TUCUMÁN ARDE! : arte e política na América Latina


A “campanha publicitária” nas ruas de Rosário, 1968.

A “campanha publicitária” nas ruas de Rosário, 1968.

 

Ao buscar na internet algo sobre arte contemporânea, o que vem em primeiro plano são manifestações europeias e norte-americanas. Tais narrativas, frequentemente tornadas hegemônicas, são apenas uma das leituras possíveis para a história da arte recente. Na América Latina, como definição geográfica, cultural e política que responde mais diretamente ao que vivemos, também existem proposições poéticas que expandem as noções de artista e obra, nas quais a criação se mistura à vida social. Um importante exemplo disso é o projeto Tucumán Arde, que ocorreu em 1968 em Rosário, a maior cidade da província de Santa Fé, na Argentina. Sua existência está relacionada à reunião de artistas de Buenos Aires ao Grupo de Arte de Vanguarda de Rosário e ao Ciclo de Arte Experimental (CAE).

Fotografía de Carlos Militello

Fotografía de Carlos Militello

Para compreender o contexto social e artístico daquela época na Argentina, é importante iniciar sabendo que o Grupo de Arte de Vanguarda de Rosário se dedicava à experimentação artística que realizasse uma reflexão sobre os fundamentos da arte.

Trabalhos como “A propósito da cultura marmelada” (1966), “Sobre como se pretende novamente dar oxigênio a uma pintura que morreu faz tempo” (1967) e “Sempre é tempo de não ser cúmplices”, exemplificam os questionamentos do grupo sobre a cultura oficial, considerada enjoativa e inconsistente, e a defesa de uma arte que fosse capaz de apontar novas possibilidades de conhecimento.

Impulsionados por uma vontade de revolucionar a arte e a sociedade, o Grupo de Arte de Vanguarda posicionou-se em relação ao espectro político de seu tempo, atuando não convencionalmente nos espaços da arte e desenvolvendo ações transgressoras, em alguns casos, de grande risco e ousadia.

“A propósito da cultura marmelada” (1966)

“A propósito da cultura marmelada” (1966)

“Sobre como se pretende novamente dar oxigênio a uma pintura que morreu faz tempo” (1967)

“Sobre como se pretende
novamente dar oxigênio a uma pintura que morreu faz tempo” (1967)

O contexto social, político e cultural é fundamental para compreender o Tucumán Arde, pois 1968 foi um ano emblemático, uma época de contestação e de eventos importantes como os assassinatos de líderes como Martin Luther King, de Robert F. Kennedy e do estudante secundarista brasileiro Edson Luís de Lima, além de acontecimentos como a Guerra do Vietnã, a Primavera de Praga, na República Tcheca, as Revoltas de maio de 1968, na França, e a Passeata dos Cem Mil, no Brasil. Na Europa, nos Estados Unidos e em várias partes do mundo, ocorreram diversas manifestações estudantis contra a guerra e contra o autoritarismo, uma vez que, naquele período, muitos países foram submetidos a ditaduras militares. Aquela geração de jovens lutava por ideais em torno de causas sociais, políticas e comportamentais.

Na América Latina, sob o pretexto de evitar ditaduras comunistas, os Estados Unidos apoiaram vários golpes militares, derrubando presidentes eleitos democraticamente. Estiveram sob regimes ditatoriais: Guatemala (1954), Paraguai (1954-1989), Argentina (1966-1983), Brasil (1964-1985), Peru (1968-1975), Uruguai (1973-1985), Chile (1973-1990), República Dominicana (1887-1899), Nicarágua (1936-1979) e Bolívia (1964-1982).

No final da década de 1960, a cidade de Tucumán fora acometida de grande crise econômica, o que levou à execução do projeto Operación Tucumán, idealizado pelo governo ditatorial do presidente Juan Carlos Onganía. Visando acelerar o crescimento industrial, o projeto introduziu o capital norte-americano no lugar antes ocupado pela burguesia argentina, levando à extinção de muitas empresas nacionais. Com o fechamento de onze usinas de açúcar, que eram fontes vitais para a economia da província, veio o desemprego e a fome, fazendo com que uma pobreza extrema assolasse a região de Tucumán. A população passou a manifestar-se massivamente, em grande mobilização social, para não ser condenada ao abandono.

