A memória da violência nos corpos


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A América Latina, continente cujo “descobrimento” foi uma ocupação, está sempre a olhar a arte dos países desenvolvidos. Voltar-se para sua própria história é o grande mérito da mostra “Dores da Colômbia”, de Fernando Botero, que está sendo apresentada em Porto Alegre no Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo. A exposição documenta o cotidiano da violência vivido nesse país, através de um conjunto expressivo de 6 aquarelas, 36 desenhos a carvão e 25 pinturas a óleo que o artista doou ao Museu Nacional da Colômbia, entre 2004 e 2005, e que o Museu faz itinerar pelo mundo, propondo a denúncia e o questionamento dessa realidade.

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A produção artística mais conhecida de Botero se caracteriza por suas famosas personagens gordas: figuras expandidas em espaços comprimidos. Essa estratégia formal dá a suas obras aspecto agigantado,  independente de suas reais dimensões. O artista utiliza uma composição tradicional, centrada na figura humana, que deixa perceber um deslumbramento com os corpos excessivamente volumosos e avantajados. Impregnando suas cenas de um tom intencionalmente naif ou ingênuo, ele trata seus personagens de uma maneira próxima à crônica de costumes, satirizando, ao mesmo tempo, as pessoas comuns e os poderosos. As cores vibrantes e a construção formal narrativa criam um universo lúdico, do qual emana bom humor e alegria de viver. Suas obras oferecem, com ironia, visões prosaicas do mundo, da vida cotidiana e da própria história da arte, que ele conhece muito bem.

Nascido em Medellín, em 1932, Fernando Botero é, hoje, um consagrado artista internacional, que reside em Nova York, Paris e Pietrasanta, na Itália. Fora da Colômbia há mais de quarenta anos, expõe nos mais renomados museus do mundo. A figura humana é, tradicionalmente, o foco de seu trabalho, espalhando-se por um imenso universo de temas, desde os mais prosaicos aos mais sérios. A relação irônica e lúdica com a realidade, em assuntos belos e amáveis, é o lado mais conhecido no trabalho do artista, entretanto, a violência tem aparecido como protagonista em séries como “Abu Ghraib” e “Dores da Colômbia”. Na primeira, o artista retrata as torturas infligidas por soldados norte-americanos a presos iraquianos na prisão de Abu Ghraib, tendo cada obra sido intitulada simplesmente pela numeração de 1 a 50. Na segunda, ele constrói uma memória da violência na Colômbia, seu país de origem. É interessante observar como Botero faz sua abordagem de temáticas tão agressivas e dolorosas como essas, mantendo a estrutura formal que lhe é característica.

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Tratando situações de violência que não lhe concernem diretamente, o artista abrange uma dor mais ampla, que diz respeito à própria espécie humana. Para tal, ele se apropria da tradição da figura humana cuja representação esteve presente ao longo de toda a história da arte ocidental, criando com ela uma tensão visual. Seus quadros descrevem, de forma coloquial e ao mesmo tempo grotesca, momentos em que corpos agredidos, torturados, destroçados expõem o que comumente se denomina violência. A exposição trabalha nos limites da história oficial, em uma encruzilhada de imagens que deixa transparecer o não omitido, que recupera acontecimentos pelos relatos populares e pelas informações jornalísticas.

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Nos desenhos a carvão, a ausência da cor torna mais cruéis os gestos e as expressões, acrescentando um efeito sombrio às imagens. O tom escuro das figuras, com algum detalhe em vermelho às vezes, ressalta a força do tema tratado. No todo da exposição são quadros, grandes e pequenos, coloridos e em preto e branco, em um conjunto majestoso e muito bem articulado, distribuído em três andares do Centro Cultural, oferecendo ao espectador uma possibilidade poética de se aproximar de um tema tão chocante.

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A vida, a morte, os corpos e as estórias aparecem totalmente interligados, apontando para um ir e vir do individual ao social. Talvez se possa falar na construção de uma memória coletiva, na medida em que a estrutura das obras capta o instante do acontecimento, ativando lembranças que são marcas das violências pública e privada no território colombiano. Pois o que significa habitar a Colômbia desde os últimos cinquenta anos senão uma vivência cotidiana da violência? Sua abordagem, em muitos aspectos, evidencia o distanciamento de um olhar que não presencia de perto essa realidade. Entretanto, debruçando-se mais detidamente sobre o conjunto de sua produção, pode-se encontrar como fio condutor dois temas recorrentes de seu trabalho: corpo e memória. Persistentemente perseguidos pelo artista, eles aparecem combinados, pensados como polos energéticos que ativam sua criação. Embora ambíguo o propósito do artista de “dar seu testemunho”, abordando o sofrimento, o desespero, a agressão e a morte com os quais não se enfrenta de perto, a exposição tem, na recepção do público, um fator de avaliação favorável. Os espectadores se deixam envolver, fascinados pela poética do artista, e, assim captados, conseguem olhar de frente uma realidade da qual normalmente fugiriam.

O conjunto de obras em exposição deixa ver como as marcas da violência nos corpos se transformam em um corpo de memórias. Botero, mesmo distante, segue conectado com seu país e procura nessa série de trabalhos fazer pensar sobre suas circunstâncias histórico-sociais. Você pode conferir até 8 de março como ele cruza, no espaço pictórico de suas telas, corpos-lembranças-relatos em busca de significações. Talvez essa seja uma oportunidade de constatar como o campo da arte faz parte do pensamento simbólico contemporâneo, tratando com sutileza aspectos duros da realidade latino-americana.

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