{"id":2263,"date":"2012-04-14T14:32:35","date_gmt":"2012-04-14T14:32:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=2263"},"modified":"2019-04-01T00:21:34","modified_gmt":"2019-04-01T00:21:34","slug":"arte-de-rua-margem-ou-integrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2012\/04\/14\/arte-de-rua-margem-ou-integrada\/","title":{"rendered":"\u201cArte de Rua\u201d \u00e0 margem ou integrada?"},"content":{"rendered":"<header class=\"entry-header\">\n<p class=\"entry-meta\">Publicado em:\u00a0<time class=\"entry-time\" datetime=\"2012-04-14T10:15:46-03:00\">abril 14, 2012<\/time><\/p>\n<\/header>\n<p>H\u00e1 muita demanda, do p\u00fablico em geral, para que se fa\u00e7am abordagens relativas \u00e0 produ\u00e7\u00f5es que se encontram \u00e0 margem do sistema da arte, e das diferentes intera\u00e7\u00f5es que estabelecem com o conceito \u201carte\u201d, t\u00e3o diversificadamente utilizado. Uma mensagem que me foi enviada com esse anexo reativou minha aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a uma produ\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 acompanho h\u00e1 algum tempo com curiosidade e que prop\u00f5e interessantes desafios para o campo das artes visuais. A reflex\u00e3o sobre a cultura produzida nas ruas das cidades, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, exige um olhar mais amplo sobre as pr\u00e1ticas est\u00e9ticas e enseja questionamentos sobre este movimento cultural, de origem bastante marginal, que vem ganhando for\u00e7a nas grandes metr\u00f3poles.<br \/>\nPara Lucas Ribeiro, \u201cStreet art, p\u00f3s-graffiti e interven\u00e7\u00e3o urbana s\u00e3o algumas maneiras de chamar o fen\u00f4meno que passou a acontecer nas ruas de grandes metr\u00f3poles em meados dos anos 90 e, na virada do mil\u00eanio, entrou em ebuli\u00e7\u00e3o\u2026. No espa\u00e7o democr\u00e1tico e, muitas vezes, inusitado, das metr\u00f3poles, a arte retornou ao figurativo, resgatou o pop e usou t\u00e9cnicas de marketing e publicidade para atingir os cidad\u00e3os\u201d.<br \/>\nA arte de rua abrange trabalhos de artistas que usam os espa\u00e7os das cidades como suporte para se expressar, criaram seus pr\u00f3prios ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, redes de distribui\u00e7\u00e3o e valores est\u00e9ticos. Em experimenta\u00e7\u00f5es individuais ou coletivas, esses criadores receberam grande influ\u00eancia do movimento punk, e s\u00e3o, eles mesmos, dos personagens do hip-hop, do skate, do fanzine e de outras ramifica\u00e7\u00f5es, conex\u00f5es e evolu\u00e7\u00f5es da cultura urbana. Em muitos casos, uma postura marginal \u00e9 defendida como filosofia e base conceitual dos trabalhos. A arte de rua vai al\u00e9m do grafite, um termo que virou sin\u00f4nimo da arte integrada ao movimento hip hop, pois abrange in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es, integrando diferentes regras, estilos e c\u00f3digos de conduta. Utilizam como meios cartazes, adesivos, pinc\u00e9is, stencils e at\u00e9 sprays, para se expressarem com as mais variadas t\u00e9cnicas e estilos. O circuito de arte de rua estabelece seus pr\u00f3prios espa\u00e7os e meios de difus\u00e3o, mantendo em alguns casos total independ\u00eancia do meio art\u00edstico oficial, com v\u00e1rios sites onde divulgam informa\u00e7\u00f5es sobre este tipo de produ\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso do \u201cZupi\u201d e do \u201c<a href=\"http:\/\/www.temmais.com\/blog\/artedasruas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tem mais<\/a>\u201c.