{"id":2512,"date":"2016-01-06T04:59:04","date_gmt":"2016-01-06T04:59:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=2512"},"modified":"2016-01-06T04:59:04","modified_gmt":"2016-01-06T04:59:04","slug":"um-passado-que-ficou-as-margens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2016\/01\/06\/um-passado-que-ficou-as-margens\/","title":{"rendered":"Um passado que ficou \u00e0s margens?"},"content":{"rendered":"<p>O passado colonial brasileiro \u00e9 quase sempre lembrado como uma viv\u00eancia amig\u00e1vel entre portugueses, \u00edndios e negros, miticamente considerados como as ra\u00e7as fundadoras da brasilidade. Assim, \u00e9 com surpresa que o espectador se depara com a viol\u00eancia que emerge no olhar ao passado que Adriana Varej\u00e3o exp\u00f5e em \u201cHist\u00f3rias \u00e0s margens\u201d, no <a href=\"http:\/\/www.mam.org.br\/exposicoes\/ver\/adriana-varejao-historias-as-margens\" target=\"_blank\">Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo<\/a>. A artista se enfrenta com a viol\u00eancia escondida sob um discurso civilizat\u00f3rio nesses s\u00e9culos de vida colonial, perguntando-se: como assumi-la de forma cr\u00edtica e atrav\u00e9s das imagens?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.adrianavarejao.net\/\" target=\"_blank\">Adriana Varej\u00e3o<\/a> que surgiu no bojo da chamada \u201cGera\u00e7\u00e3o 80\u201d, retomando a pintura como possibilidade experimental \u00e9 hoje uma das artistas brasileiras mais prestigiadas e bem cotadas no meio de arte nacional e internacional. Uma de suas telas \u201cParede com Incis\u00f5es \u00e0 Fontana\u201d foi arrematada, num leil\u00e3o da Christie\u2019s, de Londres, em 2011, por R$ 3 milh\u00f5es. Esse sucesso de mercado tamb\u00e9m \u00e9 acompanhado de um reconhecimento da cr\u00edtica especializada. Segundo Paulo Herkenhoff, na obra de Adriana Varej\u00e3o \u201ca hist\u00f3ria da arte serve para rever criticamente a pretensa totalidade da hist\u00f3ria que molda e \u00e9 moldada pela arte\u201d. Assim, colocando em crise o papel da arte como meta-discursos, a artista evidencia as contradi\u00e7\u00f5es do modelo colonial. Apropriando-se de uma iconografia barroca, ela exp\u00f5e as feridas e a vol\u00fapia em recortes complexos, que correspondam a novas proposi\u00e7\u00f5es narrativas. A artista n\u00e3o constr\u00f3i discursos, mas abre fendas na superf\u00edcie desta realidade ficcional que \u00e9 a hist\u00f3ria oficial, para que cada espectador possa construir sua pr\u00f3pria vers\u00e3o desse passado.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-Carne-%C3%A0-moda-de-Franz-Post-1996-foto-Vicente-de-Mello-2.jpg\" data-gallery=\"\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-144455\" title=\"I3062553\" src=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-Carne-%C3%A0-moda-de-Franz-Post-1996-foto-Vicente-de-Mello-2.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"651\" \/><\/a><\/p>\n<p>Na mostra, que pode ser visitada no MAM de S\u00e3o Paulo at\u00e9 16 de dezembro, est\u00e3o expostas 39 obras, oriundas de v\u00e1rios acervos e institui\u00e7\u00f5es no mundo, al\u00e9m de tr\u00eas especialmente realizadas para essa exposi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o elas, um autorretrato em prato, um painel de 18 metros com 52 telas pintadas com motivos de plantas carn\u00edvoras, al\u00e9m de um panorama da ba\u00eda da Guanabara em estilo chin\u00eas. Atrav\u00e9s da apropria\u00e7\u00e3o de elementos visuais incorporados \u00e0 cultura brasileira pela coloniza\u00e7\u00e3o, como a pintura de\u00a0<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Azulejo\">azulejos portugueses<\/a>, ou os temas chineses, a artista discute rela\u00e7\u00f5es <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Paradoxo\">paradoxais<\/a>\u00a0entre sensualidade e dor, viol\u00eancia e exuber\u00e2ncia. Em suas telas, ela fragmenta o espa\u00e7o pict\u00f3rico numa atividade obsessiva de desconstru\u00e7\u00e3o\\reconstru\u00e7\u00e3o, fazendo emergir os sentimentos contradit\u00f3rios que estiveram envolvidos nesse processo hist\u00f3rico. Sentimentos que, presentes ainda hoje no imagin\u00e1rio da sociedade brasileira, justificam as dificuldades encontradas pelos historiadores em sua abordagem. Suas imagens falam de emo\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias, de uma forma muito mais intensa e complexa do que o conseguem as an\u00e1lises de documentos de \u00e9poca. Impactante e sem oferecer vers\u00f5es definitivas, sua obra inspira explora\u00e7\u00f5es reflexivas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-mural-Carn%C3%ADvoras-2012-foto-Sergio-Guerini-3-1.jpg\" data-gallery=\"\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-144451\" title=\"Adriana Varej\u00e3o, mural Carn\u00edvoras, 2012 (foto Sergio Guerini) (3) (1)\" src=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-mural-Carn%C3%ADvoras-2012-foto-Sergio-Guerini-3-1-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-Panorama-da-Guanabara-2012-foto-Sergio-Guerini-2.jpg\" data-gallery=\"\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-144452\" title=\"Adriana Varej\u00e3o, Panorama da Guanabara, 2012 (foto Sergio Guerini) (2)\" src=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-Panorama-da-Guanabara-2012-foto-Sergio-Guerini-2-300x66.