{"id":1488,"date":"1999-05-29T15:35:57","date_gmt":"1999-05-29T15:35:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=1488"},"modified":"2023-12-22T19:38:02","modified_gmt":"2023-12-22T19:38:02","slug":"capitulo-a-seducao-de-um-inquietante-estranhamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/1999\/05\/29\/capitulo-a-seducao-de-um-inquietante-estranhamento\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo de Livro | A SEDU\u00c7\u00c3O DE UM INQUIETANTE ESTRANHAMENTO"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #800000;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/static2.estantevirtual.com.br\/imagens\/capas\/3ac1906b6d433d6db5b86fe729b849c8f2f9227a.jpg\" alt=\"\" width=\"215\" height=\"298\" \/>Bulh\u00f5es, M. A. <strong>A sedu\u00e7\u00e3o de um inquietante estranhamento<\/strong>. In: D&#8217;Avila, V. P. (Org.). Stockinger. Porto Alegre: MARGS, 1999, v. , p. 45-52.<\/span><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #333300;\"><strong><em>\u201cTodas as coisas essenciais da arte surgiram sempre do mais profundo sentimento do mist\u00e9rio de nossa exist\u00eancia&#8221;.<\/em><\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333300;\"><strong><em>Beckmann\u00a0<\/em><\/strong><\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Um inquietante estranhamento1 emana de uma fatia significativa de obras &#8211; os Guerreiros, os Touros e, principalmente, os Sobreviventes &#8211; que, no conjunto da produ\u00e7\u00e3o de Francisco Stockinger~ s\u00e3o dedicadas ao trabalho da viol\u00eancia. S\u00e3o figuras que perdem seus membros, ficando reduzidas a toscos torsos, cujo revestimento, qual pele rasgada e recosturada em crostas met\u00e1licas, de maneira semelhante a uma armadura, oprime o elemento vivo (a \u00e1rvore) nela contida. Elas permitem perceber um conflito na estrutura pl\u00e1stica ao ligar a crueza das marcas na superf\u00edcie (feridas e cicatrizes) \u00e0 mutila\u00e7\u00e3o dos membros. Pode ser que a viol\u00eancia n\u00e3o seja o \u201ctema&#8221;, mas a sua presen\u00e7a visual \u00e9 sem d\u00favida a muda testemunha de um recalcamento.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Fugir \u00e0 visualidade controlada da modernidade pelo efeito traum\u00e1tico do grotesco foi, e continua sendo, uma arriscada aventura. Stockinger assume esse risco com seus res\u00edduos met\u00e1licos que se inscrevem contra as pretens\u00f5es metaf\u00edsicas da arte pela acumula\u00e7\u00e3o das superf\u00edcies qual um invent\u00e1rio potencialmente infinito das possibilidades dos dejetos. Possibilidades est\u00e9ticas mas tamb\u00e9m significantes. Muito facilmente o artista poderia se deixar levar por uma tenta\u00e7\u00e3o de reabilita\u00e7\u00e3o decorativa, ao agrado do p\u00fablico que n\u00e3o deseja encontrar na arte as dores do seu mundo cotidiano. Manter a tens\u00e3o entre eros e t\u00e1natos como tal n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas ele o faz de maneira singular~ utilizando a atra\u00e7\u00e3o natural que o estranhamento oferece. Um sentimento de fascina\u00e7\u00e3o e medo, frente \u00e0 surpresa de que algo conhecido (figuras humanas, cavalos e touros) se apresenta, subitamente, sob uma forma inesperada e obscura.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Os Guerreiros surgiram em 1964, quando o artista, trabalhando ent\u00e3o como cartunista em um jornal local, ensaiava experi\u00eancias no sentido de dar maior volume a suas esculturas de bronze. O bronze era fundido caseiramente por ele mesmo, mas tinha ainda assim um pre\u00e7o caro para os padr\u00f5es econ\u00f4micos de algu\u00e9m ainda fora do mercado de arte. \u00c9 bom lembrar que o artista residia em Porto Alegre, cidade que ainda hoje conta com um mercado de arte contempor\u00e2nea incipiente e que, nessa \u00e9poca, estava ainda mais desarticulado dos circuitos nacionais; al\u00e9m disso, ele podia ser considerado ent\u00e3o, um principiante no ramo art\u00edstico. Francisco Stockinger estudara escultura com Bruno Giorgi, no Rio de Janeiro, de 1947 a 1950, mas era ainda um ilustre desconhecido, tanto l\u00e1 como c\u00e1.