<br \/>\nTamb\u00e9m foram criadas lojas e galerias especializadas nesse tipo de trabalhos, o que evidencia a abertura de um nicho de mercado bem espec\u00edfico para essa arte. Al\u00e9m de expandir seu pr\u00f3prio circuito, desde o in\u00edcio do movimento, artistas ligados \u00e0 arte de rua passaram a ocupar museus e galerias de arte conceituadas, al\u00e9m de participarem de filmes e document\u00e1rios. Ao chegarem nas galerias, nas grandes livrarias, nas lojas de discos e de moda, e na publicidade, os personagens do movimento estabelecem novas formas de integra\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, a arte urbana originou alguns grandes eventos no Brasil, e no exterior. A exposi\u00e7\u00e3o \u201cFabulosas Desordens\u201d, no Centro Cultural da Caixa, em 2007, foi totalmente dedicada \u00e0 discuss\u00e3o do grafite como linguagem gr\u00e1fica urbana e sua rela\u00e7\u00e3o com o sistema atual de produ\u00e7\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o da arte. O projeto abrangeu uma ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o por cerca de 25 artistas gr\u00e1ficos cuja origem de suas pr\u00e1ticas est\u00e1 nas ruas, no exerc\u00edcio an\u00f4nimo e transgressor do grafite.<br \/>\nO Memorial da Am\u00e9rica Latina, tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo, em 2006, recebeu \u201cSpray: o novo muralismo latino americano\u201d, uma exposi\u00e7\u00e3o, que examinou o trabalho dos artistas de rua como uma linguagem inovadora e contempor\u00e2nea. Entre os artistas participantes da mostra estavam Speto, Kboco e Onesto.<br \/>\nOutro importante exemplo foi a exposi\u00e7\u00e3o \u201cTransfer\u201d, realizada no Santander Cultural, em Porto Alegre, em 2008, com curadoria de Lucas Ribeiro, Fabio Zimbres, Alexandre Cruz e Christian Strike, que muito furor causou na cidade, ocupando sua \u00e1rea central do museu com uma pista de skate, e mostrando trabalhos de \u00edcones dessa cultura urbana nacionais e internacionais. A mostra, foi o ponto de partida para um laborat\u00f3rio de experi\u00eancias e conviv\u00eancia, reunindo uma gama de obras e materiais de mais de 100 artistas, em torno de 300 obras de acervos privados nacionais e do exterior, al\u00e9m de v\u00eddeos e fotografias. E mais onze obras \/ instala\u00e7\u00f5es criadas especialmente para a exposi\u00e7\u00e3o. A iniciativa incluiu tamb\u00e9m uma mostra de filmes in\u00e9ditos no Brasil sobre arte urbana e uma centena de fotografias de interven\u00e7\u00f5es urbanas e diversos v\u00eddeos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/001_080624_transfersantander_bossa-ia-2.jpg\"><br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-2264 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/001_080624_transfersantander_bossa-ia-2.jpg\" alt=\"001_080624_transfersantander_bossa-ia-2\" width=\"560\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/001_080624_transfersantander_bossa-ia-2.jpg 560w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/001_080624_transfersantander_bossa-ia-2-300x204.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Foto: In\u00eas Arigoni<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/016_080624_transfersantander_bossa-ia-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-2265 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/016_080624_transfersantander_bossa-ia-3.jpg\" alt=\"016_080624_transfersantander_bossa-ia-3\" width=\"560\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/016_080624_transfersantander_bossa-ia-3.jpg 560w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/016_080624_transfersantander_bossa-ia-3-300x214.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Foto: In\u00eas Arigoni<\/p>\n<p>Essas mostras podem ser vistas como atividades do meio art\u00edstico tradicional, dedicadas a essa produ\u00e7\u00e3o, oferecendo a ela um tratamento espec\u00edfico. S\u00e3o casos de integra\u00e7\u00e3o que procuram manter certa forma de unidade dos trabalhos, divulgando ideias do movimento da arte de rua como um todo, e defendendo suas propostas de a\u00e7\u00f5es coletivas.