Lançamento do E-book: 2º Simpósio Internacional de Relações Sistêmicas da Arte – Arte além da Arte


Foram publicados recentemente os textos apresentados no 2° Simpósio Internacional de Relações Sistêmicas da Arte – Arte Além da Arte, em formato de e-book, disponibilizado para download gratuitamente no site do SIRSA.

Organizado pela professora Maria Amélia Bulhões com o Grupo de Pesquisa Territorialidade e Subjetividade: Relações Sistêmicas da Arte, o evento transdisciplinar realizado em Julho de 2019 buscou “abrigar discussões que vislumbrem as reverberações éticas e estéticas das atuais configurações do sistema da arte, constituídas em meio a processos históricos amplos e complexos.”>

 

Confira o texto que abre o e-book – “Por que organizar um evento sobre
relações sistêmicas da arte?”, de Maria Amélia Bulhões:

“Comecemos pelo tema do simpósio Relações Sistêmicas da Arte. Esta é a linha de pesquisa do PPG de Artes Visuais da UFRGS, na qual está inserido o GP Territorialidade e subjetividade, responsável pela concepção e a organização desse simpósio desde sua primeira edição. Existente desde a criação do mestrado em 1991, este é, mais do que uma linha de pesquisa, o foco de todo o nosso trabalho. Pouco difundido por muitos
anos, esse tema vem alcançando recentemente maior repercussão. Assim, a ideia original foi reunir pesquisadores interessados em compartilhar seus estudos, na perspectiva de pensar as artes visuais mais além do que a obra e o artista, nas suas interações com um contexto histórico específico e articuladas em um sistema da arte. Pensamos em um evento voltado a aprofundar e consolidar uma linha de investigação ainda emergente
no País, à qual muitos estão ligados, mesmo que às vezes sem clareza das questões metodológicas, conceituais e ideológicas que envolvem esta opção de análises. Há muito a construir, e estamos inseridos nesse processo.

Arte Além da Arte surgiu como o título natural em nossas expectativas de trabalho, uma vez que esta sempre foi a tônica de nossas pesquisas e debates. Não acreditamos que a arte possa ser pensada fora de seu contexto e das condições sociais de sua existência. Além disso, Arte Além da Arte é um título lindo e sugestivo.

Vale a pena observar que o uso do conceito de sistema da arte foi utilizado em minha dissertação de mestrado, defendida em 1983. Nessa ocasião, analisei as disputas entre o sistema acadêmico, hegemônico no Brasil desde sua implantação no início do século XIX com a vinda da missão francesa e a instauração da Escola de Belas Artes, e o sistema
modernista que se implantava, inspirado na modernidade europeia e em suas vanguardas. Utilizei as figuras de Oswaldo Teixeira e Candido Portinari como paradigmas dos atores, dos valores e da presença em instituições desses sistemas. Foi um uso do termo bastante empírico, baseado na observação do que ocorria no panorama artístico nacional, em que eu percebia que circuitos institucionais e atores diferenciados se desenvolviam em apoio a cada um dos projetos artísticos em disputa. O período enfocado foi o Estado Novo, dando ênfase ao papel dos grupos sociais representados nesses dois circuitos e a ação do Estado em relação a eles.
No doutorado, defendido em 1990, sob a orientação de Néstor García Canclini, pude aprofundar questões teóricas e trabalhei mais sistematicamente o conceito de sistema da arte, utilizando como referencial básico o trabalho de Pierre Bourdieu. Nessa ocasião, elaborei um conceito de sistema da arte assim enunciado: “Conjunto de indivíduos e instituições responsáveis pela produção, difusão e consumo de objetos e eventos, por eles mesmos rotulados como artísticos, e também pela definição dos padrões e limites da Arte para uma sociedade ao longo de um período histórico”. O conceito de sistema da arte foi adotado em lugar de campo artístico com enunciava Bourdieu, por eu perceber que as relações no circuito artístico eram muito variáveis e dinâmicas, resistindo na adoção do conceito de campo, mais territorial e estático. Nessa tese, analisei o sistema da arte no Brasil nos anos 1960 e 1970, buscando suas interações contextuais, uma vez que considerava já o fato de que a arte e seu circuito se moviam a partir de condições históricas. Destaquei nesse estudo a emergência da arte contemporânea nos anos 1960, ainda que não tenha percebido a magnitude do fenômeno que avançava mas ainda era marginal e periférico naquele momento. Destaquei também o papel do Estado através da censura e do milagre brasileiro, que, apoiado pela concentração de renda, impulsionou o emergente moderno mercado de arte. Nesse trabalho, destaquei algo que já havia apontado no mestrado e que era muito rejeitado no meio intelectual das artes na época: o papel do Estado e sua forte interferência, de forma direta e indireta, no sistema da arte.
Assim que concluí o doutorado, ingressei como coordenadora do curso de mestrado em artes visuais da UFRGS, recém-aberto, e nele participei da implantação da linha de pesquisa Relações Sistêmicas da Arte, que ainda se encontra ativa neste Programa de Pós-Graduação, atendendo, desde 2000, também ao curso de doutorado. Ali, desenvolvi pesquisas dentro dessa linha, orientando bolsistas, mestrandos e doutorandos, apresentando os resultados em diversos eventos da área no País e no exterior.

