As mãos de ouro de Sonia Gomes: costura e memória


sonia

Por meio da costura, torções, confluências e união de arame, rendas, tecidos, papel, linhas, papelão, bordados a artista-artesã mineira Sonia Gomes tece sua obra.

Artista natural de Caetanópolis (MG), Sonia faz arte para expressar que o instante vivido possa ser trazido novamente à vida. A artista explora o tempo buscando a espessura histórica que fica nas coisas, que as afeta enquanto materiais que mantiveram relações emocionais de outras pessoas e sua própria história.  Ela constrói sua obra com o que é rejeitado, “com o que tem”, como diz ela, criando uma nova vida, uma nova permanência, a partir de memórias afetivas.

Sonia viveu no universo dos tecidos, e foi criada pela avó que a iniciou nas amarrações, nos trançados, na costura e, depois, vivendo com o pai, aprendeu sobre a tecelagem. Dessa mistura, aliada ao seu fascínio pelos nós, torceduras e trabalhos dos africanos, que treinava no próprio corpo, nasceu sua arte genuinamente brasileira que esbarra em questões de identidade racial em um elo vital com a vida da artista. Sonia não previu ser artista, apenas fazia, juntava memórias, recriava histórias materializada em peças que ganham o mundo. Indicada ao Prêmio Pipa em 2012 e 2016, sempre presente nas galerias importantes nacionais e internacionais, o mundo da artista remete-nos a uma poderosa tradição brasileira que transforma materiais instáveis e difíceis em arte contemporânea, em sua trama, borda e inventiva seus caminhos e construções.

Em 1994,  após sua primeira exposição, a artista  também formada em Direito, começou por mostras coletivas e solos em lugares como Sesc-São Paulo, Bienal Nacional de Santos. Desde então, a artista partiu para novos rumos, de Nova York à Veneza, sendo a única artista brasileira representante na 56ª  Bienal de Veneza em 2015. Seus trabalhos estiveram expostos em vários museus pelo mundo, tais como: Art & Textiles, na Alemanha (2013), Museum of Modern Art Aalborg, Dinamarca (2013) e The National Museum of Women in the Arts, Washington, EUA (2017). Em 2018, estão previstas duas grandes mostras institucionais monográficas no Brasil, no MASP – Museu de Arte de São Paulo e no MAC – Museu de Arte Contemporânea do Rio de Janeiro.

 

Sonia Gomes, sem título, 2016, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas, 126 × 82 cm

Sonia Gomes, sem título, 2016, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas, 126 × 82 cm

 

Unindo tecidos diferentes com nós, torções, costuras, Sonia Gomes cria objetos, esculturas e instalações. Lança mão de texturas, cores e formas, para criar peças que têm poder de evocar referências amplas. Tanto podem se referir a culturas regionais quanto universais. Podem chamar à discussão sobre a história da arte ou dar vazão a considerações sobre o papel do inconsciente nas elaborações humanas.

É uma arte que pode ser fruída por seus aspectos lúdicos, delicados e estéticos e também como meditação dramática, brutal, sobre força e fragilidade. São abstrações, mas aceitam olhares que buscam figurações. “Meu trabalho é como o Brasil: tem um lado popular e outro erudito. Transitamos muito bem entre esses dois aspectos”, observa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sonia Gomes, Por Que?, 2009/2010, tecnica mista, acrílica, aquarela, nankin, linha e tecido sobre tela, 80 × 120 cm

Sonia Gomes, Por Que?, 2009/2010, tecnica mista, acrílica, aquarela, nankin, linha e tecido sobre tela, 80 × 120 cm

 

O trabalho de Sonia remete tanto as festas populares de matriz afro-brasileira como a folia de reis, congo, reisado e ao catolicismo mágico, nos quais os materiais se acumulam e se sobrepõem, quanto às tradições africanas, cujo tecido é base expressiva que permite simbolizações culturais como a presentificação da ausência por meio da roupa, que ocorre com os Eguns no Benim e no culto de Baba Egun na Bahia.

