{"id":3043,"date":"2017-01-29T23:55:03","date_gmt":"2017-01-29T23:55:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=3043"},"modified":"2017-01-29T23:55:03","modified_gmt":"2017-01-29T23:55:03","slug":"diga-me-com-quem-andas-e-eu-te-direi-quem-es","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2017\/01\/29\/diga-me-com-quem-andas-e-eu-te-direi-quem-es\/","title":{"rendered":"Diga-me com quem andas e eu te direi quem \u00e9s"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em 1996, escrevi um artigo sobre a <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=termos_texto&amp;cd_verbete=462\" target=\"_blank\">\u201cjovem escultura inglesa<\/a>\u201d, bastante impressionada pela exposi\u00e7\u00e3o de mesmo t\u00edtulo, que havia visto em Paris, no museu <a href=\"http:\/\/www.jeudepaume.org\/\" target=\"_blank\">Jeu de Paume<\/a>. De l\u00e1 para c\u00e1 s\u00f3 tem crescido a atua\u00e7\u00e3o e o destaque daqueles que eram, ent\u00e3o, jovens artistas. Foi, portanto, com curiosidade que visitei a mostra \u201cCorpos Presentes\u201d de Antony Gormley, agora com 61 anos, no <a href=\"http:\/\/www.bb.com.br\/portalbb\/home21,128,128,0,1,1,1.bb\" target=\"_blank\">Centro Cultural Banco do Brasil<\/a>, em Bras\u00edlia. Essa mostra, com curadoria de Marcello Dantas, esteve anteriormente nos CCBBs do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo. Apesar de conhecer um pouco do trabalho de Gormley, a experi\u00eancia dessa mostra foi muito forte e me fez pensar bastante. S\u00e3o diversos os fatores respons\u00e1veis pelo fen\u00f4meno da \u201cescultura inglesa\u201d, no entanto, a qualidade de seus artistas \u00e9 indiscut\u00edvel, desde o mais antigo e tradicional deles, Henry Moore, at\u00e9 os mais atuais como Anish Kapur, Tony Craig, Damian Hirst. Por que tantos artistas interessantes, com trabalhos originais e marcantes no mundo da arte contempor\u00e2nea, vindos de uma origem geogr\u00e1fica comum? Ser\u00e1 mera casualidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me parece. Talvez por isso o t\u00edtulo desta coluna deixe no ar a ideia de que o conv\u00edvio pode ser um elemento importante no desenvolvimento dos artistas. Claro que se pode alegar raz\u00f5es de ordem econ\u00f4mica, mas elas por si s\u00f3 n\u00e3o explicam o fen\u00f4meno. Al\u00e9m dos recursos materiais para o desenvolvimento das artes, faz-se necess\u00e1rio um ambiente f\u00e9rtil em termos de forma\u00e7\u00e3o profissional, de experimentos, de competi\u00e7\u00e3o e de trocas. O apoio do Estado e dos setores financeiros para a organiza\u00e7\u00e3o de exposi\u00e7\u00f5es, a produ\u00e7\u00e3o de material de divulga\u00e7\u00e3o e o respaldo de amplos espa\u00e7os midi\u00e1ticos ajudam, assim como o marketing, a divulgar esta produ\u00e7\u00e3o e dar a ela um reconhecimento social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de Gormley, percebe-se uma trajet\u00f3ria de experimentos em rela\u00e7\u00e3o ao corpo humano e sua tens\u00e3o no espa\u00e7o que se desenvolve de forma obsessiva e ao mesmo tempo muito po\u00e9tica. Pode-se dizer que o artista \u00e9 um humanista, preocupado com as viv\u00eancias sensoriais a partir de suas experi\u00eancias pessoais, mas projetando-as na humanidade como um todo e em cada um como experi\u00eancia individual. A visita a esta exposi\u00e7\u00e3o foi uma del\u00edcia, ao mesmo tempo sensitiva e reflexiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta mostra de grande porte est\u00e1 dividida em seis segmentos, muito bem estruturados e com excelente expografia. Ela apresenta, j\u00e1 antes de entrar no espa\u00e7o expositivo \u2013 na avenida de acesso ao CCBB Bras\u00edlia -, imagens moldadas a partir do corpo do pr\u00f3prio artista, em ferro fundido de tamanho natural. No espa\u00e7o do Centro Cultural, em uma