{"id":1551,"date":"2011-07-23T05:09:04","date_gmt":"2011-07-23T05:09:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=1551"},"modified":"2014-12-17T00:32:42","modified_gmt":"2014-12-17T00:32:42","slug":"sul21-do-que-falamos-quando-falamos-de-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2011\/07\/23\/sul21-do-que-falamos-quando-falamos-de-arte\/","title":{"rendered":"Do que falamos quando falamos de arte?"},"content":{"rendered":"<h4><span class=\"text\" style=\"color: #333300;\">23\/jul\/2011, 9h24min<\/span><\/h4>\n<h3 style=\"color: #9d0006;\"><span style=\"color: #800000;\"><strong>Do que falamos quando falamos de arte?<\/strong><\/span><\/h3>\n<h4><span style=\"color: #333300;\">O objetivo desta coluna n\u00e3o \u00e9 somente fazer coment\u00e1rios sobre exposi\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m ser um espa\u00e7o de conversa sobre artes visuais, informal e informativo, rompendo com certo elitismo que costuma prevalecer nas abordagens da arte. Para come\u00e7o de conversa, ent\u00e3o, uma quest\u00e3o se coloca: de que estamos falando quando falamos de arte?<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\"> Embora esta possa parecer uma conversa filos\u00f3fica sofistica, que n\u00e3o conduz a nada de concreto, penso que vale a pena coloc\u00e1-la como base da discuss\u00e3o. Primeiramente concordarmos que a arte nos remete para um aspecto de nossa humanidade \u2013 a pr\u00e1tica simb\u00f3lica \u2013 que nos diferencia dos demais animais do mundo. Entretanto, nem toda pr\u00e1tica simb\u00f3lica \u00e9 considerada art\u00edstica.<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\"> O que define essa diferencia\u00e7\u00e3o que engloba uma pequena fatia de produtos \u00e9 sua inser\u00e7\u00e3o em um circuito espec\u00edfico. Isso porque, para que uma realiza\u00e7\u00e3o seja considerada art\u00edstica, deve passar pelo processo de incorpora\u00e7\u00e3o a um sistema de arte. Assim, galerias, museus e escolas de arte s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es onde se legitima um determinado objeto ou evento como art\u00edstico; o cr\u00edtico, o professor, o artista, o curador e outros especialistas s\u00e3o os atores que, nestes espa\u00e7os, recebem o poder de realizar esta legitima\u00e7\u00e3o. A categoria arte estabelece um padr\u00e3o de valor superior, menosprezando, como artesanato ou artes menores, as demais produ\u00e7\u00f5es que ficam fora dessa classifica\u00e7\u00e3o. Mesmo aqueles que n\u00e3o participam deste sistema, aceitam e respeitam suas regras como v\u00e1lidas para toda a sociedade, pois ele, ainda que excludente e elitista, tem oferecido \u00e0 humanidade uma s\u00e9rie de produ\u00e7\u00f5es que encantam e fascinam.<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\"> A maioria dos autores no \u00e2mbito da Sociologia e da Economia reconhecem, hoje, o desenvolvimento do que denominam capitalismo cognitivo ou capitalismo cultural. Segundo eles, o capitalismo cl\u00e1ssico fabrica objetos de onde extrai a mais-valia ou lucro. O capitalismo cultural produz desejos, cren\u00e7as e valores, fazendo com que o lucro seja gerado mais no marketing de um produto do que em sua produ\u00e7\u00e3o fabril. Nesse novo modelo capitalista, o elemento chave \u00e9 o trabalho imaterial1 que cria e modifica o ambiente ideol\u00f3gico e cultural do consumidor, produzindo uma rela\u00e7\u00e3o social que transforma o usu\u00e1rio. No capitalismo cl\u00e1ssico a produ\u00e7\u00e3o de objetos obt\u00e9m seu lucro na sua comercializa\u00e7\u00e3o; no capitalismo cognitivo ou cultural, \u00e9 a fabrica\u00e7\u00e3o de desejos e cren\u00e7as que gera a maior riqueza. A f\u00e1brica produz objetos, a empresa produz um mundo. Assim, o valor de um t\u00eanis encontra-se mais no trabalho intelectual que elabora o conjunto de id\u00e9ias que garante que ele representa um estilo de vida, do que na sua produ\u00e7\u00e3o f\u00edsica. A mercadoria resultante do trabalho intelectual n\u00e3o se acaba no consumo, mas se alarga e transforma o ambiente ideol\u00f3gico e cultural do consumidor.<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\"> O sistema da arte pode ser considerado um precursor desse capitalismo cultural, pois ele criou a cren\u00e7a na arte como um valor e em todo o conjunto de institui\u00e7\u00f5es que a sustentam. As origens desse processo encontram-se no alvorecer do mundo moderno, no s\u00e9culo XIV, na It\u00e1lia, quando determinados pintores e escultores, por meio de um conjunto de rela\u00e7\u00f5es que os ligava aos mecenas e literatos, passaram a desfrutar de um poder sobre suas cria\u00e7\u00f5es e uma posi\u00e7\u00e3o dentro da sociedade que os diferenciava dos simples artes\u00e3os. Antes disso, n\u00e3o havia essa diferencia\u00e7\u00e3o \u2013 os produtores n\u00e3o detinham nenhum tipo de poder de autoria sobre suas obras \u2013 elas eram valorizadas de forma semelhante a todos os demais tipos de afazeres manuais. A categoria arte que conhecemos \u00e9 bastante recente na hist\u00f3ria da humanidade. Ela surgiu como resultado de um trabalho imaterial, que permitiu a determinados produtores desfrutarem de um statusquo especial a partir do Renascimento. Importante institui\u00e7\u00e3o neste processo de forma\u00e7\u00e3o foram as Academias de Belas Artes (Floren\u00e7a 1562, Paris 1648), que se tornaram respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o dos artistas, diferenciando-os, definitivamente, dos artes\u00f5es. Ligada \u00e0s elites econ\u00f4micas (burguesia e nobreza) e pol\u00edticas (reis e clero), a arte tamb\u00e9m cumpriu um importante papel de domina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, difundindo sob a forma de imagens valores e padr\u00f5es culturais.