Em defesa de um determinado modo de pensar os encontros entre arte e experiência


Secuela Publica, 2013

Secuela Publica, 2013, Valeriano Lópes

Existiria a possibilidade de que fôssemos arte neste instante? Haveria a possibilidade de pensar que seria arte o gesto de levantar hoje pela manhã, sentir o cheiro do café, de abrir a janela? Mas, também, por que não caminhar pela rua, observar o verde da grama na praça, escutar alguém que assobia sentado num de seus bancos e a cidade onde ele se encontra? Haveria a possibilidade de que fosse arte mesmo um gesto ou um estado de indefinição? (Fervenza, 2010, p. 02).

 

Inicio este texto, trazendo Hélio Fervenza à conversa, não somente porque Hélio é um artista visual e professor, mas porque é com ele que aprendo a pensar na arte que convive no dia a dia de nossas vidas, nas pequenas coisas, nas miudezas que nos passam e que muitas vezes não paramos para contemplá-las e para pensar sobre elas. Hélio nos convida a simplesmente sermos arte neste instante, no sentido de valorizarmos um gesto mínimo, alguma singela situação, dentre tantas que vivemos cotidianamente. Um convite a nos colocarmos momentaneamente em suspensão com as nossas certezas e verdades, deixando-nos viver a experiência da indefinição e da incompletude, ainda que por breves instantes.

 

Conseguimos imaginar essa experiência em uma aula de artes na escola? No lugar de o professor ou professora levar para a sala de aula, por exemplo, uma proposta de releitura de obra de arte, enfatizando os artistas de sempre, os ditos “cânones da História da Arte”, como tem sido uma vivência comum em diversos espaços de educação públicos e privados do Brasil, ou ainda, de oferecer modelos de desenhos para as crianças copiarem e/ou pintarem dentro dos limites estabelecidos, como se elas não tivessem capacidade e condições de produzir suas próprias representações do mundo em que vivem, o convite seria o de pensar o quê, naquele momento, naquele instante da aula, pudesse ser arte para essas crianças.

 

Um convite a olhar para o espaço da sala de aula, para a escola, para os arredores, para as suas próprias coisas, para si e também para os outros, buscando pensar o que naquele momento inspira as pessoas que ali estão, o que as faz pensar e o que as mobiliza a buscar um modo de tornar esse momento, essa observação, essa percepção, um estado de arte. Arte não entendida como algo acadêmico ou técnico, mas arte como vida, como algo que possa tornar aquilo que é relativamente simples e parte de nosso cotidiano, uma experiência capaz de movimentar modos de pensamento, de desacomodar ideias, de se abrir para a invenção de outros caminhos para pensar aquilo que nos parece tão próximo e familiar. E isso se dá de forma gradativa, como um exercício de si na relação com o outro e com as diferentes relações que puderem ser construídas e experimentadas.

 

Talvez esse fosse um caminho para pensar os encontros entre a arte e a escola, uma trajetória de outros modos da arte estar na escola. Não mais uma arte voltada somente ao exercício sistemático das técnicas e das repetições, buscando ampliar habilidades manuais, nem mais às tentativas de reprodução do que os artistas já fizeram, nem para a reprodução de materiais para as datas comemorativas , mas uma arte que se entregue ao exercício de experimentar e de experimentar-se, pensando, por exemplo, com o artista e suas proposições e para além delas.

 

Penso que os artistas contemporâneos trazem uma importante contribuição nesse sentido, pois nos desafiam a pensar a nossa relação cotidiana com a vida . Acredito que pensar a arte na escola do ponto de vista das tantas coisas que convivem por dentro dela, pode ser um caminho diferente, a ser inventado, em que as possibilidades de criação ganhem força e a ideia de experiência possa, de fato, ser vivida nesse espaço. Existiria a chance de você experimentar esse caminho na sua prática docente?

 

Referências

FERVENZA, Helio. Transposições do Deserto. Ver referência de acordo com as demais.

 

Por Deborah Vier Fischer

(deborahvfischer@gmail.com)

Doutoranda e Mestra em Educação sob orientação da Profa. Dra. Luciana Gruppelli Loponte na linha de pesquisa “Arte, Linguagem e Currículo” no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É graduada em Pedagogia e atua como Coordenadora Geral da Escola Projeto na cidade de Porto Alegre. É membro do Arteversa – grupo de estudo em arte e docência.


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