{"id":3200,"date":"2017-05-14T23:20:48","date_gmt":"2017-05-14T23:20:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/?p=3200"},"modified":"2017-05-14T23:42:40","modified_gmt":"2017-05-14T23:42:40","slug":"pensar-pode-ser-um-salto-no-vazio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/2017\/05\/14\/pensar-pode-ser-um-salto-no-vazio\/","title":{"rendered":"Pensar pode ser um salto no vazio?"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry-content\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos concordam que as pr\u00e1ticas simb\u00f3licas fazem parte da pr\u00f3pria exist\u00eancia do ser humano, universais e atemporais em sua condi\u00e7\u00e3o de exerc\u00edcio da psique, mas que suas manifesta\u00e7\u00f5es se determinam historicamente, sob diferentes condi\u00e7\u00f5es. Pode ser, por exemplo, a pintura corporal utilizada pelos \u00edndios Kaoba, seja a decora\u00e7\u00e3o de um quarto, feita por um jovem suburbano, ou, ainda, a produ\u00e7\u00e3o de murais em metr\u00f4s. Desse imenso universo de pr\u00e1ticas simb\u00f3licas, por\u00e9m, somente uma pequena fatia \u00e9 socialmente considerada art\u00edstica. Como esclareceu Pierre Bourdieu, a \u201carte\u201d, assim como a \u201cgriffe\u201d, transmuta um objeto econ\u00f4mica e simbolicamente, modificando sua natureza social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos pensam o universo da arte \u00e0 parte da realidade cotidiana, como um campo \u201cm\u00e1gico e irreal\u201d, vivido como tal por seus membros e reconhecido pela sociedade como um todo. Esse fen\u00f4meno se originou na modernidade, com o surgimento da categoria de objetos \u201cart\u00edsticos\u201d. Essa \u201csacraliza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o se faz somente atrav\u00e9s de fatos materiais e institucionais, ela se sustenta em discursos que fundam seu reconhecimento social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas importantes discursos \u2013 Hist\u00f3ria da Arte, Est\u00e9tica e Cr\u00edtica da Arte \u2013 s\u00e3o respons\u00e1veis por todos os pequenos e grandes mitos que conduzem as a\u00e7\u00f5es dos artistas e de todos os demais indiv\u00edduos envolvidos no sistema da arte. Dispersos pela sociedade em livros, revistas, programas culturais, cursos escolares etc., eles determinam as expectativas sociais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte. Esta mitologia \u00e9 um lastro para o desenvolvimento das pr\u00e1ticas art\u00edsticas, fazendo com que tudo no universo da arte se relacione a ela, tudo seja pensado a partir dela e em depend\u00eancia dela. Esta mitologia da arte, narrada a partir da Europa, incorpora um acervo de obras que vai sendo gradativamente integrado aos grandes museus deste continente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nela, a origem da arte \u00e9 colocada em um tempo remoto, ligada ao surgimento da humanidade; entretanto, o pr\u00f3prio conceito de arte n\u00e3o corresponde a estes tempos, nem suas motiva\u00e7\u00f5es se conectam com o que se instituiu como arte. Mas isso n\u00e3o tem grande import\u00e2ncia quando est\u00e1 se falando de origens m\u00edticas. A Hist\u00f3ria da Arte seleciona um elenco de trabalhos pl\u00e1sticos procedentes de tempos e lugares distintos \u2013 a grande maioria deles oriundos de pr\u00e1ticas religiosas \u2013 dando a eles um encadeamento. Assim, \u00e9 poss\u00edvel justificar a evolu\u00e7\u00e3o da pintura rupestre pr\u00e9-hist\u00f3rica a um quadro abstrato, passando por um afresco medieval. Os fios condutores desta leitura s\u00e3o, preponderantemente, formais, com \u00eanfase na pr\u00e1tica pl\u00e1stica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Est\u00e9tica se prop\u00f5e a explicar as rela\u00e7\u00f5es do homem com aquilo que ela mesma designa arte. Neste relato, o mito do artista \u00e9 um dos mais importantes e permanentes, embora tome caracter\u00edsticas diferenciadas em cada momento. Em torno dessa figura se constr\u00f3i uma s\u00e9rie de coment\u00e1rios, fazendo-a t\u00e3o importante quanto as pr\u00f3prias obras, baseando-se na exist\u00eancia de uma capacidade inata de cria\u00e7\u00e3o, uma forma de dom ou gra\u00e7a recebida, d\u00e1diva divina e inexplic\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros dois importantes mitos da Est\u00e9tica s\u00e3o: a transcend\u00eancia e a iman\u00eancia da obra de arte. A transcend\u00eancia defende a exist\u00eancia independente e permanente da obra de arte, vista como n\u00e3o tendo tempo, como sendo eterna. Um discurso de universalidade perpassa essa perman\u00eancia, contrastando com as rela\u00e7\u00f5es de alteridade que se evidenciam no mundo contempor\u00e2neo globalizado. A iman\u00eancia prop\u00f5e o reconhecimento espont\u00e2neo e imediato de uma obra de arte, como uma revela\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 ao espectador, sem considerar as diferentes forma\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atuando dentro do espa\u00e7o das rela\u00e7\u00f5es entre artista, obra e espectador, a Cr\u00edtica de Arte age de forma valorativa e judicativa, necessitando para tal afirmar como verdades inabal\u00e1veis os pressupostos m\u00edticos da Hist\u00f3ria da Arte e da Est\u00e9tica. Praticando a avalia\u00e7\u00e3o e a legitima\u00e7\u00e3o, ela referenda as obras e tamb\u00e9m os dois discursos em que se baseia. Esse \u00e9 um processo autorreferencial, bastante