A DELICADEZA SELVAGEM E VISCERAL DE ANA TERESA BARBOZA


  Grafito y bordado en tela. 131 x 186 cm                                           2011

Grafito y bordado en tela. 131 x 186 cm
2011

Entre a aparente delicadeza de linhas traçadas a lápis ou bordadas com fios, a artista peruana Ana Tereza Barbosa dá vida a intensos corpos animais, humanos e não humanos, que compõem a série Animales Familiares (2011-2012). Corpos que transbordam pulsões e afetos, e que movimentam sutis tensões e provocações estéticas e éticas.

Na série, a artista traça linhas cinzas de onde surgem corpos de animais humanos que estabelecem relações – nem
dóceis, nem ferozes, nem tranquilas, nem tensas – de contato e contágio com corpos de animais não humanos que brotam de fios coloridos costurados no tecido.

 

 

Nessa delicada tensão entre linhas gráficas e linhas bordadas, a artista mobiliza supostas dicotomias, tais como, a humanidade e a animalidade, a arte e o artesanato, o desconhecido e o familiar, o homem e a mulher, o eu e o outro, e nos convida a mergulhar nesse emaranhado de linhas e fios para quem sabe criarmos outras relações entre estes conceitos.

 

Bordado en tela. 165 x 125 cm  2011

Bordado en tela. 165 x 125 cm
2011

Os personagens de Ana não são santos nem demônios, nem maus nem bons, são seres que vivem, amam, atacam, mordem e beijam. Seres que se entregam aos seus impulsos, afetos e desejos, sempre em relação com um outro.

Relações as quais não se encaixam em fáceis definições, pois criam um outro espaço de contato entre bicho e gente, diferente das quais nós animais humanos educados e domesticados dentro de uma certa pedagogia humanista estamos acostumados.

Um espaço em que está em jogo outras sensibilidades e racionalidades. Seus personagens embaralham em nós as supostas fronteiras entre o que é próprio do animal e do humano, do eu e dos outros, nos colocando num estado de suspensão e incerteza.

Grafito y bordado en tela. 130 x 102 cm  2011

Grafito y bordado en tela. 130 x 102 cm
2011

Grafito y bordado en tela. 130 x 102 cm  2011

Grafito y bordado en tela. 130 x 102 cm
2011

Ceder ocasiona menos sufrimiento que resistir bordado en tela. 105 x 95 cm 2012

Ceder ocasiona menos sufrimiento que resistir
bordado en tela. 105 x 95 cm
2012

A artista e poeta, também peruana, Tilsa Otta (2011) escreveu um intenso poema para o texto de abertura da série Animales Familiares (2011-2012) no blog de Ana. O poema nos prepara para a delicadeza visceral das obras da série. Nele,Tilsa nos fala que, se quisermos, podemos ser puros, mas que para ela pureza é ser selvagem. E continua dizendo que “Se errar é humano, o lado selvagem é a nossa pele mais perfeita. Quando amamos, somos humanos e mordemos. Quando amamos, perdemos o controle e nos lambemos.  Quando os animais atacam” (Otta, Tilsa, 2011)

 Si quieres puede ser puro

 Pero para mí puro es salvaje

 Como el primer día del sol

 

 Ana cose para descocerse, compone para descomponerse a colores.

Antes hizo latente la condición material del vestido, deshilándolo, deshilachándolo, y continuó con su piel y órganos internos.

Una buena/nueva temporada de cosecha, de excavaciones, deja al descubierto otra capa de pintura: bajo la civilización y las buenas maneras subyace la profundidad animal de la tierra. Tal como suena.

(Hoy la naturaleza es representada con una frivolidad que espanta. Es un decorado, styling, un look, un recurso estético sin mayor discurso o significado. Como si fuera una fantasía.

A inicios del siglo veinte, los futuristas hablaban de las máquinas sin aliento, con el arrobamiento del tesoro descubierto; en nuestros tiempos, la representación reiterada del reino animal evidencia un universo antiguo y sublimado, un sueño recurrente?)

En las escenas de Ana la fauna encarna, la piel no es animal print. Nos recuerda que somos nosotros, bajo esta construcción residencial y funcional. Cuando aceleras el auto y tocas el claxon, cuando sales de cacería, cuando saciar el hambre o el sueño es lo único, cuando no piensas en nada, y miras al vacío…

y estamos iluminados, cuando nos chupamos los dedos, unos a otros, protegemos con la vida a nuestros hermanos, cuando volamos, amaestramos y depredamos; cuando somos vitales y sencillos, invasión bordada, peluda, de piel desbordada. Si errar es humano, el lado salvaje es nuestra piel más perfecta. Cuando amamos, somos humanos y nos mordemos. Cuando amamos, perdemos el control y nos lambemos.

