{"id":2486,"date":"2015-12-05T00:45:22","date_gmt":"2015-12-05T00:45:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=2486"},"modified":"2015-12-05T00:45:22","modified_gmt":"2015-12-05T00:45:22","slug":"quer-conhecer-o-mercado-de-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2015\/12\/05\/quer-conhecer-o-mercado-de-arte\/","title":{"rendered":"Quer conhecer o mercado de arte?"},"content":{"rendered":"<p>Conhecer mercados n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil em nenhuma \u00e1rea, que dizer disso em um campo t\u00e3o pouco estudado como o da arte. A rela\u00e7\u00e3o entre arte e dinheiro \u00e9 vista em muitos casos com desd\u00e9m, e os n\u00fameros na maioria dos casos n\u00e3o se encontram dispon\u00edveis. Conhecer um pouco de sua hist\u00f3ria, no Brasil, pode ser interessante.<\/p>\n<p>Nos anos 70, um primeiro grande impulso abriu caminho para o desenvolvimento do mercado de arte no Pa\u00eds, vinculando-se, de maneira bastante estreita, com o que ocorria em termos gerais na economia. Ap\u00f3s o golpe de 1964, que levou ao poder uma ditadura militar, seguiu-se o per\u00edodo caracterizado como um dos mais favor\u00e1veis \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o monopolista, conhecido como \u201cmilagre brasileiro\u201d. Foi uma \u00e9poca em que se aceleraram a concentra\u00e7\u00e3o de renda, o incremento \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es e a centraliza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro. Esse processo foi encaminhado atrav\u00e9s do Estado autorit\u00e1rio, que favoreceu a acumula\u00e7\u00e3o e a grande invers\u00e3o de capitais internacionais, configurando o atual modelo econ\u00f4mico brasileiro. Isso era resultado de uma estabilidade pol\u00edtica conquistada pelo controle social, que se fazia sentir tamb\u00e9m em termos de novas possibilidades de consumo das camadas privilegiadas, o que deu grande incremento ao campo das artes sob a \u00f3tica do mercado.<\/p>\n<p>Ainda na d\u00e9cada de 70, um novo perfil geogr\u00e1fico do sistema da arte no Pa\u00eds se configurou com o deslocamento de seu centro dinamizador do Rio de Janeiro para S\u00e3o Paulo. O expressivo desenvolvimento do mercado de arte, em decorr\u00eancia do crescimento econ\u00f4mico intensivo que ocorria naquela cidade, foi fator decisivo em tal deslocamento. A eclos\u00e3o da chamada <em>Gera\u00e7\u00e3o 80<\/em> veio tamb\u00e9m no bojo dessas novas condi\u00e7\u00f5es da sociedade brasileira. Assim como das exig\u00eancias da internacionaliza\u00e7\u00e3o acelerada que atualizava a produ\u00e7\u00e3o local aos movimentos de ponta, como a transvanguarda italiana e o neo expressionismo alem\u00e3o. Na esteira das tend\u00eancias internacionais, surgiu uma quantidade bastante significativa de jovens artistas que entraram rapidamente no circuito de galerias. Ocorreu uma s\u00e9rie de exposi\u00e7\u00f5es coletivas que exploravam <em>slogans<\/em> de ruptura e inova\u00e7\u00e3o, com forte apoio, para sua legitima\u00e7\u00e3o, de segmentos da cr\u00edtica especializada. Dentro desse processo, caracterizou-se, tamb\u00e9m, naquele momento, uma nova expans\u00e3o do circuito art\u00edstico brasileiro, dessa vez em termos nacionais. Diversos estados, como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goi\u00e1s, Bahia e muitos outros, dinamizaram seus mercados regionais e estabeleceram articula\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o inexistentes, com o eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Entretanto, essa articula\u00e7\u00e3o foi, e continua sendo, bastante fr\u00e1gil, pois a hegemonia de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro mant\u00e9m-se preponderante no circuito nacional.