{"id":3092,"date":"2017-02-19T22:30:31","date_gmt":"2017-02-19T22:30:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=3092"},"modified":"2017-02-19T22:30:31","modified_gmt":"2017-02-19T22:30:31","slug":"abordagens-transversais-dialogos-e-divagacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2017\/02\/19\/abordagens-transversais-dialogos-e-divagacoes\/","title":{"rendered":"Abordagens transversais, di\u00e1logos e divaga\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Faz tempo que percebo na produ\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica local um certo preciosismo no fazer manual que ao mesmo tempo me surpreende e me questiona. Talvez a quase aus\u00eancia do trabalho escravo no Estado, aliada \u00e0 forte presen\u00e7a da imigra\u00e7\u00e3o europeia, conduza a uma valora\u00e7\u00e3o do trabalho manual. Poderia tamb\u00e9m ser res\u00edduo de uma tradi\u00e7\u00e3o artesanal, no entanto, no Rio Grande do Sul n\u00e3o se tem um artesanato importante, como por exemplo, no Nordeste ou em Minas. Ser\u00e1 talvez por isso que emerge o desejo de ativar este tipo de fazer? Mais d\u00favidas que respostas envolvem esta minha observa\u00e7\u00e3o, que se refor\u00e7a com duas exposi\u00e7\u00f5es atualmente abertas para visita\u00e7\u00e3o. Ambas, apesar de aparentemente muito diferentes, impressionam pela qualidade e maestria de sua fatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mostra de Eduardo Vieira da Cunha integra o projeto <a href=\"http:\/\/www.difusaocultural.ufrgs.br\/projeto.php?idprojeto=bf25de5101d52aedc1f940a9fadfe608&amp;&amp;ano=2012&amp;&amp;secaosel=07\" target=\"_blank\">Percurso do Artista<\/a>, uma iniciativa da Pr\u00f3-Reitoria de Extens\u00e3o da UFRGS, atrav\u00e9s do Departamento de Difus\u00e3o Cultural (DDC), que ocorre desde 2009, com a realiza\u00e7\u00e3o de exposi\u00e7\u00f5es de professores artistas da universidade. Convidado para participar do projeto, Vieira da Cunha trabalhou n\u00e3o com a ideia de uma retrospectiva, mas com uma proposta de estabelecer os fios condutores de seu pensamento, linkando os primeiros trabalhos realizados ainda com fotografia e desenho, nas d\u00e9cadas de 70 e 80, com o que est\u00e1 fazendo hoje. \u201cA exposi\u00e7\u00e3o come\u00e7a com aquilo que eu escolhi para ser apresentado como um \u00fanico trabalho: quatro fotografias preto e branco, quatro impress\u00f5es a cores a partir de diapositivos e uma pintura, al\u00e9m de quatro desenhos a carv\u00e3o. \u2026Selecionei estas imagens para mostrar que as texturas de areia e os padr\u00f5es de ritmo criados pelo vento nas fotos se repetem\u201d, diz ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chama aten\u00e7\u00e3o o po\u00e9tico texto \u201c \u00c0 procura de uma sombra viajante\u201d, de Eduardo Vieira da Cunha http:\/\/www.eduardo.vieiradacunha.nom.br\/, no cat\u00e1logo da sua mostra. A palavra e a imagem, no seu caso s\u00e3o dois rios que se cruzam, cujas \u00e1guas se misturam, mas continuam cada rio em seu curso. Essas fundamentais formas da comunica\u00e7\u00e3o humana abrem portas de passagem entre os homens e funcionam bem nessa mostra em que o artista, de forma bastante did\u00e1tica, convida o espectador a ser seu companheiro de viagem, apresentando vest\u00edgios de sua trajet\u00f3ria pessoal criativa. Ao estabelecer analogias com o personagem de um viajante, ele prop\u00f5e ao visitante percorrer paisagens ins\u00f3litas, onde as sugest\u00f5es surrealistas s\u00e3o evidentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Viaduto-e-trem-2012-120-x-180-cm.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3088\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Viaduto-e-trem-2012-120-x-180-cm-300x201.jpg\" alt=\"E-Vieira-da-Cunha-Viaduto-e-trem-2012-120-x-180-cm\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Viaduto-e-trem-2012-120-x-180-cm-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Viaduto-e-trem-2012-120-x-180-cm-768x515.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Viaduto-e-trem-2012-120-x-180-cm-1024x687.