As constelações de Alexandre Sequeira: aproximações com o outro


Que histórias as pessoas contam? Que relações há entre fotografia e afeto?

Com a sua câmera fotográfica, Alexandre Sequeira persegue histórias, como aquelas que ele contou na Série Nazaré do Mocajuba, de 2005, através de fotografias dos moradores impressas em tecidos que fazem parte do cotidiano de cada um deles: lençóis, redes, cortinas, toalhas. Há tanta história ali naqueles corpos de gente comum, com toda a sua simplicidade e toda a sua verdade. Expostas na própria casa das pessoas ou em um museu (como na exposição “Meu mundo teu”, no Museu de Arte do Rio, em 2015), estas fotografias ampliam as possibilidades do que se pode chamar “retrato”. Fotografias-vidas, fotografias-almas. O relato da reportagem sobre o artista, publicado durante a exposição no Rio de Janeiro, nos dá um pouco a dimensão do que essas fotografias podem ser:

 

Em 2004, o fotógrafo e artista visual paraense Alexandre Sequeira pôs o pé na estrada e, 300 quilômetros depois, chegou a uma pequena vila de “duas ruinhas de terra”, onde a população vivia do que plantava e pescava. Carregada uma câmera no ombro. A máquina foi desfazendo envergonhamentos, promovendo aproximações, suscitando conversas. Aos poucos, a reduzida população de Nazaré do Mocajuba se sentiu confortável para pedir um 3×4 para um documento, um retrato de um parente que já não iria viver muito… Foi assim que, ao longo de um ano, Sequeira virou o retratista informal da cidade. E os moradores posaram altivos para a sua lente. Convidado a frequentar suas casas, ele próprio passou a se sentir à vontade para fazer pedidos. E começou a solicitar objetos pessoais (“em troca de novos”, faz questão de dizer). O lençol de Pokémon do garoto Luccas, a toalha de mesa florida de Benedita, e outros, ganharam uma nova função: Sequeira imprimiu neles, em tamanho real, as fotografias de seus donos. Um dos mais emocionantes trabalhos do artista, a série inspirou uma palestra no TEDxAmazônia e chega agora ao Museu de Arte do Rio (MAR), como parte da exposição “Meu mundo teu”.

 

Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/os-encontros-com-desconhecidos-notaveis-de-alexandre-sequeira-20573708#ixzz5OkG5FxuC

 

O que estas imagens dizem destas pessoas e de nós mesmos?

 

Para Alexandre Sequeira, “Falar de fotografia é falar de como a gente vê o mundo” (excerto do vídeo https://www.youtube.com/watch?v=ta-uHL7YrmI ), e essa foi a essência do trabalho que resultou na série “Meu mundo teu”, realizada em 2007 quando ensinou fotografia à uma menina da periferia de Belém e um menino que morava em uma ilha vizinha da mesma cidade. Tayana e Jefferson.

Era a luz do mundo de um se somando à luz do mundo do outro, desenhando o registro de seus modos de ver e viver em cada lugar.

Sequeira era professor de fotografia dos dois, explorava técnicas analógicas de fotografia, tais como pinhole e dupla exposição de negativos, e a fotografia funcionou como um disparador/dispositivo para construir relações entre pessoas de mundos tão próximos, e ao mesmo tempo, tão distantes. As aulas aconteceram durante um ano, nesse tempo foram se construindo camadas nas imagens que retém as relações que foram tecidas entre os envolvidos no processo: Alexandre, Tayana e Jefferson.

Os nomes aparecem citados aqui, uma vez mais, como forma de ressaltar o profundo respeito e admiração que Alexandre Sequeira apresenta pelas histórias de vida das pessoas que participam dos seus trabalhos, pela humanidade presente em cada um.  São relações pessoais únicas, tecidas entre o artista e aquelas pessoas específicas que constituem a potência de sua obra, e que seguem em constante abertura a novos encontros.

A troca de cartas intermediada por Sequeira, proporcionou a Tayana e Jefferson que as perguntas que se faziam fossem materializadas através das imagens. Essas fotos não são simples registros de como eram seus ambientes, como tão corriqueiramente fazemos hoje via envio de Fotos por WhatsApp. No processo vivenciado por eles, o tempo de espera para a troca também esteve envolvido, era preciso aguardar pelo menos uma semana para receber o retorno do que fora enviado. Tudo é muito palpável, concreto, registrado. E assim os mundos passaram a estar fundidos e confundidos nas imagens. Como pode ser observado na imagem Canoa e Casa, 2007, onde o que é o ponto de vista de Tayana com uma casa, entra em esmaecimento e profusão com a vista de um rio com um barco estacionado em sua margem- vista cotidiana de Jefferson, impossível saber qual é a primeira camada, ambos estão em pé de igualdade, unidos. É como se o rio dele se tornasse a rua dela. O mundo de Tayana agora também é o mundo de Jefferson. Descobriram um ao outro através dessas imagens, pela sobreposição de tempos, camadas de vida surgem. Certamente o modo como observam o mundo nunca mais foi o mesmo, porque houve um Encontro que materializou camadas de afeto. Quais outros encontros podemos provocar? Quais mundos queremos conhecer? Para quem vamos abrir nosso mundo?