primeira sala \u00e9 apresentado um vasto conjunto de maquetes, de diferentes materiais e medidas, fotos e v\u00eddeo que, em conjunto, evidenciam as experimenta\u00e7\u00f5es do artista, funcionando, tamb\u00e9m, como apresenta\u00e7\u00e3o das ideias norteadoras do seu pensamento. Abaixo desta, em uma sala pequena, <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=termos_texto&amp;cd_verbete=3648\" target=\"_blank\">est\u00e1 a instala\u00e7\u00e3o<\/a>, de 1992, \u201cAmazonian Field\u201d. Para esse trabalho, sessenta pessoas de Porto Velho durante sete dias produziram 24mil pequenas figuras em barro com formas corporais toscas. Essas pe\u00e7as ocupam todo o piso da sala, criando um impacto visual no espectador. Fotografias das pessoas e do processo de trabalho, realizadas por Miguel Rio Branco, acompanham a instala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Amazon-Field-Foto-Vicente-de-Mello-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3045\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Amazon-Field-Foto-Vicente-de-Mello-2-300x199.jpg\" alt=\"Amazon-Field-Foto-Vicente-de-Mello-2\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Amazon-Field-Foto-Vicente-de-Mello-2-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Amazon-Field-Foto-Vicente-de-Mello-2.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Amazon Field | Foto: Vicente de Mello<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBreathing Room\u201d \u00e9 o momento mais impactante da mostra, uma experi\u00eancia sensorial onde se percebe palpavelmente a tens\u00e3o entre corpo e espa\u00e7o, uma das quest\u00f5es norteadoras da obra do artista. O espectador entra em uma sala totalmente escura onde h\u00e1 uma estrutura de tubos luminosos em que ele penetra. O espa\u00e7o se torna denso e o corpo se movimenta nessa fic\u00e7\u00e3o ambiental, conduzido pela luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Breathing-Room-Foto-Vicente-de-Mello-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3046\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Breathing-Room-Foto-Vicente-de-Mello-2-300x199.jpg\" alt=\"Breathing-Room-Foto-Vicente-de-Mello-2\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Breathing-Room-Foto-Vicente-de-Mello-2-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Breathing-Room-Foto-Vicente-de-Mello-2.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Breathing Room | Foto: Vicente de Mello<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sala denominada caixa de vidro, est\u00e3o expostas algumas obras de maior porte, todas elas experimentos em torno do corpo, em termos de positivo\/negativo. Tem-se, por exemplo, estruturas de barras de a\u00e7o inoxid\u00e1vel de 2mm formadas a partir do princ\u00edpio matricial das bolhas, onde se percebe visualmente inserida a forma de um corpo humano. Ou ainda uma cruz de concreto onde se percebe as impress\u00f5es de um corpo vazio, transformando o espa\u00e7o em bloco e o corpo em espa\u00e7o. Ou ainda o divertido \u201cMother\u2019s Pride\u201d, esp\u00e9cie de painel da parede reticulado, formado com fatias de p\u00e3o de f\u00f4rma no centro do qual h\u00e1 um vazio, na forma de um corpo, criado a partir de mordidas nos p\u00e3es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00faltimo trabalho se encontra em um pavilh\u00e3o aberto, sendo composto por um conjunto de 60 esculturas moldadas do corpo do artista, em ferro fundido, em doze diferentes posi\u00e7\u00f5es. Espalhadas pelo piso ou suspensas no ar, elas expressam diferentes formas do corpo se relacionar com o espa\u00e7o, questionando tamb\u00e9m as tradicionais esculturas de figura humana que habitam a hist\u00f3ria da arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Critical-Mass-Foto-Vicente-de-Mello-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3047\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Critical-Mass-Foto-Vicente-de-Mello-2-300x199.jpg\" alt=\"Critical-Mass-Foto-Vicente-de-Mello-2\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Critical-Mass-Foto-Vicente-de-Mello-2-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Critical-Mass-Foto-Vicente-de-Mello-2.