{"id":3129,"date":"2017-04-09T00:19:39","date_gmt":"2017-04-09T00:19:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=3129"},"modified":"2017-04-09T00:19:39","modified_gmt":"2017-04-09T00:19:39","slug":"faz-se-o-caminho-ao-andar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2017\/04\/09\/faz-se-o-caminho-ao-andar\/","title":{"rendered":"Faz-se o caminho ao andar?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A arte buscou, na modernidade, criar um campo de autonomia, libertando-se das tarefas de representa\u00e7\u00e3o e sua submiss\u00e3o aos conte\u00fados religiosos ou pol\u00edticos. Entretanto, a excepcionalidade da obra de arte e a sacralidade dos museus parecem ter, ao longo do tempo, afastado ou negado ao p\u00fablico comum certas viv\u00eancias est\u00e9ticas que poderiam fazer parte de suas vidas cotidianas. Essa condi\u00e7\u00e3o de afastamento do p\u00fablico e da vida real inquieta alguns artistas em muitos momentos e em muitos lugares. As vanguardas, em diferentes regi\u00f5es do mundo, a partir dos modelos de inquieta\u00e7\u00f5es europeus, buscaram aproximar a arte das experi\u00eancias da vida di\u00e1ria das mais diferentes formas. A necessidade de aproxima\u00e7\u00e3o a um p\u00fablico mais amplo passou a ser objeto das inquieta\u00e7\u00f5es dos artistas, principalmente com a expans\u00e3o do consumo cultural \u2013 que na Europa se deu no s\u00e9culo XIX, e no Brasil, no s\u00e9culo XX. In\u00fameras formas de tornar a arte menos distante e circunscrita aos espa\u00e7os dos museus, foram propostas e muitas experi\u00eancias que se desenvolveram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre elas, o deslocamento f\u00edsico, nos ambientes urbanos ou naturais, surgiu como um meio de explorar sensitivamente o mundo e descobrir como a presen\u00e7a do corpo em movimento no espa\u00e7o poderia ser fonte de viv\u00eancia po\u00e9tica muito forte. Essas experimenta\u00e7\u00f5es de derivas se inauguraram com os dada\u00edstas (suas derivas eram aleat\u00f3rias), se consolidaram com os situacionistas (suas caminhadas eram mais objetivas e funcionais) e foram se desenvolvendo como processos art\u00edsticos individuais na contemporaneidade. At\u00e9 mesmo no ambiente virtual da internet, artistas como Daniel Belasco http:\/\/www.planbperformance.net\/forty.html e Thorsten Knaub http:\/\/www.gpsdiary.org\/ realizam caminhadas como parte de seus projetos criativos e, utilizando GPS, constroem desenhos que documentam e deixam os vest\u00edgios visuais desses deslocamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tend\u00eancia da arte de questionar o sistema ritual\u00edstico e o objeto de arte deu origem a muitas experi\u00eancias no sentido de assumir o caminhar como processo criativo e como forma de conhecer, vivenciar e deixar seu depoimento. No \u00e2mbito dessas experimenta\u00e7\u00f5es encontra-se a mostra \u201cWalking\u201d exposta em S\u00e3o Paulo, no Pa\u00e7o das Artes http:\/\/www.pacodasartes.org.br\/. Segundo o curador Giorgio Ronna, a exposi\u00e7\u00e3o surgiu da leitura de alguns autores que desenvolvem reflex\u00f5es sobre o ato de caminhar: Henry David Thoureau (Walking), Jean-Jacques Rousseau (Os devaneios do caminhante solit\u00e1rio), Walter Benjamin (O flan\u00eaur) e Jo\u00e3o do Rio (A alma encantadora das ruas).\u00a0Vale destacar que farta bibliografia, tanto na literatura como no campo das artes visuais. sobre este tema se desenvolveu a partir da modernidade, que pode ser buscada por quem se interessar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mostra \u201cWalking\u201d est\u00e3o articulados os trabalhos de cinco artistas que encontraram na caminhada um elemento fundamental de seus processos de trabalho. Br\u00edgida Baltar desenvolve um projeto que a aproxima das tend\u00eancias surrealistas, ao caminhar tentando captar a neblina em um frasco. Um v\u00eddeo e algumas fotos dessa sua imposs\u00edvel tarefa documentam essa experi\u00eancia on\u00edrica de embrenhar-se na bruma e nela quase desaparecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/A-coleta-da-neblina-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3131\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/A-coleta-da-neblina-1-300x210.jpg\" alt=\"A-coleta-da-neblina-1\" width=\"300\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/A-coleta-da-neblina-1-300x210.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/A-coleta-da-neblina-1.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Br\u00edgida Baltar \u2013 A coleta da neblina<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num outro processo, Marina Camargo anda por um caminho montanhoso nos Alpes, tentado dar conta da paisagem recortando em uma folha de papel as silhuetas das montanhas a partir de alguns pontos de observa\u00e7\u00e3o. A seguir, sobrep\u00f5e os cart\u00f5es recortados aos contornos da irregular topografia, deixando perceber como a representa\u00e7\u00e3o \u00e9 falha e incompleta. \u00c9 como se a artista tentasse captar no papel aquela paisagem que vai descobrindo ao caminhar, para dela se apropriar poeticamente em uma v\u00eddeo-instala\u00e7\u00e3o que documenta essa forma de vivenciar a paisagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Marina-Camargo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3132\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Marina-Camargo-300x212.jpg\" alt=\"Marina-Camargo\" width=\"300\" height=\"212\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Marina-Camargo-300x212.