Uma conversa entre professoras/professores de arte


A mudança que desejamos para a educação, apesar de não parecer, advém em boa parte das políticas públicas, grande movimentos e reivindicações, mas, não só. Ela parte também das microrrelações, das pequenas atitudes, daquelas que tomamos em nosso dia a dia. Enquanto professora e artista e pesquisadora e…e…e… lanço algumas ideias que vem fazendo parte do meu exercício de mudança diária em uma conversação com você, professora/professor ou estudante em formação que me lê.

Seja autêntico, assine a sua aula: Invente. E não apenas reproduza aqueles modelos, que você aprendeu como os da graduação, de uma capacitação/aperfeiçoamento, ou aquele modelo de aula que deu certo várias vezes. Não é preciso abandonar tudo, muitas vezes trocamos ideias e sua utilização contribui muito para repensar nossa própria prática, mas sempre as reformulando, aproveitando os erros e junto com isso, talvez até, se modificando.

Ousar e errar: ouse mais, se possibilite errar e a aceitar que as/os alunas/os podem odiar seus próprios trabalhos. Mas faça isso com compreensão e cautela de que você, com toda sua vivência é capaz de aprender com elas/eles também. Através da “errância”, criamos juntos. O que pode ser pensado em relação a um trabalho que “não deu certo”? Há possibilidades para aulas em todos os cantos, basta modificar o olhar, trocar de óculos, ver de cabeça para baixo, pensar a partir de outras perspectivas .

 Mudar de ângulo: quem sabe descer de sua perspectiva de adulta/adulto e sentar com sua/seu aluna/aluno. Se for uma/um jovem mais alta/o tente ficar na altura de seu olhar. Peça para que olhe para você. “Conheça a/o aluna/o”. Pergunte do que gosta, do que pensa, como está seu dia. Sua aula não precisa ser compreendida dentro de um caráter linear, onde as regras são excludentes e não possibilitam esse diálogo. Conheça o contexto delas/deles, ouvi-la/ouvi-los, é um exercício capaz de estabelecer um plano de horizontalidade entre você e o grupo além de possibilitar que elas/eles possam vir a ser o agente da aula. Afinal, quem disse que sua aula não pode partir da escuta das/dos alunas/alunos?

 Crie com as/os alunas/os suas próprias regras: e que elas sejam flexíveis, faça-as no coletivo. Possibilitar o diálogo com todos parece justo, já que somos sempre um e elas/eles muitas/os. Se queremos dialogar com o público que censura a arte de hoje, precisamos em primeiro lugar dialogar com essas/esses alunas/os em formação na escola. Escute, dê espaço para opinião, e formule sua aula com base no que elas/eles têm a dizer sobre seu contexto, sua vida e seus referenciais de práticas artísticas.

Explore sua escola: seus diferentes ambientes e materiais. Fugir dos painéis e paredes pode ser uma alternativa. Mas ocupá-los é outra. Se a escola não permite de jeito algum você fugir do painel, procure pensar junto com as/os alunas/os um novo sentido para este espaço. Se este for o único espaço, o que dentro desse limite é possível de se fazer para registrar a marca dos que habitam aquele lugar. Como ocupar e fazer dele algo mais que um expositor? Se só tem E.V.A. o que posso criar com ele que seja completamente diferente do que se costuma fazer? E como fugir das decorações festivas? Como fazer algo diferente do que bandeirinhas, fogueiras e vestes caipiras…?: Não fuja! Pelo contrário, construa um novo entendimento para essa mesma prática. Procure estudar, busque as origens, os significados, as questões simbólicas dessas práticas. Crie outras formas, invente, pense em práticas híbridas combinando o que parece impossível. Se permita ousar!

Como nos tornamos professores de artes mais mergulhados nas questões de nosso próprio tempo e de nosso contexto? Conhecendo a arte atual e regional! Que produção é essa que está nos museus e galerias de arte? Do que ela fala? Que materiais utiliza? E se mesmo assim você considerar que o que está no museu e na galeria é muito distante do contexto da escola, quais artistas regionais estão produzindo em sua cidade ou bairro? Sobre o que a produção deles fala? Ela poderia fazer diálogo com a sua escola? Entre em contato com artistas próximos e conheçam seu trabalho, pode ser uma grande oportunidade das/dos alunas/alunos se “conectarem” com a arte de seu tempo e de seu contexto.

 

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Imagem: acervo pessoal. Alunos do 1º ano do Ensino Fundamental desenhando com giz de quadro no pátio da escola.

Mas, e se a escola não tem “material”, como trabalhar com arte? E desde quando as práticas artísticas, em especial as contemporâneas precisaram de materiais (convencionais entendidos como “clássicos” da arte) para ser reconhecida como tal? Sua escola tem um pátio bom e grande? Esse é seu material. Use folhas, gravetos, pedras, desenhe na areia…O pátio é um bom espaço para uma aula sobre Land Art, ou para conversar sobre a Pré-história, ou sobre as/os artistas impressionistas… estas são algumas possibilidades muito mais próximas das crianças que diariamente brincam com esses materiais. “Ah, eu não tenho sala de artes e a escola não tem material.” O que cada aluno pode trazer de sua casa que possa trabalhar? Uma camisa, uma meia? Uma caixinha de fósforo, um objeto importante para o aluno? O que a partir desses “nadas”, podemos pensar?

 

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Imagem: acervo pessoal. À esquerda: aluna do 4º ano que desenha e compõe com materiais do pátio; à direita: alunos do 2º ano do Ensino Médio que dançam e desenham no espaço com fitas ao som de músicas africanas e indígenas.

 

E se, ainda nada tiver, mas nada mesmo, perceba que na verdade a escola não se faz somente com o que se tem ou não, mas, também com aquelas/aqueles que nela estão. Em parte, são os indivíduos que são capazes de assumir uma atitude transformadora que pode vir a mudar aquele contexto. E para começar a mudança é necessário ter atitude. É necessário ter e tomar atitudes. Romper barreiras diárias, mesmo que sofridas. Causar e ter choques de realidade. Diariamente. Urgentemente.

 

Por Juliana Veloso

(veloso.l.juliana@gmail.com)

Mestranda em Educação sob orientação da Profa. Dra. Luciana Gruppelli Loponte na linha de pesquisa Arte, Linguagem e Currículo no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Licenciada em Artes Visuais pela mesma universidade.  É professora, artista e atua no Arteversa - Grupo de estudo e pesquisa em arte e docência.


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