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho pl\u00e1stico de Vieira da Cunha engloba fundamentalmente pinturas em que apresenta o dom\u00ednio da cor em uma constru\u00e7\u00e3o formal bastante peculiar. Nesta exposi\u00e7\u00e3o, ele oferece pistas de como foi construindo sua linguagem atrav\u00e9s de fotos e objetos que lhe serviram de refer\u00eancia: miniaturas, carrinhos, avi\u00f5es e outros brinquedos min\u00fasculos, al\u00e9m de m\u00f3biles. \u00c9 como se esses objetos migrassem para as telas e se transformassem em in\u00fameras pequenas figuras coloridas que deslizam sobre as superf\u00edcies e se perdessem nos espa\u00e7os das perspectivas. Os enquadramentos fotogr\u00e1ficos em vistas a\u00e9reas sugerem certo realismo, logo problematizado pela fantasia das cores e pela dispers\u00e3o das imagens no ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A organiza\u00e7\u00e3o da mostra segue diferentes caminhos: na parede do fundo da sala Jo\u00e3o Fahrion, uma montagem com telas de v\u00e1rios tamanhos lembra a disposi\u00e7\u00e3o usada nos museus dos s\u00e9culos XVIII e XIX. Segundo o artista, ele procura, assim, apresentar seu trabalho como uma fragmenta\u00e7\u00e3o dos conceitos de viagem e de deslocamento produtivo \u2013 do litoral do Rio Grande do Sul a Nova York e Paris. Distribu\u00eddas nas diferentes salas, 13 telas grandes com pinturas de paisagem, realizadas especialmente para a exposi\u00e7\u00e3o, representam sua produ\u00e7\u00e3o atual. O conjunto das obras evidencia um desdobramento de imagens e uma coer\u00eancia formal e conceitual que absorve e envolve o espectador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Homem-amarelo-e-trens-130-x-195-cm-2012.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3090\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Homem-amarelo-e-trens-130-x-195-cm-2012-300x198.jpg\" alt=\"E-Vieira-da-Cunha-Homem-amarelo-e-trens-130-x-195-cm-2012\" width=\"300\" height=\"198\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Homem-amarelo-e-trens-130-x-195-cm-2012-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Homem-amarelo-e-trens-130-x-195-cm-2012-768x506.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/E-Vieira-da-Cunha-Homem-amarelo-e-trens-130-x-195-cm-2012-1024x674.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Se as palavras e as imagens se cruzam, tamb\u00e9m as ci\u00eancias exatas e a arte se tocam, como acontece na obra de <a href=\"http:\/\/www.giselawaetge.com.br\/\" target=\"_blank\">Gisela Waetge<\/a>, que se encontra em exposi\u00e7\u00e3o no <a href=\"http:\/\/www.museudotrabalho.org\/\" target=\"_blank\">Museu do Trabalho<\/a>. O texto do curador, Eduardo Veras, aponta as rela\u00e7\u00f5es entre o preciso e o imprevis\u00edvel na obra da artista, destacando a severidade matem\u00e1tica de seus processos e as nuances de suas escolhas, dos seus gestos e de suas interpreta\u00e7\u00f5es. Waetge prova e comprova que o c\u00e1lculo matem\u00e1tico mais complexo e o uso de r\u00e9gua, esquadro e gabaritos podem, em suas m\u00e3os, gerar poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/GG-Waetge-7-12-9-pintura-em-tela-72x180cm-121123_151440__DelRe_VivaFoto.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3091\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/GG-Waetge-7-12-9-pintura-em-tela-72x180cm-121123_151440__DelRe_VivaFoto-300x126.jpg\" alt=\"GG-Waetge-7-12-9-pintura-em-tela-72x180cm-121123_151440__DelRe_VivaFoto\" width=\"300\" height=\"126\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/GG-Waetge-7-12-9-pintura-em-tela-72x180cm-121123_151440__DelRe_VivaFoto-300x126.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/GG-Waetge-7-12-9-pintura-em-tela-72x180cm-121123_151440__DelRe_VivaFoto-768x322.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/GG-Waetge-7-12-9-pintura-em-tela-72x180cm-121123_151440__DelRe_VivaFoto.