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Tentando aumentar verticalmente suas pe\u00e7as, ele introduziu um material alternativo, de mais f\u00e1cil obten\u00e7\u00e3o: peda\u00e7os de troncos de \u00e1rvores. As primeiras experi\u00eancias foram em madeira e bronze fundido, por\u00e9m as dificuldades de encaixe deste \u00faltimo levaram-no rapidamente a uma nova solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica: ferro soldado. O material de sucata tamb\u00e9m oferecia, como os troncos de madeira, a vantagem de um custo mais reduzido. Com esse recurso t\u00e9cnico, no entanto, ele obteve mais do que um resultado mensur\u00e1vel em termos de dimens\u00f5es das obras. Atrav\u00e9s dele, Stockinger p\u00f4de romper com a tradi\u00e7\u00e3o vigente da escultura figurativa, baseada no entalhe ou na modelagem, inserindo-se nas novas tend\u00eancias internacionais que utilizavam como recursos construtivos a colagem e a sobreposi\u00e7\u00e3o residual das superf\u00edcies.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Depois dos Guerreiros vieram os Cavalos e os Touros, resgatados tamb\u00e9m do universo cultural da regi\u00e3o e tratados igualmente na mesma matriz estil\u00edstica anterior. Essas figuras, diferentemente dos Guerreiros, cujo eixo de for\u00e7a \u00e9 vertical, possuem uma tens\u00e3o interna em expans\u00e3o que lhes d\u00e1 uma monumentalidade visual bem al\u00e9m de suas dimens\u00f5es mensur\u00e1veis. A conten\u00e7\u00e3o interior tem refor\u00e7ada sua viol\u00eancia pelo tratamento da superf\u00edcie, que semelhante a feridas se desdobra em crostas e orif\u00edcios.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Esses trabalhos se desenvolveram paralelamente a uma tend\u00eancia emergente e com a qual guardam alguns pontos de contato. O movimento art\u00edstico denominado o Nouveau Realisme se originou na Fran\u00e7a, nos anos sessenta, com o apoio cr\u00edtico de Pierre Restany, explodiu na Argentina com nomes como Antoni Berni, Deria, No\u00e9 e De la Veja e repercutiu fortemente no Rio de Janeiro com Grerchman, Antonio Dias e Vergara, entre outros. Ainda que, em termos geracionais, Stockinger n\u00e3o esteja integrado a esse grupo e tamb\u00e9m n\u00e3o tenha nunca declarado ades\u00e3o ao movimento, existe uma identidade de conceitos, de concep\u00e7\u00f5es formais e de posturas cr\u00edticas. Seu trabalho se aproxima bastante da po\u00e9tica adotada pelo Nouveau Realisme, seja pelo procedimento apropriativo no uso de sucata industrial, seja pela ado\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo construtivo tendo por base a acumula\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Talvez o car\u00e1ter representacional de seus trabalhos o afaste dos princ\u00edpios defendidos por Pierre Restany. No entanto, aproxima-os o fato de que mais do que o que est\u00e1 representado (guerreiros, cavalos ou touros) interessa verdadeiramente a opera\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica que faz trabalhar suas formas na destrui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da figura e de sua m\u00edtica2.