15/jul/2011, 20h09min
Ironia de ponta a ponta
Sempre me surpreende a quantidade de gente que se apinha nos shopings centers, olhando vitrines quase iguais umas às outras, e, ao mesmo tempo, a reduzida freqüência com que são visitados os lugares de arte. Houve uma época em que se podia ter como justificativa a pouca quantidade e qualidade desses espaços em nossa cidade. Mas, quem acompanha a cena das artes visuais em Porto Alegre percebe que um diversificado e qualificado conjunto de instituições, públicas e privadas, tem emergido nos últimos anos. Tenho procurado abordar as atividades destas instituições. Será que a visitação a elas pode e deve ser realmente intensificada? Como você vê sua participação neste panorama?
Hoje, dedico especial atenção a uma instituição localizada em Viamão: a Fundação Vera Chaves Barcelos,criada pela artista de mesmo nome. Localizada em um lindo parque, em um pequeno, mas impecável espaço, a fundação alberga um acervo de obras da artista e de outros destacados artistas nacionais e internacionais ligados às vanguardas, abrangendo um período que vai desde os anos 70 até a atualidade. A qualidade, a diversidade e a originalidade deste conjunto de obras arte contemporânea merecem ser destacadas e amplamente conhecidas. A fundação mantém, ainda, um importante acervo documental de catálogos e documentos de diversas procedências, acumulados pela artista. A visita é um passeio gostoso em um dia ensolarado, mas estive lá em um dia de muita chuva e valeu a pena. Para obter maiores informações da programação e horários de funcionamento clique aqui.
O campo das artes visuais é marcado por idéias estéticas herdadas da filosofia romântica do século XIX, que não correspondem mais a nossa realidade e nem auxiliam a compreensão do que se produz hoje. Um dos pressupostos desta filosofia romântica é a imanência – qualidade segundo a qual a obra de arte se revela ao espectador de maneira natural e espontânea. Este preconceito mais atrapalha do que ajuda, deixando a maioria dos visitantes das mostras de arte contemporânea muitas vezes desiludidos por sua incompreensão em relação ao que vêem. É importante rever esta idéia, entendendo que algumas obras exigem informações mais específicas para sua apreciação e que buscar estas informações pode ser uma interessante experiência. Este é o caso de algumas das práticas artísticas que fazem parte da exposição Um Ponto de Ironia apresentada no espaço da Fundação Vera Chaves. Assim sendo não se deixe intimidar, pergunte e peça orientações para poder saborear melhor toda a ironia que as obras destilam, seja do ponto de vista da política, da sociedade ou mesmo em relação à própria história da arte.
A mostra apresenta um recorte curatorial, realizado por Vera Chaves, Ana Carvalho e Neiva Bohns, no acervo da Fundação. Esta é uma exposição para ser vista devagar, buscando os significados sutis e os conteúdos muitas vezes velados, através dos quais se expressaram os artistas em momentos de censura, como foi o caso do Brasil nos anos 70. É importante desdobrar com cuidado as diversas capas de sentido que cada proposta contém.
O ponto de partida é o domínio da linguagem, as inter-relações entre imagem e texto, tendo como link a ironia que se desprende de cada trabalho. A maioria deles foi realizado em meios técnicos de reprodutibilidade múltipla. A reprodução para o alcance de um maior público era um dos propósitos destas vanguardas, que buscam trazer a arte para a vida cotidiana, fazendo-a entrar nos meios de comunicação social.
A mostra não se pretende cronológica, coloca lado a lado trabalhos dos anos 70 e 2000; entretanto, em alguns casos, os meios e temas deixam perceber suas datas. As fotocópias e os carimbos, alguns vídeos caseiros e as fotos mais antigas, embora datados em termos técnicos, buscam, ao contrário, alcançar certa atemporalidade. É um acervo bastante importante em termos históricos e quem se interessar poderá encontrar ali depoimentos de época interessantíssimos. Questões de identidade, por exemplo, é um dos temas discutido em um conjunto de obras de diferentes épocas colocadas justapostas. Esse diálogo de tempos é um aspecto importante a ser observado pelo visitante.
Propostas de arte postal – feitas para serem enviadas e trocadas entre artistas e outros interessados – como é o caso do trabalho coletivo Carimbadas, no qual diversos artistas trabalharam com carimbos, criando múltiplos de uma mesma idéia, que percorreram diversos estados do Brasil e mesmo diferentes países. Além da forte tendência gráfica geral da mostra, os vídeos é outro de seus pontos fortes. Na videoteca encontram-se um conjunto de vídeos curtos, quase todos dedicados a questionar, de forma irônica, a arte e seus pressupostos hierárquicos e conceituais. Também objetos e desenhos fazem parte da exposição, que tem como uma de suas características marcantes a diversidade dos meios expressivos. Navegue neste mar de informações visais, indague sobre eles e divirta-se com a originalidade e criatividade dos artistas.
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