<br \/>\nPor outro lado, individualmente, alguns artistas se integram no sistema da arte, como, por exemplo, os irm\u00e3os Pandolfo, mais conhecidos como Os G\u00eameos, que realizaram sua primeira exposi\u00e7\u00e3o individual na Galeria Fortes Vila\u00e7a, em 2006. <a href=\"http:\/\/www.osgemeos.com.br\/biografia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os Gemeos<\/a> \u00e9 um caso t\u00edpico de absor\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o ao sistema da arte. Eles participam de mostras em importantes galerias e museus no Brasil e no exterior, e fazem seus grafites em paredes de resid\u00eancias e espa\u00e7os comerciais.<br \/>\nArtistas que pautam seu trabalho por posturas undergrounds e de oposi\u00e7\u00e3o ao meio art\u00edstico tradicional, vivem conflitos quando s\u00e3o absorvidos e integrados ao sistema da arte. Isso pode ser percebido na <a href=\"http:\/\/entretenimento.uol.com.br\/ultnot\/multi\/2009\/06\/20\/0402326CE0A14346.jhtm?grafite-em-sao-paulo--onesto-0402326CE0A\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fala de Onesto<\/a>, um conhecido grafiteiro.<br \/>\nUm outro tipo de rela\u00e7\u00e3o com a arte de rua se estabeleceu bem mais recentemente, 2012, quando a fachada da Funda\u00e7\u00e3o Ecarta, em Porto Alegre, serviu de suporte para o trabalho da artista Adauany Zimovski. Ela partiu do universo da arte urbana, se apropriando de sua linguagem e de suas refer\u00eancias, para criar a malha de escritas e tags que agora preenchem a superf\u00edcie do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/IMG_7684-J-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-2266 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/IMG_7684-J-2.jpg\" alt=\"IMG_7684-J-2\" width=\"560\" height=\"390\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/IMG_7684-J-2.jpg 560w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/IMG_7684-J-2-300x208.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O maior desafio, contudo ainda \u00e9 como tratar a arte de rua numa institui\u00e7\u00e3o oficial de arte sem que esta seja engessada no formato de uma exposi\u00e7\u00e3o de arte convencional. Esse \u00e9 um desafio que j\u00e1 se colocava para o sistema das artes, quando Jean-Michel Basquiat e Keith Hering, grafiteiros nova-iorquinos, se tornaram importantes artistas do s\u00e9culo XX, mantendo-se fi\u00e9is \u00e0 sua iconografia e \u00e0s suas tem\u00e1ticas de origem, assim como \u00e0 forma pl\u00e1stica que desenvolveram nas ruas.<br \/>\nMas ainda ficam muitas quest\u00f5es. Quais os sentidos dessa incorpora\u00e7\u00e3o, para o artista e para o p\u00fablico? \u00c9 poss\u00edvel e desej\u00e1vel evitar modifica\u00e7\u00f5es do trabalho original nesse tr\u00e2nsito ou transfer\u00eancia de contextos? Com que crit\u00e9rios est\u00e9ticos e conceituais abordar essa produ\u00e7\u00e3o? Enquanto se discutem essas quest\u00f5es, muito continua sendo produzido pelas ruas de forma original e descompromissada. Se ser\u00e3o ou n\u00e3o assumidas pelo sistema da arte, \u00e9 um debate \u00e0 parte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto publicado originalmente no <a href=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/arte-de-rua%E2%80%9D-a-margem-ou-integrada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sul 21<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em:\u00a0abril 14, 2012 H\u00e1 muita demanda, do p\u00fablico em geral, para que se fa\u00e7am abordagens relativas \u00e0 produ\u00e7\u00f5es que se encontram \u00e0 margem do sistema da arte, e das diferentes intera\u00e7\u00f5es que estabelecem com o conceito \u201carte\u201d, t\u00e3o diversificadamente utilizado. 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