{"id":2011,"date":"2012-02-11T12:58:14","date_gmt":"2012-02-11T12:58:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=2011"},"modified":"2019-04-01T00:28:51","modified_gmt":"2019-04-01T00:28:51","slug":"memoria-da-violencia-nos-corpos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2012\/02\/11\/memoria-da-violencia-nos-corpos\/","title":{"rendered":"A mem\u00f3ria da viol\u00eancia nos corpos"},"content":{"rendered":"<p>Publicado em:\u00a0<time class=\"entry-time\" datetime=\"2012-02-11T04:12:15-03:00\">fevereiro 11, 2012<\/time><\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina, continente cujo \u201cdescobrimento\u201d foi uma ocupa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sempre a olhar a arte dos pa\u00edses desenvolvidos. Voltar-se para sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria \u00e9 o grande m\u00e9rito da mostra \u201cDores da Col\u00f4mbia\u201d, de Fernando Botero, que est\u00e1 sendo apresentada em Porto Alegre no <a href=\"http:\/\/cccev.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Centro Cultural CEEE Erico Ver\u00edssimo<\/a>. A exposi\u00e7\u00e3o documenta o cotidiano da viol\u00eancia vivido nesse pa\u00eds, atrav\u00e9s de um conjunto expressivo de 6 aquarelas, 36 desenhos a carv\u00e3o e 25 pinturas a \u00f3leo que o artista doou ao Museu Nacional da Col\u00f4mbia, entre 2004 e 2005, e que o Museu faz itinerar pelo mundo, propondo a den\u00fancia e o questionamento dessa realidade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5365-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2012 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5365-2.jpg\" alt=\"5365-2\" width=\"413\" height=\"273\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5365-2.jpg 1772w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5365-2-300x197.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 413px) 100vw, 413px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica mais conhecida de Botero se caracteriza por suas famosas personagens gordas: figuras expandidas em espa\u00e7os comprimidos. Essa estrat\u00e9gia formal d\u00e1 a suas obras aspecto agigantado,\u00a0 independente de suas reais dimens\u00f5es. O artista utiliza uma composi\u00e7\u00e3o tradicional, centrada na figura humana, que deixa perceber um deslumbramento com os corpos excessivamente volumosos e avantajados. Impregnando suas cenas de um tom intencionalmente naif ou ing\u00eanuo, ele trata seus personagens de uma maneira pr\u00f3xima \u00e0 cr\u00f4nica de costumes, satirizando, ao mesmo tempo, as pessoas comuns e os poderosos. As cores vibrantes e a constru\u00e7\u00e3o formal narrativa criam um universo l\u00fadico, do qual emana bom humor e alegria de viver. Suas obras oferecem, com ironia, vis\u00f5es prosaicas do mundo, da vida cotidiana e da pr\u00f3pria hist\u00f3ria da arte, que ele conhece muito bem.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1170\" height=\"658\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vKfqx0W8Ddo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Nascido em Medell\u00edn, em 1932, Fernando Botero \u00e9, hoje, um consagrado artista internacional, que reside em Nova York, Paris e Pietrasanta, na It\u00e1lia. Fora da Col\u00f4mbia h\u00e1 mais de quarenta anos, exp\u00f5e nos mais renomados museus do mundo. A figura humana \u00e9, tradicionalmente, o foco de seu trabalho, espalhando-se por um imenso universo de temas, desde os mais prosaicos aos mais s\u00e9rios. A rela\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica e l\u00fadica com a realidade, em assuntos belos e am\u00e1veis, \u00e9 o lado mais conhecido no trabalho do artista, entretanto, a viol\u00eancia tem aparecido como protagonista em s\u00e9ries como \u201cAbu Ghraib\u201d\u00a0e\u00a0\u201cDores da Col\u00f4mbia\u201d. Na primeira, o artista retrata as torturas infligidas por soldados norte-americanos a presos iraquianos na pris\u00e3o de Abu Ghraib, tendo cada obra sido intitulada simplesmente\u00a0pela numera\u00e7\u00e3o de 1 a 50. Na segunda, ele constr\u00f3i uma mem\u00f3ria da viol\u00eancia na Col\u00f4mbia, seu pa\u00eds de origem. \u00c9 interessante observar como Botero faz sua abordagem de tem\u00e1ticas t\u00e3o agressivas e dolorosas como essas, mantendo a estrutura formal que lhe \u00e9 caracter\u00edstica.