Arte e Educação: pensar o tempo de agora


DivisorDivisor, 1968 – Lygia Pape

Depois de 20 anos de aprovação da LDB 9.394/1996 e da garantia da arte na educação, vimos esta conquista sendo achatada por meio da implementação de uma Reforma do Ensino Médio imposta via Medida Provisória 746/2016 – que em fevereiro de 2017 se transformou na Lei 13.415.

Este amargo retrocesso fez ressoar uma polifonia de vozes que se elevaram para justificar a permanência da arte na educação – um incansável trabalho que desde os anos 1980 nunca cessou. Em meio a tantas vozes, interessa-me ouvir mais pausadamente aquelas que entoaram palavras que já disseram muito nos anos 1990, na seara da aprovação da LDB (1996), dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (1998) para legitimar o lugar da arte na escola, na educação e na formação de professores. Tais sonoridades, hoje, talvez não tenham a mesma força e intensidade e já não dizem muito sobre os modos de ser e fazer escola na atualidade. Mas, é preciso ouvi-las novamente para inventar formas outras de justificar a arte na educação.

Não se trata de negar as vozes que possuem certa centralidade nos debates sobre o ensino de arte e que também são referências de textos acadêmicos; nas pesquisas em arte e educação; nos referenciais curriculares para as licenciaturas em pedagogia e arte, além de constarem em tantas outras produções cuja lista seria quase infindável e que afirmam a relevância e contribuição de suas produções. No entanto é preciso que comecemos a nos liberar de algumas palavras e argumentos a fim de permitir que outras maneiras de pensar sejam usadas para criar formas de legitimar a arte na escola de acordo com o tempo de agora: novas composições, novos arranjos, novas arquiteturas curriculares e pedagógicas.

Naquele contexto – do final dos anos 1990 e início dos anos 2000 -, em que a “obrigatoriedade das artes no currículo” era assegurada pelo batalhado parágrafo II do Art. 26 da LDB, os argumentos que nos permitiam afirmar o motivo da arte tornar-se obrigatória passavam pela “cognição”, “imaginação”, “percepção” e pela contribuição da arte para alguma coisa – a escrita, o raciocínio, a sofisticação do pensamento, a capacidade de leitura, a interpretação, a capacidade de resolução de problemas, a formação de valores humanos fundamentais, a criação autoral sem submissão a modelos… Todas estas palavras fizeram parte de um determinado projeto educacional pensado para a escola daquele tempo tão marcado pela “qualidade”, “capacidade”, “habilidade” que deveriam fazer parte ou traduzirem os processos educativos daquela década. Para aquele momento a linguagem da arte: a cor, a forma, equilíbrio, volume, ritmo eram imperativos que apontavam para um ensino formalista pautado na transmissão do saber em direção as variadas formas de acesso à cultura. No entanto, precisamos pensar que escola e que educação são estas deste nosso tempo: qual arte para qual escola?

Ao me interessar pela interceptação destas sonoridades com os ruídos do agora, coloco-me a escuta de alguns sons que chegam a partir de uma outra frequência na qual a arte é uma forma de pensar (Luiz Camnitzer) cujos trabalhos e práticas são espaços ativos que conectam arte e educação (Stela Barbieri); lugares que propiciam relações e negociações e são potencializadores do movimento do corpo e do pensamento das pessoas. E das maneiras como a arte e a escola podem vir a ser uma plataforma pública (Sofia Oslacoaga) em que é possível traçar outros jeitos de aprender – e desaprender – que não fazem parte das definições clássicas ocidentais do conhecimento.

São sons que ainda reverberam pouco, mas, que constituem uma microrrede que pode vir a envolver uma certa forma-escola, com algumas práticas do campo artístico e as microrrelações de saber-poder tensionadas constantemente entre os campos da arte e da educação. Seria uma microrrede que poderia vir a gerar embates no campo pedagógico e que em sua dispersão pode nos ajudar a reinventar e ou criar argumentos que afirmem os motivos que nos mobilizam a permanecer nesta tarefa interminável de justificar a arte na educação, na escola e na formação docente.

Por Daniel Bruno Momoli

(danielmomoli@hotmail)

Doutorando e Mestre em Educação sob orientação da Profa.Dra. Luciana Gruppelli Loponte na linha de pesquisa Arte, Linguagem e Currículo no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É professor da Universidade Alto Vale do Rio do Peixe e da Faculdade Senac e membro do Arteversa – Grupo de estudo e pesquisa em arte e docência.


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