Palavra-imagem-objeto: Marilá Dardot e seus limiares


Colher palavras. Plantar palavras. Cultivar palavras. Projetar palavras.

A origem da obra de arte, 2011

A origem da obra de arte, 2011

 

Palavras que são também imagens, que são também objetos. Imagens que são também palavras, que convidam à escrita, à leitura. Objetos que não se contentam em ser apenas ‘coisa estática’, mas são ideias em desdobramento, cri(ação) em movimento. Como seria assinar a autoria de um livro que nunca acaba de se escrever?

 

A origem da obra de arte, 2011

A origem da obra de arte, 2011

 

Em A origem da obra de arte (2011), obra permanente do acervo do Instituto Inhotim (Brumadinho/MG), Marilá Dardot nos convida à genuína ação de semear letras e, com elas, forjar palavras. À disposição do público, vasos de cerâmica no formato de letras, terra, sementes e instrumentos de jardinagem: um grande livro sendo ininterruptamente escrito a céu aberto, camadas e camadas de sentido que se sobrepõem ao longo do tempo, desejos, sonhos.

A mineira Marilá Dardot (Belo Horizonte, 1973), conta que sempre teve interesse pela literatura e que justamente a produção de um livro, certa vez, a despertou para o que viria a ser seu trabalho desde então.

 

“(…) a partir do conto ‘O livro de areia’, de Jorge Luís Borges, fiz um livro feito de espelhos e dei o mesmo nome. Foi a primeira arte que fiz algo que me fez e pensar ‘isso aqui é o meu trabalho’. E ele condensa questões que vão permear minha obra no futuro: além da literatura, a participação do espectador.” Marilá Dardot, para São Paulo Review

 

O livro de areia, 1999

O livro de areia, 1999

O livro de areia, 1999

O livro de areia, 1999

 

Na contracapa do livro, a famosa frase do filósofo pré-socrático Heráclito, que intui: “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Tampouco em um mesmo livro, poderíamos dizer. Ou mesmo em uma obra de arte. O que de nós deixamos quando lemos/vemos algo? Não à toa, o livro de areia de Dardot é construído com espelhos… O que vemos em um livro (ou em uma obra de arte), está além ou aquém do que essa obra traz em si enquanto significado, visto que o que lemos/vemos diz muito mais de nós do que do próprio objeto, livro ou obra.

“A literatura sempre fez parte da minha vida. Sempre fui leitora. Meu pai, que era arquiteto, gostava muito de ler e me dava muitos livros. Toda semana me trazia um. Eu comecei a ler muito por causa dele. Às vezes, ele estava lendo um livro e me contava a história adaptando para o universo infantil.” Marilá Dardot para São Paulo Review

 

Porque as palavras estão por toda parte, 2008

Porque as palavras estão por toda parte, 2008

Porque as palavras estão por toda parte,
Proferimos palavras, mas também somos proferidos por elas.
Porque as palavras estão por toda parte,
Elas implicam na nossa experiência com o mundo,
Não apenas representam o mundo, mas conformam mundos, produzem mundos.
Porque as palavras estão por toda parte,

Elas são também corpo, objeto, matéria a ser reformulada, tratada, moldada.
Porque as palavras estão por toda parte,
Até mesmo na mudez e no silêncio as palavras nos tomam,
Palavras não ditas, palavras esquecidas, palavras por dizer.
Porque as palavras estão por toda parte,

Há palavras em desalinho, palavras pedindo para serem formuladas, palavras a inventar,
palavras presas na garganta.

 

 

Em diversas de suas obras, Dardot lida com a palavra em uma zona que a desloca do senso comum da mera significação – como se as palavras naturalmente contivessem em si significados intrínsecos e apenas fossem referentes das coisas do mundo – para fazer delas mesmas matérias e/ou objetos que, via manipulação (seja da artista ou dos público-participante que acaba se tornando co-autor do trabalho), ganham arranjos, composições e articulações muito singulares, produzindo um limiar palavra-objeto. Ou seja, o ato de dizer que as palavras estão por toda parte, como na obra Porque as palavras estão por toda parte (2008), já é também a materialização de alguma coisa que ocupa o espaço, que se presentifica na sala de exposições, que excede o lugar de som imaterial ou significado transcendental para, de fato, estar por toda parte (as letras de concreto que compõem a instalação, se desse modo unidas, formam a frase que dá título à obra).

 

As coisas estão no mundo, 2013

As coisas estão no mundo, 2013

 

Como ocupamos os espaços com palavras? Que palavras ocupam nosso corpo, nossa casa, as salas de aula, as escolas, as ruas, nossa vida? Como nos constituímos em meio a essas palavras? De que palavras desviamos, quais são presenças fixas, duras em nossa existência, quais se diluem, afundam, desaparecem?

 

Do mesmo modo, na obra As coisas estão no mundo (2013) Dardot esculpe a frase que dá título à obra em uma tonelada e meia de restos de papel utilizado para testes de impressão offset em casas de impressão. Novamente, a palavra – sustentada na própria ‘coisa’ (agora não mais o concreto, mas o papel), ocupa um espaço. Não é apenas onda sonora que se dilui no ar, mas ‘coisa no mundo’. É mundo, por sua vez. A palavra não é apenas referente de uma imagem, ou tenta a significar, mas é a própria imagem. Palavra-imagem-objeto.

