El Anatsui – Quando eu escrevi para você sobre a África


 

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O que você sabe sobre a África? O que você sabe sobre esse imenso continente africano? E sobre as mil possibilidades da arte contemporânea africana? Há muito para saber e conhecer, além dos estereótipos e clichês que temos no Brasil , país que deve tanto ainda ao povo africano. Apresentamos neste texto um pouco da obra do artista ganense El Anatsui, ainda pouco conhecido no Brasil, mas famoso internacionalmente, especialmente após ter sido reconhecido pela Bienal de Veneza em 2015. Suas obras estiveram poucas vezes no Brasil, mas precisamos conhecer mais sobre ele e seu fascinante trabalho. “Quando eu escrevi para você sobre a África” foi o nome de uma exposição retrospectiva do seu trabalho que circulou Estados Unidos e Canadá de 2010 a 2012. El Anatsui escreve, pinta, esculpe, recria a África para todos nós a partir de materiais que dizem muitos sobre os países periféricos ao consumo global, tal como o Brasil.  Aproveitem.

El Anatsui nasceu em Gana (1944) e atualmente vive e trabalha entre Gana e Nigéria. Em 2015, ele foi premiado com o Leão de Ouro pela Lifetime Achievement, e maior honra da Bienal de Veneza . A exposição individual de El Anatsui “Gravidade e Graça: Obras Monumentais de El Anatsui”, foi organizada pelo Akron Art Museum, em Akron, Ohio (2012), e viajou para o Brooklyn Museum, Nova York e o Des Moines Art Center, Iowa (2013); depois para o Museu de Arte Bass em Miami, Flórida (2014); e concluiu no Museu de Arte Contemporânea em San Diego, Califórnia (2015).

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Exposição “Gravidade e Graça: Obras Monumentais de El Anatsui” (GRAVITY AND GRACE: MONUMENTAL WORKS BY EL ANATSUI), realizada em 2015 no Museum of Contemporary Art San Diego, San Diego, CA, USA.

 

El Anatsui é um artista internacionalmente aclamado, que transforma materiais simples em montagens complexas que criam impacto visual único. Ele usa recursos tipicamente descartados, como tampas de garrafa de bebidas alcóolicas e raladores, para criar esculturas que desafiam as categorizações.  Seu uso desses materiais reflete seu interesse em reutilização, transformação e um desejo intrínseco de se conectar ao seu continente, transcendendo as limitações de lugar. Sua obra interroga a história do colonialismo e estabelece conexões entre consumo, desperdício e meio ambiente.

El Anatsui é bem conhecido por esculturas em grande escala composta de milhares de peças de metal dobradas e amarrotadas provenientes de estações locais de reciclagem de garrafas e ligadas por fios de cobre. Essas obras com estruturas, que podem ser maciças, são luminosas e pesadas, artesanalmente fabricadas e maleáveis. Ele deixa as instalações abertas e incentiva os trabalhos a assumirem diferentes formas cada vez que são instalados.

Os trabalhos do artista também traçam uma história mais ampla do intercâmbio econômico e cultural colonial e pós-colonial na África, narrado na história destes materiais descartados. As esculturas em madeira e cerâmica introduzem ideias sobre a função dos objetos (sua destruição, transformação e regeneração) na vida cotidiana, e o papel da linguagem na decifração de símbolos da cultura africana.

El Anatsui  Erosion 1992

El Anatsui
Erosion 1992

Em 1999, El Anatsui encontrou um saco cheio de selos de metal de garrafas de bebidas produzidas na África. Esse material gerou vários trabalhos pelos quais ele recebeu grande reconhecimento por uma série de instalações montadas na parede ou conjuntos feitos com esses selos. Ele esmaga esse material em círculos ou cortes em tiras e, em seguida, costura com fio de cobre, criando grande estruturas de instalação artística.

“ O link entre África, Europa e América é muito parte do que está por trás do meu trabalho com tampas e esse materiais.” El Anatsui para Art21

 

 

Strips of Earth's Skin 2008

Strips of Earth’s Skin 2008

Confira o vídeo do processo criativo, um trabalho totalmente artesanal e coletivo no atelier do artista:


Seu trabalho Bleeding Takari II, exposto no MoMa em 2007, é uma poderosa instalação de parede de 20 pés de largura que ondula como tecido. A peça é feita principalmente a partir de tampas douradas com grandes manchas de vermelho que descem para o chão, assemelhando-se a sangue.

Bleeding Takari II 2007

Bleeding Takari II 2007

“… Quando eu crio o trabalho, é a minha visão, uma metáfora refletindo uma resposta alternativa para examinar possibilidade e estender os limites da arte. Meu trabalho pode representar uma narrativa evolutiva de memória e identidade.” El Anatsui para Art21

 

Por que utilizar materiais recicláveis?

