{"id":3003,"date":"2016-12-17T16:25:53","date_gmt":"2016-12-17T16:25:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=3003"},"modified":"2019-10-08T18:45:13","modified_gmt":"2019-10-08T18:45:13","slug":"fazer-arte-fazer-imagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2016\/12\/17\/fazer-arte-fazer-imagens\/","title":{"rendered":"Fazer arte, fazer imagens"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A puls\u00e3o esc\u00f3pica, segundo os estudos de Lacan, \u00e9 natural ao ser humano e pressup\u00f5e uma necessidade de ver e um desejo de olhar. A arte moderna colocou-a no centro de seu interesse, desenvolvendo investiga\u00e7\u00f5es relativas aos meios expressivos e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o das linguagens visuais. Com isso, os artistas desenvolveram uma s\u00e9rie conhecimentos sobre os m\u00e9todos e as ferramentas de constru\u00e7\u00e3o da imagem. Mas eles foram sendo banalizados, adotados como receitas prontas, e perdendo sua for\u00e7a, na medida em que n\u00e3o respondiam ao avan\u00e7o das conquistas dos meios de comunica\u00e7\u00e3o no dom\u00ednio da visualidade. Na sociedade capitalista, a conquista do olhar do consumidor passou a ser um objetivo priorit\u00e1rio e a imagem uma <em>commodity<\/em>. A cultura de massa organiza o mundo e faz do olhar seu grande ve\u00edculo, lan\u00e7ando novos desafios \u00e0s artes visuais. O maior deles talvez seja apreender a aten\u00e7\u00e3o de um espectador acostumado ao ritmo vertiginoso do <em>zapping<\/em>, em que diferentes tipos de imagem invadem todos os espa\u00e7os, tragando os indiv\u00edduos e anestesiando seu olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Construir imagens manipulando, criando e ressignificando o mundo, \u00e9 uma capacidade e uma necessidade humana, uma rea\u00e7\u00e3o frente ao devir irrefre\u00e1vel do nada e da morte. Muitos autores concordam que esse vazio com que o homem se debate atrav\u00e9s dos tempos \u00e9, possivelmente, a origem da pr\u00e1tica de fazer imagens, que pode ser identificada no contexto de cada sociedade, desde os mais remotos tempos. Regis Debray, em seu livro <em>Vida e morte da imagem: uma hist\u00f3ria do olhar no Ocidente,<\/em> e Hans Belting, em <em>Antropologia da imagem<\/em>, apontam quest\u00f5es significativas para a compreens\u00e3o do papel fundamental dessa atividade na hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para pensar sobre a condi\u00e7\u00e3o da imagem na arte atual, o ponto de partida talvez seja identificar os marcos de um panorama internacional no qual as propostas art\u00edsticas locais se integram, no momento em que a globaliza\u00e7\u00e3o dissemina a l\u00f3gica de uma cultura unit\u00e1ria e planet\u00e1ria. Neste panorama, evidencia-se um processo de estetiza\u00e7\u00e3o generalizada, cujos exemplos mais contundentes podem ser identificados na publicidade, mas que perpassa todas as inst\u00e2ncias da sociedade. A publicidade \u00e9 capaz de transformar qualquer tipo de produto em um prot\u00f3tipo de beleza e signo de uma forma de vida ideal. Para ela, n\u00e3o existem pessoas feias ou defeituosas, n\u00e3o existe pobreza ou sujeira, pois ela recobre o mundo de figuras agrad\u00e1veis ao olhar. Tudo se tornou visualmente belo sob o dom\u00ednio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, e a pr\u00f3pria guerra passou a ser est\u00e9tica, em suas formas televisivas. Nenhuma imagem mais choca os indiv\u00edduos, envolvidos que est\u00e3o pela prote\u00e7\u00e3o do fotopublicidade, do fotojornalismo e do fotodocumentarismo, que juntos realizam a constru\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica dos modos de ver o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, como observa Wolfang Welsch, \u201cOnde tudo \u00e9 belo, nada mais \u00e9 belo; estimula\u00e7\u00e3o ininterrupta conduz ao embotamento; estetiza\u00e7\u00e3o vira anestetiza\u00e7\u00e3o\u2026 No meio da hiperestetiza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 necessidade de \u00e1reas esteticamente baldias\u201d. Com isso ele identifica o questionamento dos valores est\u00e9ticos da tradi\u00e7\u00e3o das \u201cBelas Artes\u201d, que leva alguns artistas a desejarem estabelecer essas \u201c\u00e1reas esteticamente baldias\u201d, instaurando condi\u00e7\u00f5es e exig\u00eancias de o espectador explorar sua pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos processos utilizados \u00e9 p\u00f4r em evid\u00eancia os aspectos mais torpes e baixos da realidade, trazendo de volta uma humanidade perdida no af\u00e3 de falsas pretens\u00f5es. Esses artistas estabelecem rupturas na perfei\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria e remetem o espectador de volta para um mundo menos ideal, mas, bem mais realista e humano. Rompem, radicalmente, com os padr\u00f5es de beleza idealizados, expondo o feio, o tosco e o abjeto. Eles abdicam dos padr\u00f5es da tradi\u00e7\u00e3o art\u00edstica para impor ao p\u00fablico, mesmo contra a vontade dele, uma descida nas profundezas do inferno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tarefa dif\u00edcil, em um mundo de superficialidades promovidas pela sociedade do espet\u00e1culo e da propaganda, que pode ser percebida na obra da artista mexicana Teresa Margolles, que aborda a trag\u00e9dia gerada pelo tr\u00e1fico das drogas. Ela o faz atrav\u00e9s de insinua\u00e7\u00f5es, sem recorrer a formula\u00e7\u00f5es literais, como, por exemplo, no manto tingido com sangue recolhido em cenas de execu\u00e7\u00f5es, que ela borda com fios de ouro. Ou nas joias que fabrica com peda\u00e7os de vidros, estilha\u00e7ados, que recolhe em locais de abordagens criminosas. A artista coloca em evid\u00eancia a riqueza e a morte inter-relacionadas no narcotr\u00e1fico, sem construir uma representa\u00e7\u00e3o, mas se apropriando da realidade em sua crueza para pensar sobre ela.