MULHERES ARTISTAS NAS AULAS DE ARTE: MULTIPLICAR HORIZONTES ÉTICOS E ESTÉTICOS


Rennó

Rosangela Rennó,Espelho Diário [Fragmento], 2001

http://www.rosangelarenno.com.br/obras/view/26/1

No momento em que estas linhas vão ganhando existência, o desbotado enunciado “menino veste azul e menina veste rosa”, que prima pela dualidade e anseia pela fixidez dos gêneros, torna-se pauta no discurso de certos setores políticos e mote de discussões que o endossam ou o rejeitam. E, certamente, poderia me estender longamente sobre outros enunciados e discursos conservadores aventados no vendaval fundamentalista que nos assola. Diante de tal cenário, questiono-me: o que isso diz à atividade docente do(a) professor(a) de arte? Quando definições reducionistas de gênero ganham o terreno social, urge pensar: que imagens do feminino povoam as aulas de arte? Como estas imagens podem corroborar ou transgredir estereótipos enraizados na cultura?

Tendo em vista tais questões, argumento a favor das dimensões ética, estética e política que residem em inúmeras práticas artísticas de mulheres e da sua importância para o ensino de arte. Isso porque as obras de muitas artistas ensejam constelações de vidas e experiências que podem dissuadir representações hegemônicas do feminino preponderantes nos meios de comunicação de massa e, inclusive, nas versões clássicas da história da arte ocidental; apontam para formas de habitar o gênero e o próprio corpo que escapam das catalogações prévias do pensamento binário; descortinam as verdades sobre o ‘natural’ do feminino e incitam posturas de enfrentamento aos discursos que engessam a nossa própria identidade.

 São incontáveis as obras de artistas, contemporâneas e de outros tempos, as quais colocam essas dimensões em movimento. Contudo, irei me focar em uma: a videoinstalação (2001) e o livro (2008) “Espelho diário” de Rosangela Rennó em parceria com a escritora Alícia Duarte Penna. De todos os movimentos de pensamento que ela pode suscitar, atenho-me a este: o gesto poético e político de multiplicar o campo dos possíveis. A obra, como as de tantas outras artistas mulheres, amplia as possibilidades de pensar e viver o feminino, insurgindo-se contra narrativas que pretendem uma essência estanque. A artista coletou, no período de oito anos, a ocorrência do nome Rosângela em notícias de jornais brasileiros. Somaram-se 133 Rosângelas: uma coleção dos mais distintos e singulares matizes de experiências do feminino, refletindo no espelho a indeterminação do conceito mulher. Todas, e cada uma, são encenadas pela artista no vídeo.

Partir de algo que, à primeira vista, remete à unicidade – seja o nome próprio, seja o conceito mulher artista – para dar abrigo a uma diversidade arrebatadora de existências, pode ser um gesto que nos convida a considerar algumas abordagens para o ensino de arte.

Nesse sentido, uma possibilidade que se anuncia para o(a) professor(a) é a realização de projetos em torno do tema “mulher artista”. Esta rota pode ser o vetor para reverberar a multiplicidade de femininos, desnaturalizando estereótipos existentes no cotidiano escolar e em outras instâncias sociais. É necessário, contudo, ter atenção às narrativas criadas em torno dessas artistas e manter os sentidos afiados ao que pode estar interdito pela própria narrativa que criamos, à revelia de nossas intenções.

Uma postura que não fortaleça um feminino hegemônico e essencializado pode emergir, por exemplo, do questionamento da categoria “mulher” que estamos colocando em jogo em nossas práticas. Nessa direção, talvez possamos nos inspirar na poética de Rosângela, isto é, elaborar continuamente a nossa coleção de experiências em que a diversidade das práticas das artistas nos distintos contextos e épocas seja mobilizada, multiplicando o campo do pensar e do agir. Além disso, estabelecer tramas diversas com marcadores raciais, religiosos, regionais, nacionais, étnicos, de idade e de sexualidade, pode fazer florescer a profusão de subjetividades sob o guarda-chuva da expressão “mulher artista”.

E, para encerrar provisoriamente nosso diálogo, voltemos ao enunciado com o qual abri esta conversa (menina veste rosa e menino azul). Mais uma vez aqui, o gesto colecionista pode nos levar a díspares entendimentos e práticas em torno dele. Sob o crivo da história encontraremos rupturas, épocas em que as sociedades pensaram e agiram de maneiras diferentes sobre essa questão; iremos nos deparar com sociedades em que as relações entre homens e mulheres obedecem a regras, crenças e valores diferentes da nossa. Logo, nada de natural e imutável nessas relações.

Problematizar estereótipos de gênero é tarefa de ordem política fundamental, visto que muitos deles continuam a dar suporte à permanência das desigualdades e das discriminações. As diferentes práticas artísticas das mulheres podem ser uma aliada potente nessa tarefa. Contaminando-nos por suas poéticas, talvez possamos assumir uma postura de questionamento perpétuo das relações de poder que balizam visões de mundo racistas, misóginas e excludentes. Além disso, talvez possamos inscrever em nossos horizontes representações de gênero menos condicionadas aos jogos de poder, num movimento de abertura ao outro e a outros modos de existência que escapam ao pensamento dominante. Afinal, a avalanche de intolerância que invade o tempo presente não seria uma resposta gestada, entre outras coisas, pela frequente negligência às vidas, aos corpos, aos gêneros e às sexualidades que transbordam ao hegemônico?

 

Por Tais Ritter Dias

(tais.ritter@gmail.com)

Professora da Rede Estadual do RS, Mestra em Educação (UFRGS) e membro do Artversa.

 

Referências sugeridas:

Dias, Taís Ritter. Ensino de arte e feminismos: urdiduras entre relações de poder e resistências. 2017. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil. Acesse aqui

Rennó, Rosângela; Penna, Alícia Duarte. Espelho diário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

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