“Daqui eu vi o que aconteceu”: arte e política com Carrie Mae Weems


 

 

Colored People, 1989-1990

Colored People, 1989-1990

 

Daqui eu vi o que aconteceu… [com os negros na América do Norte, com os negros no Brasil, com as mulheres negras, com as crianças negras] … e chorei. O que aconteceu com todos nós diante da diáspora africana? O que somos capazes de ver, daqui onde estamos, diante da reprodução de estereótipos em relação aos negros no Brasil, nos Estados Unidos e em todo o mundo? Quais são as implicações políticas para a sociedade em que vivemos? Esses temas, presentes em obras como “From here I saw that happened and I cried”, são a matéria prima da instigante e fascinante obra da artista americana Carrie Mae Weems.

Considerada uma dos mais influentes artistas americanas contemporâneas, Carrie Mae Weems investigou as relações familiares, a identidade cultural, o sexismo, a classe, os sistemas políticos e as consequências do poder. Determinada como sempre a entrar na imagem – tanto literal como metaforicamente – Weems sustenta um diálogo contínuo no discurso contemporâneo há mais de trinta anos. Durante esse período, Carrie Mae Weems desenvolveu um conjunto complexo de arte que emprega fotografias, texto, tecido, áudio, imagens digitais, instalação e vídeo.

Weems participou de inúmeras exposições individuais e grupais nos principais museus nacionais e internacionais, incluindo o Museu Metropolitan de Arte, o Centro Frist de Arte Visual, o Museu Solomon Guggenheim de Nova York e o Centro Andaluz de Arte Contemporânea em Sevilha, Espanha. Weems recebeu inúmeros prêmios, incluindo Prix de Roma, The National Endowment of the Arts, The Alpert e The Tiffany Awards entre outros. Ela está representada em coleções públicas e privadas em todo o mundo, incluindo o Metropolitan Museum of Art, NY; o Museu de Belas Artes de Houston; o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque; Museu de Arte Contemporânea, Los Angeles; e The Tate Modern, Londres.

As vibrantes explorações de fotografia, vídeo e texto de Weems produzem nova vida nas formas narrativas tradicionais: documentário social, quadros, autorretrato e história oral. Evocando contextos épicos a partir de momentos individualmente enquadrados, Weems desmascara rótulos racistas e sexistas, examina a relação entre poder e estética e usa biografia pessoal para articular verdades mais amplas. Seja adaptando ou apropriando imagens de arquivo, resgatando fotografias de notícias famosas ou criando cenas completamente novas, a artista traça uma história indireta de mais de um século da representação de afro-americanos.

Aos 30 anos, ela lançou sua primeira grande série, “Family Pictures and Stories”, utilizando fotos e textos. A artista aproveitou sua história familiar para explorar a condição humana das famílias negras nos Estados Unidos da época. Suas obras posteriores seguiram na mesma temática documental, agregando camadas e complexidade ao projeto inicial. “Ain’t Jokin’”, “Colored People” e “Kitchen Table series”, por exemplo, tratam de temas recorrentes na vida da fotógrafa, como o racismo internalizado, a identidade cultural e as questões de gênero. Os textos associados a cada imagem não são meras legendas explicativas.

 

Importante na história afro-americana, as obras de Carrie Mae Weems exploram questões de raça, classe e identidade de gênero. Na área de fotografia e vídeo, explorando uma linguagem própria e de identidade para performance. Weems disse

“que independente do meio, o ativismo é uma preocupação central de sua prática – especificamente, olhando a história como uma maneira de entender políticas e culturas”

Colored People, 1989-1990

Colored People, 1989-1990

Colored People, 1989-1990

Colored People, 1989-1990

Colored People, 1989-1990

Colored People, 1989-1990

“A fotografia pode ser usada como uma arma poderosa para instituir mudanças políticas e culturais”, disse ela. “Eu, por um lado, continuarei trabalhando para esse fim”.

 

Ela tomou grande notoriedade a partir da série “The Kitchen Table Series”, no início da década de 1990, cujas fotografias retratam, com a artista sentada na mesa da cozinha, os estereótipos de vida afro-americanos. Os registros sobre seu cotidiano tornam-se reflexão para esse espaço doméstico de batalha, questionando também temas como monogamia, sexismo e sororidade.