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5369-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-2015 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5369-2.jpg\" alt=\"5369-2\" width=\"320\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5369-2.jpg 1772w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5369-2-213x300.jpg 213w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5369-2-727x1024.jpg 727w\" sizes=\"(max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tratando situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que n\u00e3o lhe concernem diretamente, o artista abrange uma dor mais ampla, que diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria esp\u00e9cie humana. Para tal, ele se apropria da tradi\u00e7\u00e3o da figura humana cuja representa\u00e7\u00e3o esteve presente ao longo de toda a hist\u00f3ria da arte ocidental, criando com ela uma tens\u00e3o visual. Seus quadros descrevem, de forma coloquial e ao mesmo tempo grotesca, momentos em que corpos agredidos, torturados, destro\u00e7ados exp\u00f5em o que comumente se denomina viol\u00eancia. A exposi\u00e7\u00e3o trabalha nos limites da hist\u00f3ria oficial, em uma encruzilhada de imagens que deixa transparecer o n\u00e3o omitido, que recupera acontecimentos pelos relatos populares e pelas informa\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5371-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-2017 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5371-2.jpg\" alt=\"5371-2\" width=\"413\" height=\"273\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos desenhos a carv\u00e3o, a aus\u00eancia da cor torna mais cru\u00e9is os gestos e as express\u00f5es, acrescentando um efeito sombrio \u00e0s imagens. O tom escuro das figuras, com algum detalhe em vermelho \u00e0s vezes, ressalta a for\u00e7a do tema tratado. No todo da exposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o quadros, grandes e pequenos, coloridos e em preto e branco, em um conjunto majestoso e muito bem articulado, distribu\u00eddo em tr\u00eas andares do Centro Cultural, oferecendo ao espectador uma possibilidade po\u00e9tica de se aproximar de um tema t\u00e3o chocante.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5412-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-2018 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/5412-2.jpg\" alt=\"5412-2\" width=\"320\" height=\"451\" \/><\/a><\/p>\n<p>A vida, a morte, os corpos e as est\u00f3rias aparecem totalmente interligados, apontando para um ir e vir do individual ao social. Talvez se possa falar na constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria coletiva, na medida em que a estrutura das obras capta o instante do acontecimento, ativando lembran\u00e7as que s\u00e3o marcas das viol\u00eancias p\u00fablica e privada no territ\u00f3rio colombiano. Pois o que significa habitar a Col\u00f4mbia desde os \u00faltimos cinquenta anos sen\u00e3o uma viv\u00eancia cotidiana da viol\u00eancia? Sua abordagem, em muitos aspectos, evidencia o distanciamento de um olhar que n\u00e3o presencia de perto essa realidade. Entretanto, debru\u00e7ando-se mais detidamente sobre o conjunto de sua produ\u00e7\u00e3o, pode-se encontrar como fio condutor dois temas recorrentes de seu trabalho: corpo e mem\u00f3ria. Persistentemente perseguidos pelo artista, eles aparecem combinados, pensados como polos energ\u00e9ticos que ativam sua cria\u00e7\u00e3o. Embora amb\u00edguo o prop\u00f3sito do artista de \u201cdar seu testemunho\u201d, abordando o sofrimento, o desespero, a agress\u00e3o e a morte com os quais n\u00e3o se enfrenta de perto, a exposi\u00e7\u00e3o tem, na recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, um fator de avalia\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel. Os espectadores se deixam envolver, fascinados pela po\u00e9tica do artista, e, assim captados, conseguem olhar de frente uma realidade da qual normalmente fugiriam.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1170\" height=\"878\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/F2gG2KnrBe8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O conjunto de obras em exposi\u00e7\u00e3o deixa ver como as marcas da viol\u00eancia nos corpos se transformam em um corpo de mem\u00f3rias. Botero, mesmo distante, segue conectado com seu pa\u00eds e procura nessa s\u00e9rie de trabalhos fazer pensar sobre suas circunst\u00e2ncias hist\u00f3rico-sociais. Voc\u00ea pode conferir at\u00e9 8 de mar\u00e7o como ele cruza, no espa\u00e7o pict\u00f3rico de suas telas, corpos-lembran\u00e7as-relatos em busca de significa\u00e7\u00f5es. Talvez essa seja uma oportunidade de constatar como o campo da arte faz parte do pensamento simb\u00f3lico contempor\u00e2neo, tratando com sutileza aspectos duros da realidade latino-americana.<\/p>\n<h4>Veja a coluna original clicando <a href=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/a-memoria-da-violencia-nos-corpos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui.<\/a><\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em:\u00a0fevereiro 11, 2012 A Am\u00e9rica Latina, continente cujo \u201cdescobrimento\u201d foi uma ocupa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sempre a olhar a arte dos pa\u00edses desenvolvidos. 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