{"id":2456,"date":"2015-11-13T14:43:24","date_gmt":"2015-11-13T14:43:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=2456"},"modified":"2015-11-13T14:47:11","modified_gmt":"2015-11-13T14:47:11","slug":"arte-e-politica-arte-politica-ou-politica-da-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2015\/11\/13\/arte-e-politica-arte-politica-ou-politica-da-arte\/","title":{"rendered":"Arte e pol\u00edtica, arte pol\u00edtica ou pol\u00edtica da arte?"},"content":{"rendered":"<p align=\"JUSTIFY\">Algu\u00e9m se lembra de que Frederico de Moraes, curador da I Bienal de Artes Visuais do MERCOSUL estabeleceu tr\u00eas vertentes para organizar a mostra, sendo uma delas \u201cPol\u00edtica \u2013 arte e seu contexto\u201d?<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Com o estabelecimento dessa vertente, ele pareceu segmentar determinadas obras, restringindo a pol\u00edtica a alguns artistas e produ\u00e7\u00f5es. Entretanto, verifica-se que \u00e9 dif\u00edcil pensar em fugir a essas rela\u00e7\u00f5es, que se imbricam em tantas interconex\u00f5es. As tr\u00eas express\u00f5es colocadas no t\u00edtulo da coluna n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos, cada uma delas evidencia uma determinada problem\u00e1tica nas complexas liga\u00e7\u00f5es da arte com seu contexto. A express\u00e3o \u201carte e pol\u00edtica\u201d diz respeito a todo tipo de possibilidades de interconex\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica com os movimentos pol\u00edticos. \u201cArte pol\u00edtica\u201d \u00e9 aquela em que o artista se assume como protagonista de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, buscando produzir efeitos nas estruturas de poder vigentes, sejam para sua transforma\u00e7\u00e3o ou para sua manuten\u00e7\u00e3o. A express\u00e3o \u201cpol\u00edtica da arte\u201d se refere \u00e0s correntes pol\u00edticas que se estabelecem dentro do campo da arte definindo posi\u00e7\u00f5es e poderes. Apesar de se falar tanto de pol\u00edtica em nosso meio, contraditoriamente, no entanto, muito pouco se fala de suas rela\u00e7\u00f5es com a arte.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No entanto, como afirma Jacques Ranciere, \u201carte e pol\u00edtica t\u00eam em comum o fato de produzirem fic\u00e7\u00f5es. Uma fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste em contar hist\u00f3rias imagin\u00e1rias. \u00c9 a constru\u00e7\u00e3o de uma nova rela\u00e7\u00e3o entre a apar\u00eancia e a realidade, o vis\u00edvel e o seu significado, o singular e o comum.\u201d \u00c9 sob esta \u00f3tica que vale a pena ver a exposi\u00e7\u00e3o \u201c<a href=\"http:\/\/contracultura.com.br\/\" target=\"_blank\">Express\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d, com curadoria de Dem\u00e9trio Portugal, que se encontra no <a href=\"http:\/\/www2.portoalegre.rs.gov.br\/vivaocentro\/default.php?p_secao=90\" target=\"_blank\">Centro Cultural Usina do Gas\u00f4metro<\/a>, de 13 junho a 14 de julho, como parte das atividades do Democracine.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-125464\" title=\"usina2\" src=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/usina2.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"385\" \/><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Dem\u00e9trio Portugal \u00e9 um dos mais ativos membros da <a href=\"http:\/\/matilhacultural.com.br\/\" target=\"_blank\">Matilha Cultural<\/a>, uma entidade independente e sem fins lucrativos, instalada em um edif\u00edcio de tr\u00eas andares no centro de S\u00e3o Paulo. Inaugurada em 2009, a Matilha resultou de um trabalho coletivo de profissionais de diferentes \u00e1reas, tendo como principais objetivos apoiar e divulgar produ\u00e7\u00f5es culturais e iniciativas socioambientais do Brasil e do mundo. A mostra \u201cExpress\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o\u201d tamb\u00e9m foi ali apresentada.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na Usina do Gas\u00f4metro a mostra est\u00e1 organizada e distribu\u00edda em tr\u00eas espa\u00e7os \u2013 Galeria Iber\u00ea Camargo, Galeria dos Arcos e Galeria Lunara. A mostra promove uma reflex\u00e3o sobre os processos revolucion\u00e1rios em andamento no Oriente M\u00e9dio, reunindo diferentes fot\u00f3grafos e manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas do Egito e da Tun\u00edsia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na Galeria Iber\u00ea Camargo encontra-se a v\u00eddeo-instala\u00e7\u00e3o que re\u00fane imagens do trabalho de Ahmed Basiony denominado \u201c30 dias correndo sem sair do lugar\u201d, juntamente com imagens da pra\u00e7a Tahrir durante o per\u00edodo dos conflitos que levaram \u00e0 queda do ex-ditador Mubarak. Nessa performance, realizada em 2010, o artista usava uma roupa de pl\u00e1stico confeccionada por ele mesmo, com um dispositivo para medir seus passos e transpira\u00e7\u00e3o ao correr durante uma hora diariamente. Em um painel digital esses dados eram apresentados transformados em imagens e cores. O artista, ativista pol\u00edtico, se referia ao desperd\u00edcio de energia durante os 30 anos do governo Mubarak. Na Bienal de Veneza, em 2011, a curadoria trouxe pol\u00eamica ao apresentar a obra do artista assassinado nos conflitos do Cairo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na galeria dos Arcos, encontram-se a coletiva de fotos tunisiana sobre o processo de revolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es no pa\u00eds curada por\u00a0Lotfi Kaabi, em parceria com a Anistia Internacional \u2013 Londres. Tamb\u00e9m podem ser vistos ilustra\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es urbanas de graffiti de Ganzeer; artista e designer gr\u00e1fico da nova gera\u00e7\u00e3o do Egito.