Sonia Gomes, Santa, 2012, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas sobre madeira, 66 × 18 × 7 cm

Sonia Gomes, Santa, 2012, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas sobre madeira, 66 × 18 × 7 cm

 

Sonia Gomes, Linhas em tramas, Mendes Wood DM, São Paulo, 2016

Sonia Gomes, Linhas em tramas, Mendes Wood DM, São Paulo, 2016

Sonia Gomes, Magia, 2014, costura, amarrações e tecidos diversos, 240 × 215 cm

Sonia Gomes, Magia, 2014, costura, amarrações e tecidos diversos, 240 × 215 cm

Na prática, contudo, parecem ser outras as referências de Sonia Gomes, embora certos procedimentos e gestos técnicos lembrem fazeres comuns ao Candomblé, como as amarrações de tecidos, nós e embalagens, ou mesmo a cultura mineira dos bordados, das roupas para dias santos, do traje usado em ritos sociais de passagem: casamentos, batizados, nascimentos…

Na obra Mãos de Ouro (2008), Gomes elabora um livro no qual alude a uma antiga enciclopédia de trabalhos artesanais dirigidos às mulheres.

Mãos de Ouro (2008). Grafite, caneta, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas sobre papel. 47 X 37cm

Mãos de Ouro (2008).
Grafite, caneta, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas sobre papel. 47 X 37cm

Na versão de Gomes um livro de papel recebe um acumulado de materiais como o grafite, a caneta, a costura, amarrações, tecidos e rendas diversas. Ao mesmo tempo que ela evoca esse manual das artes femininas – bordados, pinturas, caixas decoradas, macramê, tricô e crochê, sabonetes decorativos, porta isso ou aquilo – ela nos oferece também em forma de artefato, sua versão do projeto civilizatório misto de capitalismo, religião, escola e ideologia de gênero. Nesse gesto criativo reconhece nesta pequena enciclopédia semanalmente acumulada, pela regularidade da compra, traços de sua formação artística, de sua disposição corporal para as artes femininas, normalmente restritas ao universo doméstico. Ela vai dizer:

“Minha ligação com a arte vem desde sempre. Nasceu comigo. Eu não sabia que era arte, mas depois que eu descobri”

(Alexandre Araújo Bispo, “Mãos de ouro: a tecelagem da memória de Sônia Gomes”)

Sem título, da série Risco do Tempo (2012) Caneta permanente, caneta esferográfica e grafite sobre papel de apropriação. 56 X 76cm

Sem título, da série Risco do Tempo (2012)
Caneta permanente, caneta esferográfica e grafite sobre papel de apropriação. 56 X 76cm

Sonia Gomes, Gaiola, 2016, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas sobre gaiola e arame e madeira, 185 × 29 cm

Sonia Gomes, Gaiola, 2016, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas sobre gaiola e arame e madeira, 185 × 29 cm

Em uma entrevista, ela conta que ao apresentar suas obras ouviu muitas vezes:

“Isso é coisa de doido, isso é coisa de negro”.

Sonia Gomes, sem título II, da série Convites de Casamento, 2016, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas, 30,5 × 43,5 × 2,5 cm

Sonia Gomes, sem título II, da série Convites de Casamento, 2016, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas, 30,5 × 43,5 × 2,5 cm

Como ressalta Alexandre Araújo do Bispo (2015), no Brasil há ainda resistência em falar ou discutir temas como raça, gênero e questão social na produção plástica, colocando em debate a ordem estabelecida das coisas. O reconhecimento da produção feminina em geral, e especificamente das artistas negras, ainda é muito recente: “os assuntos com os quais lidam tem formas outras, diversa da produção masculina. Assim enquanto alguns artistas homens fazem coisas enormes, pesadas e volumosas – a exemplo Tunga ou Nuno Ramos, Sonia Gomes transita, como outras artistas entre pequenos e médios formatos como em Oratório (2012) e Casulo (2006), ou em grandes formatos como as obras de até 6 metros” (Bispo, 2015).