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Marina-Camargo.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Marina Camargo \u2013 Alpenproject<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interven\u00e7\u00e3o de Lia Chaia \u00e9 na paisagem urbana: ela vai desenhando seu percurso pela cidade de Paris ao aplicar bal\u00f5es coloridos nas estruturas de ferro que se distribuem pela cidade nas cal\u00e7adas. As fotos do projeto \u201cGlobo Celeste\u201d permanecem como mem\u00f3ria deste percurso, documentando sua passagem e sua a\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Um corpo invis\u00edvel cujos rastros coloridos distribu\u00eddos na cena fria da paisagem estabelecem uma outra leitura da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/globo-celeste-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3133\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/globo-celeste-2-183x300.jpg\" alt=\"globo-celeste-2\" width=\"183\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/globo-celeste-2-183x300.jpg 183w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/globo-celeste-2.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 183px) 100vw, 183px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Lia Chaia \u2013 Globo Celeste<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m urbanas s\u00e3o as caminhadas que realizam Marion Velasco e Christa Ziegler, sendo que para elas o tempo funciona como parte do processo de capta\u00e7\u00e3o das imagens. Marion, na s\u00e9rie \u201cErragem\u201d, indaga sobre as rela\u00e7\u00f5es do corpo com a cidade, tomando a arquitetura como vestimenta. Ela permanece horas no burburinho da regi\u00e3o central para fotografar uma pessoa que se esconde sentada sob uma manta. Ela v\u00ea aquele que n\u00e3o quer ser visto, e que mesmo envolvido pelo torvelinho dos sons e das movimenta\u00e7\u00f5es em trono dele, parece alheio a tudo. Sentada, a figura parece dizer da necessidade de buscar um espa\u00e7o pessoal na impessoalidade da grande cidade. Acompanha essa imagem fotogr\u00e1fica a grava\u00e7\u00e3o dos ru\u00eddos da rua feita pela artistas e que \u00e9 oferecida ao espectador em dois audiofones, um com som bem alto e estridente, outro quase inaud\u00edvel. Como se os mesmos sons pudessem ser ouvidos de formas diferenciadas pelos transeuntes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Marion-Velasco.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3134\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Marion-Velasco-300x223.jpg\" alt=\"Marion-Velasco\" width=\"300\" height=\"223\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Marion-Velasco-300x223.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Marion-Velasco.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Marion Velasco \u2014 Erragem<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Christa Ziegler tem percorrido a p\u00e9 dezenas de cidades por todo o mundo com uma c\u00e2mera de m\u00e9dio formato, procurando preservar a naturalidade com que os transeuntes se manifestam no espa\u00e7o urbano. Ela faz de seu percurso uma forma de documenta\u00e7\u00e3o das proximidades e dos afastamentos que as cidades propiciam. As imagens, em preto e branco, com baixa resolu\u00e7\u00e3o, parecem estancar o tempo. Colocadas em conjuntos de quatro, elas mostram como a artista foi construindo seu olhar de viajante, como foi encontrando as significa\u00e7\u00f5es em cada diferente cidade visitada. Os nomes das cidades \u2013 D\u00e9lhi, Hong Kong, Los Angeles \u2026 \u2013 colocados junto a cada conjunto de imagens projetado, permitem que o visitante acompanhe o percurso da artista, percebendo a rede de inter-rela\u00e7\u00f5es que emerge da combina\u00e7\u00e3o desses fragmentos, em uma esp\u00e9cie de narrativa ao mesmo tempo documental e ficcional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Christa.jpeg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3135\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Christa-300x226.jpeg\" alt=\"Christa\" width=\"300\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Christa-300x226.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Christa.jpeg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Christa Ziegler \u2013 Cidades<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas diferentes formas de pensar e elaborar poeticamente as caminhadas, d\u00e3o unidade ao conjunto dos trabalhos apresentados e oferecem ao espectador uma possibilidade de pensar suas pr\u00f3prias experi\u00eancias di\u00e1rias de deslocamento, mais al\u00e9m de um ir e vir mec\u00e2nico e alienado. Talvez seja essa uma das contribui\u00e7\u00f5es da arte, hoje: fazer pensar e oferecer meios de reelaborar o cotidiano. Afinal, como j\u00e1 dizia o poeta, \u201cfaz-se o caminho ao andar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Texto de arquivo, escrito por Maria Am\u00e9lia Bulh\u00f5es para o Jornal Sul 21, originalmente publicado em 30\/03\/2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/faz-se-o-caminho-ao-andar\/<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A arte buscou, na modernidade, criar um campo de autonomia, libertando-se das tarefas de representa\u00e7\u00e3o e sua submiss\u00e3o aos conte\u00fados religiosos ou pol\u00edticos. 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