COMO COMEÇAR UMA AULA?


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Hicham Benohoud: Foto da série La salle de classe (2000-2002)

Para começar é preciso dar um salto…

O começo é mais difícil…

Começar é fácil…

Começar?

Os anos começam e terminam assim como os nossos calendários nas escolas e universidades. São planejamentos de um lado, datas, projetos, ações, mais datas, mais projetos, mais encontros de planejamento, ideias, sempre muitas ideias, também tem vontades e desejos, mas, como começar uma aula?  Como organizar o momento inicial que vai permitir o esboço dos contornos, as relações, as fronteiras daquilo que queremos? Essas e outras perguntas se multiplicam nas cabeças de muitas professoras e professores e são elas e eles que ajudam a pensar esse instante.

O começo de uma aula é o que vai dizer como a sequência dela será. Mas nem sempre isso é verdade, às vezes ela começa de um jeito e se desenrola por caminhos muitos diferentes, depende se você está atenta a isso. Então, eu começaria uma aula estando atenta aos alunos. Provavelmente ter pelo menos lápis, papel, quadro e giz já baste para começar qualquer aula. Pensando melhor, no final de contas o que menos importará serão os materiais, a escuta é essencial. Então, eu começaria uma aula estando disponível ao encontro, se não, a aula não sairá do começo e não seguirá o fluxo que desenrola para o meio e o fim – mesmo que o fim não seja exatamente um ponto mas uma ponte.”

Lu Rabello (Artista e Educadora: Porto Alegre/RS)

 

“Eu começo depois de já ter escarafunchado muito as minhas ideias. Penso na disciplina, penso na turma, penso no conteúdo, penso no objetivo daquele dia, e vou experimentando ideias. Separo material, me injeto questionamentos: começo com uma intervenção mais desassossegado ou começo do começo, apresentando os objetivos, bem comportado? Começo sondando as expectativas do grupo ou começo despejando sobre eles as minhas expectativas? Aposto na surpresa ou invisto no que é mais previsível? Enfim: nunca é uma resposta simples. O que é bacana é que nesse exercício de possibilidades acabo colecionando alternativas e, municiado com um bom arsenal de artefatos (um texto, uns slides, um vídeo, uma música, um dilema, um jogo et cetera), adentro a sala e vou, mergulho, me atiro. Quando começo, já não sei mais como comecei. A infiltração das almas acontece e a aula deslancha, em um movimento complexo, multidirecional de seduções, conquistas, desafios, golpes, resistências, falações, contrapontos. E, quando eu vejo, terminou o tempo.”

Marcos Villela Pereira (Professor da Escola de Humanidade da PUC RS: Porto Alegre/RS)

 

“Pra mim é um desafio, a cabeça vira um tornado  um turbilhão de coisas, ideias, imaginação…Mas, aí vem aquela coisa que me engole, “o tempo”…O que fazer com uma aula por semana em cada turma? Ai começo a focar em alguns pontos que pra mim são importantes. Primeiro, me coloco no lugar do aluno: como  aquele assunto, vai chegar na cabeça deles? Como vou chegar até eles sem passar por cima, como um trator, sem ser excludente ou tendenciosa? Tento me aproximar da linguagem, dos gostos e das preferências . Faço também uma pesquisa com meus próprios filhos adolescentes, é como se tivesse um laboratório em casa.E aí preparo  a aula de acordo com o material que a escola utiliza ,mas, claro que as minhas conexões vão muito além…..Relaciono conteúdo com filmes, histórias, histórias de vida das pessoas da comunidade, imagens, propagandas, livros e assim vai. Muitas vezes me decepciono por não conseguir mostrar e falar tudo….Outras porque os alunos não se interessaram ou porque não consegui encantá-los…. Ou me encanto, quando o assunto flui mais do que o previsto e a gente faz muitas conexões e escalas… Enfim, decolamos, paramos, fizemos escalas e conexões….Rumo ao conhecimento.”

Morgane Gasparetto (Professora de Arte da Rede Privada : Xanxerê/SC)

 

“Antes de entrar no conteúdo que for, antes disso, acredito que falar sobre os nossos cotidianos (o meu e o dos meus estudantes), sempre fez e fará parte de todos os inícios de minhas aulas. Impossível ser indiferente ao que vivemos no dia-a-dia. Sim, aquelas pessoas que te acompanharão em vários encontros, por meses, tem sede de novos saberes, mas também querem atenção, afeto; então conversar sobre as nossas experiências cotidianas sempre será o primeiro momento de uma aula. E, ao passar a falar sobre qualquer conteúdo, em qualquer lugar é preciso, antes, fazer essa conexão, saber das pessoas, de suas experiências, porque se eu não souber nada sobre esses sujeitos com os quais conviverei, penso que não conseguirei que eles se interessem por qualquer conteúdo que eu pretenda trabalhar.”