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"66\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-sem-t%C3%ADtulo-2012-foto-Sergio-Guerini-3.jpg\" data-gallery=\"\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-144453\" title=\"Adriana Varej\u00e3o, sem t\u00edtulo, 2012 (foto Sergio Guerini) (3)\" src=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-sem-t%C3%ADtulo-2012-foto-Sergio-Guerini-3-300x296.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"296\" \/><\/a><\/p>\n<p>Pode-se afirmar que, de alguma maneira, a perversa cadeia de domina\u00e7\u00e3o, que faz das elites locais, ao mesmo tempo, senhores e servos, se materializa na carne contorcida e fragmentada que emerge do interior de paredes que ass\u00e9pticos azulejos tentam esconder. As imagens, que aparentemente deveriam mostrar cenas de serenidade e beleza, n\u00e3o escondem a viol\u00eancia de acontecimentos que envolveram a explora\u00e7\u00e3o humana das mais diferentes formas. Pelo contr\u00e1rio, eles emergem pulsantes, sob as superf\u00edcies pintadas. A quest\u00e3o da sexualidade e da viol\u00eancia \u00e9 latente em seu trabalho, o que imp\u00f5e indagar sobre sua presen\u00e7a nesta sociedade e em seu imagin\u00e1rio. Ela torna vis\u00edveis os traumas que, socialmente, muitos se esfor\u00e7am por esquecer, mostra de alguma maneira como a arte, enquanto representa\u00e7\u00e3o \u2013 dispositivo imagin\u00e1rio \u2013 pode processar esta viol\u00eancia real de lembran\u00e7as que se tornaram perversas e destruidoras pelo recalque de uma amn\u00e9sia coletiva.<\/p>\n<p>A obra de Varej\u00e3o abre ao olhar do espectador um passado de depend\u00eancia e domina\u00e7\u00e3o, no qual, ao mesmo tempo, as elites locais exerciam uma coer\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel sobre os povos ind\u00edgenas e africanos, e submetiam-se a uma subalternidade humilhante em rela\u00e7\u00e3o aos seus pares europeus. Ela traz \u00e0 tona um mundo colonial em que muitos povos foram dominados em uma cadeia perversa de sujei\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Processo que condicionou, no universo ideol\u00f3gico das elites, a aceita\u00e7\u00e3o do conchavo e do apadrinhamento como pr\u00e1ticas louv\u00e1veis, al\u00e9m de uma passiva aceita\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de periferia. Um passado constru\u00eddo sobre a explora\u00e7\u00e3o do trabalho escravo, que procura esconder a negritude da maioria da popula\u00e7\u00e3o, sob mascarados preconceitos raciais, que ocultam verdadeiras discrimina\u00e7\u00f5es sociais. Domina\u00e7\u00e3o que ensinou a conviv\u00eancia com n\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o do trabalho e de viol\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao ser humano que justificam uma presen\u00e7a, quotidiana, da mis\u00e9ria e da degrada\u00e7\u00e3o. Escravid\u00e3o, que construiu no imagin\u00e1rio social um desvalor do trabalho manual, com consequ\u00eancias funestas na estrutura produtiva e nas pr\u00e1ticas art\u00edsticas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-Cena-de-interior-II-1994-foto-Vicente-de-Mello-2.jpg\" data-gallery=\"\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-144454\" title=\" (2)\" src=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Adriana-Varej%C3%A3o-Cena-de-interior-II-1994-foto-Vicente-de-Mello-2-247x300.jpg\" alt=\"\" width=\"247\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p>Seus trabalhos encantam e repulsam, atraem e espantam. A artista, de forma capiciosa, aborda quest\u00f5es tradicionais da pintura, como cor, textura e perspectiva, com originalidade e com excelente qualidade t\u00e9cnica, ao mesmo tempo em que nos apresenta um passado que aprisiona o olhar e obriga a ver o que a maioria gostaria que n\u00e3o houvesse ocorrido. Adriana Varej\u00e3o encontra-se entre os artistas que exercem o trabalho da falha e do lapso, reivindicando para a arte a presen\u00e7a do olhar. Tenta introduzir na simboliza\u00e7\u00e3o um outro sentido, um outro endere\u00e7amento, recuperando seu papel na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, a n\u00edvel individual e social. Ela cria uma imagem amb\u00edgua, lidando com o que mostra e com o que esconde de seus sentidos. Nada est\u00e1 evidente,os sentidos somente se mostram em um segundo ou terceiro olhar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1170\" height=\"878\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q7x72hfgN9A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A for\u00e7a expressiva das imagens supera qualquer relato descritivo dos fatos, e explorando \u00e0 exaust\u00e3o as ambiguidades do mundo colonial portugu\u00eas a artista renova a tradi\u00e7\u00e3o da pintura hist\u00f3rica, introduzido uma cr\u00edtica radical, que se constr\u00f3i atrav\u00e9s da fragmenta\u00e7\u00e3o das imagens e da volumetria que faz surgir das entranhas das telas, como fendas na mem\u00f3ria, de onde o recalcado emerge com toda a sua for\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O passado colonial brasileiro \u00e9 quase sempre lembrado como uma viv\u00eancia amig\u00e1vel entre portugueses, \u00edndios e negros, miticamente considerados como as ra\u00e7as fundadoras da brasilidade. 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