{"id":3016,"date":"2016-12-20T18:00:48","date_gmt":"2016-12-20T18:00:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=3016"},"modified":"2019-10-08T18:45:13","modified_gmt":"2019-10-08T18:45:13","slug":"nostalgias-do-mundo-da-arte-e-de-o-fim-da-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2016\/12\/20\/nostalgias-do-mundo-da-arte-e-de-o-fim-da-arte\/","title":{"rendered":"Nostalgias do Mundo da arte e de O fim da arte"},"content":{"rendered":"<p align=\"JUSTIFY\">\u201cMas h\u00e1\u00a0tanto trabalho\u00a0engenhoso, tanta intelig\u00eancia, tanta dedica\u00e7\u00e3o, e realmente\u00a0um esp\u00edrito t\u00e3o elevado no mundo da arte que, fossem eles partilhados pelo resto do mundo, ter\u00edamos entrado numa idade de ouro.\u201d<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/20131108arthur-danto-e1482275071862.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-3017\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/20131108arthur-danto-e1482275071862.jpg\" alt=\"20131108arthur-danto\" width=\"327\" height=\"238\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/20131108arthur-danto-e1482275071862.jpg 327w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/20131108arthur-danto-e1482275071862-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">As palavras do fil\u00f3sofo Arthur Danto, que morreu no dia 25 de agosto, em Nova Iorque, conduzem nosso pensamento e alimentam nossas reflex\u00f5es. Ele abordou o fen\u00f4meno da arte contempor\u00e2nea com compet\u00eancia magistral, relacionando-o com o que estava ocorrendo no momento mesmo de seu acontecimento. Assim, em 1964, ap\u00f3s ver a exposi\u00e7\u00e3o das caixas de sab\u00e3o (Brillo Box), de Andy Warhol, escreveu seu cl\u00e1ssico texto <em>The artworld<\/em>, que foi um marco no estudo da arte. Nesse artigo questionava o que fazia de algo arte, buscando a resposta n\u00e3o em uma ess\u00eancia presente na obra, que responderia \u00e0 pergunta \u201cO que \u00e9 arte\u201d, mas, observando, no conjunto de indiv\u00edduos e institui\u00e7\u00f5es que estabelecem um ambiente art\u00edstico, as formas como respondem \u00e0 pergunta \u201cQuando algo \u00e9 arte\u201d. Essa abertura conceitual, no entanto, n\u00e3o foi facilmente aceita, e, ainda hoje, muitos te\u00f3ricos tentam defender a ideia de uma especificidade da arte que deve ser buscada na obra em si. Se, no meio mais informado ainda vigora, de alguma forma, esta vis\u00e3o essencialista que Danto questionava e combatia, mais ainda, ela est\u00e1 presente no senso comum. Por isso, a morte do fil\u00f3sofo pode ser um oportuno momento de trazer ao grande p\u00fablico este debate e apontar a validade de suas ideias renovadoras.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para compreender e explorar com tanta propriedade o que acontecia na arte, Arthur Danto, al\u00e9m de desenvolver sua carreira de fil\u00f3sofo e professor, na Columbia University, em Nova Iorque, manteve permanente atividade de cr\u00edtica de arte em jornais e revistas como <em>The Nation <\/em>e <em>Art Forum, <\/em>entre outras. Essa rela\u00e7\u00e3o entre reflex\u00e3o te\u00f3rica e a pr\u00e1tica anal\u00edtica foi fundamental para o desenvolvimento de seu pensamento do qual n\u00f3s, historiadores da arte, pesquisadores, e outros estudiosos, somos hoje devedores. Al\u00e9m de deixar um conjunto de an\u00e1lises que se constituem em um acervo inestim\u00e1vel para o campo art\u00edstico, ele nos deixa o testemunho de uma a\u00e7\u00e3o corajosa de enfrentamento com as grandes mudan\u00e7as que aconteciam na arte de seu tempo. Em um de seus textos, ele dizia algo mais ou menos assim: se a arte fosse t\u00e3o insignificante como dizem alguns, n\u00e3o haveria tanta gente lutando por ela. Essa consci\u00eancia do papel ideol\u00f3gico