 

“Apesar da variedade de minhas explorações, ao longo de tudo isso tenho afirmado de que a minha responsabilidade como artista é trazer arte, bela e poderosa, que adiciona e revela; para embelezar a confusão de um mundo confuso, para curar os doentes e alimentar os desamparados; para gritar bravamente nos telhados e atormentar as portas entrincheiradas e expressar as especificidades do nosso momento histórico.”

confira o vídeo onde a artista fala do seu trabalho

“… Eu realmente estava pensando muito sobre o que significava desenvolver sua própria voz”. disse Weems.

 

“A narrativa de contar histórias está no sangue”, afirma Weems. Através de uma mistura de fotos pessoais de arquivo e da primeira série fotográfica-documental principal da artista, “Family Pictures and Stories”, Weems leva o espectador a uma jornada pessoal através de sua infância na década de 1950, agora para um exame mais amplo sobre “a história dos assuntos negros na fotografia”. Inovando continuamente, Weems adotou então novas estratégias de criação e intervenção de imagens com edição e frases na série poderosa “From Here I Saw What Happened e I Cried” (Daqui eu vi o que aconteceu e eu chorei.)” 

Neste trabalho, composto por 33 impressões separadas, todas as imagens foram encontradas em arquivos de museus e universidades. Dentre essas fotografias estavam daguerreótipos de 1850, feitos pelo naturalista suíço Louis Agassiz, que viajou pela América do Sul com um fotógrafo, fazendo retratos de escravos negros.  Agassiz pretendia usar esses retratos como evidência visual para suas teorias sobre a inferioridade racial dos africanos e para preparar uma taxonomia de tipos físicos na população escrava. Este trabalho se relaciona a série “Assentamento”, da artista brasileira Rosana Paulino, artista já apresentada pelo site ArteVersa.

“Quando examinamos essas imagens”, disse Weems, “nós estamos olhando para as maneiras pelas quais a Anglo América- a américa branca – se viu em relação ao sujeito negro. Eu queria intervir nisso, dando uma voz a um sujeito que historicamente não teve voz “.

Ela matizou todas as imagens de sangue vermelho e algumas palavras impressas sobre as imagens são descritivas (“A Negroid Type“), outras são enunciadas na forma de endereço direto (“Você se tornou um perfil científico“), outras ainda apaixonadas (“Você se tornou um sussurro, um símbolo de uma poderosa viagem, pelo suor de sua testa que você trabalhou para a própria família e outros“). O trabalho é tanto uma fotografia documental de acusação à escravidão, quanto uma homenagem às vitimas perseguidas, e mortas há muito tempo.

 

 

 

Como afirma Weems, “a fotografia pode ser usada como uma arma poderosa para mudanças políticas e culturais”. Esta é sem duvida, a arte política, mas também principalmente no sentido pessoal-político. As questões de raça e classe certamente estão lá, mas subentendidas nas realidades universais da vida vivida, diariamente.  Sobre a escolha dos textos, a artista disse: “Estou tentando aumentar uma espécie de consciência crítica em torno do modo como essas fotografias foram destinadas”. Ela espera que esta estratégia “dê ao sujeito outro nível de humanidade e outro nível de dignidade que estava faltando na fotografia”.

 Carrie Mae Weems viu o que aconteceu, é testemunha de seu tempo, transformando seu olhar e seu cotidiano em imagens e textos poderosos. E você, o que pensa sobre o que vê e acontece? De que forma a arte nos instiga a criar novas relações estéticas e políticas sobre o que acontece no mundo?

 

Fontes de consulta:

http://carriemaeweems.net/

https://art21.org/artist/carrie-mae-weems/

https://nitidafotografia.wordpress.com/2016/04/07/carrie-mae-weems/

https://www.nytimes.com/2014/01/24/arts/design/carrie-mae-weems-charts-the-black-experience-in-photographs.html

https://www.moma.org/learn/moma_learning/carrie-mae-weems-from-here-i-saw-what-happened-and-i-cried-1995


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