Como explicar o ensino de arte para quem não quer ouvir OU de que modo contaminar de arte a educação para que todos possam ouvir, sem precisar explicar


Fragmento da ação "Como explicar arte a uma lebre morta", de Joseph Beuys, Schelma Gallery, Dusseldorf, 26 November 1965.

Fragmento da ação “Como explicar arte a uma lebre morta”, de Joseph Beuys, Schelma Gallery, Dusseldorf, 26 November 1965.

O “tempo em que vivemos” é o tempo da urgência, do espanto, do retorno, da volta nostálgica e idealizada de um passado que seria mais íntegro, mais limpo e cheio de certezas. É neste tempo e neste lugar, 2018, Brasil, América do Sul, que ainda temos que buscar argumentos para justificar a arte na educação e, mais especificamente, na escola.

 Há muito tempo que fazemos isso. Aprendemos desde cedo, nós que pretensamente defendemos a arte na educação, a argumentar, a negociar, a defender, a conversar, a convencer, a “explicar”. Diante dos atropelos que temos passado, desde as avalanches legislacionais que espremem as possibilidades práticas da existência da arte nas escolas (o chamado “Novo Ensino Médio”) até as reações doentias contra exposições de arte, provocando inclusive seu fechamento (Exposição “Queermuseu”, no Santander Cultural, em Porto Alegre, agosto de 2017), é preciso continuar argumentando, ainda que muitos não queiram ou não possam ouvir, tal como a “lebre morta” da performance de Beuys, em 1965 (“Como explicar quadros para uma lebre morta”).

 Em 2016, com a Reforma do Ensino Médio, e com a consequente aprovação, em 2017, da Lei 13.415 , que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, vimos a redução do espaço do ensino de arte na educação básica (Art. 26, §2. O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório da educação básica), já que, embora possa parecer, este artigo não garante a obrigatoriedade em todos os níveis da educação básica, principalmente no Ensino Médio. A aprovação da Base Nacional Curricular Comum (BNCC) para a educação infantil e ensino fundamental em dezembro de 2017, retira mais ainda o espaço do ensino da arte ao tratar as diferentes linguagens artísticas (Artes Visuais, Dança, Música e Teatro) como meras unidades temáticas do componente curricular Arte.

 É nesse contexto, diante de tantas inquietações e urgências que envolvem o tema arte e educação, que o grupo ARTEVERSA debruçou-se sobre essas questões ao longo do ano de 2017. Ocupamos uma boa parte de nossos estudos em analisar os discursos presentes em torno da defesa da arte na educação e na escola, usando como um dos motes a publicação da Revista Select, edição de nº 33, que trouxe para a discussão o tema de Arte e Educação.

 Entendemos que está na hora de atualizar nossos argumentos (ou inventar novos) que, mais do que convencer outros ou a nós mesmos, podem nos fazer lembrar por que acreditamos tanto na força da arte na educação. Muitas ideias surgiram, e aqui listo algumas:

  • DESEQUILÍBRIO: É (ainda) sempre momento de investir num ensino de arte que promova desequilíbrios nos lugares fixos;

  • OUTROS MODO DE EXISTÊNCIA: uma arte que transvase a educação, de forma a imprimir nela outros modos de existência considerando a multiplicidade que o mundo da arte nos reserva;

  • RELIGAR: É necessário religar a condição de pensar com o sentir, da razão com a sensibilidade, nesta época se requer esta ruptura com a modernidade;

  • MOVIMENTO E PENSAMENTO: é preciso olhar para alguns sons que chegam a partir em uma outra frequência na qual a arte é uma forma de pensar (Luiz Camnitzer) cujos trabalhos e práticas são espaços ativos que conectam arte e educação (Stela Barbieri), lugares que propiciam relações e negociações e são potencializadores do movimento do corpo e do pensamento das pessoas;

  • EXPERIÊNCIA: O ensino da arte pode ser um lugar propício para a experiência com arte (Virginia Kastrup fala de criar condições para que a experiência com arte aconteça), entendendo essa ‘arte’ de modo mais amplo possível, ou seja, não só como o que um suposto sistema legitimador autoriza a ser chamado de Arte (com ‘A’ maiúsculo), mas também como o que as redes (coletivos, comunidades) acordam que seria arte (com ‘a’ minúsculo);

  • CRIAÇÃO E RESISTÊNCIA: Arte (e ao ensino da arte) como lugar de criação e, portanto, de resistência;

  • ENCONTROS E CULTIVOS: A arte e a educação como possibilidades de encontros e cultivos, de algo que acontece em parceria, que se desenvolve não mais unicamente na busca pela aquisição de saberes, competências e habilidades, como uma espécie de quantificação de saberes, mas pela possibilidade de desenvolvimento de valores e sentidos que são diferentes para cada pessoa;

  • BRECHAS: Será preciso uma reorganização dos grupos de docentes, pesquisadoras/es e artistas, formando uma coligação que seja capaz de não somente argumentar, mas também encontrar brechas de contaminação nas políticas públicas da atualidade? Por outro lado, será possível encontrar brechas em políticas públicas neoliberais que entendem que basta o sujeito ter acesso aos conhecimentos da língua e da matemática, que esse sujeito estará preparado/a para encarar o mercado, a vida em sociedade, as relações humanas acima do capital?

  • CONTAMINAÇÃO: Tal como um vírus não-nocivo, mas que afeta profundamente os que com ele entram em contato, assim pode-se ver a arte na educação: arte ligada a vida, a atitudes diante do mundo, como modo de pensar e perguntar-se sobre o que acontece, como modo de atuar em relação a si mesmo, aos outros, ao seu contexto. Um modo de vida que se alimenta de produções e criações artísticas e desconfia do que é tido como fixo e universal. Algo que se viva, que se sinta, que não precise explicação, pois simplesmente é.

  • (em aberto) (…)

 A nossa lista de argumentos está aberta para continuar se expandindo, para continuar atuando, não paramos por aqui. Gostamos de pensar, por exemplo, na atuação política de artistas como Ai Wei Wei e Marta Minujin, que dizem muito sobre as fissuras dessa época, reforçando nossos argumentos em torno da arte e da educação.

[Pós-argumentação: Talvez nenhuma argumentação seja suficiente para quem não quer ouvir, para aqueles moldados pelo primado da razão e por palavras como eficácia, produtividade, resultados, moralidade, hipocrisia, pensamento linear, julgamentos rasos, verdades únicas, utilidade. Mas aqui estamos, lutando pelas palavras. Afinal, é disso que se trata: um combate incessante de palavras, de argumentos, de ideias, de imagens.]

 Enquanto isso, o grupo ARTEVERSA decidiu partilhar um pouco das suas discussões coletivas a partir de textos escritos por membros do grupo. Os textos são singulares e coletivos, reverberando o que temos pensando como grupo. Oferecemos aos leitores do nosso site textos curtos, em linguagem acessível, que podem e devem ser compartilhados. Queremos chegar aos professores e professoras do Brasil e de outros lugares, e todos os interessados nesses temas. São essas as nossas ferramentas de resistência, nossas palavras, nossos saberes. Que elas se espalhem e contaminem outros modos de pensar.

 

Por Luciana Gruppelli Loponte

(luciana.arte@gmail.com)

Doutora em educação, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é líder do ARTEVERSA – Grupo de estudo e pesquisa em arte e docência (UFRGS/CNPq).