<\/p>\n<p>A retra\u00e7\u00e3o do consumo, principalmente dos setores m\u00e9dios, que se fez sentir a partir dos anos 90, alterou significativamente o perfil do mercado interno. A mudan\u00e7a mais significativa foi a redu\u00e7\u00e3o dos investimentos de risco que a arte de vanguarda envolvia. Passou a ocorrer um enxugamento seletivo, que se evidenciou no fechamento de diversas galerias, na redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de artistas no mercado e na consolida\u00e7\u00e3o de um conjunto de produtores, mais restrito e com trabalhos de valores mais altos e mais est\u00e1veis.<\/p>\n<p>Veja o v\u00eddeo: <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CLDMc5Xuckg&amp;feature=youtu.be\" target=\"_blank\">Mercado da arte reflete a crise<\/a><\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica dos anos 90 desencadeou um novo tipo de atua\u00e7\u00e3o, conduzido por alguns galeristas que buscavam adequar-se \u00e0s novas regras da globaliza\u00e7\u00e3o. Trabalhavam em regime de exclusividade, com um n\u00famero restrito de artistas e investindo basicamente no seu reconhecimento, negociando com museus, produzindo cat\u00e1logos e eventos, atuando, declaradamente, no sentido de construir sua inser\u00e7\u00e3o nacional e internacional. Essa foi uma importante alternativa de sobreviv\u00eancia e consolida\u00e7\u00e3o frente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de retra\u00e7\u00e3o do consumo na economia nacional. Como parte de suas estrat\u00e9gias, encontra-se a participa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica em feiras e na organiza\u00e7\u00e3o de mostras de seus artistas em galerias <em>boom<\/em>e museus de outros pa\u00edses. Em decorr\u00eancia dessa atua\u00e7\u00e3o, alguns artistas brasileiros se tornaram novas presen\u00e7as no mercado internacional, em um processo recente e ainda em implementa\u00e7\u00e3o. Considera-se, com isso, um de arte brasileira, segundo Carmen Meli\u00e1n, especialista em arte latino-americana da casa de leil\u00f5es Sotheby\u2019s, onde, na semana passada, foi leiloada por 1,58 milh\u00e3o de d\u00f3lares uma obra do carioca S\u00e9rgio de Camargo.<\/p>\n<p>No Brasil, ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, o mercado assumiu um papel decisivo enquanto inst\u00e2ncia definidora de padr\u00f5es dentro do meio art\u00edstico, n\u00e3o havendo, paralelamente, um proporcional desenvolvimento de institui\u00e7\u00f5es oficiais. Como criticou o <em>marchand<\/em> Baccaro: \u201c<em>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que 90% dos acervos no Brasil estejam nas m\u00e3os de colecionadores particulares enquanto os museus est\u00e3o \u00e0 m\u00edngua<\/em>\u201d. Insuficientes em termos num\u00e9ricos, dispondo de parcos recursos, fr\u00e1geis e pouco din\u00e2micas, as institui\u00e7\u00f5es oficiais de arte foram incapazes de compor com o mercado uma rede interativa e complementar entre si, dividindo as tarefas da legitima\u00e7\u00e3o social da arte. As leis de incentivos fiscais na \u00e1rea s\u00e3o recentes, e o Estado omitiu-se por um largo per\u00edodo. Seja pelo fato de n\u00e3o haver apoiado efetiva e diretamente o desenvolvimento das institui\u00e7\u00f5es art\u00edsticas p\u00fablicas, seja por n\u00e3o ter implementado uma pol\u00edtica de incentivo \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, seja ainda, por n\u00e3o favorecer a divulga\u00e7\u00e3o das cole\u00e7\u00f5es privadas ou mobilizar patroc\u00ednios para a\u00e7\u00f5es conjuntas.