Inicialmente, pouco interesse despertava o tema dentro do meio intelectual da área, que considerava o artista e sua obra acima de questões conjunturais, entretanto pude  observar ao longo de vários anos o crescimento de interesse pelo tema. A linha de pesquisa, que a princípio passava ao largo dos debates, como se a arte estivesse em uma nuvem, totalmente despegada de suas coordenadas contextuais evidenciadas no
sistema da arte, foi aos poucos se fortalecendo. O processo de consolidação e expansão desse tema no campo da reflexão sobre arte foi lento, sofrendo altos e baixos, também influenciado pelas relações sociais e políticas do panorama intelectual.

Além da linha de pesquisa, também o GP Territorialidade e subjetividade concorreu para o
desenvolvimento de reflexões, incorporando as grandes mudanças que ocorriam com a crescente preponderância da arte contemporânea no meio artístico nacional a partir dos anos 1990. Neste GP foram desenvolvidas pesquisas sobre a globalização e suas repercussões no sistema, como: o empresariamento e a financeirização, o crescimento do mercado, as feiras internacionais, as bienais, as residências de artistas, entre outros. Abriu-se, além disso, um debate amplo sobre as novas condições do conhecimento, com a incorporação das teorias da complexidade e o tema das redes às dinâmicas relações dos sistemas locais e internacional. Temos hoje dentro do GP um amplo e sólido debate sobre o uso dos conceitos referentes ao tema, sem, entretanto, fecharmos posições definitivas, o que nos parece excelente para justificar os simpósios que estamos realizando.

Cumpre destacar que o GP se abriu, também, ao estudo das tecnologias digitais, em especial ao uso na internet no campo da arte, que conduziu a uma ativa e continuada atuação na rede. Em 2007, colocamos no ar o blog Territorialidade/territoriality, onde está depositado o banco de dados da pesquisa sobre arte e a internet que desenvolvemos. Nele podem ser encontrados mais de 300 trabalhos de web arte, ordenados em quatro categorias de análise: paisagem, memória, cartografia e cidades. De cada trabalho são informados autor, lugar de origem, título, data, link de acesso, uma pequena descrição e
duas imagens captadas de suas páginas. Este arquivo on-line é um preciso e precioso documento de uma produção artística espalhada pelo ciberespaço, pouco documentada e muitas vezes já retirada do ar. Essa primeira experiência no ciberespaço impulsionou uma série de outras conduzidas pelos bolsistas de iniciação científica dentro do GP. Como resultado dessa pesquisa específica foi publicado também o livro Web arte e poéticas do território, no qual é feita uma análise desta produção explorando suas problemáticas e possibilidades dentro do campo da arte contemporânea.

Ao lidar com esse novo meio, aos poucos foi se delineando a percepção das possibilidades e da necessidade de disponibilizar mais os resultados da pesquisa, de forma a ampliar sua repercussão no meio acadêmico e fora dele. A ideia de difusão do conhecimento, trocas e reverberações faz parte integral do nosso GP. Assim, em 2013, colocamos no ar o site Arte Reflexões, que abriga minha produção pessoal, recuperando e disponibilizando textos atuais e antigos, muitas vezes difíceis de acessar, tais como minha tese de doutorado e a dissertação de mestrado, colunas do jornal Sul 21, onde escrevi semanalmente durante três anos, material de curadorias etc. Arte Reflexões é um guarda-chuva que abriga todos os demais sites e blogs do GP, e por ele é possível acessar os demais. Explorando as ferramentas da web, os blogs e sites do GP passaram a ter disponível o tradutor Google e mecanismo de controle de acessos, possibilitando atingir novos públicos e ter uma avaliação destes. Além de documentos de pesquisa, o site também divulga eventos e atividades em que o GP está envolvido, sendo constantemente alimentado com essas notícias.

O andamento de minha pesquisa pessoal conduziu ao projeto Arte e internet no Brasil, exigindo do GP a criação de um novo site, o ConectartBR. Este lugar on-line foi elaborado dentro de uma nova concepção, abrigando todo tipo de conexão entre arte e internet, sem se ater à tradicional produção de web arte. Além disso, o site contém, além de arquivos da pesquisa, referências e outras informações, um blog. Este, apresenta semanalmente textos produzidos pelos bolsistas de Iniciação Científica, resultantes dos seminários e outras atividades desenvolvidas na pesquisa.

