Você sabe o que é desenho? Possivelmente a resposta seja rápida e simples: sim. Entretanto, nas últimas décadas, o desenho tem se atualizado e expandido de tal maneira que muitas vezes fica difícil reconhecê-lo.
Assim, uma boa oportunidade de se encantar com produções atuais e renovadas de desenho se encontra atualmente em duas exposições, que pensam esse campo artístico mais além de sua tradição de linhas sobre papel. Coincidentemente, são dois artistas professores do Instituto de Artes da UFRGS – Carlos Pasquetti e Flavio Gonçalves – que estão expondo, respectivamente, na Galeria Bolsa de Arte e na sala João Fahrion, no 2º andar da Reitoria da UFRGS, no Campus Central.
Essa técnica, muito antiga, caracterizada por gestos lineares, tem uma lenda bem poética: dizem que uma mulher apaixonada, para perpetuar a presença de seu amado que partia para a guerra, desenhou sua silhueta na parede. Assim, o desenho seria fruto de um desejo de permanência, e também uma forma de refazer, graficamente, o mundo e a vida. Documentado já nas rochas pré-históricas, ele acompanha a humanidade em sua longa trajetória criativa; entretanto, foi a partir do Renascimento que o desenho se tornou protagonista no campo da arte.
Segundo a Enciclopédia Itaú, é possível classificá-lo em função dos instrumentos utilizados em sua execução e de suas diferentes modalidades, de acordo com suas finalidades. Pode-se falar em desenho científico (utilizado em ilustrações de compêndios), desenho técnico (arquitetônico, industrial ou outros), desenho gráfico (em materiais publicitários), desenho de ilustração (animados, cartuns e outros) e o desenho artístico. É deste último que tratam as mostras que estão sendo comentadas nesta coluna.
Carlos Pasquetti iniciou nas artes visuais participando das ações de uma geração eminentemente experimental, nos anos 1970. O artista prosseguiu sempre com uma trajetória de rupturas, que o conduziu à mostra “Desenhos” que se pode ver, atualmente, na Bolsa de Arte. Nela ele explora os níveis limítrofes entre a pintura e o desenho, propugnando a ideia do deslocamento do próprio trabalho e de sua inserção em espaços e situações-limite.
Seu trabalho, tendo o desenho por base, questiona as tradições deste campo, seus suportes e suas formas gráficas – substituindo-as por formas-cor, definidas, muitas vezes, pelos materiais em si mesmos. Cada obra induz a percursos múltiplos do olhar, seguindo os jogos formais propostos pela criação do artista, em tempos diferenciados. Ele valoriza a prática do desenho dentro de uma concepção que se aproxima de uma escrita íntima, verdadeira anotação, sem a clássica separação entre o esboço preparatório e a obra acabada, permitindo que se acompanhe seu processo. É um artista que busca colocar inquietações para o espectador, evitando sempre o discurso direto, e obrigando-o a abrir-se para diferentes perspectivas de leitura. Utilizando técnicas tradicionais como o óleo, o oilstick, a colagem e com suportes que vão do papel ao veludo e o poliuretano, estabelece uma diversidade visual que é parte formadora da proposta em seu conjunto. Sua obra destaca-se dentro do desenho, linguagem que ele abriu à contemporaneidade e desconstruiu enquanto categoria tradicional e estanque.
Na mesma linha de trabalho experimental e reflexivo, Flavio Gonçalves faz do desenho um campo de investigação. Dentre as referências mais presentes em sua obra, destacam-se as sombras de objetos e a sobreposição de imagens, que ele busca intencionalmente explorar em seus trabalhos. “Quando entro em qualquer ambiente, olho bem para as coisas sobrepostas. Nós vemos as coisas com uma sucessão de obstáculos; não temos nenhuma visão do todo, nenhuma visão de raios X”. Os desenhos de Gonçalves formalizam-se através de misturas e cruzamentos de materiais, deslizando entre as inúmeras possibilidades de utilização dos diferentes meios de criação que vai descobrindo.
Escolhido para a mostra de 2012 do “Percurso do Artista”, projeto da UFRGS que busca recuperar as trajetórias de professores e artistas ligados à Universidade, Flavio Gonçalves dá uma aula de desenho com seu trabalho. A mostra constitui um ato de revisitar e recuperar a memória, expressa em 30 anos de atuação. Expõe, assim, uma diversidade de propostas, evidenciando, ao mesmo tempo, a dispersão experimental e a coerência conceitual de sua trajetória. Nela, podem ser percebidos seus diferentes momentos, por onde andou, e para onde está indo. Ele mesmo observa: “O curioso, nesse processo, é ver o quanto daquilo que estou fazendo hoje tem origem em trabalhos dos quais já tinha me esquecido absolutamente”. Duas vitrines expõem, ainda, suas ferramentas de trabalho: imagens, objetos, instrumentos de seu fazer e de seu pensar. Elas dão ao espectador as pistas do desenvolvimento de seu processo criativo.
No Instituto de Artes da UFRGS, o desenho tem uma forte tradição, desde sua implantação, com professores como Francis Pelichek e João Fahrion, até a atualidade. Tradição esta que se renovou com Carlos Pasquetti e seu aluno, depois também professor, Flavio Gonçalves. Eles desempenharam e continuam desempenhando um papel fundamental, abrindo caminho para uma tendência dominante, hoje, dentro do ensino da arte local, que é o desenho como campo de experimentação. Dominando um amplo referencial das correntes artísticas contemporâneas, são importantes fomentadores dessas tendências no âmbito do Instituto de Artes da UFRGS. Para Pasquetti e Gonçalves o desenho é um campo de desafio e transgressão, onde se exerce a negação voluntária de limites, com a cor como que invadindo o espaço da representação, e o grafismo, por vezes, quase se ausentando. O desenho é pensado em si e por si, com seus diferentes materiais, como meio de expressão que define um campo significante, mesmo quando articulado com outras linguagens, como a fotografia e os objetos. Fugindo ao debate figuração/abstração, bastante intenso em alguns momentos no meio local, eles inserem seus trabalhos e práticas docentes nas problemáticas da comunicação visual e da produção artística contemporânea.

A entrega, dia 8 de maio – Dia do artista Plástico –, da sexta edição do Troféu Açorianos de Artes Plásticas relembra que tanto Pasquetti como Gonçalves receberam esse importante Prêmio como artistas destaques, respectivamente, em 2008 e em 2009. Com todas essas referências, não dá para perder a visita a essas mostras, deliciando-se com saborosas imagens, cheias de significados a serem descobertos.
Texto publicado originalmente no Sul 21.










