{"id":3125,"date":"2017-04-02T18:06:09","date_gmt":"2017-04-02T18:06:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=3125"},"modified":"2017-04-02T18:07:34","modified_gmt":"2017-04-02T18:07:34","slug":"conversas-sobre-arte-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2017\/04\/02\/conversas-sobre-arte-contemporanea\/","title":{"rendered":"Conversas sobre arte contempor\u00e2nea?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Estive esta semana no <a href=\"http:\/\/atelierlivre.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">Atelier Livre da Prefeitura Municipal de Porto Alegre<\/a>, participando de uma atividade que esta institui\u00e7\u00e3o vem desenvolvendo, na qual convida especialistas da \u00e1rea para conversarem com o p\u00fablico sobre temas atuais de arte. Gratuitas e abertas a todos os interessados, essas conversas s\u00e3o poss\u00edveis momentos de trocas e de amplia\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o da arte no mundo em que vivemos. Tanta gente conversa sobre futebol, ouve coment\u00e1rios, d\u00e1 sua opini\u00e3o. Ser\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil fazer o mesmo com a arte? Afinal, 22 homens correndo e disputando uma bola n\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil de entender do que artistas que envolvem monumentos com tecido, criando com eles esculturas gigantescas, como fazem <a href=\"http:\/\/christojeanneclaude.net\/artworks\/realized-projects\" target=\"_blank\">Christo e Jeanne Claude<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Wrapped-Reichstang.-Berlin-1971-97.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3124 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Wrapped-Reichstang.-Berlin-1971-97-300x216.jpg\" alt=\"Wrapped-Reichstang.-Berlin-1971-97\" width=\"300\" height=\"216\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Wrapped-Reichstang.-Berlin-1971-97-300x216.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Wrapped-Reichstang.-Berlin-1971-97.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Wrapped Reichstang. Berlin, 1971-97<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mim, conversas sobre arte sempre envolvem as mudan\u00e7as que se vive no regime da arte, passando de uma economia de mercado para uma economia de redes e da \u00eanfase no objeto \u2013 pintura, escultura, gravura ou desenho \u2013 para a conviv\u00eancia dos eventos \u2013 performances, instala\u00e7\u00f5es ou <em>happenings<\/em>. Essas mudan\u00e7as, que podem ser observadas j\u00e1 a partir dos anos 1960, se consolidam nos anos 1990. A arte, que construiu, gradativamente, sua autonomia enquanto campo de conhecimento ao longo da modernidade, v\u00ea, hoje, essa autonomia desfazer-se. Os espa\u00e7os tradicionais como o museu, a galeria ou a bienal, s\u00e3o questionados, e os artistas e os cr\u00edticos buscam lugares alternativos para realizar eventos de maior impacto. Com as tantas ousadias formais e conceituais que se produzem, no af\u00e3 de inova\u00e7\u00e3o no mundo da espetaculariza\u00e7\u00e3o da cultura, pode-se pensar em um desaparecimento do sistema da arte.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/ulay-with-marina_the-artist-is-present-2010_moma.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3122 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/ulay-with-marina_the-artist-is-present-2010_moma-300x200.jpg\" alt=\"\u00a9 2010 Scott Rudd www.scottruddphotography.com scott.rudd@gmail.com\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Foto: Scott Rudd<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, n\u00e3o \u00e9 bem isso que se observa: a constitui\u00e7\u00e3o de um regime de arte p\u00f3s-autonomia \u00e9 algo flutuante, uma vez que institui\u00e7\u00f5es e mercado buscam sempre novas formas de se apropriar desses \u201cn\u00e3o objetos\u201d. Vivemos em um mundo de economia capitalista e o mercado de arte apresenta um crescente aumento no valor e no volume das vendas, incorporando cada vez mais a chamada arte contempor\u00e2nea e n\u00e3o mais somente os modernos, como ocorria at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s. A import\u00e2ncia que leil\u00f5es e feiras tomaram na constru\u00e7\u00e3o das carreiras dos artistas parece desmentir o desfazer-se do sistema da arte, que, pelo contr\u00e1rio, mostra-se bem s\u00f3lido e eficiente, embora agindo com l\u00f3gicas diferentes daquelas vigentes na modernidade. Na modernidade, a originalidade e a marginalidade do artista eram fundamentais, e figuras bo\u00eamias como Toulouse-Lautrec, ou com dificuldades de enquadramento social como Van Gogh, eram os grandes mitos. Hoje, funcionam mais as estrat\u00e9gias de <em>marketing<\/em> que fazem o sucesso de Jef Koons, de seu trabalho uma marca e, dele mesmo uma celebridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Jeff-Koons.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3123 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Jeff-Koons-300x135.jpg\" alt=\"Jeff-Koons\" width=\"300\" height=\"135\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Jeff-Koons-300x135.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Jeff-Koons.