<\/p>\n<p>Entretanto, a arte contempor\u00e2nea, que est\u00e1 sendo apresentada no exterior, pela sua diversidade e constantes rupturas, para sua comercializa\u00e7\u00e3o exige a atua\u00e7\u00e3o de inst\u00e2ncias art\u00edsticas que estabele\u00e7am par\u00e2metros de legitimidade. Assim, torna-se cada vez mais uma exig\u00eancia do circuito globalizado a articula\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica das galerias com os museus na difus\u00e3o das artes visuais. A fragilidade e o pequeno n\u00famero de institui\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de m\u00e9rito reconhecido no Pa\u00eds passaram ent\u00e3o a ser um empecilho \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o da produc\u00e3o contempor\u00e2nea local, \u00e0 sua divulga\u00e7\u00e3o e \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de seus valores de mercado. Percebe-se, em decorr\u00eancia disso, no final do s\u00e9culo XX e no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, um empenho na cria\u00e7\u00e3o de novas institui\u00e7\u00f5es e na recupera\u00e7\u00e3o de algumas que se encontravam em crise. Como as inst\u00e2ncias privadas, usando o capital p\u00fablico, est\u00e3o respondendo \u00e0s exig\u00eancias de legitimidade e de difus\u00e3o da arte? Como efetivar pol\u00edticas mais decisivas no sentido de consolidar as institui\u00e7\u00f5es existentes ou propiciar a cria\u00e7\u00e3o de novas? O Estado e as inst\u00e2ncias privadas da sociedade tentam, de forma articulada, resolver essa situa\u00e7\u00e3o, principalmente atrav\u00e9s dos incentivos fiscais que v\u00eam se multiplicando nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Veja o v\u00eddeo: <a href=\"http:\/\/video.br.msn.com\/watch\/video\/mercado-de-arte-milionario\/ao6liqhd\" target=\"_blank\">Mercado de arte milion\u00e1rio<\/a><\/p>\n<p>Veja o v\u00eddeo: <a href=\"http:\/\/www1.valor.com.br\/video\/1092340\/fase-azul-no-mercado-de-arte-brasileira\" target=\"_blank\">Fase azul no mercado de arte brasileiro<\/a><\/p>\n<p>As novas circunst\u00e2ncias da economia nacional propiciam, atualmente, uma efervesc\u00eancia do mercado de arte no Brasil, com a arte contempor\u00e2nea atraindo cada vez mais compradores, sejam eles colecionadores tradicionais ou jovens, que viajam, que sabem de arte, tendo, al\u00e9m do gosto, muita informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel. Estimativas feitas por leiloeiros situam as vendas no Brasil entre 50 a 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares anuais. Segundo um relat\u00f3rio conjunto, os neg\u00f3cios das galerias de arte brasileiras apresentam um crescimento de 44% nos \u00faltimos dois anos, e as exporta\u00e7\u00f5es de arte atingiram, em 2011, um recorde de US$ 60 milh\u00f5es. Entretanto, um grande <em>gap<\/em> ainda separa o mercado local do mundial, estando longe da m\u00e9dia deste \u00faltimo, onde o volume de vendas foi estimado, segundo Thompson, em 2008, em 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais. Segundo a Abact e a Apex, no Brasil, as obras contempor\u00e2neas de mais altos pre\u00e7os, como Beatriz Milhazes ou Adriana Varej\u00e3o, podem ser negociadas por at\u00e9 US$ 500 mil, e as de menor custo valem cerca de US$ 550. Considerando que estes valores est\u00e3o bem abaixo do mercado intrnacional, talvez o crescimento do mercado interno possa representar uma forma de fortalecimento e democratiza\u00e7\u00e3o da arte local.<\/p>\n<p>Pensando assim, que quest\u00f4es se colocam para o mercado interno frente \u00e0s novas circunst\u00e2ncias e exig\u00eancias da globaliza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es art\u00edsticas? Com tantas mudan\u00e7as processando-se na din\u00e2mica do meio art\u00edstico do Pa\u00eds, como refletir e agir neste momento?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecer mercados n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil em nenhuma \u00e1rea, que dizer disso em um campo t\u00e3o pouco estudado como o da arte. A rela\u00e7\u00e3o entre arte e dinheiro \u00e9 vista em muitos casos com desd\u00e9m, e os n\u00fameros na maioria dos casos n\u00e3o se encontram dispon\u00edveis. 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