dif\u00edcil de ser rompido por um pensamento cr\u00edtico, mesmo na contemporaneidade, quando muitos desses pressupostos s\u00e3o questionados. Isso porque existe um tipo de consenso social que reconhece uma condi\u00e7\u00e3o cerimonial na arte, que ultrapassa a quest\u00e3o da distin\u00e7\u00e3o social para cuja manuten\u00e7\u00e3o os discursos s\u00e3o fundamentais. Esse fechamento est\u00e1 na origem da crise atual de valores que se percebe no campo da arte. Os discursos m\u00edticos exp\u00f5em seus limites e distor\u00e7\u00f5es sem que sejam apontados novos referenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao defender ardorosamente a heran\u00e7a conceptual constitu\u00edda no s\u00e9culo XVIII, a Hist\u00f3ria da Arte, a Est\u00e9tica e a Cr\u00edtica de Arte fecham-se \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es de atua\u00e7\u00e3o da arte. A Cr\u00edtica elabora malabarismos intelectuais no af\u00e3 de fazer sobreviver os discursos m\u00edticos frente \u00e0s grandes transforma\u00e7\u00f5es propostas pelas pr\u00e1ticas art\u00edsticas na atualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para compreender o fato de que o fazer art\u00edstico possa permanecer sendo considerado uma esp\u00e9cie de ato demi\u00fargico, \u00e9 preciso levar em conta as especificidades da imagina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, campo de origem do trabalho art\u00edstico. A arte faz parte das inst\u00e2ncias do simb\u00f3lico, estabelecendo uma din\u00e2mica rela\u00e7\u00e3o com os grandes desafios da compreens\u00e3o do mundo. Georg W. F. Hegel afirma que arte, filosofia e religi\u00e3o constituem tr\u00eas momentos do \u201cEsp\u00edrito Absoluto\u201d. Ele aponta para a grande cis\u00e3o do pensamento, quando a perda da cren\u00e7a em Deus estabelece um vazio na cultura ocidental, vazio que a filosofia e a arte tentam preencher. Tamb\u00e9m J\u00fcrgen Habermas reserva \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0 arte as prerrogativas do intercurso com o extraordin\u00e1rio. Verifica-se certa unanimidade em apontar a capacidade comum a estes dom\u00ednios do pensamento de trabalhar com um conjunto de signos n\u00e3o reduz\u00edveis a um simbolizado espec\u00edfico, claro e esgot\u00e1vel, fazendo vigorar uma concep\u00e7\u00e3o irreligiosa de sagrado em uma sociedade laica e racionalista como a atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se afirma que os discursos da arte constituem um relato m\u00edtico, articulando um conjunto de pequenos e grandes mitos, tem-se em mente o pensamento de Roland Barthes, no que diz que o mito n\u00e3o esconde nem ostenta, ele realiza um processo de deforma\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o \u00e9 uma mentira nem uma confiss\u00e3o, mas uma inflex\u00e3o. Interessa, ent\u00e3o, perceber que tipo de realidades ele flexiona, para estabelecer um curto-circuito neste sistema de pensamento, abrindo outras possibilidades de aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O campo da arte \u00e9 repleto de cren\u00e7as que dificultam a percep\u00e7\u00e3o das reais condi\u00e7\u00f5es de sua produ\u00e7\u00e3o. Mesmo na contemporaneidade, em meio a tantos questionamentos, muitos ainda assumem e difundem as m\u00edticas da cria\u00e7\u00e3o, que perpassam as diferentes inst\u00e2ncias da sociedade ocidental, seja no \u00e2mbito internacional, nacional ou local. Receosos da perda de privil\u00e9gios que os questionamentos acarretam, ampliam cada dia mais a defasagem entre a produ\u00e7\u00e3o e o discurso. Entretanto, alguns pensadores incorporam ambiguidades em suas reflex\u00f5es e, fazendo trabalhar as contradi\u00e7\u00f5es, apontam novos caminhos. Vias tortuosas e dif\u00edceis, que se afastam das rotas tradicionais, abrindo m\u00e3o de referenciais estabelecidos. Ousando dar um salto no vazio, eles, assim como alguns artistas, criam novas condi\u00e7\u00f5es de pensar o universo simb\u00f3lico do homem contempor\u00e2neo.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/DSC0790-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3210\" src=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/DSC0790-1-300x196.jpg\" alt=\"_DSC0790 1\" width=\"300\" height=\"196\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/DSC0790-1-300x196.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/DSC0790-1-768x501.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/DSC0790-1-1024x668.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/artereflexoes\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/DSC0790-1.jpg 1646w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Imagem da exposi\u00e7\u00e3o PRO POSI\u00c7\u00d5ES\u00a0&#8211;\u00a0Foto Mirele Pacheco\/Divulga\u00e7\u00e3o UFRGS<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Texto de arquivo escrito por Maria Am\u00e9lia Bulh\u00f5es, originalmente publicado no Jornal Sul 21 em 18 de maio de 2013.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/pensar-pode-ser-um-salto-no-vazio\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos concordam que as pr\u00e1ticas simb\u00f3licas fazem parte da pr\u00f3pria exist\u00eancia do ser humano, universais e atemporais em sua condi\u00e7\u00e3o de exerc\u00edcio da psique, mas que suas manifesta\u00e7\u00f5es se determinam historicamente, sob diferentes condi\u00e7\u00f5es. 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