Temos desenvolvido atividades mais tradicionais como a publicação de livros, realização de cursos, encontros e palestras, além das atividades on-line em sites, blogs e redes sociais que o GP mantém, por considerar de extrema importância a expansão do conhecimento produzido na universidade mais além dos seus muros, espraiando-se pela sociedade. Em 2014, publicamos o livro As novas regras do jogo: o sistema da arte no Brasil, em um projeto desenvolvido de forma conjunta entre quatro autores – todos
membros do GP –, conectando os artigos como capítulos de uma unidade. Realizamos, também, cursos de extensão com foco no sistema da arte.

A criação de um encontro para discutir relações sistêmicas da arte foi uma consequência inevitável deste desdobramento de ações. Tínhamos em nosso projeto um objetivo bem definido: criar um espaço democrático e horizontal de debates, para estabelecer conexões de interesse acadêmico neste nosso grande e desarticulado Brasil. A ideia de um simpósio expressou o que queríamos: uma reunião ou conferência de especialistas para discutir um assunto e debatê-lo diante de um auditório. Iniciamos esse projeto de forma pouco ambiciosa, entretanto fomos recebendo muito mais adesões do que esperávamos,
de forma que já na sua primeira edição, com o apoio da CAPES e em parceria com o Goethe-Institut de Porto Alegre, contamos com quatro convidados estrangeiros, o que nos levou a nomear o projeto de Simpósio Internacional de Relações Sistêmicas da Arte – SIRSA. Foram recebidas 98 propostas de comunicações, analisadas por uma Comissão Científica composta por 11 pesquisadoras e pesquisadores nacionais e internacionais, que prontamente atenderam a difícil tarefa de assumir o papel judicativo na seleção de um
conjunto de submissões de excelente qualidade. A Comissão seguiu os seguintes critérios: oportunidade e relevância da discussão proposta; qualidade e coerência da argumentação; adequação à temática do evento. Dessas submissões, foram selecionadas 42 propostas de diferentes disciplinas, originárias de 17 universidades entre Brasil, Portugal e Espanha, representando o trabalho de 48 pesquisadoras e pesquisadores. Em termos de público o Simpósio atingiu resultados além do esperado, ocupando o limite de capacidade do auditório do Goethe-Institut ao trazer públicos de Porto Alegre, do interior do RS e de outros estados. O que fez desse evento uma marca de sucesso foi o fato de ser focado em um interesse temático e metodológico específico, totalmente voltado aos interesses dos pesquisadores participantes e com destaque para o tempo de debate em cada apresentação.

Neste 2º SIRSA, tivemos as parcerias da Universidade de São Paulo –USP, através da pesquisadora Ana Paula Simioni, representando o Instituto de Estudos Brasileiros, e do Sesc São Paulo, através de Andrea de Araujo Nogueira e a unidade Centro e Pesquisa de Formação, CPF. Novamente contamos com o apoio da CAPES e desta vez também com a colaboração da Fundação Marcos Amaro – FAMA.

O evento se realizou no espaço do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, contando com uma eficiente equipe, sob a coordenação de Andrea de Araujo Nogueira. As atividades se desenvolveram em três ativos e intensos dias, com a participação de seis conferencistas em mesas conjuntas de dois participantes, um nacional e outro estrangeiro. Néstor García Canclini e Moacir dos Anjos abordaram as questões da globalização/desglobalização e da violência sobre grupos étnicos e seus corpos e as novas elaborações dos artistas. Nathalie Moureau e Maria Lucia Bueno focaram a temática das coleções e dos arquivos de arte contemporânea e suas repercussões no sistema da arte. Paul O’Neill e Mônica Hoff desenvolveram suas falas e reflexões sobre a arte como experiência e como contrapedagogia, numa perspectiva de novas formas de encarar as práticas artísticas no campo social. O evento contou com 137 comunicações inscritas, analisadas por uma comissão científica composta por 15 pesquisadores nacionais e internacionais de 13 diferentes instituições. Foram 56 comunicações aceitas e participando do evento, o que significa 59 pesquisadores apresentando trabalhos, de 15 diferentes universidades, mais duas instituições e pesquisadores independentes, englobando nove diferentes estados brasileiros e mais de 14 diferentes cidades. Houve para cada mesa de três comunicações a média de uma hora de debates, o que possibilitou um real aprofundamento nas questões apresentadas, com retornos produtivos para as pesquisas. As inscrições para público ouvinte foram esgotadas no primeiro dia de abertura, referendando o sucesso da edição anterior.

Agradecemos a todos os envolvidos por sua dedicação e sua competência. Consideramos que o evento vem cumprindo os propósitos para os quais foi criado e esperamos que possa continuar em sua trajetória, contribuindo para a formação de massa crítica e reflexões em nossa área de estudos.”

 

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