https://malba.org.ar/evento/sub20-taller-y-encuentro-con-alexander-apostol/

https://malba.org.ar/evento/sub20-taller-y-encuentro-con-alexander-apostol/

Homenaje al arte político de Tucumán Arde en el Malba

Homenaje al arte político de Tucumán Arde en el Malba

 

O cenário artístico igualmente enfrentava dificuldades. No mesmo ano de 1968, após a exposição “Experiências 68” ter sido censurada pela polícia, artistas e intelectuais da época reuniram-se em Rosário em um encontro intitulado “Primeiro Encontro Nacional de Arte de Vanguarda”. O objetivo era discutir o papel da arte e da cultura na sociedade e naquele encontro surgiu o projeto Tucumán Arde, uma ação coletiva que teria três fases descritas em uma Declaração Pública e que teve a participação dos artistas: María Elvira de Arechavala, Beatriz Balvé, Graciela Borthwick, Aldo Bortolotti, Graciela Carnevale, Jorge Cohen, Rodolfo Elizalde, Noemí Escandell, Eduardo Favario, León Ferrari, Emilio Ghilioni, Edmundo Giura, María Teresa Gramuglio, Martha Greiner, Roberto Jacoby, José María Lavarello, Sara López Dupuy, Rubén Naranjo, David de Nully Braun, Raúl Pérez Cantón, Oscar Pidustwa, Estella Pomerantz, Norberto Puzzolo, Juan Pablo Renzi, Jaime Rippa, Nicolás Rosa, Carlos Schork, Nora de Schork, Domingo J. A. Sapia, Roberto Zara (GRAMUGLIO; ROSAS, 1968).

Fonte

Fonte <https://proyectoidis.org/tucuman-arde/>

O evento Tucumán Arde – ou a obra coletiva, como também é descrito -, ocorreu na sede da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e não dentro de um espaço institucional do circuito artístico. Diferente de uma exposição ou uma obra de arte, que ganham sentido enquanto arte por estarem isoladas do mundo comum em uma galeria ou museu, Tucumán Arde fundiu o artístico ao político em um mesmo programa, adotando menos o plano estético da cultura artística vigente e mais a capacidade de comunicação da arte.

Isso não deve levar a crer que não houvesse estética ou que a estética tenha sido negligenciada. Ao contrário disso, Tucumán Arde adotou uma tal estética que se comunicava com as pessoas comuns, não apenas com as participantes do circuito cultural, simultaneamente fazendo fortes questionamentos aos meios oficiais de comunicação, ao regime da arte, à política nacional.

A “Declaração da Mostra Tucumán Arde na CGT de Rosário” descreve como “uma criação estética como uma ação coletiva e violenta, destruindo o mito burguês da individualidade do artista e do caráter passivo tradicionalmente atribuído à arte” (GRAMUGLIO; ROSA, 1968, Doc. Eletrônico). Demonstra-se aí o modo como uniram arte e política, uma “ação positiva e real” em um contexto de violentas exploração, pobreza e repressão.

Fonte: http://argentina-es-argentina.blogspot.com/2012/10/decada-de-60-en-argentina.html

Fonte: http://argentina-es-argentina.blogspot.com/2012/10/decada-de-60-en-argentina.html

Era preciso um novo método artístico, o que o coletivo denominou como um sistema de contrainformação: os artistas foram direto ao foco do problema e produziram uma crítica aos usos da linguagem através do emprego dos próprios elementos da linguagem. De nossa parte, enquanto autoras deste texto, entendemos que atuaram política e artisticamente com e nos meandros da política e da arte, o que se exemplifica no modo como definiram o nome da proposição. A artista Margarita Paksa explica que o nome “Tucumán” era imprescindível, então pensaram em como usar a palavra: Tucumán grita, Tucumán fala, revela-se… Tucumán Arde! (TUCUMÁN ARDE – COLOR NATAL, 2011, Doc. Eletrônico [13’]).

Os artistas apropriaram-se de estratégias de comunicação tanto da militância política, quanto dos meios de comunicação oficial e publicitária, estes que justamente conduziam a informação pública. Pichações, adesivos e cartazes foram feitos e aplicados nas ruas, anunciando o evento artístico de múltiplas e alternativas maneiras.

