Para que arte na escola?


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Thomas Hirschhorn; Tattoo-serie, Embarrassing Questions, 2007

 

“A arte é uma disciplina que abre a mente, nos faz ter, às vezes, outras opiniões sobre a vida. Coisas que pareciam complicadas antes, agora parecem fazer mais sentido. ”
“Aprendi muito com a arte, especialmente essas coisas de não julgar as pessoas e suas escolhas. ” 
“Eu acho que, talvez, a disciplina tenha me aberto os olhos. Fiquei mais sensível para olhar o mundo como um todo ” [1]

Pensar em argumentos para a presença da arte na educação é uma possibilidade que fala direta e profundamente sobre o que somos e sobre nossos laços com esses dois mundos: arte e educação. Pensar em como defender o que nos parece tão óbvio, nos dias atuais tem se tornado uma necessidade premente. Ora, porque julgam a arte, a condenam e fuzilam-na em praça pública e dentro dos museus[2]; ora porque a arrebatam de onde já foi considerada obrigatória[3]; ora porque nos interpelam cotidianamente: afinal, porque precisamos de arte na escola se a arte “não serve para nada”?

 Na tentativa de elaborar uma resposta para essa questão, a reação mais imediata poderia ser dizer que a arte enquanto disciplina, nos faz refletir sobre as obras e artistas e nos leva a criar um universo conceitual característico desse campo de saber. Para alguns, talvez esse argumento baste, porém isso pouco diz sobre a riqueza das experiências afins ao campo das artes e sua contribuição à educação.  Na tentativa de elaborar uma resposta que amplie o nosso entendimento sobre este tema, podemos nos perguntar a partir de autores como Marc Jimenez se seria possível traduzir em palavras o que toca nossa sensibilidade. De acordo com as ideias do autor, a alçada do afeto suscita nosso entusiasmo ou nossa reprovação, comove-nos ou nos deixa indiferentes. Como podemos justificar a arte, se ela é justamente o espaço para reflexão de temas que podem parecer tão subjetivos ou abstratos, tão pessoais e impossíveis de se padronizar a ponto de muitos não a entenderem como algo útil?

 

ARTE PARA A AMPLIAÇÃO DE NOSSA CAPACIDADE CRITICA 

 

A experiência com a arte como experimentação e espaço aberto para a imaginação criativa, pode vir a ampliar nossas capacidades de escolha como fazem os artistas Mônica Nador, Paulo Meira e Erik Ravelo, que possibilitam um pensamento mais crítico que coloca à prova os limites impostos à experiência em outras áreas do conhecimento.

De acordo com Nadja Hermann, o contato com experiências, como as relações entre arte e política apresentada por artistas como Carrie Mae Weems, ou as ações do Guerrilla Girls, ou ainda as ferramentas de intervenção no mundo de Thomas Hirschhorn, podem possibilitar a constituição de uma forma produtiva de compreender as novas exigências éticas diante da pluralidade. Portanto, podemos afirmar que a arte na educação e suas práticas como o contato com artistas, obras das mais variadas, elementos visuais e imagens podem vir a favorecer uma relação estética com o mundo de maneira a ampliar a nossa capacidade ética.

 

 

Por Carla Giane Fonseca do Amaral

(carlagiamaral@gmail.com)

Doutoranda e Mestra em Educação sob orientação da Profa.Dra. Luciana Gruppelli Loponte no Programa de Pós-graduação em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É licenciada em Artes Visuais e atua como professora de Arte no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense e participa do Arteversa – Grupo de estudo e pesquisa em arte e docência.

 

 

Sugestões de Leitura

HERMANN, Nadja. Ética e estética: a relação quase esquecida. Porto Alegre: EDIPUCRS: 2005.

______. Ética: a aprendizagem da arte de viver. Educação e Sociedade, vol.29, n.102, p. 15-32, 2008.

______. Autocriação e horizonte comum: ensaios sobre educação ético-estética. Ijuí: Ed. Unijuí, 2010.

TIBURI, Marcia; HERMANN, Najda. Diálogo/Educação. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2014.

JIMENEZ, Marc. O que é estética? São Leopoldo: Ed. Unisinos, 1999.

 

[1] Esses trechos foram escritos por estudantes de ensino médio, de forma anônima e não avaliativa, em questionário onde respondiam sobre como se sentiam com relação a sua experiência na disciplina de Arte, durante o primeiro semestre de 2016 em instituição de ensino pública da região metropolitana de Porto Alegre.
[2] Refiro-me ao recente fechamento da exposição QueerMuseu, no Santander Cultural em Porto Alegre, após ataques fascistas pelas redes sociais.
[3] Refiro-me à lei Lei 13.415/2017, que estabelece as novas diretrizes e bases da educação nacional alterando a altera a LDB 9.394/96, cria o chamado Novo Ensino Médio e, entre outras decisões, retira a obrigatoriedade do ensino de arte nesse nível da educação básica.

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