ARTE É SÓ NAS AULAS DE ARTE?


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Cinthia Marcelle – Volver (2009)

Certo dia chegou até mim um convite para a abertura de uma exposição chamada “Intraduzível”, que inauguraria no Museu da Imagem e do Som (MIS) em Florianópolis. O texto escrito pela curadora e artista Juliana Crispe, disposto logo na entrada da sala expositiva, salientava que a Mostra era uma investigação sobre as relações entre arte, ciência e natureza. Gostei muito da exposição e resolvi, em razão, sobretudo, da temática, visitá-la novamente com os estudantes da disciplina de Metodologia do Ensino de Biologia e Ciências, que ministro no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Fiz o agendamento com o Museu e para lá fomos em uma tarde fria de inverno de uma quinta-feira improvável. Para minha surpresa, muitos alunos nunca tinham visitado uma exposição de arte. E jamais haviam ido ao Centro Integrado de Cultura (CIC), um dos principais espaços culturais da cidade, com teatro, cinema, museus, cafeteria e onde se localiza o MIS.

Uma dúvida que tinha é se haveria necessidade de alguma fala inicial, preparando-os para ver as instalações e para percorrer o espaço expositivo. Pedi à mediadora que só fizesse uma explanação inicial rápida sobre as artistas e deixasse que os estudantes se descobrissem junto à exposição.

Estávamos em meio a um processo na sala de aula em que pequenos grupos preparavam uma prática pedagógica (a ser executada com os próprios colegas) visando a perfuração de um estereótipo, elegido por eles mesmos, que tivesse alguma relação com a biologia escolar. O desafio era que sem explicação alguma, através, apenas, da proposição, da organização do espaço, dos materiais e dos corpos em aula, o estereótipo fosse identificado, perfurado, desnaturado, desgastado, rasurado, colocado em questão. É uma forma que encontrei de intensificar em uma prática pedagógica a sua dimensão estética, pois no ensino de ciências a cognição é acionada em primeiríssimo, e quase único, plano. Minha aposta é que a dimensão estética abre novas possibilidades de compreensão e isso através de um efeito de estranhamento e de perturbação, como salienta o filósofo da educação Pedro Goergen (2017).

Com a visita ao Museu, onde o corpo seria acionado de outros modos, esse efeito de estranhamento e de perturbação ofertado pela arte colaboraria com as criações pedagógicas dos estudantes em formação no campo das ciências biológicas?

A exposição abria uma questão interessante sobre a incapacidade da ciência e da arte de traduzirem limpidamente, sem balbucios, a chamada natureza. Ciência e arte estariam unidas nessa intraduzibilidade inerente à linguagem. Ao criarmos novas palavras, novos mundos se fazem. Mais do que descritivas de uma natureza tomada como dada e original, arte e ciência seriam maneiras diferenciais de fazer ver, falar e sentir, ou seja, criariam, atravessadas pela cultura e pela história, os mundos aos quais nos enredamos e nos dobramos enquanto sujeitos em formação. Mas tais questões conceituais e epistêmicas não estavam no escopo da nossa visita. Queria apenas conversar com os estudantes sobre a experiência estética que tiveram, ou não, com a ida, em um contexto formativo, a um museu de arte.

Alguns visitaram correndo, literalmente, a Mostra e em poucos minutos já estavam fora do espaço expositivo acionando seus celulares e conversando. Alguns se mostraram ansiosos com a falta de entendimento daquilo que viam. Outros se demoraram frente às instalações. Alguns as visitaram em conversas com algum outro colega e poucos fizeram o exercício de estarem sozinhos diante de algum objeto artístico. Depois de um certo tempo, sentamos juntos em meio à própria exposição, em cadeiras cedidas para nós pela mediadora e conversamos um pouco.

Busquei privilegiar um bate-papo sobre a sensação, sobre o que havia passado no corpo de cada um, já que estávamos em um território artístico. O que queria dizer cada instalação foi considerado por mim como uma questão menos importante e, quem sabe, impossível de ser respondida, afinal cada instalação ali presente só se completava, mesmo que de modo frágil e instável, com a nossa participação enquanto espectadores. A conversa acabou girando em torno da lentidão. De como ao passarem rápido pelos audiovisuais não perceberam que alguns deles tinham movimentos sutis. Para vê-los seria preciso dar-se tempo. Mais do que respostas, podíamos criar uma série de perguntas que nos faria seguir pensando por algum tempo e que seria interessante conversarmos sobre elas depois. E passamos a elaborar indagações e a discutir sobre a importância de se acionar uma dimensão estética nas aulas de ciências e de biologia.

Uma semana depois desta aula junto ao MIS em Florianópolis, o Museu Nacional no Rio de Janeiro incendiou. Apenas um aluno o conhecia, mas todos ficaram consternados, perturbados, com o ocorrido e com vontade de terem visitado o que agora só está presente como ruína. Estranharam o fato de nunca terem pensado muito que uma dimensão estética também é imprescindível à formação docente em ciências e que há arte a ser corporalmente experimentada e apreendida no cotidiano da cidade em que vivem. Logo ali, pertinho da Universidade, a uns vinte e cinco minutos caminhando, quinze de transporte público ou dez de bicicleta.

Por Leandro Belinaso

 lebelinaso@gmail.com

Atua junto ao Coletivo “Tecendo: cultura, arte e educação”; é Docente da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com atuação na graduação (formação de docentes de biologia) e no Programa de Pós-Graduação em Educação.  É Doutor e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e graduado em ciências biológicas pela Universidade de São Paulo (USP).

 

Referência:

GOERGEN, Pedro. Formação integral do ser humano: apontamentos sobre estética e educação. In: ROMAGUERA, Alda; PIMENTA, Maria Alzira (Org.). Univer-Cidade em encontros: educação, cultura e arte. Sorocaba: EDUNISO, 2017.

 

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