Há muita demanda, do público em geral, para que se façam abordagens relativas à produções que se encontram à margem do sistema da arte, e das diferentes interações que estabelecem com o conceito “arte”, tão diversificadamente utilizado. Uma mensagem que me foi enviada com esse anexo reativou minha atenção em relação a uma produção, que já acompanho há algum tempo com curiosidade e que propõe interessantes desafios para o campo das artes visuais. A reflexão sobre a cultura produzida nas ruas das cidades, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, exige um olhar mais amplo sobre as práticas estéticas e enseja questionamentos sobre este movimento cultural, de origem bastante marginal, que vem ganhando força nas grandes metrópoles.
Para Lucas Ribeiro, “Street art, pós-graffiti e intervenção urbana são algumas maneiras de chamar o fenômeno que passou a acontecer nas ruas de grandes metrópoles em meados dos anos 90 e, na virada do milênio, entrou em ebulição…. No espaço democrático e, muitas vezes, inusitado, das metrópoles, a arte retornou ao figurativo, resgatou o pop e usou técnicas de marketing e publicidade para atingir os cidadãos”.
A arte de rua abrange trabalhos de artistas que usam os espaços das cidades como suporte para se expressar, criaram seus próprios veículos de comunicação, redes de distribuição e valores estéticos. Em experimentações individuais ou coletivas, esses criadores receberam grande influência do movimento punk, e são, eles mesmos, dos personagens do hip-hop, do skate, do fanzine e de outras ramificações, conexões e evoluções da cultura urbana. Em muitos casos, uma postura marginal é defendida como filosofia e base conceitual dos trabalhos. A arte de rua vai além do grafite, um termo que virou sinônimo da arte integrada ao movimento hip hop, pois abrange inúmeras manifestações, integrando diferentes regras, estilos e códigos de conduta. Utilizam como meios cartazes, adesivos, pincéis, stencils e até sprays, para se expressarem com as mais variadas técnicas e estilos. O circuito de arte de rua estabelece seus próprios espaços e meios de difusão, mantendo em alguns casos total independência do meio artístico oficial, com vários sites onde divulgam informações sobre este tipo de produção, como é o caso do “Zupi” e do “Tem mais“.
Também foram criadas lojas e galerias especializadas nesse tipo de trabalhos, o que evidencia a abertura de um nicho de mercado bem específico para essa arte. Além de expandir seu próprio circuito, desde o início do movimento, artistas ligados à arte de rua passaram a ocupar museus e galerias de arte conceituadas, além de participarem de filmes e documentários. Ao chegarem nas galerias, nas grandes livrarias, nas lojas de discos e de moda, e na publicidade, os personagens do movimento estabelecem novas formas de integração com o público.
Nos últimos anos, a arte urbana originou alguns grandes eventos no Brasil, e no exterior. A exposição “Fabulosas Desordens”, no Centro Cultural da Caixa, em 2007, foi totalmente dedicada à discussão do grafite como linguagem gráfica urbana e sua relação com o sistema atual de produção e assimilação da arte. O projeto abrangeu uma ocupação do espaço por cerca de 25 artistas gráficos cuja origem de suas práticas está nas ruas, no exercício anônimo e transgressor do grafite.
O Memorial da América Latina, também em São Paulo, em 2006, recebeu “Spray: o novo muralismo latino americano”, uma exposição, que examinou o trabalho dos artistas de rua como uma linguagem inovadora e contemporânea. Entre os artistas participantes da mostra estavam Speto, Kboco e Onesto.
Outro importante exemplo foi a exposição “Transfer”, realizada no Santander Cultural, em Porto Alegre, em 2008, com curadoria de Lucas Ribeiro, Fabio Zimbres, Alexandre Cruz e Christian Strike, que muito furor causou na cidade, ocupando sua área central do museu com uma pista de skate, e mostrando trabalhos de ícones dessa cultura urbana nacionais e internacionais. A mostra, foi o ponto de partida para um laboratório de experiências e convivência, reunindo uma gama de obras e materiais de mais de 100 artistas, em torno de 300 obras de acervos privados nacionais e do exterior, além de vídeos e fotografias. E mais onze obras / instalações criadas especialmente para a exposição. A iniciativa incluiu também uma mostra de filmes inéditos no Brasil sobre arte urbana e uma centena de fotografias de intervenções urbanas e diversos vídeos.
Foto: Inês Arigoni
Foto: Inês Arigoni
Essas mostras podem ser vistas como atividades do meio artístico tradicional, dedicadas a essa produção, oferecendo a ela um tratamento específico. São casos de integração que procuram manter certa forma de unidade dos trabalhos, divulgando ideias do movimento da arte de rua como um todo, e defendendo suas propostas de ações coletivas.
Por outro lado, individualmente, alguns artistas se integram no sistema da arte, como, por exemplo, os irmãos Pandolfo, mais conhecidos como Os Gêmeos, que realizaram sua primeira exposição individual na Galeria Fortes Vilaça, em 2006. Os Gemeos é um caso típico de absorção e integração ao sistema da arte. Eles participam de mostras em importantes galerias e museus no Brasil e no exterior, e fazem seus grafites em paredes de residências e espaços comerciais.
Artistas que pautam seu trabalho por posturas undergrounds e de oposição ao meio artístico tradicional, vivem conflitos quando são absorvidos e integrados ao sistema da arte. Isso pode ser percebido na fala de Onesto, um conhecido grafiteiro.
Um outro tipo de relação com a arte de rua se estabeleceu bem mais recentemente, 2012, quando a fachada da Fundação Ecarta, em Porto Alegre, serviu de suporte para o trabalho da artista Adauany Zimovski. Ela partiu do universo da arte urbana, se apropriando de sua linguagem e de suas referências, para criar a malha de escritas e tags que agora preenchem a superfície do prédio.
O maior desafio, contudo ainda é como tratar a arte de rua numa instituição oficial de arte sem que esta seja engessada no formato de uma exposição de arte convencional. Esse é um desafio que já se colocava para o sistema das artes, quando Jean-Michel Basquiat e Keith Hering, grafiteiros nova-iorquinos, se tornaram importantes artistas do século XX, mantendo-se fiéis à sua iconografia e às suas temáticas de origem, assim como à forma plástica que desenvolveram nas ruas.
Mas ainda ficam muitas questões. Quais os sentidos dessa incorporação, para o artista e para o público? É possível e desejável evitar modificações do trabalho original nesse trânsito ou transferência de contextos? Com que critérios estéticos e conceituais abordar essa produção? Enquanto se discutem essas questões, muito continua sendo produzido pelas ruas de forma original e descompromissada. Se serão ou não assumidas pelo sistema da arte, é um debate à parte.
Texto publicado originalmente no Sul 21.