Revista Usina (https://revistausina.com/artes-visuais/tucuman-arde-arte-argentina-na-ditadura/)

Revista Usina (https://revistausina.com/artes-visuais/tucuman-arde-arte-argentina-na-ditadura/)

 

Tucumán Arde (Tucumán Is Burning). 1968. Signs denouncing Tucumán's critical situation. Courtesy Graciela Carnevale (https://post.at.moma.org/sources/8/publications/143)

Tucumán Arde (Tucumán Is Burning). 1968. Signs denouncing Tucumán’s critical situation. Courtesy Graciela Carnevale (https://post.at.moma.org/sources/8/publications/143)

Em panfletos, anunciavam uma “Bienal de Vanguarda”, fazendo uma referência às bienais realizadas por instituições reconhecidas do campo das artes visuais. O grupo de artistas concedeu entrevistas coletivas, chamando todas as atenções para o que seria uma exposição artística não convencional, ao mesmo tempo em que entrevistaram famílias e desempregados, fotografaram e fizeram filmes pela cidade, formando o material de base da exposição com a ajuda de grupos estudantis e de trabalhadores. Assim, os materiais coletados nessa parte da obra faziam um contraponto entre a realidade da província e a comunicação oficial da época.

Cartazes anunciando a 1° Bienal de Arte de Vanguarda, 1968.

Cartazes anunciando a 1° Bienal de Arte de Vanguarda, 1968.

 

Cartaz da “Primeira Bienal de Arte de Vanguarda”, 1968.

Cartaz da “Primeira Bienal de Arte de Vanguarda”, 1968.

Em 3 de novembro de 1968, ocorreu a abertura da mostra, que teve

o chão da entrada forrado de papel com os nomes dos donos dos engenhos e das autoridades, de maneira que os visitantes deveriam pisá-los para entrar e nas paredes, do chão ao teto, havia os [mesmos] cartazes da campanha de rua e recortes de jornais que falavam sobre a situação no estado, cartas dos camponeses, cartazes com diversas denúncias e slogans, assim como fotos que davam o testemunho da miséria ocultada. Eram projetados documentários cursos elaborados com o material que os artistas haviam recolhido em suas visitas e eram transmitidos por alto-falantes entrevistas com dirigentes sindicais e trabalhadores da cana-de-açúcar. Em intervalos de tempo apagava-se a luz para simbolizar a morte por fome de uma criança tucumana e se oferecia café amargo para aludir ao fechamento dos engenhos. (GARIN, 2018, Doc. Eletrônico).

Vista da exposição Tucumán Arde, 1968.

Vista da exposição Tucumán Arde, 1968.

Visitantes na exposição tomando café amargo, 1968.

Visitantes na exposição tomando café amargo, 1968.

Imagem extraída de Revista Usina

Imagem extraída de Revista Usina

 

Milhares de pessoas visitaram a exposição não apenas para ver, mas para participar e discutir aqueles temas. E o foco das notícias, geralmente não direcionado para o interior do país, permaneceu sobre o noroeste argentino. Embora o projeto previsse a montagem da exposição também em Buenos Aires, Córdoba e Santa Fé, isso não ocorreu porque a mostra foi reprimida pelo governo. Como decorrência daquele trabalho artístico naquela situação política, o projeto encerrou-se no dia 9 de novembro, antes de completar seu percurso planejado. Desarticulou-se inclusive uma publicação futura, indicada na Declaração distribuída na forma impressa durante a exposição:

O circuito superinformacional – que tem como intenção básica promover um processo desalienante da imagem da realidade tucumana elaborada pelos meios de comunicação de massa – terá culminância na sua terceira e última etapa ao provocar uma informação de terceiro grau. Esta será coletada e formalizada em uma publicação onde constarão todos os processos de concepção e realização da obra, além de toda a documentação produzida junto com uma avaliação final. (GRAMUGLIO; ROSAS, 1968, Doc. Eletrônico. Grifo nosso).

Fotografía de Carlos Militello

Fotografía de Carlos Militello

Fonte: Revista Usina

Fonte: Revista Usina

Fonte: Revista Usina

Fonte: Revista Usina

Por que trazer Tucumán Arde aos dias de hoje?