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Critical Mass | Foto: Vicente de Mello<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma quest\u00e3o a destacar nesta mostra diz respeito ao importante trabalho dos CCBBs, desenvolvido desde 1989, quando foi criado o primeiro deles, no Rio de Janeiro, at\u00e9 a implanta\u00e7\u00e3o mais recentemente planejada do de Belo Horizonte. Tendo como metas a democratiza\u00e7\u00e3o e o acesso da cultura para todos, sua atua\u00e7\u00e3o se pauta por uma intensa agenda de eventos destinados a grande p\u00fablico. A rede estabelecida pelos diferentes Centros tem a vantagem de potencializar as montagens, permitindo a circula\u00e7\u00e3o de cada exposi\u00e7\u00e3o organizada. No entanto, os Centros se localizam nas regi\u00f5es Centro-Oeste e Sudeste, o que limita seu raio de abrang\u00eancia ao centro do Pa\u00eds. As exposi\u00e7\u00f5es ficam abertas em torno de dois meses em cada um dos Centros, o que \u00e9 pouco, considerando o porte de cada uma delas. Assim, fica uma sensa\u00e7\u00e3o de transit\u00f3rio e fugidio, de novidade a todo momento, com pouco tempo de conex\u00e3o. Apesar do pouco tempo de dura\u00e7\u00e3o, as mostras dos CCBBs t\u00eam recebido grande ades\u00e3o do p\u00fablico, com os mais altos n\u00fameros de visitantes a exposi\u00e7\u00f5es no Brasil. A qualidade dos artistas e o esmero nas montagens t\u00eam sido fundamentais neste sucesso midi\u00e1tico. Coloca-se a quest\u00e3o de pensar a validade dessas mostras t\u00e3o vol\u00e1teis, de grande custos e que n\u00e3o geram uma mem\u00f3ria art\u00edstica para a sociedade. Elas atraem o p\u00fablico, \u00e9 verdade, o que \u00e9 bastante desej\u00e1vel considerando-se o vazio dos museus no Brasil de forma geral. A necessidade de grandes investimentos para produzir algo \u201cvis\u00edvel\u201d e atrativo ao p\u00fablico \u00e9 uma quest\u00e3o a ser considerada. Como fazer isso replicar de forma a construir um meio fermental para a cultura local \u00e9 a grande dificuldade. Experimentos est\u00e3o sendo feitos. Como est\u00e1 sendo sua repercuss\u00e3o no meio de arte e na sociedade em geral s\u00e3o quest\u00f5es a serem avaliadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encerrando os coment\u00e1rios sobre a exposi\u00e7\u00e3o de Gormley, vale destacar uma fala de Marcello Dantas, curador da mostra, <a href=\"http:\/\/www.oesquema.com.br\/trabalhosujo\/2008\/04\/page\/11\" target=\"_blank\">em uma entrevista<\/a>: \u201cEssa \u00e9 a verdadeira defini\u00e7\u00e3o da palavra (museu): templo das musas \u2026.Musa \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o. \u00c9 algo que te ilumine, que voc\u00ea saia de l\u00e1, \u201c\u201cPutz! Fiquei com vontade de fazer alguma outra coisa da minha vida\u201d\u201d. A vida precisa fazer mais sentido do que comer, pagar, receber. Sabe, ela precisa trazer alguma outra transcend\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Artigo de Maria Am\u00e9lia Bulh\u00f5es publicado no Jornal Sul 21, em\u00a010\/nov\/2012<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1996, escrevi um artigo sobre a \u201cjovem escultura inglesa\u201d, bastante impressionada pela exposi\u00e7\u00e3o de mesmo t\u00edtulo, que havia visto em Paris, no museu Jeu de Paume. De l\u00e1 para c\u00e1 s\u00f3 tem crescido a atua\u00e7\u00e3o e o destaque daqueles que eram, ent\u00e3o, jovens artistas. 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