Todas as imagens desta série podem ser acessadas no site do artista, através deste link.

 

Na apresentação de obras do artista Alexandre Sequeira em seu site, está uma oficina com crianças na cidade de Tiradentes. A obra “Eu sonho em Tiradentes” não é mais só do artista, mas é de um coletivo, da sua relação com o mundo e, neste trabalho, com o imaginário infantil.

Como sonhar de outro modo com a minha cidade? Posso ser protagonista do próprio lugar onde vivo? Que sonhos cabem em uma escola?

O trabalho foi uma parceria do artista com o Campus Cultural UFMG na cidade de Tiradentes, vinculado à Diretoria de Ação Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais, buscando alcançar a comunidade da cidade que não usufrui das atividades culturais e dos eventos do centro histórico que atraem visitantes e turistas de várias partes do Brasil e do mundo. Nesta parceria, 25 crianças da Escola Municipal Alice de Lima Barbosa, foram convidadas a partilhar seus sonhos, brincadeiras, fantasias, percepções sobre o lugar onde vivem. Que mundo essas crianças imaginam em Tiradentes? Que mundo imaginamos para nós mesmos?

(Eu sonho em Tiradentes. Anna Karina Castanheira Bartolomeu, coordenadora do Campus Cultural UFMG em Tiradentes. Oficina realizada em fevereiro de 2016, na cidade de Tiradentes (MG), a convite do projeto UFMG Itinerante, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Abaixo a descrição do próprio artista:

 

Eu sonho em Tiradentes

No primeiro encontro com os alunos do 3º e 4ºanos da Escola Municipal Professora Alice Lima Barbosa, perguntei a eles qual seria o motivo do nome da cidade em que moravam, quem havia sido Tiradentes e o porquê de sua fama e importância. A resposta veio como um flash: um herói! Mas, logo em seguida, um aluno disse que também se considerava um herói, pois cuidava com afeto e atenção da mãe e dos irmãos. Vários outros também reivindicaram seu papel de heróis – anônimos, mas heróis! Esse foi o mote para a condução da oficina Eu sonho em Tiradentes. Durante cinco dias, fizemos fotos uns dos outros em um estúdio improvisado, desenhamos e descobrimos juntos que, na verdade, fotografamos e desenhamos para dizer o que queremos e o que pensamos sobre o mundo e sobre a vida. Então, com a ajuda de computadores, meus amiguinhos incorporaram sua condição de heróis e, com a ajuda de seus superpoderes e o apoio de tantas outras figuras míticas que povoavam seu universo infantil, combateram monstros que ameaçavam seu sonho de uma vida melhor. E, por mérito de suas ações, eles se transformaram em figuras dignas de monumento, alocado segundo sugestão de cada um, na área periférica em que moram. Foi um encontro mágico em que me permiti ser levado junto com meus heróis mirins em uma jornada rumo à coragem da autorresponsabilidade, num percurso que revisita a fonte primária do mundo imagético infantil, e depois retornar trazendo a essência da vida para doá-la à humanidade.

 

http://www.alexandresequeira.com/?trabalhos=eu-sonho-em-tiradentes-l-2016#1

 

“Ninguém está no mundo de mãos vazias, sempre tem alguém para dar alguma coisa para o outro”, Alexandre Sequeira (Excerto do vídeo “Meu mundo teu“).

 

Como as imagens nos aproximam das pessoas, do humano e singular de cada um, desses outros tantos que habitam o campo da educação?

Texto e pesquisa: Luciana Gruppelli Loponte e Carine Betker

Para saber mais sobre o artista:

Site oficial:  http://www.alexandresequeira.com/

Projeto Somos Todos Um: http://www.alexandresequeira.com/?trabalhos=somos-todos-um-l-2015

Constelação de Tião, 2016: http://www.alexandresequeira.com/?trabalhos=constelacao-de-tiao-l-2016#4

Galeria Luciana Caravello: http://www.lucianacaravello.com.br/artistas/alexandre-sequeira

Notícias: https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/os-encontros-com-desconhecidos-notaveis-de-alexandre-sequeira-20573708

Indicação ao Prêmio Faz diferença: http://www.alexandresequeira.com/?p=468

Vídeos:

Meu mundo teu: https://www.youtube.com/watch?v=B859mVq9OnM

TEDx – Amazônia (nov. 2010) – https://www.youtube.com/watch?v=Do2HhRQhQRM


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