trabalho. Vale destacar os motivos que mobilizaram esses artistas, levando-os a abandonar a calma e conforto de seus atelieres para participar desta experiência coletiva. Segundo seus próprios depoimentos, eles percebem neste tipo de evento a oportunidade de um profícuo encontro com outros profissionais da área, sendo o diálogo considerado por eles como o grande móvel dessa viagem. Destacam, também, a condição de laboratório que esses momentos propiciam. Gongolf, por exemplo, comenta que a sua abertura para formas menos compactas se deu em um evento de esculturas em neve, no Canadá, onde experimentou pela primeira vez uma proposta que se assemelhava a um pórtico, e que a escultura aqui realizada foi a primeira de grande porte que criou dentro dessa nova forma. Gazitua observou que essa foi sua primeira obra monumental executada dentro do novo tema- cavalos- que está desenvolvendo. Chablais também comentou que esta escultura se encontra entre as primeiras experiências que realiza em metal. Todos os artistas, sem exceção, afirmaram que os comentários dos colegas nessas oportunidades, assim como as atividades em conjunto, são fundamentais para a consolidação de seus trabalhos pessoais, e que a troca de informações técnicas também é muito enriquecedora.
No circuito das artes visuais, a escultura detém pouco espaço, comparativamente com a pintura, por exemplo. Os concursos, em geral, são muito restritos em termos de temáticas e especificações; assim, eventos mais livres como este, em que o artista não está sujeito a temas ou outras restrições conceituais, se colocam como uma importante alternativa aos centros de poder das artes visuais. Com uma cuidadosa seleção dos participantes, é possível obter resultados diferenciados, em que a variedade de propostas enriquece a qualidade do conjunto. Para os artistas essa é uma atividade que vale a pena potencializar.
Se, para os artistas, essa foi uma importante oportunidade profissional, para os alunos do curso de Artes Visuais da Universidade de Guadalajara, que se integraram intensamente em todas as atividades, recebendo orientações estéticas e técnicas, foi uma experiência inesquecível. Uma aprendizagem que superou em muito aquela recebida em sala de aula, pois envolveu informações oriundas de diferentes países e culturas. Todos os alunos expressaram a intensidade desta experiência e sua satisfação em participar do evento. A partir desse contato intenso e permanente, com muitas conversas e trocas afetivas, verdadeiras amizades se estabeleceram. Também os operários tiveram oportunidade de descobrir um novo ângulo em seu trabalho. Acostumados aos produtos da indústria, eles viram-se diante de novos desafios em termos de criatividade técnica, aos quais responderam com grande entusiasmo e competência. Surpresos com os resultados, todos foram expressaram com entusiasmo o quanto gratificante foi a atividade. Alguns, inclusive, despertaram para a possibilidade de criar e de trabalhar para outros artistas, sentindo-se mais capacitados depois do exercício realizado ao longo desses dias de intenso labor.
O mais importante, entretanto, foi o acontecimento inusitado que ocorreu em pleno centro da cidade, permitindo que os transeuntes cotidianos desse percurso pudessem observar, no espaço urbano, a instalação de verdadeiros atelieres, com operários e artistas trabalhando durante todo o dia. Soldas, lixadeiras, esmerilhadoras e guindastes eram utilizados permanentemente, em uma faina que transformava seus trajetos. Os artistas viam passar as pessoas, conversavam com elas, respondendo a perguntas e atendendo a todo tipo de curiosidade. Um processo de democratização do conhecimento possibilitou que o fazer das obras se abrisse inteiramente ao público, em toda sua intimidade. A partir dessa experiência o diálogo se instaurou, proporcionando amplas perspectivas e criando novas relações do espectador com a obra. Relações em bases ao mesmo tempo mais profundas, por envolverem um nível de informação mais complexa sobre o processo criativo, e mais horizontais, por romperem com as hierarquias sacralizantes do sistema das artes.

Persistências dinamizadoras
O Projeto do Simpósio Internacional de Escultura não se encerrou com as obras colocadas em frente ao Museu. Sua continuidade se desdobra com a alocação delas no espaço de um dos Institutos da Universidade. Cada escultura encontrará seu espaço na relação com a arquitetura e a paisagem, criando novos fatos urbanos, reativando lugares, determinando trajetos e ressemantizando a arquitetura. Elas indagarão aos transeuntes sobre os pontos de vista e os ângulos que estão habituados a ver, levando-os a forjar um novo olhar sobre a cidade. Sua presença será um marco, dirigindo a percepção do solitário passante, a suscitar diálogos, e estabelecendo leituras simbólicas.
Assim, o Campus Universitário ganhará uma nova visualidade. No Centro Universitário de Ciências da Saúde, será colocada a peça de Nabil Basbous, uma serpente que se remete ao símbolo da medicina. No Centro de Ciências Sociais e Humanidades, a obra de Jean Paul Chablais procura, segundo suas próprias palavras, evidenciar o balanço necessário entre indivíduo e sociedade.
Serge Gangolf, no Centro de Ciências Exatas e Engenharia, coloca sua “porta que se abre para o futuro e o conhecimento, cuja quebra de continuidade aponta a necessidade de desenvolvimento em direção à perfeição”.
Irineu Garcia, ao introduzir na sua estrutura metálica pedra e plantas, está valorizando o diálogo com a natureza, que o Centro de Ciências Biológicas e Agropecuárias realiza em seu trabalho.
No Centro de Arte Arquitetura e Design, Francisco Gazitua faz alçar vôo seu cavalo estilizado, valorizando o movimento e o espírito criativo desse espaço de arte.
Francine Secretan coloca seu “amuleto” no Centro de Ciências Econômicas e Administrativas, contrabalançando com sua visão mágica as certezas do mundo dos negócios e estabelecendo um rico diálogo.
O “obelisco” de Jose Villa no Centro Universitário da Costa retoma tradições culturais ancestrais para reafirmar sua presença de costa a costa.
Na relação dessas obras com cada um dos prédios, a cidade enriquece seu patrimônio cultural e a paisagem urbana se dinamiza. Trajetos se alteram, novas perspectivas visuais se estabalecem. Para cada escultura está sendo criada uma ambientação: um canteiro no entorno, um caminho circundando. A arquitetura se depara com um novo acontecimento em seu espaço, um inesperado que cria uma tensão. Essas obras estabelecerão um possível hiato no cotidiano de cada cidadão, um tempo de reflexão ou um espaço para o desfrute visual que os leve a perceber, através da criação artística, que a presença humana se impõe.
Essas esculturas no espaço público não são meros objetos ali colocados, elas passam a fazer parte da cidade, são como palavras inscritas em uma superfície, traçando leituras poéticas. Elas fazem falar os espaços, evocam sentimentos e ideais, testemunham o indeterminado, o inexprimível em sua luta contra a impotência da imaginação. Assim, o resultado do Simpósio Internacional de Escultora permanecerá na malha urbana com os influxos dos vários cruzamentos que foram oportunizados pela presença dos artistas de diversos espaços do planeta, com diferentes vivências culturais. São influências materiais, concretamente percebidas nas obras que ficaram na cidade, mas são também elementos mais sutis, sugestões estéticas, fragmentos de sentido diferenciados que ali se instalaram. Memórias das quais este catálogo é testemunha e documento.

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