ALFREDO JAAR: excesso, ausência e política das imagens


Cultura Capital

Cultura=Capital, 2012. Neons.

 

 

“Cultura é o nosso capital mais precioso, e os espaços da cultura, são hoje em dia todos os últimos espaços restantes de liberdade que permanecem”.

ALFREDO JAAR  é artista, arquiteto e cineasta de origem chilena, nascido em 1956. Jaar cria instalações, fotografias, filmes e projetos comunitários que exploram questões relacionadas a crises humanitárias e ao relacionamento entre o Primeiro e o Terceiro Mundo. Percebendo a saturação contemporânea de imagens de mídia e as limitações da arte na representação de atrocidades, Jaar chama a atenção para o poder e a exploração globais. Já participou de eventos como as bienais de São Paulo, Istambul, Sevilha, Johannesburgo, duas Documentas e teve exposições individuais no MoMA, em Nova York, e na Whitechapel Gallery, em Londres.

Reconhecido internacionalmente, ganhou Prêmio Nacional de Arte 2013, há 32 anos, mudou-se para Nova York. Ali, ele começou a fazer intervenções públicas focadas em questões teóricas sobre questões políticas. Uma de suas primeiras obras foi a série fotográfica da exploração de mineradores de ouro na Amazônia, chamada Oro en la mañana, 1986 (Ouro pela manhã, 1986), que foi exibida na Bienal de Veneza e no Novo Metrô York, entre outros lugares. Uma das suas obras mais destacadas é o Projeto Ruanda (1994-2000), uma reflexão sobre o genocídio ocorrido nesse país africano em 1994 e no Chile, o trabalho Geometría de la conciencia (Geometria da Consciência 2010), parte da exposição permanente no Museo de la Memoria.

Em 1985, o fotógrafo chileno Alfredo Jaar chegou a Serra Pelada no Brasil para retratar os mineiros de ouro. Em uma mina a céu aberto, em condições de trabalho muito perigosas, milhares de trabalhadores arriscam diariamente para extrair o que se tornará ouro no dia seguinte.

Da série Gold in the Morning,1986.

 

Da série Gold in the Morning,1986.

 

Além da representação gráfica de sua fadiga, as obras revelam a humanidade dos mineiros e seus sofrimentos (…) Este sistema contrasta a grande demanda sem rosto do mundo industrializado com uma profusão de faces de trabalhadores da lama”, comenta Jaar, sobre seu trabalho no Brasil.

Para entender o que Jaar viu e sua tentativa de assimilação e projeção da exposição (Projeto Ruanda 1994-2000), é inevitável não lembrar o que aconteceu naquela primavera de 1994 em Ruanda, onde em pouco mais de três meses morreu um milhão de pessoas, de uma população de oito milhões. Jaar coloca fotografias em caixas com olhares expressivos e pilhas de fotografias com o mesmo olhar. A proposta chama a atenção para refletir sobre esses olhares, um processo onde o espectador deve ver, observar, perceber, reconhecer, dar atenção direta – são os componentes da trama visual.  Nesse sentido, Jaar responde às expectativas com uma investigação demorada e complexa, repletos de inúmeros olhares como uma representação que manifesta o irrepresentável. Jaar não necessariamente coloca as imagens do massacre de Ruanda, mas faz de modo a limpar nossos olhos da visão desse excesso de corpos massacrados, sugerindo um acontecimento e uma reflexão.

“Quando já haviam sido mortas 1 milhão de pessoas, finalmente, esta revista criminal, decide colocar Ruanda de capa.” Alfredo Jaar sobre a revista americana Newsweek.

Projeto Ruanda, 1994-2000

 

 

Projeto Ruanda 1994-2000

Em “Lament of the Imagens” ( O lamento das Imagens – 2002), Jaar leva os visitantes à uma tela de um branco cego, juntamente com três textos projetados na exposição, que aparentemente nos dizem algo para pensar. Segundo a análise de Jacques Ranciére “Não há imagens de Mandela chorando de alegria por ser libertado, à medida que seus olhos subjugados por vinte e sete anos de trabalho forçado nas pedreiras não são capazes de chorar. Nenhuma outra imagem satélite da guerra do Afeganistão, mas as do Pentágono, que comprou todos os direitos de transmissão. E as dezessete milhões de fotografias adquiridas por Bill Gates foram destinadas a serem enterradas sob duzentos e vinte pés de terra, para não torná-las públicas. Se reveladas em formato digital, levaria cerca de quatrocentos anos, então, a tela em branco não é para purificar nossos olhos de multiplicação exponencial de imagens mas, pelo contrário, para tornar visível um fenômeno de abdução em massa. Não é verdade que aqueles que dominam o mundo nos enganam ou nos cegam mostrando-nos imagens demais“.