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">De qualquer maneira, a inser\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de Francisco Stockinger no movimento n\u00e3o \u00e9 o fundamental para a compreens\u00e3o de sua obra. No Rio Grande do Sul, o Nouveau Realisme n\u00e3o tem um papel muito significativo, uma vez que as correntes da abstra\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual ele se opunha e que fazia o seu diferencial, aqui n\u00e3o tiveram nunca muita for\u00e7a. De certo maneira, a figura\u00e7\u00e3o continuava, nos anos sessenta, hegem\u00f4nica como sempre foro. Todavia, Stockinger, com seus trabalhos, amarrava la\u00e7os entre a tradi\u00e7\u00e3o figurativa local e as vanguardas internacionais, estabelecendo, tamb\u00e9m, rela\u00e7\u00f5es com S\u00e3o Paulo, onde buscava novos contatos e oportunidades no mercado de arte, e com o Rio de Janeiro, onde fizera sua forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Ali\u00e1s, essa sua preocupa\u00e7\u00e3o em manter estreitos v\u00ednculos com o eixo Rio-S\u00e3o Paulo foi uma atitude bastante diferenciado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maioria dos artistas ga\u00fachos da \u00e9poca e um fator importante em sua profissionaliza\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Francisco Stockinger encontrou com seus Guerreiros, Cavalos e Touros, um vi\u00e9s de trabalho muito bem aceito no meio de arte tanto pelas vanguardas do Nouveau Rea\/isme como pelos conservadores da figura\u00e7\u00e3o regional. Suas formas bebem na fonte contempor\u00e2nea da escultura inglesa que, nesse momento, j\u00e1 expunha internacionalmente sua for\u00e7a com nomes como Henry Moore e Kenneth Armitage. O uso combinado dos materiais, madeira e ferro soldado, com sua pr\u00e1tica de acumula\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m o aproxima dos meios formais contempor\u00e2neos, superando as tradi\u00e7\u00f5es regionais da modelagem e do entalhe. Assim, ele introduz, de certa forma, a escultura local na modernidade internacional, incorporando inclusive a po\u00e9tica do pop com material de sucata que, cada vez mais, se impunha em suas composi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Surpreendendo o pr\u00f3prio autor, essas obras receberam uma entusiasmada ades\u00e3o de p\u00fablico. Talvez porque esses guerreiros retomam antigos mitos da cultura local, O ga\u00facho, her\u00f3i pampeano, misto de alma livre e corpo forte, sofrido, permaneceu sempre no universo simb\u00f3lico desta regi\u00e3o. Com o olhar do estrangeiro, daquele que chega, Stockinger p\u00f4de abordar esse mito com uma po\u00e9tica despojada dos estigmas estil\u00edsticos de uma tradi\u00e7\u00e3o regionalista.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Guerreiros a cavalo e touros passaram a ser companheiros e marca pessoal desse escultor. Uma marca da qual ele \u00e0s vezes tenta fugir, mas que o persegue como uma sombra fantasmag\u00f3rica, seja pelas press\u00f5es do mercado que conquistou, seja por sua persist\u00eancia inconsciente3. Assim, \u00e9 quase imposs\u00edvel falar de Francisco Stockinger sem abordar essa sua produ\u00e7\u00e3o, t\u00e3o importante tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Com eles o artista ganhou a maioria de seus pr\u00eamios e sua fama. Pode-se dizer que esses trabalhos constituem uma refer\u00eancia fundamental em sua obra. Mesmo datados, eles continuam, de certa forma, a simbolizar o artista, permitindo quase que uma identifica\u00e7\u00e3o dele com seus personagens. Figuras que se op\u00f5em a toda idealiza\u00e7\u00e3o,<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">esp\u00e9cie de paladinos de reformas sociais, retomando her\u00f3is da tradi\u00e7\u00e3o b\u00e9lica no imagin\u00e1rio social. Com seus troncos dilacerados e recosturados em metal, lembram tamb\u00e9m o desumano dos combates sociais que se travavam. Em um per\u00edodo de opress\u00e3o, frente aos movimentos pol\u00edticos que agitavam o pa\u00eds, para falar do que est\u00e1 oculto, do que n\u00e3o pode ser dito, ele mostra a mat\u00e9ria em sua brutalidade. Quer testemunhar a viol\u00eancia civilizada, aquela que se pode ver no outro mas que se nega em si pr\u00f3prio e que a arte \u00e9 capaz de trazer \u00e0 tona de maneira sublimada.