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><a href=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/print_islamraafat-2.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-125466\" title=\"print_islamraafat (2)\" src=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/print_islamraafat-2.png\" alt=\"\" width=\"289\" height=\"400\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na Galeria Lunara, encontra-se uma produ\u00e7\u00e3o bem diversificada, info-v\u00eddeo sobre os processos revolucion\u00e1rios na Primavera \u00c1rabe, desenvolvido pelo coletivo Paulista\u00a0BijaRi, al\u00e9m de manifesta\u00e7\u00f5es de <em>stenci e graffiti<\/em>\u00a0das ruas do Cairo, v\u00eddeos contextualizadores etc.\u00a0Destacam-se os v\u00eddeos do media ativista, artista visual e estudioso das estruturas em rede, Aalam Wassef, que inspirou os eg\u00edpcios a a\u00e7\u00f5es subversivas na internet com v\u00eddeos e t\u00e1ticas revolucion\u00e1rias. Wassef, que estudou artes pl\u00e1sticas na Fran\u00e7a, de 2006 a 2011, produziu v\u00e1rios trabalhos em diferentes meios, sob diferentes identidades, por conta do cunho pol\u00edtico anti Osni Mubarak. Depois da queda deste, revelou-se como artista, assumindo a autoria destes trabalhos<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1170\" height=\"878\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wBtHjPeEuzU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ali se encontram, tamb\u00e9m, as imagens do projeto \u201cGame over\u201d, exposi\u00e7\u00e3o produzida em parceria com o grupo Planet Art Exchange (organiza\u00e7\u00e3o baseada no Reino Unido, sobre estrat\u00e9gias de resist\u00eancia para defender as aspira\u00e7\u00f5es reais da revolu\u00e7\u00e3o tunisiana), que re\u00fane o trabalho de quarto artistas revolucion\u00e1rios \u00a0\u2013 Wassim Ghozlani, Sameh Arfaoui, Amine Landoulsi e Hamideddine Bouali e a interven\u00e7\u00e3o de Amira Aleya, \u00a0professor de hist\u00f3ria nacional na Universidade Manuba, da Tun\u00edsia. A mostra traz 50 trabalhos sobre os primeiros momentos dos conflitos tunisianos at\u00e9 a queda de Ben Ali, ditador tunisiano.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Tamb\u00e9m, podem ser vistos ali p\u00f4steres, <em>stencils e graffitis<\/em>, resultados de express\u00f5es da arte de rua do Cairo, feitos por Ganzeer,.E, ainda, Tahrir!\u201d, exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica que esteve em cartaz em abril na Galeria de Fotos da Universidade Americana do Cairo. O projeto re\u00fane imagens de 20 fot\u00f3grafos com registros de momentos do Egito desde 25 de janeiro, o primeiro dos protestos que derrubaram o ditador Mubarak.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Segundo Dem\u00e9trio Portugal, \u201cA tem\u00e1tica do Oriente M\u00e9dio e do Norte da \u00c1frica est\u00e1 relacionada ao debate da quest\u00e3o do \u201cpoder de mudan\u00e7a\u201d que o povo tem e a dignidade de faz\u00ea-lo por meios pacifistas e em prol dos direitos humanos e dos cidad\u00e3os \u2013 colocando quest\u00f5es religiosas, \u00e9tnicas e de classe em segundo plano\u2026 \u00c9 um processo de gera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, confian\u00e7a, constru\u00e7\u00e3o de rede de contatos e troca entre culturas num dos momentos mais transformadores de uma sociedade que, no caso do Egito, representa tamb\u00e9m uma das civiliza\u00e7\u00f5es mais antigas do mundo. A \u201cExpress\u00f5es Revolucion\u00e1rias\u201d, portanto, \u00e9 o reflexo e o compartilhamento de toda essa experi\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Comentando para o <a href=\"http:\/\/www.canalcontemporaneo.art.br\/arteemcirculacao\/archives\/004864.html\" target=\"_blank\">Canal Contempor\u00e2neo<\/a> a grande mostra \u201cDocumenta\u201d, recentemente inaugurada em Cassel, na Alemanha, Daniela Bousso afirma: \u201c H\u00e1 uma urg\u00eancia em recusar o atual estado das coisas e, pelas vias da arte, propor espa\u00e7os de express\u00e3o libert\u00e1ria que parecem, loucamente, querer retomar as utopias perdidas do maio de 1968. Um dia John Lennon declarou: \u201c\u201dO sonho acabou\u201d e seguimos meio que anestesiados pela vida afora, entre o inconformismo e o conformismo, n\u00f3s e tamb\u00e9m a arte, por meio s\u00e9culo. E se o sonho de fato n\u00e3o tivesse acabado, mas apenas adormecido, e agora?\u201d Talvez um coment\u00e1rio semelhante possa ser utilizado em todos os diferentes momentos e formas em que a arte, hoje, perpassa o social, abandonando seu reduto museol\u00f3gico para se enredar no mundo, fazendo pol\u00edtica em in\u00fameras novas tipologias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m se lembra de que Frederico de Moraes, curador da I Bienal de Artes Visuais do MERCOSUL estabeleceu tr\u00eas vertentes para organizar a mostra, sendo uma delas \u201cPol\u00edtica \u2013 arte e seu contexto\u201d? Com o estabelecimento dessa vertente, ele pareceu segmentar determinadas obras, restringindo a pol\u00edtica a alguns artistas e produ\u00e7\u00f5es. 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