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Jeff Koons<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o desenvolvimento destas estrat\u00e9gias de <em>marketing <\/em>e de administrar carreiras de sucesso, fazem-se necess\u00e1rias equipes de produ\u00e7\u00e3o, o que derruba, hoje, o mito rom\u00e2ntico do artista criador individual e solit\u00e1rio. Este passou a ser uma pe\u00e7a de uma imensa engrenagem que move milh\u00f5es e agita as m\u00eddias, cedendo lugar para curadores e colecionadores que, hoje, aparecem com destaque nas listas de l\u00edderes no campo da arte. A constru\u00e7\u00e3o dos conceitos que legitimam as obras, trabalho imaterial que agrega valor ao produto art\u00edstico, passou a ser uma atividade conjunta de diferentes atores. Talvez, por isso, se verifique, nos \u00faltimos anos, uma explos\u00e3o de coletivos e outras formas greg\u00e1rias de trabalho, at\u00e9 bem pouco tempo inexistentes no meio das artes visuais. O caso dos coletivos pode expressar, por um lado, a busca de apoio para a implementa\u00e7\u00e3o de projetos alternativos, que v\u00e3o contra as l\u00f3gicas no <em>mainstream<\/em>, e por outro, formas conjuntas de abrir chances de trabalho em meios que oferecem menos oportunidades, como em regi\u00f5es perif\u00e9ricas aos grandes centros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mundializa\u00e7\u00e3o da arte, embora pare\u00e7a impor uma homogeneiza\u00e7\u00e3o, encobre grandes desigualdades. Eventos internacionais parecem captar os atores (entre eles os artistas) respons\u00e1veis por compor uma rede de influ\u00eancias, fazendo pensar em uma unidade de interesses e a\u00e7\u00e3o. Unidade bastante fict\u00edcia, uma vez que as disputas continuam a dominar, nesta arena de interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos. O controle das diferentes inst\u00e2ncias da arte pelo capitalismo n\u00e3o \u00e9 uma novidade. Elas sempre estiveram sob o dom\u00ednio dos setores dominantes da sociedade e do grande capital, desde sua origem com os mecenas, no Renascimento, \u00e0s grandes casas de leil\u00f5es e colecionadores, atualmente. Isso n\u00e3o exclui a aprecia\u00e7\u00e3o da arte por admiradores desinteressados, mas estes n\u00e3o movem o grande mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, rea\u00e7\u00f5es contra o <em>stablishment<\/em> e buscas de possibilidades alternativas fazem parte dessa hist\u00f3ria. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, projetos de uma arte nacional eram pensados como poss\u00edvel alternativa ao dom\u00ednio europeu da arte, como fizeram os modernistas brasileiros. Contemporaneamente, propostas enraizadas no local aparecem como as formas mais eficientes de di\u00e1logo com o mundo globalizado. Seria o caso de <em>revivals <\/em>regionalistas, tipo os CTGs? N\u00e3o, a realidade atual pede respostas menos passadistas e conservadoras, mais voltadas aos questionamentos e mais abertas para futuros ut\u00f3picos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\">Como dizia Buckminster Fuller, o mundo, hoje, \u00e9 muito perigoso sem utopia. Acreditam nisso aqueles que questionam os fundamentos da ordem estabelecida no sistema da arte, de forma difusa e encoberta por uma falsa apar\u00eancia de democracia, de quebra de paradigmas e de abertura de fronteiras. Esses atores, atrav\u00e9s de suas pr\u00e1ticas art\u00edsticas antissist\u00eamicas estabelecem novos fluxos e saem de posi\u00e7\u00f5es confort\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\">V\u00eddeo: \u201cA arte de M\u00f4nica Nador\u201d<\/p>\n<p>http:\/\/youtu.be\/nnD_19GWZng<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Eles precisam romper, de forma criativa e competente, com as estruturas ritual\u00edsticas da arte e de seus espa\u00e7os expositivos, adotando uma \u00f3tica focada em refer\u00eancias interativas e colaborativas e n\u00e3o mais contemplativas. Sem abandonar os saberes da arte enquanto campo de conhecimento constitu\u00eddo no seu processo de autonomia, eles precisam negar as verdades estabelecidas e trabalhar com desejos. Mesmo questionando os aspectos tradicionais do sistema da arte \u2013 seu hermetismo, elitismo e afastamento da realidade \u2013, eles ainda querem preservar um lugar de desejo e de esperan\u00e7a. Porque acreditam que, como observa Kester, \u201cA arte \u00e9\u00a0um lembrete da\u00a0utopia\u00a0de plenitude\u00a0adormecido\u00a0no colo\u00a0do\u00a0capitalismo burgu\u00eas\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Finalizando esta coluna, me dei conta de que ela ficou mais um mon\u00f3logo do que uma conversa. Quem sabe, se mandarem suas perguntas e coment\u00e1rios, possamos estabelecer algumas \u201cconversas\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\n<p align=\"JUSTIFY\">Texto de arquivo, escrito por Maria Amelia Bulh\u00f5es e originalmente publicado no Jornal Sul 21, em 20\/04\/2013)<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Fonte:http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/conversas-sobre-arte-contemporanea\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estive esta semana no Atelier Livre da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, participando de uma atividade que esta institui\u00e7\u00e3o vem desenvolvendo, na qual convida especialistas da \u00e1rea para conversarem com o p\u00fablico sobre temas atuais de arte. 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