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">O mais interessante desses trabalhos, al\u00e9m, \u00e9 claro, de sua renova\u00e7\u00e3o estil\u00edstica na \u00e9poca, \u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o de elementos de grande for\u00e7a psicol\u00f3gica. Eles retomam certas formas ancestrais, signos de uma origem primordial. Como se o homem, pelas m\u00e3os do artista, renascesse, n\u00e3o do barro mas da madeira, em um renascimento contempor\u00e2neo, que incorpora os res\u00edduos de um mundo mecanizado. Essas imagens tamb\u00e9m representam o enfrentamento do humano animal com a tecnologia, remetendo-se, assim, para uma imag\u00e9tica da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfico que, nos anos sessenta, ainda questionava as conquistas tecnol\u00f3gicas que assustavam com seu vertiginoso avan\u00e7o.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Os her\u00f3is de Francisco Stockinger fazem-se senhores do arcaico e do futur\u00edstico, suspendendo, por instantes, a temporalidade passageira. Eles portam o desejo de estancar o tempo que se escoa no cotidiano e que a arte pode fixar com suas figuras m\u00edticas: os lend\u00e1rios guerreiros, centauros e minotauros que o artista recupera da mem\u00f3ria dispersam de muitos momentos long\u00ednquos. Esse \u00e9 talvez um dos segredos da atra\u00e7\u00e3o que essas pe\u00e7as exercem sobre o espectador. Um misto de futuro e passado que aponta para a suspens\u00e3o do tempo, para a eternidade prometida da arte. Aqui o sublime e o s\u00f3rdido det\u00eam um princ\u00edpio rigoroso de equival\u00eancia, posto em evid\u00eancia no tema das figuras tot\u00eamicos. Como diz o pr\u00f3prio autor, &#8220;as pedras s\u00e3o o repouso do guerreiro&#8221;, e os guerreiros s\u00e3o a viol\u00eancia do artista. Controlada, elo est\u00e1 produzindo sentidos; na fragmenta\u00e7\u00e3o do metal, em suo rela\u00e7\u00e3o com os contor\u00e7\u00f5es da madeira e no volume total e unit\u00e1rio se faz desnecess\u00e1ria uma estrutura interna, permitindo que se dirija toda o aten\u00e7\u00e3o para a superf\u00edcie, onde se estabelecem os conflitos formais.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Com seus Sobreviventes, criados a partir de 1975, sob o impacto de not\u00edcias da guerra do Vietnam, Stockinger foi mais fundo no trabalho da viol\u00eancia. Nesse momento, a indigna\u00e7\u00e3o do homem-artista se voltou contra as atrocidades da guerra no mundo dos homens. Uma guerra long\u00ednqua, em que \u00e9 poss\u00edvel identificar mais claramente a ultrapassagem de todos os limites. As figuras que ele constr\u00f3i, ent\u00e3o, portem dos mesmos procedimentos construtivos das anteriores &#8211; madeira e sucata de ferro soldado &#8211; mas acrescentadas de ossos e tinta vermelha. Num misto de formas humanas e animais, mostrando feridas abertas, elas s\u00e3o de uma viol\u00eancia visual atroz, beirando \u00e0 obje\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">\u201cH\u00e1 na abje\u00e7\u00e3o uma das violentas e obscuras revoltas do ser contra o que o amea\u00e7a e que lhe parece vir de fora ou de dentro de maneira exorbitante, colocado ao lado do poss\u00edvel, do toler\u00e1vel, do pens\u00e1vel. Est\u00e1 a\u00ed, bem pr\u00f3ximo mas inassimil\u00e1vel. Isso solicita, inquieta, fascina o desejo que, no entanto, n\u00e3o se deixa seduzir&#8221;4. A violenta revolta &#8211; contra a destrui\u00e7\u00e3o do ser humano pelo ser humano nas guerras &#8211; que est\u00e1 na origem da abje\u00e7\u00e3o levou Stockinger a criar seus sobreviventes. Posteriormente, tamb\u00e9m intoler\u00e1vel foi a amea\u00e7a da pr\u00f3pria morte, que o rondou quando ele foi submetido a uma cirurgia card\u00edaca. O artista, ent\u00e3o, simboliza sua revolta em um &#8220;guerreiro sobrevivente&#8221; que, como ele &#8211; safenado &#8211; tem seu torso de ferro perfurado para dar lugar a canos de pl\u00e1stico, expondo em uma de suas pernas um osso ensang\u00fcentado. A abje\u00e7\u00e3o inquieta 00 deixar desnuda sua fragilidade.