Por que as artes visuais são importantes para o mundo?


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Ação Educativa, Valeriano López

Quem trabalha com educação e artes visuais, de tempos em tempos depara-se com a seguinte questão: por que as artes visuais são importantes no mundo? Sou professora em uma universidade pública, em uma licenciatura em artes visuais e, desde que fui aluna de um curso semelhante no final da década de 1990 venho encontrando essa pergunta em contextos, a cada vez, ligeiramente diferentes.

 Façamos um breve rastreio em fatos recentes, iniciando por retomar as polêmicas lançadas sobre a arte por indivíduos alheios aos seus propósitos, o que levou ao fechamento arbitrário de uma exposição em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul e, a seguir, intensos debates sobre a nudez na arte em relação às crianças, produzidas por uma exposição em São Paulo. Examinemos as medidas do atual governo federal que diminuem a arte no ensino médio e permitem que profissionais não licenciados atuem como professores de arte nas escolas e também estejamos alerta a propostas de proibição de que crianças e adolescentes tenham acesso a exposições de arte onde existam imagens de corpos nus, mesmo que parciais. Alcancemos, por fim, as manifestações estudantis conhecidas como Ocupas, realizadas por estudantes secundaristas e universitários em diversos pontos do país em 2016 e manifestações artísticas relacionadas à vida (artísticas tem o sentido de força simbólica), feitas por fora de qualquer tipo de sistema, seja da educação, do mercado, da arte.

 As artes visuais são as artes das imagens, que são importantes em si mesmas porque vêm da capacidade humana de criá-las das formas mais variadas. Elas participam de todas as relações sociais e de produção de sentido da humanidade. A imagem é fundamental, por exemplo, junto à dimensão espiritual e religiosa, visível nos símbolos das mais diversas crenças. Junto à ciência, a imagem ajuda a demonstrar os sistemas do nosso corpo e dos animais, das moléculas, do universo e até a prever fenômenos do futuro e remontar a outros, do passado. No campo da cultura, a imagem é a base do cinema, da publicidade, do design de objetos, da arquitetura, mas também está na organização das coisas da casa, nas memórias pessoais e nas intervenções que fazemos no nosso corpo, como a tatuagem e o corte de cabelo, por exemplo.

As artes visuais, contudo, constituem uma forma de produzir novos pensamentos através de imagens. A imagem criada sempre acrescenta algo novo ao mundo, seja pelo aspecto que a imagem tem (as formas, as cores, a composição, por exemplo), seja pelo tema que aborda, seja pelas novas ideias e perguntas que faz surgir ou ainda pelas soluções encontradas no próprio modo empregado na criação , o que permite extrapolar a própria imagem e abranger a ação do corpo. Esse é o trabalho artístico com artes visuais.

Hoje as artes visuais são bastante variadas, do que participa a pintura, a escultura, o desenho, o vídeo, a performance, a fotografia, a intervenção urbana, as instalações artísticas e todas as novas modalidades criadas por artistas. Quem “faz artes visuais” ou trabalha com elas, vai sempre acrescentando algo novo, renovando-as a todo momento.

Existem várias formas de atuar com e sobre as artes visuais: produzindo as imagens artisticamente, ensinando artes visuais em escolas ou outras instituições, como a UERGS e a FUNDARTE, ambas em Montenegro, Rio Grande do Sul, falando sobre as imagens como faz quem escreve crítica e história da arte, ou ainda, relacionando as obras entre si na curadoria de exposições.

 Todas as formas citadas são trabalhos localizados no campo artístico, mas é importante saber que qualquer pessoa fora desse campo pode realizar experiências com artes visuais e produzir ideias visuais, oferecendo-as aos demais. Quem não trabalha com as artes visuais, mas tem contato com elas, é convidado a “conversar” com as obras, com a exposição e com a própria história da arte, empregando conhecimentos e expandindo seu pensar de um modo bem diferente do que já foi pensado. As artes produzem algo novo e nos convidam a uma conversa.

 Por Carmen Lúcia Capra

(caluc.arte@gmail.com )

Doutora e Mestra em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Graduada em Licenciatura em Educação Artística. É Professora na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – UERGS, onde atualmente exerce a função de Coordenação de curso. É membro do Arteversa – Grupo de estudo e pesquisa em arte e docência.

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