da arte e das disputas simb\u00f3licas que a envolvem Danto nos deixa perceber de forma atualizada, pois as estuda no seio da contemporaneidade. Ele escreveu sobre mestres da hist\u00f3ria da arte como Leonardo Da Vinci, Picasso e Giacometti, mas, principalmente, ele se debru\u00e7ou sobre a obra de importantes e pol\u00eamicos artistas, quando esses ainda eram emergentes, como por exemplo: Andy Warhol, Damian Hirst, Barbara Kruger, Yoko Ono, Gerhard Richter, Matthew Barney. Ele pensava o campo art\u00edstico de dentro dele, como ator participante, cujas a\u00e7\u00f5es determinavam tamb\u00e9m o seu desenvolvimento.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Apesar de ter cunhado, precocemente, o conceito de \u201cmundo da arte\u201d, que deu origem \u00e0 corrente desenvolvida a partir de suas ideias, denominada \u201cfilosofia institucional da arte\u201d, ele negava fazer parte dela. Seu posicionamento, aberto e questionador, evitava classifica\u00e7\u00f5es fechadas, procurando sempre instaurar novos debates e implantar d\u00favidas. Depois de suas coloca\u00e7\u00f5es nesse texto de 1964, n\u00e3o foi mais poss\u00edvel ignorar que havia algo mais a observar e que a concep\u00e7\u00e3o essencialista da arte estava em crise. Arthur Danto aprofundou suas investiga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas publicando, em 1981, <em>A transfigura\u00e7\u00e3o do lugar-comum<\/em>, livro onde identifica e analisa o processo filos\u00f3fico do mundo da arte que transforma algo corriqueiro em um \u201cobjeto art\u00edstico\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Outro texto seu, fundamental para o debate da arte contempor\u00e2nea, foi publicado em 1984: <em>O fim da arte<\/em>. Aqui, ele desenvolve a ideia de que a arte, tal como a concebemos a partir do Renascimento, pautada nos ideais evolucionistas e na primazia do belo, foi abandonada pelos artistas. O que se desenvolveu em termos art\u00edsticos, a partir dos anos 1960, com a Pop arte, segue outros padr\u00f5es e outros sentidos. Segundo ele, os grandes relatos legitimadores que definiram a arte cl\u00e1ssica e depois o modernismo, chegaram ao fim, e a arte contempor\u00e2nea n\u00e3o pode ser analisada com base neles. N\u00e3o h\u00e1 mais um limite norteador da hist\u00f3ria, e \u201co momento \u00e9 de profundo pluralismo e total toler\u00e2ncia na arte. N\u00e3o h\u00e1 regras\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A ousadia, a liberdade e a atualidade que emanam da obra de Arthur Danto nos fazem perceber que ele era um apaixonado por essa atividade (chegou mesmo a ser pintor) e compreendia tudo que ela significava para o desenvolvimento mais completo da sociedade humana. Aos 89 anos, ainda super ativo, terminou seu livro <em>What art is<\/em>?, que foi lan\u00e7ado no in\u00edcio de 2013. Fica, assim, a nostalgia de sua morte, recentemente ocorrida, e o legado de suas ideias. Elas nos trazem um novo impulso na compreens\u00e3o do que a arte pode ser, mais al\u00e9m de um fator de distin\u00e7\u00e3o social, elitista e excludente e, muitas vezes considerada sup\u00e9rflua.<\/p>\n<p>Texto de arquivo, escrito por Maria Amelia Bulh\u00f5es e originalmente publicado no Jornal Sul 21, em\u00a0<span class=\"text\">9\/nov\/2013, 9h22min<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMas h\u00e1\u00a0tanto trabalho\u00a0engenhoso, tanta intelig\u00eancia, tanta dedica\u00e7\u00e3o, e realmente\u00a0um esp\u00edrito t\u00e3o elevado no mundo da arte que, fossem eles partilhados pelo resto do mundo, ter\u00edamos entrado numa idade de ouro.\u201d As palavras do fil\u00f3sofo Arthur Danto, que morreu no dia 25 de agosto, em Nova Iorque, conduzem nosso pensamento e alimentam nossas reflex\u00f5es. 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