Cuando los animales atacan.

                                                                                                                                                                               Tilsa Otta

8 de septiembre de 2011

Os humanos de Ana carregam em si uma animalidade latente, retratados sem julgamentos morais no poema e nas obras. Seus personagens não são bestiais, nem irracionais, vivem sob outras éticas e racionalidades, num espaço estético em que a animalidade não é afastada da vida humana, abrindo espaço para “uma vida animal sem forma precisa, contagiosa, que já não se deixa submeter às prescrições da metáfora e em geral da linguagem figurativa, mas começa a funcionar num contínuo orgânico, afetivo, material e político com o humano” (GIORGI, 2016, p. 8).

Bordado en tela. 190 x 140 cm  2011

Bordado en tela. 190 x 140 cm
2011

Ao colocar humanos e animais em contágio e relação, a artista multiplica seus sentidos e nos mobiliza a repensar
velhos e enraizados modelos humanistas antropocêntricos, em que o animal não é dotado de singularidade, muito menos de subjetividade e que prega que nós humanos não somos animais também. Um modelo que ainda hoje permeia a escola e a academia, e nos afasta de outras relações com nossa animalidade, e as alteridades animais e humanas “mais animalizadas”, que por suas características subjetivas, físicas ou biológicas não se enquadram nos espectros do homem humanista, racional, cartesiano, soberano, científico.

Essas alteridades humanas supostamente “mais animalizadas”, permeiam a vida da escola e sofrem inúmeros preconceitos por não se enquadrarem nos padrões de certa pedagogia humanista, por escaparem a norma, ao tempo, as rotinas e as domesticações escolares.

A série Animales Familiares (2011-2012) nos mobiliza a sentir outras vidas distantes de nós, vidas que não podem ser capturadas e que nos provocam de diferentes modos e sob outras racionalidades, linguagens e sensibilidades. Vidas que nos convocam “a ir junto delas nessa subversão dos limites e das normas, nos convocam a nos despirmos de certas convenções e normatizações, a nos comunicarmos e estar juntos com o desconhecido, com a diferença, mas é necessário para isso suspender-se, ‘desobedecer a linguagem’, estar disposto a não saber, sair de si mesmo, se expor, “sentir em carne viva o passar dos desconhecidos” (SKLIAR, 2014, p. 150)” (MORAIS, 2018. p. 109). Mas, para tanto parece ser necessário disposição, suspensão e um outro tempo na escola.

[…] Se tivéssemos tempo para dar-nos tempo, se em vez de julgar
apreciássemos, escutássemos, fizéssemos coisas em comum, não haveria
nenhuma necessidade de nomear os outros como diferentes. […] (SKLIAR,
2014, p. 158).

Será que o contato com as provocações ético-estéticas da série Animales Familiares (2011-2012) na sala de aula pode movimentar irrupções nos modos como nós educadores os e os alunos se relacionam com estas outras alteridades e os tantos outros da vida na escola?

Será que a relação que os humanos da obra estabelecem com sua animalidade e com os animais pode nos movimentar a pensar outras formas de formação humana que não parta sempre do racional e que aceite a diferença do outro e não tente assimilá-la?

E será que nós educadores estamos preparados para borrar a linha imaginária que nos separa de alteridades radicais?

Nossa formação nos prepara para transpor barreiras e experimentar estar junto, sentir a si mesmo e os outros?

Estamos preparados para subverter e resistir com arte, estética e poética as “novas-velhas” normatizações de humano que estão re-surgindo nos campos político e educativo?

REFERÊNCIAS

http://anateresabarboza.blogspot.com/
https://www.instagram.com/anateresa.barbozagubo/?hl=pt-br
GIORGI, Gabriel. Formas comuns –animalidade, literatura, biopolítica. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.
MORAIS, Tathiana Jaeger de. Uma criação poética da animalidade: artes visuais, literatura e outras relações de alteridade na educação. Dissertação de Mestrado em Educação – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Porto Alegre, 2018. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/184698/001080033.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 17 jan. 2018.
SKLIAR, Carlos. Desobedecer a linguagem: educar. Belo Horizonte: Autêntica, 2014

 

Texto e pesquisa: Tathiana Jaeger de Morais

Edição e revisão: Maria Céu Pacheco Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

 

 

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