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">O p\u00fablico n\u00e3o aceita com tanta facilidade o resultado pl\u00e1stico obtido e os Sobreviventes constituem um pequeno desvio no conjunto de sua obra. Isso talvez porque neles o artista tenha se permitido ir ao fundo do inferno, em uma viagem t\u00e3o dura para si pr\u00f3prio quanto para o espectador. No entanto, Kristeva sugere: &#8220;o abjeto e a abje\u00e7\u00e3o s\u00e3o neste caso minha prote\u00e7\u00e3o. Armadilhas de minha cultura.&#8221; 5. Assim, acreditando que a arte \u00e9 prisioneiro de suo antiga fun\u00e7\u00e3o cat\u00e1rtico, permanecendo, apesar de tudo, um agente do ordem social, pode-se dizer que essas figuras cumprem a suo tarefa, e o artista assume seu papel, criando imagens disformes e grotescos que, ao mesmo tempo, assustam e protegem.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Como afirma Walter Benjamim6: &#8220;Nada \u00e9 um documento de cultura sem ser ao mesmo tempo um documento de barb\u00e1rie&#8221;. Assim, a obra de Stockinger que foz trabalhar a viol\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m ela um documento do barb\u00e1rie humana levada a efeito pelos guerras e pela explora\u00e7\u00e3o. Elas servem ao projeto de cr\u00edtico social que o artista se imp\u00f5e. Talvez essa seja a causa do cansa\u00e7o que ele diz sentir depois de suo fartura. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil enfrentar-se com os dem\u00f4nios da humanidade, que s\u00e3o, no fundo, proje\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios dem\u00f4nios individuais. Em toda sua crueza, essas obras podem ser inscritas em uma est\u00e9tica que faz poss\u00edvel o retorno do recalcado. Uma est\u00e9tica que invoco constantemente uma ofensiva das formas pl\u00e1sticos contra todo tipo de consolo f\u00e1cil, uma est\u00e9tica que p\u00f5e em crise o campo art\u00edstico em si pr\u00f3prio.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Por que, ent\u00e3o, o p\u00fablico recebe t\u00e3o bem e com tonto vontade de posse as imagens dos Guerreiros, Cavalos e Touros em sua sedutora estranheza?\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">Talvez porque elos, ao mesmo tempo em que fazem trabalhar a viol\u00eancia, tamb\u00e9m o dominam. Uma possibilidade de dom\u00ednio, pelo vi\u00e9s da arte, que o espectador identifica nessas obras e pela qual se deixa envolver. Talvez o artista n\u00e3o tente intencionalmente facilitar a viv\u00eancia do dor, mas ele a faz mais sublime e, portanto, mais suport\u00e1vel. Seja em suas primeiras experi\u00eancias com guerreiros, centauros e minotauros, em que o vis\u00e3o do dilaceramento do corpo \u00e9 ainda fugaz e a forma mant\u00e9m-se ainda bastante estruturada, seja nos sobreviventes, em que a destrui\u00e7\u00e3o da estrutura formal \u00e9 bem evidente, os trabalhos de Francisco Stockinger permanecem audazes em seu enfrentamento com a viol\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esconder que ela est\u00e1 l\u00e1, mesmo que oculta, sob temas de uma mitologia arcaica ou regional; crueldade que \u00e9 parte de uma humanidade animal e que muitos t\u00eam dificuldade de aceitar.\u00a0<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">A sedu\u00e7\u00e3o de inquietante estranhamento que emana dessas obras vem da ambig\u00fcidade de serem, concomitantemente, for\u00e7a de ades\u00e3o e de repuls\u00e3o. Desejos de vida e morte s\u00e3o manejados simbolicamente quando o artista incendiado se consome na execu\u00e7\u00e3o de sua obra. A entrega total aos des\u00edgnios de uma poss\u00edvel ess\u00eancia humana captura o espectador fazendo-o, tamb\u00e9m, c\u00famplice dessa aventura. Como o fogo, que ao mesmo tempo, assusta e atrai o olhar, a viol\u00eancia estampada em imagens evidencia o poder do conhecido\/desconhecido que apavora e seduz.