Celso Vitelli (Professor do Instituto de Artes da UFRGS: Porto Alegre/RS)

 

“Segundo Elliot Eisner (2003), o caminho seguro para o fracasso é confiar excessivamente no planejamento e para isso devemos propor em nossas aulas a “busca pela surpresa “. Mas, como será a primeira aula? Não há apresentação do assunto, desta forma os alunos no primeiro dia de aula são convocados a ir até um centro de arte. Ao chegar lá, é solicitado a eles, olhar e tomar notas do que mais os surpreende. Então construímos o conhecimento conjunto a partir do que observamos, vivemos e experimentamos. O que é esperado no primeiro dia de aula na universidade ?O que os professores costumam fazer no primeiro dia de aula com a turma? O mais comum seria apresentar o programa que inclui objetivos, metodologia, competências, conteúdos, critérios de avaliação, bibliografia … E que acabam por retroalimentar muitos dos modelos que já estão impregnados. Se queremos aprender a imaginar e desenvolver outros modelos possíveis, devemos ousar realizá-los e mostrá-los. Para os alunos, isso gera confusão e uma desorientação: “O que estamos fazendo aqui? O que isso tem a ver com o assunto?” É o que algumas pessoas dizem … Mas, é o que todos eles sentem e vivem. A voz de nossos alunos demonstra a confusão inicial, colocando-a ao mesmo tempo como um aspecto-chave para ampliar os olhares e possibilidades para outras formas de ensinar e aprender. Comece dessa maneira e avise-os de que algo diferente acontecerá ao longo das aulas. Certa vez, Lara, uma aluna, do curso de Educação Primária na Universitat de Lleida, disse: “La Panera? O que é isto de La Panera? Um museu? Afff, por que eu tenho que ir a um museu se eu quiser ser uma professora? … Eu não sabia o motivo dessa visita, mas quando vi a exposição, a porta da imaginação se abriu para mim … “

Glória Jové (Professora da Faculdade de Educação, Psicologia e Trabalho Social da Universitat de Lleida: Lleida/Espanha)

 

“Olho bem para o programa daquela turma e leio várias vezes os assuntos das aulas que o compõe. E assim vou deixando que ideias, referências, poéticas, práticas pedagógicas passeiem pela minha mente. Meu atelier mental é acionado, cruzando conceitos e práticas. Então começo uma construção intelectual e intuitiva sobre o planejamento daquela aula e consequentemente, visualizo uma provável sequência didática. Se ainda for necessário, recorro a internet e meus livros para novas buscas e atualizações de informações. Para quem conta com apenas uma aula por semana, restringir um assunto a meros 50 minutos é quase impossível. Dessa forma já tenho em mente que é preciso uma sequência que garanta minimamente um contato com a arte, que gere sentido nos estudantes.”

Andréa Senra Coutinho (Professora de Arte do Colégio de Aplicação João XXIII da Universidade Federal de Juiz de Fora: Juiz de Fora/MG)

 

O desafio de fazer uma aula interessante é o que me move ANTES de entrar em cena. Tento me colocar no lugar das pessoas que irão interagir comigo, então busco referências diversas para preparação do material que irei trabalhar. Com isso, vou me alimentando, ampliando meus repertórios e navegando nas possibilidades de como desenvolverei minhas propostas, preciso ter repertórios variados para ter “elasticidade” para lidar com as referências dxs outrxs. A aula em si – eu e o grupo – dependendo da situação, começa com a modificação do espaço e em como vou apresentar os materiais. Se é  uma aula-atelier, disponibilizo os materiais, livros, filmes, em mesas como se fosse um banquete (talvez por influência da Lucimar Bello), esta “montagem” serve como convite pois quero uma aproximação curiosa dxs participantes. Observo como as pessoas interagem, ou não, e daí começo a conversa. Também modifico a configuração da sala, às vezes retiro todas as cadeiras, faço arranjos não convencionais. Se é uma aula expositiva, também faço modificações no espaço, preparo imagens “mobilizadoras” e deixo elas projetadas e é a partir das reações com as imagens que inicio o trabalho. Deste modo, nunca sei exatamente como será desenrolada a aula naquele roteiro pré-configurado, mas é justamente isso que me move: ter uma intenção pedagógica inicial e me mover conforme os acontecimentos.

Susana Rangel (Professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diretora e professora do Amarelo Van Gogh: Educação e Arte)

 

Para o início de uma aula de Arte creio que o mais interessante é despertar logo a curiosidade dos alunos na entrada da sala.  Quando se fala dos alunos menores, a curiosidade deles é aguçada quando levamos uma caixa colorida para a sala. Antes de adentrar no ambiente, os questionamentos já iniciam, o legal é levantar um suspense ao perguntar sobre o que eles acham que pode ter na caixa. Então, podemos ir retirando o que tem na caixa(objetos para explicar tridimensionalidade e bidimensionalidade)  e ir questionando sobre o que é, brincando com os objetos e nomeando. Paralelamente a isso, vou estabelecendo relações entre os objetos da sala, formas geométricas e sólidos geométricos. Posteriormente abordo algumas produções de arte em diferentes composições e sigo estabelecendo as relações…”

Evyli Vanin (Professora de arte da Rede Pública de Ensino do Paraná: Realeza/PR)

 

E você, como começa a sua aula? Envie sua resposta e aumente essa conversa sobre os instantes em que começamos a esboçar o início de uma aula, o primeiro encontro, a ação primeira para por-se em disponibilidade para uma possível relação de aprendizagens.


Por

Daniel Bruno Momoli

(danielmomoli@hotmail.com)

Doutorando e Mestre em Educação sob orientação da Profa. Dra. Luciana Gruppelli Loponte na linha de pesquisa Arte, Linguagem e Currículo no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É membro do Arteversa – Grupo de estudo e pesquisa em arte e docência.


As Professoras e Professores que constroem a polifonia desse texto receberam um e-mail com uma situação disparadora e aceitaram a participar dessa proposta de compartilhar seus modos de pensar o começo de uma aula. A elas e eles o nosso agradecimento pela participação nesta atividade.


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