“Não se trata, assim, para o artista, de suprimir o excesso de imagens, mas em pôr em cena a sua ausência; ausência de certas imagens na seleção das que interessa mostrar, segundo o critério dos responsáveis ​​pela disseminação. Efetivamente, dizer que existem ‘muitas imagens’ é, em primeiro lugar, o veredito daqueles que se encarregam de lidar com elas, e só depois daqueles que acreditam criticá-las. O excesso parece, desde um começo como um defeito a remediar. A estratégia do artista político não consiste, então, em reduzir o número de imagens, mas em opo-las a outro modo de redução, outro modo de ver o que é levado em consideração ” analisa Ranciére (El teatro de imágenes, 2008, p. 72).

 

Lamento das Imagens

Lamento das Imagens, 2002

 

Alfredo Jaar Lament of the Imagens

Lamento das Imagens, 2002

 

“Geometría de la conciencia” (Geometria da Consciência, 2010) é um trabalho que ocorre com luz e escuridão sensorialmente, e também trata sobre conhecimento e pensamento. O espectador deve entrar em um espaço fechado, ficar alguns minutos, ajustar a visão e viver a intensidade e o desaparecimento de uma luz intensa. Esta é uma condensação, uma metáfora, que evoca presença e ausência ao mesmo tempo, desencadeia um conjunto de associações e pensamentos que variam de acordo com cada um, mas focam o tema da presença, desaparecimento e memória.

Segundo a curadora Adriana Valdés: “O trabalho funciona com a perda sofrida por todos por causa dos crimes cometidos durante a ditadura chilena: todos, os desaparecidos e os que permanecem. Refere-se à perda para a vida do país e abre-se para a experiência humana universal de morte, desaparecimento, lembrança e presença.”

Geometria da Consciência, 2010

 

Geometria da Consciência, 2010

Um dos seus trabalhos mais conhecidos, This Is Not America (Um logotipo “Isso não é América”, 1987), consistiu em uma sequencia de projeções com vista para uma estação de recrutamento do exército dos EUA e na Times Square, incluindo o mapa esboçado dos EUA com as palavras “This Is Not América escrita e a palavra “América” ​​sobreposta a todas as Américas – Norte, Central e Sul.

“É um problema que infelizmente continua em vigor”, disse Jaar em seu estúdio na 26th Street, em Nova York. “Eles se apropriaram da palavra e do conceito de América, quando somos todos americanos. É um problema muito sério de educação e linguagem, e a linguagem, como já disse antes, não é inocente. Isso não é mais do que o reflexo de uma realidade geopolítica e da dominação que existe comercialmente, historicamente e politicamente por parte dos Estados Unidos “.

 

This is not America, Times Square,1987

 

This is not America, Times Square,1987

 

Alfredo Jaar esteve em Porto Alegre durante a 10ª Bienal do Mercosul – Mensagens de Uma Nova América, em 2015. A sua obra fazia parte de uma das mostras realizadas, “Biografia da Vida Urbana”, em que foi exposto um painel de LED na fachada do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, no Centro de Porto Alegre.

 

This is not America, Porto Alegre, 2015

 

 

Confira o trailer do documentário “JAAR el lamento de las imágenes” dirigido Paula Rodríguez e produzido por Paola Castillo:

 

“O que me move é a curiosidade. Eu sou artista porque não entendo o mundo e quero entende-lo.” Alfredo Jaar

 

“Nossos boletins informativos nos apresentam, apesar do que se diz, escassas imagens das guerras, das violências ou das aflições que marcam o presente do planeta. São poucos os corpos violados, mutilados ou sofridos. O que vemos, essencialmente, são rostos daqueles que ‘fazem’ a informação, os falantes autorizados: apresentadores, editorialistas, políticos, especialistas da explicação ou do debate. As ‘imagens’ sobre a tela são ‘suas’ imagens: em primeiro lugar, sua efígie, a visibilidade do peso de suas palavras, que vão seguidas de fragmentos do visível validados por essas palavras que se dizem. Não há uma torrente de imagens. Aqueles que se queixam dessa torrente são os selecionadores, ou seja em ato ou em potência. Há uma encenação da relação entre a autoridade da palavra autorizada e o visível que esta seleciona para nós: a dos acontecimentos que importam, na medida em que importam aqueles a quem lhes interessam. A morte de Richard Nixon ou Jaqueline Kennedy obviamente não se compara a de milhões de pessoas das quais jamais ouvimos falar e que morreram em lugares distantes com nomes impronunciáveis” (RANCIÈRE, 2008, p. 75).

 

Que imagens estão presentes e ausentes em nossas práticas pedagógicas, nas escolas, nas aulas? O que a ausência ou a presença de algumas imagens diz de nós mesmos?

 

Contribuição: Joe Nicolai – aluno de Artes Visuais (Licenciatura UFRGS)

Fontes e referências:

https://www.artsy.net

http://fototematica.tumblr.com

 http://www.latercera.com/noticia/alfredo-jaar-repite-esto-no-es-america/

https://ww3.museodelamemoria.cl/exposiciones/la-geometria-de-la-conciencia/

RANCIÈRE, Jaques. El teatro de imágenes. IN: JAAR, Alfredo. La politica de las Imagenes.  Santiago do Chile: Metales Pesados, 2008.

 

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