\u00a0<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><\/h4>\n<hr \/>\n<h5><strong><span style=\"color: #333300;\">NOTAS<\/span><\/strong><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">1 &#8211; Utiliza-se esse termo a partir do desenvolvimento que lhe \u00e9 dado por Freud no texto &#8221; O Estranho&#8221;. Nesse texto basicamente \u00e9 explorado o fen\u00f4meno pelo qual o estranho prov\u00e9m de algo familiar que foi reprimido; a arte oferece mais oportunidades para criar sensa\u00e7\u00f5es estranhas do que a vida real. Assim, o artista tem um poder peculiarmente diretivo sobre o espectador que adota uma atitude passivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia do real mas deixa-se conduzir pelos efeitos da &#8216;fic\u00e7\u00e3o&#8221;.\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">2 &#8211; Quanto ao tema da destrui\u00e7\u00e3o da figura e de sua m\u00edtica, ver Didi-Huberman.\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">3 &#8211; Em v\u00e1rias entrevistas o artista se refere \u00e0 insist\u00eancia de clientes para comprar Guerreiros e sua resist\u00eancia em faz\u00ea-los.<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">Mas, considerando as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas atuais do artista, pode-se dizer que quando ele o faz deve ser por algo mais do que uma exig\u00eancia do mercado.\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">4 &#8211; KRISTEVA, Julia. Pouvoirs de \/ horreur, Paris, Seuil,1980 p.9\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">5 &#8211; Opus cit p1O\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">6 &#8211; BENJAMIM, Walter. ln L \u2018Informe, p.48\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">RFFFR\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">BENJAMIN, Walter. In L\u2019Informe mede d\u2019emploi.\u00a0BOIS-KRAUSS, Paris, Centre Georges Pompidou, 1996.<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">DIDI-HUBERMAN. Georges. La ressemblance informe, Paris, Macula, 1995.<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">FREUD, Sigismund. Obras Completas Volume XVII, Rio de Janeiro, mago, 1969.<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">KRISTEVA, Julia. Pouvoirs de l &#8216;horreur, Paris Seuil, 1980.<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">KRAUSS, Rosalind. Caminhos da escultura moderna, S\u00e3o Paulo, Martins fontes, 1998.<\/span><\/h5>\n<h5><span style=\"color: #333300;\">RESTANY, Pierre. Os novos realistas. S\u00e3o Paulo, Perspectiva, 1979.<\/span><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bulh\u00f5es, M. A. A sedu\u00e7\u00e3o de um inquietante estranhamento. In: D&#8217;Avila, V. P. (Org.). Stockinger. Porto Alegre: MARGS, 1999, v. , p. 45-52. &nbsp; \u201cTodas as coisas essenciais da arte surgiram sempre do mais profundo sentimento do mist\u00e9rio de nossa exist\u00eancia&#8221;. Beckmann\u00a0 Um inquietante estranhamento1 emana de uma fatia significativa de obras &#8211; os Guerreiros, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2231,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false},"categories":[22],"tags":[404,33],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1488"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1488"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1488\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":66242,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1488\/revisions\/66242"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2231"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}