Outras posturas de leitura dessas palavras, portanto, são requeridas pelas obras de Dardot. Certamente não é como nos prostramos a ler um texto que conseguimos acomodar em nossas mãos, ou em nosso colo, tampouco um texto que é estampa bidimensional sobre um suporte de leitura (texto, livro, revista, catálogo…). O corpo é convocado a ler e experienciar os textos de Dardot. Não há outro jeito senão passear por entre as letras, fazer entre elas conexões diversas, ler aos poucos, frequentar suas entrelinhas, seus entretempos e entre espaços. Gaguejar, suspirar, cair em si, retornar, balbuciar alguma coisa que complementa a leitura/escrita, fazer o texto seguir seu rumo de ‘coisa no mundo’, de tomar conta de ‘toda parte’.

As conexões possíveis com a literatura em sua obra, portanto, são evidentes. Como na imagem abaixo, em que “Para aprender da pedra, frequentá-la” é um excerto do poema de João Cabral de Melo Neto, homônimo da obra de Marilá Dardot, “A educação pela pedra”. A partir dessa obra, sugerimos um passeio pelos trabalhos da artista Cinthia Marcelle, já tratada aqui no site.

Cinthia também tem um trabalho de 2016 chamada “Educação pela pedra”. Que inter-relações podemos tecer ao colocarmos em paralelo essas duas obras? O que seria frequentar uma pedra para poder aprender dela, ou sobre ela? Que outras frequentações poderíamos fazer para delas aprender algo? Certamente esses dois trabalhos podem nos dizer muitas coisas sobre aprender/ensinar, sobre educação, sobre docência… O aprendizado via frequentação de um território específico – no caso a literatura – é um exemplo que, por meio de seus trabalhos, Dardot nos apresenta.

 

A educação pela pedra, 2012

A educação pela pedra, 2012

 

“Eu não estudei literatura, é uma relação de leitora, mesmo quando eu uso obra de filosofia. Mas eu acho que são sempre usos atrevidos sem nenhuma pretensão acadêmica. O trabalho reflete mais as minhas sensações enquanto leitora.” Marilá Dardot para São Paulo Review

 

Ao falarmos de palavras – palavras que são mundos, que produzem continuamente existências possíveis -, somos levados a questionar a importância daquilo que lemos e proferimos em nosso dia-a-dia, ao que damos atenção e o que ignoramos, o que repetimos e legitimamos.

Que valor damos ao que lemos e dizemos? Que palavras deixamos passar? Sobre o que silenciamos? O que as palavras não ditas ou ditas e ignoradas revelam sobre uma sociedade?

Em seu trabalho diário (2015), obra criada durante residência artística na Casa Wabi, em Oaxaca, no México, Dardot se volta para as palavras dos noticiários, aos eventos sobre os quais lemos todos os dias e depois esquecemos. A artista escreve com água em um muro de concreto manchetes sobre tragédias que encontra nos jornais, que logo após escritas, são absorvidas e se apagam instantaneamente. A ação foi repetida e gravada entre os dias 8 e 31 de janeiro de 2015, com notícias que Marilá ia lendo nos jornais mexicanos. A performance faz alusão aos incontáveis acontecimentos do cotidiano que são rapidamente apagados da memória coletiva com a chegada de um próximo evento.

 

Diário, 2015

Diário, 2015

“Pensei em como os discursos da imprensa e as reações das pessoas são diferentes dependendo de onde ou a quem uma tragédia, um assassinato, um escândalo aconteça. E como, não importa o quanto as reações pareçam fortes no início, logo que a notícia torna-se fria e desaparece dos media as esquecemos. Então decidi fazer os vídeos, todos os dias escolhia uma manchete de um jornal mexicano e a escrevia com água naquele muro de concreto que as absorvia. Os media manipulam a atenção e dão à vida um valor diferente segundo o lugar geográfico.” Marilá Dardot em entrevista para a revista Contemporânea

Diário, 2015

Diário, 2015

 

Com esses vídeos, a artista aponta para o caráter efêmero das palavras e as variações de impacto aos relatos de tragédias dependendo do local geográfico de onde provêm. Por que algumas notícias nos comovem mais do que outras? Como as palavras que nos chegam – e o modo como chegam – influenciam a nossa postura diante dos acontecimentos? Que mundo criamos quando naturalizamos os horrores que algumas palavras carregam e esquecemos tão facilmente o seu conteúdo?

Os vídeos podem ser vistos através dos links: 
https://vimeo.com/146152548
https://vimeo.com/147713361

As palavras estão no mundo, as palavras são mundo, as palavras produzem mundo. Quais são as palavras e os mundos que plantamos, cultivamos e colhemos no campo da educação? Como criar novos arranjos e composições com as palavras que permeiam as salas de aula? Como habitá-las, traçar novas rotas em seu interior, virá-las do avesso e inventar outras posturas de leitura/escrita?

Ideias para fazer em sala de aula (em uma aula de artes, ou não)

Escrever/desenhar com água no pátio da escola

– Criar atividades com o noticiário da semana, dar outras formas de visibilidade
para ele
– Produzir instalações com restos de papel da escola (você pode juntar os restos de
papel por um período de tempo e depois criar alguma coisa com as turmas)
– Criar modos de ocupação do espaço com palavras
– Pensar em formatos diferentes para canteiros e hortas na escola
– Criar livros com materiais diversos
– Flores, sementes, pedras, espelhos, muro, concreto, água, papel, letras são
excelentes materiais de criação

 

Texto e pesquisa: Cristian Mossi e Carolina Goulart Kneipp.

Edição e revisão: Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

 

Para saber mais:

https://mariladardot.com/

http://inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/a-origem-da-obra-de-arte/

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa27116/marila-dardot

https://galeriavermelho.com.br/pt/artista/69/maril%C3%A1-dardot/curriculo

http://saopauloreview.com.br/marila-dardot-uma-artista-entre-os-livros/

 

 

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