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><img class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/images.sul21.com.br\/file\/sul21site\/2013\/11\/20131123teresa-morgolles-2.jpg\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\" align=\"JUSTIFY\">Teresa Morgolles, \u201cDe que outra coisa poder\u00edamos falar?\u201d.<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa aus\u00eancia visual pode vir da rejei\u00e7\u00e3o de alguns artistas de que seu trabalho seja um elemento decorativo ou publicit\u00e1rio e o desejo de assumir os riscos de pensar mais al\u00e9m da superf\u00edcie. No \u00e2mbito da arte enquanto necessidade de fazer imagens, eles n\u00e3o obt\u00eam respostas que estabele\u00e7am os v\u00ednculos de coes\u00e3o que desejam. Nem tampouco formas de interferir no mundo dominado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, que encobrem as diferen\u00e7as sociais e as in\u00fameras formas de domina\u00e7\u00e3o. Eles se perguntam como, nesta era de visualiza\u00e7\u00e3o extrema, \u00e9 poss\u00edvel construir imagens carregadas de sentido. O abandono delas seria uma tentativa de apontar a contamina\u00e7\u00e3o visual do mundo atual, mas tamb\u00e9m uma forma de dizer de sua impot\u00eancia frente a essa situa\u00e7\u00e3o. Alfredo Jaar, em um trabalho de 1995, \u201cImagens reais\u201d, colocou na exposi\u00e7\u00e3o 550 grandes caixas negras, contendo cada uma delas uma descri\u00e7\u00e3o que levava o espectador a imaginar a imagem dentro dela. Eram, supostamente, as fotos, feitas por ele do epis\u00f3dio de genoc\u00eddio ocorrido em Ruwanda. O horror que ele presenciou excede a imagem, est\u00e1 al\u00e9m delas. Ele prop\u00f5e, ent\u00e3o, que o expectador viva em sua mente o terror que ele se acha incapaz de construir visualmente. Por vias distintas do fotojornalismo, que suaviza a crueldade e o desespero das grandes trag\u00e9dias com imagens que anestesiam o olhar, Jaar fala da morte e da guerra pelo ocultamento delas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><img class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/images.sul21.com.br\/file\/sul21site\/2013\/11\/20131123alfredo-jaar.jpg\" \/><\/p>\n<div id=\"attachment_211216\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"text-align: justify;\">\n<h6 class=\"wp-caption-text\">Alfredo Jaar, \u201cImagens reais\u201d.<\/h6>\n<p>Ao abandonar a representa\u00e7\u00e3o visual, esses artistas reivindicam para a arte uma aus\u00eancia que diz respeito \u00e0 incapacidade de ver e de criar sentidos atrav\u00e9s de imagens no mundo atual. Eles defendem a ideia de exercer uma a\u00e7\u00e3o \u201cpsicanal\u00edtica\u201d de falha e de lapso. Entretanto, o ambiente art\u00edstico, em geral, est\u00e1 impregnado pela necessidade de dar respostas \u00e0 puls\u00e3o esc\u00f3pica do espectador, assim como pela necessidade dos artistas de criarem imagens. Talvez por isso essa nega\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica que se observa na arte contempor\u00e2nea seja t\u00e3o problem\u00e1tica, gerando grandes debates e antagonismos.Mais do que defender um posicionamento a favor ou contra a atitude desses artistas que renegam a heran\u00e7a da arte moderna, pretendi detectar algumas implica\u00e7\u00f5es desta condi\u00e7\u00e3o atual das artes visuais. Elas passam pela revis\u00e3o de sua tradi\u00e7\u00e3o, frente ao avan\u00e7o avassalador de uma visualidade massificada, que embota significa\u00e7\u00f5es. Deixam ver que os grandes desafios que se colocam para o campo da arte, hoje, dizem respeito \u00e0 administra\u00e7\u00e3o das novas condi\u00e7\u00f5es de sentir e pensar o mundo nessa era de visualiza\u00e7\u00e3o extrema.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"text-align: justify;\">Publicado originalmente no jornal Sul 21 no dia<span class=\"text\"> <span class=\"text\">23\/nov\/2013, 9h22min.<\/span><\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A puls\u00e3o esc\u00f3pica, segundo os estudos de Lacan, \u00e9 natural ao ser humano e pressup\u00f5e uma necessidade de ver e um desejo de olhar. A arte moderna colocou-a no centro de seu interesse, desenvolvendo investiga\u00e7\u00f5es relativas aos meios expressivos e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o das linguagens visuais. 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