Todos concordam que as práticas simbólicas fazem parte da própria existência do ser humano, universais e atemporais em sua condição de exercício da psique, mas que suas manifestações se determinam historicamente, sob diferentes condições. Pode ser, por exemplo, a pintura corporal utilizada pelos índios Kaoba, seja a decoração de um quarto, feita por um jovem suburbano, ou, ainda, a produção de murais em metrôs. Desse imenso universo de práticas simbólicas, porém, somente uma pequena fatia é socialmente considerada artística. Como esclareceu Pierre Bourdieu, a “arte”, assim como a “griffe”, transmuta um objeto econômica e simbolicamente, modificando sua natureza social.
Muitos pensam o universo da arte à parte da realidade cotidiana, como um campo “mágico e irreal”, vivido como tal por seus membros e reconhecido pela sociedade como um todo. Esse fenômeno se originou na modernidade, com o surgimento da categoria de objetos “artísticos”. Essa “sacralização” não se faz somente através de fatos materiais e institucionais, ela se sustenta em discursos que fundam seu reconhecimento social.
Três importantes discursos – História da Arte, Estética e Crítica da Arte – são responsáveis por todos os pequenos e grandes mitos que conduzem as ações dos artistas e de todos os demais indivíduos envolvidos no sistema da arte. Dispersos pela sociedade em livros, revistas, programas culturais, cursos escolares etc., eles determinam as expectativas sociais em relação à arte. Esta mitologia é um lastro para o desenvolvimento das práticas artísticas, fazendo com que tudo no universo da arte se relacione a ela, tudo seja pensado a partir dela e em dependência dela. Esta mitologia da arte, narrada a partir da Europa, incorpora um acervo de obras que vai sendo gradativamente integrado aos grandes museus deste continente.
Nela, a origem da arte é colocada em um tempo remoto, ligada ao surgimento da humanidade; entretanto, o próprio conceito de arte não corresponde a estes tempos, nem suas motivações se conectam com o que se instituiu como arte. Mas isso não tem grande importância quando está se falando de origens míticas. A História da Arte seleciona um elenco de trabalhos plásticos procedentes de tempos e lugares distintos – a grande maioria deles oriundos de práticas religiosas – dando a eles um encadeamento. Assim, é possível justificar a evolução da pintura rupestre pré-histórica a um quadro abstrato, passando por um afresco medieval. Os fios condutores desta leitura são, preponderantemente, formais, com ênfase na prática plástica.
A Estética se propõe a explicar as relações do homem com aquilo que ela mesma designa arte. Neste relato, o mito do artista é um dos mais importantes e permanentes, embora tome características diferenciadas em cada momento. Em torno dessa figura se constrói uma série de comentários, fazendo-a tão importante quanto as próprias obras, baseando-se na existência de uma capacidade inata de criação, uma forma de dom ou graça recebida, dádiva divina e inexplicável.
Outros dois importantes mitos da Estética são: a transcendência e a imanência da obra de arte. A transcendência defende a existência independente e permanente da obra de arte, vista como não tendo tempo, como sendo eterna. Um discurso de universalidade perpassa essa permanência, contrastando com as relações de alteridade que se evidenciam no mundo contemporâneo globalizado. A imanência propõe o reconhecimento espontâneo e imediato de uma obra de arte, como uma revelação que se dá ao espectador, sem considerar as diferentes formações culturais.
Atuando dentro do espaço das relações entre artista, obra e espectador, a Crítica de Arte age de forma valorativa e judicativa, necessitando para tal afirmar como verdades inabaláveis os pressupostos míticos da História da Arte e da Estética. Praticando a avaliação e a legitimação, ela referenda as obras e também os dois discursos em que se baseia. Esse é um processo autorreferencial, bastante difícil de ser rompido por um pensamento crítico, mesmo na contemporaneidade, quando muitos desses pressupostos são questionados. Isso porque existe um tipo de consenso social que reconhece uma condição cerimonial na arte, que ultrapassa a questão da distinção social para cuja manutenção os discursos são fundamentais. Esse fechamento está na origem da crise atual de valores que se percebe no campo da arte. Os discursos míticos expõem seus limites e distorções sem que sejam apontados novos referenciais.
Ao defender ardorosamente a herança conceptual constituída no século XVIII, a História da Arte, a Estética e a Crítica de Arte fecham-se às novas condições de atuação da arte. A Crítica elabora malabarismos intelectuais no afã de fazer sobreviver os discursos míticos frente às grandes transformações propostas pelas práticas artísticas na atualidade.
Para compreender o fato de que o fazer artístico possa permanecer sendo considerado uma espécie de ato demiúrgico, é preciso levar em conta as especificidades da imaginação simbólica, campo de origem do trabalho artístico. A arte faz parte das instâncias do simbólico, estabelecendo uma dinâmica relação com os grandes desafios da compreensão do mundo. Georg W. F. Hegel afirma que arte, filosofia e religião constituem três momentos do “Espírito Absoluto”. Ele aponta para a grande cisão do pensamento, quando a perda da crença em Deus estabelece um vazio na cultura ocidental, vazio que a filosofia e a arte tentam preencher. Também Jürgen Habermas reserva à religião e à arte as prerrogativas do intercurso com o extraordinário. Verifica-se certa unanimidade em apontar a capacidade comum a estes domínios do pensamento de trabalhar com um conjunto de signos não reduzíveis a um simbolizado específico, claro e esgotável, fazendo vigorar uma concepção irreligiosa de sagrado em uma sociedade laica e racionalista como a atual.
Quando se afirma que os discursos da arte constituem um relato mítico, articulando um conjunto de pequenos e grandes mitos, tem-se em mente o pensamento de Roland Barthes, no que diz que o mito não esconde nem ostenta, ele realiza um processo de deformação, ele não é uma mentira nem uma confissão, mas uma inflexão. Interessa, então, perceber que tipo de realidades ele flexiona, para estabelecer um curto-circuito neste sistema de pensamento, abrindo outras possibilidades de aproximação à realidade.
O campo da arte é repleto de crenças que dificultam a percepção das reais condições de sua produção. Mesmo na contemporaneidade, em meio a tantos questionamentos, muitos ainda assumem e difundem as míticas da criação, que perpassam as diferentes instâncias da sociedade ocidental, seja no âmbito internacional, nacional ou local. Receosos da perda de privilégios que os questionamentos acarretam, ampliam cada dia mais a defasagem entre a produção e o discurso. Entretanto, alguns pensadores incorporam ambiguidades em suas reflexões e, fazendo trabalhar as contradições, apontam novos caminhos. Vias tortuosas e difíceis, que se afastam das rotas tradicionais, abrindo mão de referenciais estabelecidos. Ousando dar um salto no vazio, eles, assim como alguns artistas, criam novas condições de pensar o universo simbólico do homem contemporâneo.
Imagem da exposição PRO POSIÇÕES – Foto Mirele Pacheco/Divulgação UFRGS
Texto de arquivo escrito por Maria Amélia Bulhões, originalmente publicado no Jornal Sul 21 em 18 de maio de 2013.
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/pensar-pode-ser-um-salto-no-vazio/