Além de tampas de garrafa, ele também utiliza materiais encontrados que variam de latas de leite, pregos de ferro e chapas de impressão. Seu uso de “materiais africanos reciclados destaca que existem alguns lugares no mundo onde as pessoas precisam reutilizar materiais por necessidade, e não como uma opção.”

Ele não só transforma algo descartado em uma obra de arte, mas o uso desse tipo de material nos faz pensar em temas mais amplos e complexos, tais como o consumismo global e sua história, incluindo a escravidão.

“Eu vi as tampas de garrafa como se relacionando com a história da África, no sentido de que quando o primeiro grupo de europeus chegou para negociar , trouxeram  o rum originalmente das Índias Ocidentais, e então foram para a Europa e finalmente para a África como três pernas de uma viagem triangular. As tampinhas de bebida que uso não são feitas na Europa; todas elas são feitos na Nigéria, mas simbolizam a reunião das histórias desses dois continentes.” Diz Anatsui para The New Razzle Dazzle, Art News

 

 El Anatsui no Brasil:

Neste ano, a 11° Bienal de Artes Visuais do Mercosul, que se realiza em Porto Alegre de 06 de abril a 03 de junho de 2018, propõe um olhar sobre o Triângulo Atlântico que, há mais de 500 anos, interliga os destinos da América, da África e da Europa. Reunindo mais de 70 artistas o projeto curatorial conta com obras e artistas oriundos dos três continentes que compõem o triângulo atlântico. E o artista El Anatsui é convidado com a obra exposta no Museu Santander, que leva o titulo “Ebb & Flow” (2018) –  “Fluxo e refluxo” que sugere o movimento do trabalho que sustenta e nutre a vida. O trabalho feito de telhas de alumínio e tampas de garrafa, fio de cobre e malha de ferro galvanizada. É a primeira vez que a obra do artista vem a cidade de Porto Alegre. Anteriormente, obras do artista puderam ser vistas no Brasil na mostra “Africa Africans”, realizada no Museu Afro Brasil, em São Paulo, em 2015.

Ebb & Flow - El Anatsui 2018

Ebb & Flow – El Anatsui 2018

Ebb & Flow - El Anatsui 2018

Ebb & Flow – El Anatsui 2018

 

Ebb & Flow - El Anatsui 2018

Ebb & Flow – El Anatsui 2018

Suas obras são fáceis de definir?
Na verdade, não. Apesar de seu trabalho ser considerado como escultura, não têm um formato fixo, o que rompe com a tradição do meio.

Anatsui também se refere a si mesmo como pintor e escultor. Ele essencialmente “pinta” e constrói cor e padrão com as tampas de garrafa com suas estruturas monumentais – seus trabalhos foram comparados ao tradicional tecido ganense kente, com mosaicos, tapeçarias e até mesmo como pinturas de outros artistas consagrados. Porém, Anatsui escolhe trabalhar com matéria prima reciclada.  El Anatsui demonstra que os menores pedaços de sucatas podem construir campos de cor e textura tão belos quanto uma pintura.

“Isso não é arte pop, mas é uma estética que remonta a toda uma série de coisas no período pós-guerra – tem uma espécie de exaltação que eu não vi antes.” Robert Storr, curador da Bienal de Veneza 2007.

Confira o vídeo processo da montagem da exposição Gravity and Grace: Monumental Works by El Anatsui:

 

El Anatsui TSIATSIA – Searching for Connection 2013

El Anatsui
TSIATSIA – Searching for Connection 2013

 

El Anatsui - Embrace 2009

El Anatsui – Embrace 2009

El Anatsui at the Venice Biennale 2015

El Anatsui at the Venice Biennale 2015

 

El Anatsui at the Venice Biennale 2015

El Anatsui at the Venice Biennale 2015

El Anatsui at the Venice Biennale 2015

El Anatsui at the Venice Biennale 2015

El Anatsui at the Venice Biennale 2015

El Anatsui at the Venice Biennale 2015

 

Em uma entrevista de 2003, que tratava sobre sua exposição itinerante The Anatsui: Gawu, ele disse: “Não quero ser um ditador. Quero ser alguém que sugira coisas”.

 

De que forma um artista como El Anatsui e sua transfiguração de objetos comuns e descartados em arte, nos ajuda a pensar sobre a África e o Brasil, e sobre o que entendemos por cultura em tempos de consumismo globalizado?

 

fontes:

https://www.artsy.net/artist/el-anatsui 

http://www.tate.org.uk/art/artists/el-anatsui-17306/who-is-el-anatsui

https://art21.org/artist/el-anatsui/

http://el-anatsui.com/

http://www.museuafrobrasil.org.br/noticias/detalhe-noticia/2015/04/28/el-anatsui-vence-o-le%C3%A3o-de-ouro-da-bienal-de-veneza

Pesquisa e elaboração do texto: Joe Nicolai (estudante de artes visuais – licenciatura Ufrgs)

 

 


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