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas pinturas e desenhos, feitos entre 2011 e 2012, tiveram suas medidas estabelecidas a partir de um quadrado de 36\u00d736, trabalhados pela sobreposi\u00e7\u00e3o das duas grades originadas a partir da divis\u00e3o por 12 e da divis\u00e3o por 9. Este processo gerou diferentes quadriculados e marca\u00e7\u00f5es de pontos. Suas \u201cInstru\u00e7\u00f5es para um desenho base 12-base 9\u201d, descritas no folder da mostra, parecem indicar que ela utiliza uma receita objetiva e racional que qualquer um pode seguir para obter um desenho igual, ou semelhante, ao seu. Ser\u00e1 assim? Suspeitas ficam no ar. Pois o que se v\u00ea na exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 um conjunto de formas geom\u00e9tricas que se repetem e se modificam em uma rica e sutil leveza pl\u00e1stica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada pode ser percebido ao primeiro olhar ou na mec\u00e2nica passagem dos olhos. O espectador precisa se deter atento nas imagens desta po\u00e9tica da exatid\u00e3o, em que as for\u00e7as se combinam e se equilibram em uma din\u00e2mica estabilidade. S\u00e3o in\u00fameros desenhos sobre diferentes superf\u00edcies \u2013 papel e tela -, de variadas dimens\u00e3o \u2013 a menor possui 36x36cm e a maior 180x180cm. As telas e os desenhos de m\u00e9dio porte est\u00e3o nas paredes, os min\u00fasculos quadradinhos de papel est\u00e3o dispostos em uma vitrine de vidro. Em seu conjunto eles afirmam a m\u00e1xima de que a repeti\u00e7\u00e3o conduz \u00e0 diferen\u00e7a, tudo se parece, mas nada \u00e9 igual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/G-Waetge-b2-12-9-pintura-em-tela-72x72cm-121123_160754__DelRe_VivaFoto.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3089\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/G-Waetge-b2-12-9-pintura-em-tela-72x72cm-121123_160754__DelRe_VivaFoto-300x300.jpg\" alt=\"G-Waetge-b2-12-9-pintura-em-tela-72x72cm-121123_160754__DelRe_VivaFoto\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/G-Waetge-b2-12-9-pintura-em-tela-72x72cm-121123_160754__DelRe_VivaFoto-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/G-Waetge-b2-12-9-pintura-em-tela-72x72cm-121123_160754__DelRe_VivaFoto-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/G-Waetge-b2-12-9-pintura-em-tela-72x72cm-121123_160754__DelRe_VivaFoto-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/G-Waetge-b2-12-9-pintura-em-tela-72x72cm-121123_160754__DelRe_VivaFoto.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A sala principal recebeu pontos a cada 12cm, feitos no local com carimbo e t\u00eampera, que se misturam aos pontos nas telas, criando um di\u00e1logo arquitet\u00f4nico. Ao mesmo tempo em que integram os trabalhos entre si, eles d\u00e3o a ver a meticulosidade e a obsess\u00e3o desse fazer repetitivo que a artista desenvolve como linguagem pessoal. O cuidado com detalhes de significa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o da expografia tamb\u00e9m se percebe na mostra de Vieira da Cunha, que pinta da cor da areia as paredes das salas para remeter \u00e0 visualidade da praia, que ele considera um ponto de partida em suas viagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrando o m\u00e9todo de an\u00e1lise da cr\u00edtica de arte Rosalind Kraus, n\u00e3o \u00e9 a similaridade de formas que aproxima os trabalhos, mas sim as estruturas de pensamento que pontuam. Mais al\u00e9m do preciosismo de seu fazer, estes dois artistas, aparentemente t\u00e3o d\u00edspares \u2013 Vieira da Cunha um colorista figurativo, Waetge uma monocrom\u00e1tica abstrata \u2013, podem ser abordados pelo vi\u00e9s das transversalidades que estabelecem entre diferentes campos do conhecimento. E, afinal, n\u00e3o \u00e9 a transversalidade uma das principais caracter\u00edstica do trabalho art\u00edstico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Texto de Maria Amelia Bulh\u00f5es publicado no Jornal Sul 21, em 01\/12\/2012<\/p>\n<p>http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/abordagens-transversais-dialogos-e-divagacoes\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz tempo que percebo na produ\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica local um certo preciosismo no fazer manual que ao mesmo tempo me surpreende e me questiona. 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