Atos governamentais, publicidade e manifestações civis são exemplos de como podem ser expostas decisões, situações, reivindicações. Sendo cada qual uma forma, elas podem ser orientadas para muitas direções que podem complementar-se ou opor- se entre si. Além disso, as formas de expor ideias (e as próprias ideias!) não são blocos únicos e impenetráveis, o que permite que nos seus espaços vazios sempre exista lugar para outros participarem da geração de sentidos sobre decisões, situações, reivindicações.

Tucumán Arde demonstra que é possível dizer novas coisas sobre o que já foi dito por outros e que mesmo o que é definitivo permite indagações. Contudo, não se trata da indagação irresponsável ou do mero confronto que deseja apenas “arrasar” e “lacrar”, como se diz hoje, impondo uma certeza para derrubar outra. Para questionar ou perturbar algo, no caso de Tucumán Arde, foi preciso buscar evidências, fazer os confrontos necessários e agir em coletividade para criar os meios de dizer algo que não estava sendo dito pelos meios tradicionais. A vida, a política e a arte foram observadas e pensadas com atenção e envolvimento.

Mesmo a arte sendo um campo de enormes possibilidades de criação, da mesma forma é orientada por um sistema que visa a sua regulação e que tem, também, pontos fixos e lacunas. O projeto coletivo problematizou o sistema da arte, identificou as suas insuficiências e recriou meios e espaços de atuação indo em direção ao mundo real e vivido, sem intermediários. Isso nos lembra que é a vida que mostra como as coisas acontecem e que as decisões precisam ser responsáveis com a vida e as pessoas que a compõem. A vida arde e a ardência da vida é o que move as ideias.

Trazer Tucumán Arde aos dias de hoje é uma forma de pensar sobre as relações possíveis entre arte, vida, política e sociedade. Vivemos tempos de censura, de intolerância e disseminação de notícias falsas, o que permite fazer algumas aproximações entre o contexto argentino do final dos anos 1960 e os dias de hoje, sobretudo em relação à ascensão da extrema direita no mundo e aos impactos sociais e políticos da censura e da omissão, da distorção e da invenção de informações nas mais variadas mídias.

Tucumán Arde, Brasil Ferve. Hoje, o Brasil ferve com a violência e perseguição a artistas e professores, com discursos de ódio e com a iminência de retrocessos que prejudicam os direitos coletivos. Pensamos que “arder” e “ferver” são formas de gerar a energia que coloca movimento nas ideias. Se buscarmos manter espaços para o movimento do pensamento, seja na arte, na educação, nos encontros sociais, profissionais ou políticos, poderemos, observar mais e melhor como as coisas acontecem no mundo, identificar o que impede a vida e coletivamente criar meios para a sua garantia.

 

Notas:
¹ O general também interveio nas universidades argentinas, que vieram a atravessar uma profunda crise.
Na universidade de Tucumán, as classes dominantes queriam manter o acesso restrito, enquanto os
filhos dos trabalhadores exigiam seu acesso ao ensino universitário.
²Ver o documentário Huellas de un siglo: Tucumán 1966-1975 (2010).
³Um extenso acervo de imagens e diversos documentos (até entradas de cinema com a impressão da
palavra Tucumán), organizado por Graciela Carnevale, pode ser acessado no site Archivos em Uso.

REFERÊNCIAS:
CAMNITZER, Luis. Didactica de la Liberación: arte conceptualista latinoamericano. Murcia: CENDEAC,
2012.
GARIN, Isabel. Tucumán Arde: política y arte en llamas. Disponível em
http://contrahegemoniaweb.com.ar/tucuman-arde-politica-y-arte-en-llamas/. Acesso em 10 de fev.
2019.
GRAMUGLIO; María Teresa; ROSAS, Nicolás. Declaración de la muestra Tucumán Arde en CGT
Rosario. 1968. Disponível em http://archivosenuso.org/viewer/2347. Acesso em 11 de fev. 2019.

Texto e pesquisa: Mayra Corrêa Marques (Licenciada em Artes Visuais pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e Professora de Artes Visuais na Educação Infantil) e Carmen Lúcia Capra (Professora da Graduação em Artes Visuais: licenciatura da UERGS – Montenegro, RS)

Edição e revisão: Maria Céu Pacheco Rocha e Luciana Gruppelli Loponte (UFRGS)

Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>