Oratório (2012) Amarrações, tecidos, rendas e fragmentos diversos sobre gaiola de arame. 250 X 33 X 26cm

Oratório (2012)
Amarrações, tecidos, rendas e fragmentos diversos sobre gaiola de arame. 250 X 33 X 26cm

 

Detalhe da obra Casulo (2006). Costura, amarrações, tecidos, rendas e fragmentos diversos sobre eucatex. 80 X 44cm

Detalhe da obra Casulo (2006).
Costura, amarrações, tecidos, rendas e fragmentos diversos sobre eucatex. 80 X 44cm

Os tecidos trabalhados por Sonia Gomes, são materiais reutilizados, marcados pela memória de quem os usou e que chegaram até o presente. Alguns desses tecidos-vestígios são a ela confiados como coisas que se recusam a morrer:

‘Me deixem viver em outro corpo’, diz Gomes acerca destas coisas/seres que pedem nova vida. Em obras como Memória (2004) e Memória (2006), evocam-se a ausência dos corpos que passaram por aquelas roupas. É como se fossem a força que permitem que elas permaneçam no mundo, agora sob forma de obra de arte (Bispo, 2015).

Memória (2004)

Memória (2004)

Memória (2004)

Memória (2004)

Sonia Gomes na 11° Bienal de Artes Visuais do Mercosul

Esta edição foi realizada em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, de 06 de abril a 03 de junho de 2018, e propôs um olhar sobre o Triângulo Atlântico que, há mais de 500 anos, interliga os destinos da América, da África e da Europa. Reunindo mais de 70 artistas, o projeto curatorial contou com obras e artistas oriundos dos três continentes que compõem o chamado triângulo atlântico. A artista Sônia Gomes foi convidada com a obra exposta no Memorial do Rio Grande do Sul, que leva o título “Maria dos Anjos” (2017-2018).

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

Sonia Gomes, detalhes obra Maria do Anjos, 2017-2018

 

Na obra Maria do Anjos (2017-2018), a artista junta a peça de um vestido de noiva doado, com costuras, amarrações e tecidos diversos. Ao juntá-las, Sonia as aproxima, seja por escolhas formais como a cor e a instalação, que nos lembra um varal com roupas em estado de eterno descanso, e que jamais serão usadas novamente, até porque diluíram-se no contato com outras roupas, seja pela estrutura oculta que se esconde sob os panos – cordas –, mas que sustenta e exibe diferentes espessuras temporais que cada detalhe empresta ao objeto. No emaranhado de memórias e materializações intuitivas, biografias encontram linhas de fuga de maneira tátil e orgânica, experimentando novas e vibrantes formas de existência.

 

Sonia Gomes faz arte com aquilo que não importa mais em uma sociedade de consumo que tudo quer mercantilizar: objetos usados, roupas descartadas, criações artesanais, uma vida de mulher negra em um país chamado Brasil. Memória, arte impregnada de vida, tramas de cores, texturas, costuras, linhas e afetos. De que modo aprendemos um pouco mais das possibilidades de uma estética da existência com as “mãos de ouro” de Sonia Gomes?

 

CONFIRA O VÍDEO NO ATELIER DA ARTISTA:

 

 

 

Pesquisa e texto: Joe Nicolai de Amorim e Luciana Gruppelli Loponte

 

fontes:

http://www.premiopipa.com

http://omenelick2ato.com/

http://www.mendeswooddm.com


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2 thoughts on “As mãos de ouro de Sonia Gomes: costura e memória

  • Silvia Micali

    Estou vendo um documentário no canal curta e fiqueiiii apaixonada pelo seu trabalho. Me identifiquei com tudo…cores, linhas ,tecidos, liberdade …
    Queria poder fazer um estágio com vc.. trabalhar com vc seria um sonhoooo.