<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\"> Na segunda metade do s\u00e9culo XVIII estabeleceram-se as tr\u00eas grandes disciplinas \u2013 Est\u00e9tica, Hist\u00f3ria da Arte e Cr\u00edtica de Arte \u2013 que, atuando estreitamente interligadas, foram decisivas na constru\u00e7\u00e3o daquilo que hoje conhecemos como arte. Alexander Baumgarten criou a Est\u00e9tica como ramo espec\u00edfico da filosofia, dedicado \u00e0quilo que ele denominava sublime. Johann Winckelmann, na esteira dos grandes movimentos de revaloriza\u00e7\u00e3o da cultura greco-romana, inaugurou uma Hist\u00f3ria da Arte apoiada nos padr\u00f5es est\u00e9ticos desse per\u00edodo para estabelecer crit\u00e9rios valorativos. Finalmente, Denis Diderot, com seus coment\u00e1rios sobre os Sal\u00f5es de Belas-artes, deu in\u00edcio ao que, hoje, se considera Cr\u00edtica de Arte, no sentido de uma avalia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o em desenvolvimento. Assim, ao final do s\u00e9culo XVIII, na Europa Ocidental, estava completamente institu\u00eddo o modelo acad\u00eamico de Sistema de Arte. N\u00e3o por acaso, quase tudo que re-conhecemos como arte encontra-se nos grandes museus de Floren\u00e7a, Roma e Paris. Este sistema foi importado para a Am\u00e9rica, o longo do s\u00e9culo XIX, com a cria\u00e7\u00e3o das diversas Academias de Belas Artes que proliferaram nos novos pa\u00edses que se tornavam independentes. Elas estabeleceram muitas das condi\u00e7\u00f5es e dos conceitos de arte com que a maioria das pessoas ainda lida. Geralmente, quando falamos de arte, embora sem nos darmos conta, \u00e9 dessa concep\u00e7\u00e3o introjetada que partimos.<\/span><\/h4>\n<h4><span style=\"color: #333300;\"> De l\u00e1 para c\u00e1 muitas mudan\u00e7as ocorreram dentro do sistema, adaptando-o \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es da economia, da sociedade e do pensamento cultural. Da modernidade \u00e0 contemporaneidade, entretanto, as quest\u00f5es b\u00e1sicas de elitismo, de domina\u00e7\u00e3o e de exclud\u00eancia, que estavam evidentes nas origens de sua institucionaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foram completamente eliminadas. Pelo contr\u00e1rio, esses aspectos apresentam-se de forma difusa, tornando mais complexo e dif\u00edcil seu questionamento. Dif\u00edcil, por\u00e9m n\u00e3o imposs\u00edvel, e constantemente buscado, pois, se a arte \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o se apropriar dela \u00e9 se deixar dominar.<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong><span style=\"color: #800000;\">Coment\u00e1rios<\/span><\/strong><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario1.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-1553 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario1.png\" alt=\"Comentario1\" width=\"715\" height=\"123\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario1.png 715w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario1-300x51.png 300w\" sizes=\"(max-width: 715px) 100vw, 715px\" \/><\/a> <a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario2.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1554 size-full aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario2.png\" alt=\"Comentario2\" width=\"726\" height=\"654\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario2.png 726w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario2-300x270.png 300w\" sizes=\"(max-width: 726px) 100vw, 726px\" \/><\/a> <a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario3.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1555 size-full aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario3.png\" alt=\"Comentario3\" width=\"711\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario3.png 711w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Comentario3-300x92.png 300w\" sizes=\"(max-width: 711px) 100vw, 711px\" \/><\/a><\/p>\n<h3><span style=\"color: #800000;\">Podes ler o texto original na p\u00e1gina do SUL21\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/do-que-falamos-quando-falamos-de-arte\/\" target=\"_blank\">Aqui.<\/a><\/span><\/h3>\n<h3><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>23\/jul\/2011, 9h24min Do que falamos quando falamos de arte? 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